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duplas: Fellini X Picassos / André Mansur
Quinta-feira, 22 de Dezembro de 2005 (1:36:30)


Poucas bandas nos anos 80 ousaram de verdade. Duas merecem destaque:  Fellini e Picassos Falsos.  Rock Press promoveu um encontro virtual entre o carioca Humberto Effe e o
paulistano Thomas Pappon. 
Por André Mansur




FELLINI X PICASSOS FALSOS


André Mansur



Numa época em que grande parte do rock nacional não se envergonhava de ser mero pastiche da gringolândia, poucas bandas ousaram de verdade.  Eram os anos 80.  Desse seletíssimo grupo, dois merecem um lugar de destaque:  Fellini e Picassos Falsos.  Ambos buscavam uma identidade tipicamente nacional, impondo guitarras ao samba e drum machines ao baião.


Sem falar nas temáticas que, no caso dos Picassos, eram fortemente direcionadas ao Rio e a “seus emblemas culturais” – como o dialeto carioquês, o carnaval, a violência etc.  Tudo isso soa familiar?  Claro, não é necessário muito esforço para perceber que sem eles a escala evolutiva do rock nacional teria outros rumos, possivelmente mais pobres.  Marcelo D2 e o mangue beat em peso beberam indiscutivelmente dessas fontes. 


O tempo passou e as coisas mudaram.  Mas não muito.  O vocalista dos Picassos, Humberto Effe reuniu os outros integrantes da banda, separados há mais de uma década, para a gravação de um disco só de inéditas.  O resultado foi o elogiadíssimo Novo Mundo, inaugurando o selo Psicotrônica.  Na contra-mão de seus contemporâneos, surpreenderam pela dignidade lançando um disco certeiro e coerente ao seu passado sem soar datado.  Poucas bandas podem se orgulhar disso.


Já o Fellini vive há anos em estado de hibernação.  Há pouco lançou um álbum chamado Amanhã é Tarde (midsummer madness) e ocasionalmente retorna para fazer um único show e |logo depois sumir na poeira.  O multi-instrumentista Thomas Pappon mora na Inglaterra, onde trabalha como jornalista para a BBC de Londres.  Lá ele compõe sob o pseudônimo The Gilbertos e lançou seu segundo disco, Deite-se ao Meu Lado, também via midsummer madness. 






THOMAS para Humberto


Thomas:
 Quando os Picassos faziam seus primeiros ensaios, vocês ouviam mais rock ou MPB?

Humberto:
  Na época eu já tinha um contato maior com a música brasileira do que os outros da banda, principalmente samba e música nordestina.  O rock e o funk predominavam no geral, mas a tendência era fazer a ligação com a tradição da canção brasileira e o chamado popular mundial ou pop.


Thomas:
  O que rolava mais:  cocaína, maconha, ácido ou cerveja?

Humberto:
  Olha, o ácido e o Frank Miller (grande escritor e desenhista de HQs) foram importantes para mim.  No geral, não usávamos nada para tocar.  Mas uma Skol foi sempre bem vinda.


Thomas:
  O ‘Effe’ em seu nome vem do quê? “Frederico”?

Humberto:
  O Effe vem de meu nome mesmo.  De onde veio esse Frederico?


Thomas:
  Vi dois shows dos Picassos, um no Canecão, em 88, com o Hojerizah, e outro no Aeroanta, em São Paulo, acho que um ano depois.  Nos shows me dei conta de que estava vendo a melhor banda ao vivo da época, melhor que Ira!, Legião, Titãs etc.  Tomei cerveja demais ou estava certo?

Humberto:
  Éramos a melhor banda ao vivo da época e o somos até hoje.  Obrigado pelos elogios.  Obrigado mesmo!


Thomas:
  Você curte essas reuniões de juntar a galera e fazer uns shows para o público antigo?

Humberto:
  Os Picassos não se juntaram para fazer uns shows, mas para continuar a trabalhar e fazer novos discos como o que acabamos de lançar.  Para nós não existe público antigo, existe gente que gosta pra caramba e te acompanha.  Existe, no nosso caso, um pessoal mais novo que tem grande respeito pelos Picassos Falsos, que certamente foi adquirido com os dois primeiros discos e será afirmado com esse novo.


Thomas:
  Qual o melhor álbum do Led Zeppelin?  Eu insisto no Houses of the Holy.

Humberto:
  Gosto muito do Led Zeppelin II.


Thomas:
  Tenho uma teoria de que a MPB morreu em 78.  Não conheço um disco genial feito no Brasil depois disso (fora os do Fellini e Gilbertos, claro).  Estou errado?

Humberto:
  Vendendo seu peixe, hein?  O Realce, do Gil, que é de 1979, é muito bom.  Além de alguma coisa a partir dessa época do João Bosco e Aldir Blanc.


Thomas:
  Cá entre nós, você gosta do Barão Vermelho?

Humberto:
  Gosto de muitas coisas antes e depois do Cazuza.  Os dois primeiros discos são muito bons.  Acho que em muitos momentos eles se perderam buscando uma “modernidade” desnecessária, como toda modernidade é.


Thomas:
  Falando em MPB, cite-me dois discos, tipo pérolas esquecidas, que preciso conhecer.

Humberto:
  Cara e Coração, do Moraes Moreira, de 1977.  Não sei se você ouviu, mas também é muito bom um disco lançado pelo Luis Melodia, em 1978, chamado Felino.


Thomas:
  Quem é o maior cantor do Brasil (João Gilberto não vale)?

Humberto:
 Muitos, mas dentre eles...  Roberto Carlos e Dorival Caimmy.




HUMBERTO para Thomas


Humberto:
  Você acredita em tradição na música brasileira?

Thomas:
  Acho que existe música essencialmente brasileira, de raízes fincadas nos morros do Rio, bares da Lapa, em festas de rua, praças e coretos.  E acredito em linha evolutiva da MPB.  Não sei exatamente onde ela começa (talvez no choque entre o batuque e cantos escravos com polcas e mazurcas tocadas por quartetos de corda), mas sei que nos anos 50, 60 e 70 – os anos de ouro da MPB – essa trajetória é bem rica e distinta.         


Humberto:
  Os anos 80 foram tão mutantes no Brasil quanto os 60 ou foi apenas um revival vazio de conteúdo?

Thomas:
  Quando penso nos anos 80, a palavra “transformação” não é a primeira que vem à mente.  Havia uma grande vontade de buscar novidades, mas o maior legado dessa época foi o reconhecimento do rock como principal força do mercado jovem de música pop, e só.  E, Humberto, nenhuma época foi tão efervescente como os anos 60, você não acha?


Humberto:
  Será que hoje essa moda de amor ao samba pode levá-lo a um esgotamento?

Thomas:
  Duvido, modas passam.  Mas, se todo mundo estiver saturado de samba, taí um bom momento para alguém fazer “tabula rasa”, tirar o lixo todo da mesa e começar de novo.  Eu acho pagode, samba “autêntico” e chorinho um saco.  Gostaria que surgisse algo novo.      


Humberto:
 Você conhece o Picassos Falsos e o nosso novo disco?

Thomas:
 Vi os Picassos ao vivo no Canecão, em 88, e me amarrei.  Acho que fui o primeiro repórter da antiga Bizz a entrevistar vocês.  Vocês são geniais.  Infelizmente não conheço teus discos solo, nem o novo disco.  Mas estou curioso, me falaram que tem muito samba no meio (ai, que medo!).   


Humberto:
  Sentimos no Rio a falta de uma rádio que toque uma imensa produção fonográfica que pode estar mudando a música brasileira fora da estrutura das grandes gravadoras mas simplesmente não aparece a olhos nus, chegando somente a uma elite curiosa.  Está assim em SP?  Podemos mudar isso?

Thomas:
  Me parece que a situação no Rio deve estar melhor do que em SP, onde, segundo fui informado, não há espaço pra música alternativa.  Mas essa situação não pode ser pior do que no final dos anos 70, quando os punks de SP vieram do nada, duros e sem perspectiva alguma, fizeram um barulho danado e lançaram as sementes do rock dos anos 80.   


Humberto:
  Acredita em pioneirismo na música brasileira, em alguém descobrindo a pólvora?

Thomas:
  Sim, mas o único exemplo que tenho é o do João Gilberto, que cantou samba diferente pela primeira vez em “Chega de Saudade”.   


Humberto:
  Você não acha que algum governo poderia tomar uma postura mais ousada e fazer da produção musical no Brasil um produto de exportação de difusão planetária do que se faz aqui?  Na verdade, hoje só vejo as pessoas discutindo o cinema nacional na hora de se baixar qualquer lei de incentivo ou coisa parecida.

Thomas:
  Putz, Humberto, sou cínico demais para acreditar em “incentivos do governo” na área cultural.  Acredito que subsídios a centros culturais (ou casas de shows administradas pelo estado ou municípios) e a universidades (como a Federal de Pernambuco) funcionam.  Mas ajudar a financiar produção musical?  Temo que o Gil vá acabar bancando os amigos dele.        


Humberto:
  Não acha, por conta disso, a classe musical muito desmobilizada?  Por que não estamos aproveitando essas discussões sobre lei de audiovisual e botando a boca no mundo pra criminalizar o jabá?

Thomas:
  Nunca me senti parte de uma “classe musical”.  Os que vivem de música, pelo menos os que conheço, não querem saber de mobilização.  Ou estão fazendo muito sucesso (e cagando para o jabá) ou estão preocupados demais em sobreviver.     


Humberto:
  O que de mais legal você tem ouvido?

Thomas:
  Estou amarradão no último disco do Beck, o Sea Changes.  O disco é de 2002, mas só descobri agora.  É lento, com arranjos de orquestra dignos de Jimmy Webb, e ele canta pacas.    


Humberto:
  Qual seu time aqui no Rio, se é que você tem um?

Thomas:
  Sou palmeirense.  Simpatizo com o Flamengo por causa da era Zico.


PS:  Humberto:  Grande abraço do Humberto Effe.

Thomas:
  Um forte abraço, Humberto.  Vamos tomar um chope um dia desses.



Originalmente publicado em RP #61



 
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