
Muito gringo perdido, andando com as provinciais garrafinhas
de água na mão. Era véspera de carnaval
e a Lapa carioca fervia de gente. O
Circo Voador anunciava shows da Voz Del
Fuego & Lingerie Underground com o pessoal da gravadora alemã Gigolo —
o chefão DJ Hell, o houseiro Renato Ratier e o fantástico Digitaria, entre
outras atrações. Por André Mansur
VOZ DEL FUEGO &
LINGERIE UNDERGROUND
Descendo a mão na
princesinha
André Mansur
Vou até o camarim. Metade
da Lingerie Underground havia chegado, além da funkeira-mor Deize Tigrona, que
faria (fez) uma participação no show das meninas. O ambiente no backstage era de aparente
tranqüilidade, embora Leandra Lambert, a Voz Del Fuego em pessoa, parecesse um
pouco nervosa com a aproximação da hora de subir ao palco.
Leandra é velha conhecida dos palcos cariocas. Na função desde 1992, ela participou dos
Inhumanoids, uma das primeiras bandas brasileiras a misturar o punk à música eletrônica
— agora, assim de sopetão, só me lembro dos paulistas do Concreteness, do Harry
(que nem era tão punk assim) e de ninguém mais.
Na época, muitos roqueiros imbecis criados a iogurte torciam
o nariz para os Inhumanoids, pois não havia guitarra, baixo ou bateria acústica
na banda. “Mas, também”, contou Leandra,
enquanto se maquiava antes do show, “a gente não se enquadrava muito bem em
nenhuma das três vertentes de música eletrônica que rolavam por aqui: a EBM,
que não tinha senso de humor algum e era território totalmente masculino,
misógino até; o techno, que ainda era um
gueto e não queria se misturar com o rock; e a dance music mais comercial, cheia de um
deslumbramento frívolo que não me interessava”.
Ou seja, terreno propício às inovações. Leandra é de uma época em que as únicas
mulheres que tocavam em bandas no circuito independente carioca tinham como
referência a cena riot grrrl americana. E
olhe lá. A regra era: ou contestava-se a igualdade entre os sexos ou
lutava-se pela legalidade do aborto. Mas
tudo muito fofo e perfumado. Na
tangente, havia Leandra Lambert com os Inhumanoids falando sobre ficção
científica e sexo bizarro em banheiros imundos.
Tempos depois, Leandra começou a compor em casa, sem ninguém
por perto. Quando se deu conta, tinha
várias músicas novas, mas ninguém para acompanhá-la. Decidiu mudar o nome para Voz Del Fuego. Cansada de brincar sozinha, Leandra chamou uma
amiga, a guitarrista Flávia Goo, para apresentações ao vivo. Depois outra amiga, Flávia Couri (hoje também
do Doidivinas), para tocar baixo. Mais à
frente, os brasilienses André Mobi (bateria, ex-Vernon Walters) e Marcelle
Morgan (voz).
Pronto, a banda foi batizada de Lingerie Underground. “Mas a direção começou a surgir com as
apresentações ao vivo. Músicas impossíveis
de dançar, sem vocais e que não admitiam instrumentos de rock foram virando
minoria, não sendo finalizadas...”.
Ela faz uma pausa e tenta ligar para Flávia Goo, preocupada
com o atraso da guitarrista. Ninguém
atende o celular, ou ele acusa estar fora da área de cobertura. Leandra desliga o telefone sem esconder a
irritação. Como é sua relação com a
Lingerie Underground? Ditatorial? “Eu sempre tento decidir as coisas em
conjunto, mas se eles demoram a chegar a um acordo ou existe algum problema
prático, eu decido e comunico. Não gosto
de fazer isso, tanto pelo lado meio megera que eu me vejo obrigada a encarnar
quanto pela responsabilidade acumulada. Só
que às vezes é necessário”.
Punhos de ferro sem perder a ternura. Um misto de Rainha Vitória com Margaret
Thatcher, pensei na hora. Quando se
trabalha sozinho, existe a vantagem de não se fazer concessões. Foi difícil focar em algo no início, já que
tudo era possível? “Foco é bom, mas uma
imagem difusa e múltipla também pode ser boa”. Pois sim. O bacana é que, ao vivo, você pode esperar
várias coisas: uma apresentação da
Leandra solo, brincando com a parafernália eletrônica; uma versão “power-trio híbrido”, mais voltada
para a pista, mas com os instrumentos de corda; e outro show, este com a Lingerie Underground
completo, sem programações eletrônicas, embora sem descartar os synths.
Mas, claro, na mesma noite podem ocorrer as três variantes. Em todos os casos, sempre navegando na seara
do electropunk. Tudo muito bem feito,
com conhecimento de causa.
O nome Voz Del Fuego surgiu da junção do título da clássica
HQ Voice of the Fire, do mago Alan Moore, com o nome da naturalista Luz Del
Fuego. “Ela gostava de quebrar tabus”,
conta Leandra sobre a libertária que ficou conhecida nos anos 50 por criar a
primeira área de nudismo no Brasil, a Ilha do Sol, na Baía de Guanabara. “Hoje em dia, não tem mais graça ficar pelado
por aí na frente dos outros”.
Não mesmo? “Bom, graça até pode ter, mas não tem o mesmo
significado. Se bem que a nudez de
alguém fora dos padrões de magreza pode ser do contra”. Você já foi a uma praia de nudismo? “Não e não
sei se eu me sentiria à vontade balançando as carnes pela areia, esturricando
sob este sol ingrato e vendo apetrechos sacolejantes toda hora”. Não deixa de ser curioso ouvir essa resposta
de alguém que canta os provocantes versos: “Descendo a mão na princesinha / porque ela
gosta / porque ela quer”. Sobre o
assunto, ela sai em defesa: “Sei que
muita gente acha que mulher falar de fêmeas fazendo putaria denigre a imagem
feminina. Besteira, essa postura é
puritana, culpada e patricinha. Parece
coisa de tia velha que fica rubra porque alguém falou ‘cu’ na sala de estar. Dizem que mulher direita não fala de sexo em público... Aham,
certamente. Assim como não trepa, não
goza e come empada de garfo e faca”.
Em algum momento a persona Voz Del Fuego já afetou sua
personalidade? “Felizmente sim. A liberdade de fazer o que eu quiser na música
e a catarse no palco foram me tornando um pouco menos explosiva fora dele”,
responde, enquanto testa um tapa-olho de pirata. Ela mira o espelho, faz uma cara de desagrado
e desiste do aparato. Enquanto isso,
Marcelle veste uma capa preta e uma máscara de bate-bola, Flávia Couri
experimenta uma versão customizada, provavelmente made in Saara, da Mulher-Gato,
e Flávia Goo, já na área, circula com um quepe da marinha na cabeça. Era véspera de carnaval e elas não me deixavam
esquecer.
Na outra extremidade do grande camarim estava Deize Tigrona.
Não quero nem entrar no debate cultura
popular versus uma suposta cultura de elite. Este assunto já foi mais do que abordado e
ainda tem gente que se exalta em mesa de bar por conta disso. Literalmente largada no sofá, ao lado do
marido-empresário, Deize parecia um pouco deslocada.
Um baseado passa de mão em mão e é educadamente oferecido a
Deize. “Não, eu não fumo”, disse a
funkeira, de forma tímida e um pouco amolecida, como se não tivesse muita
certeza de suas próprias preferências. Alguém
mandou na lata: “Porra, você canta e não
fuma maconha?”. Ué, qual o problema? Eu, por exemplo, escrevo e não tenho
tuberculose. Ah, os estereótipos...
A menina Del Fuego já havia me falado da Deize Tigrona: “Ela entende quase tudo por osmose. É musical, intuitiva, doce, sensível”. Então, vejamos. Agachei-me ao lado dela e ofereci uma edição
da revista em
quadrinhos Jukebox. Ela
pegou, olhou pra mim, fitou a capa, olhou pra mim novamente, abriu a revista,
deu uma risadinha e olhou pra mim mais uma vez. Desconfiada, a menina. Folheou algumas páginas e perguntou: “Você conhece o Allan Sieber?”. Diante da minha resposta positiva (embora
cinicamente falsa), ela abriu um largo sorriso, chegou um pouco para o lado e
me ofereceu assento. Tráfico de
influência pode ser tudo na vida.
Conversamos algumas amenidades, já que primeiro eu precisava
ganhar sua confiança. Perguntei se ela
ouvia, ou conhecia, alguma banda electropunk. Ela disse que “mais ou menos”. “Mais ou menos quanto?”, desconfiei. “Ah, ouço quando alguém passa de carro”, me
respondeu. Achei melhor não insistir e
já pensava em mudar de assunto quando ela completou: “Mas tento prestar atenção. Precisamos estar atentos”.
Taí, gostei dela. Sobretudo
pelo contexto: você sabe, a turminha
electro é infestada de wannabes, assustadoramente afetados. OK, todas as cenas têm sua ala fake, mas aqui
parece ser em maior número. Não sei
quanto a você, mas eu acho tudo isso muito comovente.
E na hora me veio a lembrança de quando perguntei a Leandra
se ela acreditava na possibilidade de uma cena electropunk essencialmente
nacional. Ela respondeu, com a sabedoria
que lhe é peculiar: “Não acredito que
algo seja essencialmente qualquer coisa. O que eu sei é que este povo adooora fazer uma
cena”. Bingo.
E aqui está a diferença: o grande mérito da Leandra é que ela convence,
em todos os sentidos: seja na música, na
performance ou no discurso. Nada nela
soa falso, sinuoso, dissimulado. E ainda
consegue ser infinitamente mais instigante do que uma certa loirinha do
circuito carioca que implora pra ser seu prato principal. “Até hoje não sei se gosto disso: de imagem, conceitos e moda... mas que é
assim, é”, confessa, respondendo alguma pergunta minha, que já não lembro
exatamente qual foi. “Claro que eu gosto
desta multiplicidade, mas o fato de tudo ser produto me parece cínico demais. Está tudo muito exagerado. Daqui a pouco as pessoas ouvirão apenas com os
olhos”. Poxa, esta é uma ótima frase de
efeito, boa pra fechar o parágrafo: “Daqui
a pouco as pessoas ouvirão apenas com os olhos”.
Uma menina da produção bate à porta e diz que em cinco
minutos começará o show. Hora de partir.
Aproveito a agitação causada e resolvo
pegar uma cerveja no isopor delas. Levanto
a tampa e não encontro nenhuma latinha, só um monte de gelo. Finjo que não fiquei puto, desejo boa sorte e
vou ao bar comprar a minha lata. Faltam
três minutos para o show e quero vê-lo de perto.
PS.: Quer saber como
foi? Veja as fotos do show:
http://www.vozdelfuego.com/images_br.shtml?show_circo_hell_160207
Revisão Dante Sasso