Bem vindo a portal rock press 21 anos!
  Olá Anônimo!
Busca  
discos básicos: What’s Going On, Marvin Gaye
Terça-feira, 11 de Julho de 2006 (19:42:43)


 

What’s Going On pertence a uma categoria de obras universais, por seu valor histórico e artístico. a





Ao leitor, um aviso: este texto sobre o What’s Going On, obra-prima de Marvin Gaye, não descreve a música do álbum em detalhes. Meu amigo Rafael Pesce, leitor aqui da Rock Press, escreveu um texto excelente sobre o disco no site Freakium. Ao texto do Rafael quero agregar algumas considerações muito pessoais sobre um álbum musical que já me acompanha há mais de vinte e cinco anos – ou será que sou eu que o acompanho?


What’s Going On: considerações pessoais sobre uma obra-prima da soul music


zeca azevedo


Passando pela seção de discos (cada vez menor) de uma loja de departamentos, reparo a ausência quase total de discos históricos de soul music. O “quase” do período anterior se deve ao exemplar do What’s Going On, do Marvin Gaye, que ainda continua por lá (a R$ 32,00 a edição nacional do disco, acho que vai demorar pra sair). Não é de admirar a presença deste disco em uma loja dedicada a generalidades musicais. Por que?

Bem, o What’s Going On é uma obra-prima da música popular do século XX, claro, um belo, sedutor e envolvente álbum de canções, mas é um disco que contou e ainda conta com uma “máquina de propaganda” (nem todas as obras-primas têm essa sorte, infelizmente) boa o bastante para garantir sucessivas reedições em CD. Essa propaganda é feita, em geral, pela imprensa, mais precisamente pela crítica especializada em pop que, quando fala em soul music, geralmente fala mais no What’s Going On do que em qualquer outro álbum do gênero.

What’s Going On
pertence hoje a uma categoria de obras universais, tem seu valor histórico e artístico amplamente reconhecido em todo o mundo. Pessoas que conheço que têm um interesse passageiro por soul têm o disco em suas coleções. É um item de “discoteca básica” e com razão, já que a música contida no álbum não perdeu um elétron de sua beleza e de seu impacto originais. Para contrariar o Cazuza, posso dizer que, para algumas realizações humanas, o tempo pára.


Imprimindo A Lenda


Se bem que What’s Going On nem sempre teve o status de que goza hoje. Reconhecido como obra-prima por boa parcela da crítica musical quando lançado em 1971, o disco, no entanto, demorou a chegar ao coração dos fãs de rock. Foi preciso que críticos, músicos, fãs e pessoas dotadas de discernimento musical gastassem uma quantidade considerável de saliva, de tinta e de papel durante pelo menos duas décadas para que o disco avançasse sobre um público muito maior e se tornasse a referência absoluta que é hoje. Nesse caso, a imprensa musical cumpriu uma de suas funções mais importantes: chamar a atenção do público para a música de valor.

Todo esse blá-blá-blá aí em cima pode parecer absurdo para quem cresceu à sombra gigante da reputação do disco, mas a verdade é que, às vezes, a “reputação gigante” precisa ser pacientemente construída. Sim, caro leitor, além do valor intrínseco de uma obra de arte, há que se considerar que a inserção social desta obra depende de outros fatores – a repercussão junto à imprensa e aos “formadores de opinião”, o reconhecimento dos pares e dos especialistas em arte, a divulgação em veículos e espaços “nobres” e “culturais”, entre outros. Para passar nos testes impostos por este verdadeiro “sistema de arte”, uma obra precisa atender a certos critérios.

O fato do What’s Going On ser um contínuo musical e lírico, uma peça “conceitual” como querem alguns, pode ter contribuído para a adoção do álbum pelo “sistema de arte” do qual falei acima, que tem o poder de definir o que é e o que não é “arte”. A maioria dos críticos que escreve sobre o álbum hoje (e ontem) gosta de dizer que os discos do Marvin anteriores a ele nada mais são do que compilações de singles de sucesso salpicadas por covers e gravações menores que servem para preencher o tempo total do LP.

Eu, que tenho especial apreço por discos do Marvin dos anos 60, posso contra-argumentar dizendo que os discos mais antigos também são, a seu modo, um “contínuo musical e lírico”, pois, no geral, todas as letras das canções que integram estes discos têm um tema único (o amor, seja na forma do amor romântico ou do amor fraternal entre os seres humanos) e uma sonoridade que não destoa de faixa para faixa, pois todas as bases instrumentais destes álbuns foram executadas pelo mesmo grupo de músicos (os hoje notórios Funk Brothers) em um mesmo estúdio (o porão de Hitsville).

É preciso lembrar que What’s Going On não foi o primeiro disco conceitual de Marvin. Bem antes deste, foram lançados o Hello Broadway (1964, recheado de canções famosas dos musicais de teatro) e o Tribute To The Great Nat King Cole (1965, dedicado integralmente ao repertório do Nat Cole, um dos ídolos do Marvin), discos conceituais à moda dos de Frank Sinatra. Esses dois projetos deixam exposta a vontade da Motown de transformar o Marvin Gaye em início de carreira em um cantor adulto, elegante e requintado, na linha de Johnny Mathis e de Frank Sinatra.

Aqueles de nós que já tiveram acesso a informações sobre a vida de Marvin sabem que ele queria MUITO ser esse tipo de cantor e que a ele não interessava o sucesso junto ao público adolescente e pós-adolescente de R&B. Ele almejava conquistar os ouvidos, corações e (por que não?) os bolsos dos freqüentadores dos clubes chiques em que se apresentavam Frank Sinatra, Perry Como, Peggy Lee, Sammy Davis Jr. e outros astros do pop tradicional norte-americano. Seu sonho era apresentar-se no Copacabana, a mais badalada boate de Nova York, que já havia recebido Sam Cooke (outro cantor de soul e R&B que cultivava uma imagem de crooner de pop tradicional).

Como seus discos “adultos” e “conceituais” tiveram pequena repercussão quando lançados, a Motown decidiu fazer do cantor um astro do soul e do R&B. O primeiro compacto a seguir a escola Motown de soul-pop, “Stubborn Kind Of Fella” (o título da música diz muito sobre a personalidade do próprio Marvin), fez grande sucesso e soterrou a imagem de crooner sofisticado que ele queria para si.

(Nota: o cantor ainda faria mais uma tentativa de se tornar um crooner na linha de Sinatra no fim dos anos setenta, quando gravou, acompanhado de grande orquestra, “The Shadow Of Your Smile” e outros standards do pop tradicional americano. As gravações fariam parte de um disco que foi abortado pela Motown à época - para o desespero do Marvin, que viu seu sonho “sinatriano” desmoronar mais uma vez. Nos anos noventa, essas gravações foram lançadas no CD Vulnerable, um disco belíssimo, obrigatório para os fãs e de boa música em geral.)

A imagem de Marvin como cantor de soul-pop romântico foi cuidadosamente lapidada pela Motown nos anos 60. Seus duetos com Tammi Terrell eram o supra-sumo do sweet soul da época. Para fazer uma comparação aparentemente estapafúrdia, mas não desprovida de sentido, eu poderia dizer que o grande público percebia a dupla Marvin & Tammi como um casal musical do tipo Captain & Tennille ou... Jane & Herondi.

Não estou falando de qualidade musical, por favor, apenas de imagem pública. Embora não fossem casados, Marvin e Tammi era o casal queridinho da Motown (portanto, um dos casais queridinhos da América) e seus discos, que são lindos, faziam muito, mas muito sucesso mesmo na década de sessenta.

A morte prematura da Tammi Terrell teria sido um dos motivos que levaram Marvin a repensar a música que vinha fazendo e a própria vida. O gesto introspectivo do artista, também motivado pelo cenário político efervescente dos EUA no fim dos anos sessenta, início dos setenta, teve como conseqüência a guinada musical e lírica que legou What’s Going On ao mundo.


Money, That’s What I Want


Eu creio sinceramente que a tão comentada oposição da Motown e do Berry Gordy ao lançamento de What’s Going On no mercado tem mais razões econômicas do que políticas. A vontade da Motown de arquivar o disco tem menos a ver com o fato da gravadora e seu dono não quererem “pisar nos calos” da sociedade americana com canções sobre drogas, poluição, guerra do Vietnã e pobreza, e mais com a tentativa de preservar a todo custo a imagem de galã do soul associada a Marvin, que a gravadora se esmerou em construir durante anos.

Marvin era um dos artistas mais populares do cast da gravadora de Detroit e uma mudança repentina de imagem poderia alienar parte do público cativo do artista. O mercado pop, como sabemos, é muito volátil e competitivo e não costuma perdoar o que os norte-americanos chamam de “bad career moves”.

É preciso lembrar que alguns anos antes do surgimento de What’s Going On, a Motown, instada pelo sucesso das “canções com mensagens” de Curtis Mayfield, de James Brown e do Sly Stone, já estava editando discos que abordavam a “vida bandida” que a população afro-americana enfrentava no seu dia-a-dia na “terra das oportunidades”: é só pensar nas produções de Norman Whitfield para os Temptations, como “Ball Of Confusion” (que tratava de pobreza, guerra e outras feridas abertas da sociedade) ou “Cloud Nine” (que tratava da disseminação das drogas). Até as Supremes, com o single “Love Child”, já tinham falado de mazelas sociais antes do lançamento de What’s Going On.

A diferença capital de What’s Going On em relação às gravações citadas acima é que o disco de Marvin era um álbum inteiro de canções temáticas, sem nenhuma canção de amor romântico, do tipo “boy meets girl”. Isso sim era uma novidade para a Motown, pois mesmo os “elepês” psicodélicos dos Tempts têm delicadas canções de amor (geralmente no lado B). As canções de What’s Going On, apesar de abordarem explicitamente temas sociais candentes, não eram radicais. Eram canções em feitio de oração que suplicavam (“to beg” é o verbo da música soul por excelência) por piedade, por justiça, por igualdade entre os homens.

A perspectiva do homem que canta no álbum não é a de um “black panther”, de um extremista que busca o confronto armado com a sociedade dominada pelos brancos, mas de um homem cuja fé na humanidade, embora abalada, ainda resiste, pois é para a humanidade como um todo que ele endereça as suas súplicas por um mundo melhor. Por conta disto, não acho que a Motown tenha ficado muito assustada com o conteúdo social do disco que, afinal, refletia a visão de integração do Movimento dos Direitos Civis que a Motown não só abraçava, mas simbolizava.

O que deve ter preocupado Berry Gordy e os escalões menores dos executivos da Motown foi a declaração de independência do artista. Sabe-se que a gravadora funcionava como uma linha de montagem e que os artistas eram vistos muitas vezes como peças de uma grande engrenagem. Apesar de famosos internacionalmente, seus astros, em sua esmagadora maioria vocalistas (exceção feita ao genial Junior Walker, um dos meus ídolos), eram dependentes da máquina: como não escreviam ou produziam as próprias canções, não tinham muito controle sobre o produto final, o disco. Ao pensar e conceber não apenas um single, mas um álbum inteiro sem consultar o staff de produtores e executivos da Motown, Marvin Gaye assumiu as rédeas da própria música. Para Gordy, era um desafio aberto ao rígido star-system que ele cultivara até então.

Por que então Gordy cedeu e permitiu o lançamento de What’s Going On? Ele sabia que era música de qualidade e sabia que seria o grito de “independência ou morte” de Marvin. O chefão da Motown cedeu não só porque o cantor ameaçou jamais gravar novamente (Gordy sabia que Marvin era capaz de cumprir semelhante ameaça), mas porque ele, Gordy, tinha uma estrela muito maior sob suas garras: Diana Ross.

O maior “produto” da Motown em toda a sua história, aquele que representa como nenhum outro a ambição, os ideais e, porque não dizer, as fraquezas da gravadora de Detroit, foi mesmo Diana Ross.

O controle absoluto que Gordy queria exercer sobre sua estrela (que também era um caso amoroso – os dois tiveram um filho nos anos sessenta, fato só revelado recentemente) exigia dedicação quase total do chefe da Motown à carreira de Diana. Os projetos de transformá-la em estrela de cinema (e de transformar a si mesmo num magnata em Hollywood), fizeram com que Gordy decidisse mudar a sede da Motown de Detroit para Los Angeles.

No meio de seus sonhos de dominação do mundo do cinema, da mudança da Motown para a ensolarada L.A., do seu esforço para transformar Diana Ross na nova Barbra Streisand, da administração da carreira dos Jackson 5 (que estouraram em 1969), Gordy deve ter ouvido as reclamações de Marvin como um ruído a mais no meio da tempestade. Era mais fácil dizer sim ao Marvin, Gordy deve ter concluído, pois, se tudo desse certo, ele ficaria feliz e a Motown teria lucro; se tudo desse errado, Marvin ficaria sabendo que ele, Gordy, estava certo quanto à mudança brusca de imagem e isso deixariam quietos outros artistas rebeldes do cast.

What’s Going On foi lançado, fez sucesso e inspirou muitos outros artistas a buscar seu próprio caminho artístico – dentre eles, o Stevie Wonder. Apesar do triunfo sobre a “máquina”, Marvin sentiu-se deixado de lado por Berry Gordy (a quem Gaye via como figura “paterna”, de autoridade, e com quem mantinha uma relação de amor e ódio – como a relação que tinha com o próprio pai). Gordy estava fora de alcance, ocupado com a produção do filme Lady Sings The Blues, cinebio de Billie Holiday, estrelado por Diana Ross (pelo qual ela recebeu uma justa indicação ao Oscar de Melhor Atriz). Marvin esperou, em vão, pelo reconhecimento “paterno” de Gordy.

Para os atores principais desta novela da vida real, Marvin, Gordy, Diana, Stevie, os Jacksons e outros, o início dos anos setenta parecia o início de uma era cheia de promessas e de novos desafios. O que aconteceu, porém, foi que o que parecia ser o início de algo novo era, na verdade, o fim da era de ouro da Motown. Neste sentido, What’s Going On, o disco, a obra-prima, é também uma espécie de réquiem para a gravadora.



zeca azevedo, 43, é o maior conhecedor de soul music do lado Sul do país - e não come mosca.

 
 Links relacionados 
· Mais sobre Rock Press
· Notícias por claudia


As notícias mais lidas sobre Rock Press:
Tudo que você queria saber sobre o U2


 Opções 

 Imprimir Imprimir


Tópicos relacionados



Re: What’s Going On / zeca azevedo (Pontos: 1)
por VERBENA em Segunda-feira, 17 de Julho de 2006 (0:30:04)
(Informações do usuário | Enviar uma mensagem)
Taí mais uma observação que talvez só Zeca tenha reparado.
Acompanho Marvin Gaye há tempos e ele era mesmo chamado de Sinatra Negro, o disco em homenagem a Nat King Cole é chique com um piano na capa. Aliás, capas e sons  "politicamente" corretos com ele de terno e romântico com Tammi Terrel. Mas os conflitos pessoais e  a morte dela pesaram muito pra esse intérprete sensível, em Whats going on ele  já começa a demonstrar cansaços de ser o bom rapaz. Principalmente em Mercy Mercy me, quando toca n'um assunto que poucas pessoas ligavam em '71, a ecologia. Daí pra lá ele parecia não não saber tomar o rumo sexy ou político. Fez uns duetos. Vendeu bastante, abandonou tudo.
DIA DESSES eu ouvi When Did you Stop loving me e achei que tinha tanta emoção que eu precisava saber a letra.
Ele passava o que sentia com sua interpretação. E um pouco mais....



Re: What’s Going On / zeca azevedo (Pontos: 1)
por rafaelpesce em Sábado, 15 de Julho de 2006 (0:16:49)
(Informações do usuário | Enviar uma mensagem)
Novamente uma bela matéria Zeca, adorei!!!!! E valew por ter me citado no começo, gostei dos elogios..heheh.....na próxima freakium, que deve entrar no ar semana q vem, eu fiz uma matéria sobre outro disco com teor politico da motown...o Innervisions do Stevie Wonder...aposto que tu és um grande fã deste disco tb!!!!! um abraço!!



Todos os Direitos Reservados Portal Rock Press ©

PHP-Nuke Copyright © 2005 by Francisco Burzi. This is free software, and you may redistribute it under the GPL. PHP-Nuke comes with absolutely no warranty, for details, see the license.