Voz Del Fuego / André Mansur
Data: Sábado, 23 de Junho de 2007 (13:26:12)
Tópico: Rock Press


Muito gringo perdido, andando com as provinciais garrafinhas de água na mão. Era véspera de carnaval e a Lapa carioca fervia de gente. O Circo Voador anunciava shows da Voz Del Fuego & Lingerie Underground com o pessoal da gravadora alemã Gigolo — o chefão DJ Hell, o houseiro Renato Ratier e o fantástico Digitaria, entre outras atrações. Por André Mansur





VOZ DEL FUEGO & LINGERIE UNDERGROUND

Descendo a mão na princesinha

André Mansur


Vou até o camarim. Metade da Lingerie Underground havia chegado, além da funkeira-mor Deize Tigrona, que faria (fez) uma participação no show das meninas. O ambiente no backstage era de aparente tranqüilidade, embora Leandra Lambert, a Voz Del Fuego em pessoa, parecesse um pouco nervosa com a aproximação da hora de subir ao palco.


Leandra é velha conhecida dos palcos cariocas. Na função desde 1992, ela participou dos Inhumanoids, uma das primeiras bandas brasileiras a misturar o punk à música eletrônica — agora, assim de sopetão, só me lembro dos paulistas do Concreteness, do Harry (que nem era tão punk assim) e de ninguém mais.


Na época, muitos roqueiros imbecis criados a iogurte torciam o nariz para os Inhumanoids, pois não havia guitarra, baixo ou bateria acústica na banda. “Mas, também”, contou Leandra, enquanto se maquiava antes do show, “a gente não se enquadrava muito bem em nenhuma das três vertentes de música eletrônica que rolavam por aqui: a EBM, que não tinha senso de humor algum e era território totalmente masculino, misógino até; o techno, que ainda era um gueto e não queria se misturar com o rock; e a dance music mais comercial, cheia de um deslumbramento frívolo que não me interessava”.


Ou seja, terreno propício às inovações. Leandra é de uma época em que as únicas mulheres que tocavam em bandas no circuito independente carioca tinham como referência a cena riot grrrl americana. E olhe lá. A regra era: ou contestava-se a igualdade entre os sexos ou lutava-se pela legalidade do aborto. Mas tudo muito fofo e perfumado. Na tangente, havia Leandra Lambert com os Inhumanoids falando sobre ficção científica e sexo bizarro em banheiros imundos.


Tempos depois, Leandra começou a compor em casa, sem ninguém por perto. Quando se deu conta, tinha várias músicas novas, mas ninguém para acompanhá-la. Decidiu mudar o nome para Voz Del Fuego. Cansada de brincar sozinha, Leandra chamou uma amiga, a guitarrista Flávia Goo, para apresentações ao vivo. Depois outra amiga, Flávia Couri (hoje também do Doidivinas), para tocar baixo. Mais à frente, os brasilienses André Mobi (bateria, ex-Vernon Walters) e Marcelle Morgan (voz).


Pronto, a banda foi batizada de Lingerie Underground. “Mas a direção começou a surgir com as apresentações ao vivo. Músicas impossíveis de dançar, sem vocais e que não admitiam instrumentos de rock foram virando minoria, não sendo finalizadas...”.


Ela faz uma pausa e tenta ligar para Flávia Goo, preocupada com o atraso da guitarrista. Ninguém atende o celular, ou ele acusa estar fora da área de cobertura. Leandra desliga o telefone sem esconder a irritação. Como é sua relação com a Lingerie Underground? Ditatorial? “Eu sempre tento decidir as coisas em conjunto, mas se eles demoram a chegar a um acordo ou existe algum problema prático, eu decido e comunico. Não gosto de fazer isso, tanto pelo lado meio megera que eu me vejo obrigada a encarnar quanto pela responsabilidade acumulada. Só que às vezes é necessário”.


Punhos de ferro sem perder a ternura. Um misto de Rainha Vitória com Margaret Thatcher, pensei na hora. Quando se trabalha sozinho, existe a vantagem de não se fazer concessões. Foi difícil focar em algo no início, já que tudo era possível? “Foco é bom, mas uma imagem difusa e múltipla também pode ser boa”. Pois sim. O bacana é que, ao vivo, você pode esperar várias coisas: uma apresentação da Leandra solo, brincando com a parafernália eletrônica; uma versão “power-trio híbrido”, mais voltada para a pista, mas com os instrumentos de corda; e outro show, este com a Lingerie Underground completo, sem programações eletrônicas, embora sem descartar os synths.


Mas, claro, na mesma noite podem ocorrer as três variantes. Em todos os casos, sempre navegando na seara do electropunk. Tudo muito bem feito, com conhecimento de causa.


O nome Voz Del Fuego surgiu da junção do título da clássica HQ Voice of the Fire, do mago Alan Moore, com o nome da naturalista Luz Del Fuego. “Ela gostava de quebrar tabus”, conta Leandra sobre a libertária que ficou conhecida nos anos 50 por criar a primeira área de nudismo no Brasil, a Ilha do Sol, na Baía de Guanabara. “Hoje em dia, não tem mais graça ficar pelado por aí na frente dos outros”.


Não mesmo? “Bom, graça até pode ter, mas não tem o mesmo significado. Se bem que a nudez de alguém fora dos padrões de magreza pode ser do contra”. Você já foi a uma praia de nudismo? “Não e não sei se eu me sentiria à vontade balançando as carnes pela areia, esturricando sob este sol ingrato e vendo apetrechos sacolejantes toda hora”. Não deixa de ser curioso ouvir essa resposta de alguém que canta os provocantes versos: “Descendo a mão na princesinha / porque ela gosta / porque ela quer”. Sobre o assunto, ela sai em defesa: “Sei que muita gente acha que mulher falar de fêmeas fazendo putaria denigre a imagem feminina. Besteira, essa postura é puritana, culpada e patricinha. Parece coisa de tia velha que fica rubra porque alguém falou ‘cu’ na sala de estar. Dizem que mulher direita não fala de sexo em público... Aham, certamente. Assim como não trepa, não goza e come empada de garfo e faca”.


Em algum momento a persona Voz Del Fuego já afetou sua personalidade? “Felizmente sim. A liberdade de fazer o que eu quiser na música e a catarse no palco foram me tornando um pouco menos explosiva fora dele”, responde, enquanto testa um tapa-olho de pirata. Ela mira o espelho, faz uma cara de desagrado e desiste do aparato. Enquanto isso, Marcelle veste uma capa preta e uma máscara de bate-bola, Flávia Couri experimenta uma versão customizada, provavelmente made in Saara, da Mulher-Gato, e Flávia Goo, já na área, circula com um quepe da marinha na cabeça. Era véspera de carnaval e elas não me deixavam esquecer.


Na outra extremidade do grande camarim estava Deize Tigrona. Não quero nem entrar no debate cultura popular versus uma suposta cultura de elite. Este assunto já foi mais do que abordado e ainda tem gente que se exalta em mesa de bar por conta disso. Literalmente largada no sofá, ao lado do marido-empresário, Deize parecia um pouco deslocada.


Um baseado passa de mão em mão e é educadamente oferecido a Deize. “Não, eu não fumo”, disse a funkeira, de forma tímida e um pouco amolecida, como se não tivesse muita certeza de suas próprias preferências. Alguém mandou na lata: “Porra, você canta e não fuma maconha?”. Ué, qual o problema? Eu, por exemplo, escrevo e não tenho tuberculose. Ah, os estereótipos...


A menina Del Fuego já havia me falado da Deize Tigrona: “Ela entende quase tudo por osmose. É musical, intuitiva, doce, sensível”. Então, vejamos. Agachei-me ao lado dela e ofereci uma edição da revista em quadrinhos Jukebox. Ela pegou, olhou pra mim, fitou a capa, olhou pra mim novamente, abriu a revista, deu uma risadinha e olhou pra mim mais uma vez. Desconfiada, a menina. Folheou algumas páginas e perguntou: “Você conhece o Allan Sieber?”. Diante da minha resposta positiva (embora cinicamente falsa), ela abriu um largo sorriso, chegou um pouco para o lado e me ofereceu assento. Tráfico de influência pode ser tudo na vida.


Conversamos algumas amenidades, já que primeiro eu precisava ganhar sua confiança. Perguntei se ela ouvia, ou conhecia, alguma banda electropunk. Ela disse que “mais ou menos”. “Mais ou menos quanto?”, desconfiei. “Ah, ouço quando alguém passa de carro”, me respondeu. Achei melhor não insistir e já pensava em mudar de assunto quando ela completou: “Mas tento prestar atenção. Precisamos estar atentos”.


Taí, gostei dela. Sobretudo pelo contexto: você sabe, a turminha electro é infestada de wannabes, assustadoramente afetados. OK, todas as cenas têm sua ala fake, mas aqui parece ser em maior número. Não sei quanto a você, mas eu acho tudo isso muito comovente.


E na hora me veio a lembrança de quando perguntei a Leandra se ela acreditava na possibilidade de uma cena electropunk essencialmente nacional. Ela respondeu, com a sabedoria que lhe é peculiar: “Não acredito que algo seja essencialmente qualquer coisa. O que eu sei é que este povo adooora fazer uma cena”. Bingo.


E aqui está a diferença: o grande mérito da Leandra é que ela convence, em todos os sentidos: seja na música, na performance ou no discurso. Nada nela soa falso, sinuoso, dissimulado. E ainda consegue ser infinitamente mais instigante do que uma certa loirinha do circuito carioca que implora pra ser seu prato principal. “Até hoje não sei se gosto disso: de imagem, conceitos e moda... mas que é assim, é”, confessa, respondendo alguma pergunta minha, que já não lembro exatamente qual foi. “Claro que eu gosto desta multiplicidade, mas o fato de tudo ser produto me parece cínico demais. Está tudo muito exagerado. Daqui a pouco as pessoas ouvirão apenas com os olhos”. Poxa, esta é uma ótima frase de efeito, boa pra fechar o parágrafo: “Daqui a pouco as pessoas ouvirão apenas com os olhos”.


Uma menina da produção bate à porta e diz que em cinco minutos começará o show. Hora de partir. Aproveito a agitação causada e resolvo pegar uma cerveja no isopor delas. Levanto a tampa e não encontro nenhuma latinha, só um monte de gelo. Finjo que não fiquei puto, desejo boa sorte e vou ao bar comprar a minha lata. Faltam três minutos para o show e quero vê-lo de perto.


PS.: Quer saber como foi? Veja as fotos do show:

http://www.vozdelfuego.com/images_br.shtml?show_circo_hell_160207


Revisão Dante Sasso







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