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Matérias: Joy Division / Marco Antonio Bart
Segunda-feira, 26 de Junho de 2006 (1:44:50)



A trajetória do New Order já seria notável por si só. Mas nunca se pode esquecer que o quarteto de Manchester nasceu das cinzas de outro grupo tão ou mais importante: o Joy Division, talvez o sinônimo máximo de "cult-band" em todo o mundo.
Por Marco Antonio Bart


Joy Division/New Order
A cerimônia sem fim
Marco Antonio Bart

O JD foi não só o grupo britânico mais importante a fazer a ponte entre o punk e o pós-punk; também influenciou uma cacetada de bandas, mesmo só tendo gravado dois álbuns, pelo mundo afora (incluindo diversos grupos brasileiros) e virou lenda, em 1980, graças ao suicídio de seu vocalista Ian Curtis - uma tragédia que marcou toda uma geração. Ambas as bandas ajudaram a colocar a cidade de Manchester no mapa do rock. Sem o Joy Division, o rock de hoje teria outra cara; e sem o New Order, a música pop de hoje seria diferente.

Há história, com H maiúsculo, para contar sobre as duas bandas. Vamos a ela.


I - Anarquia nas ruas de Manchester

O marco zero na história do JD/NO é o dia 20 de julho de 1976. Nesta data, a turnê Anarchy in the UK, capitaneada pelos Sex Pistols, chegava a Manchester, depois de ter tido várias datas canceladas Reino Unido afora. O show dos Pistols, aberto por duas bandas locais (Slaughter & The Dogs e os Buzzcocks, estes últimos em sua primeira apresentação), reuniu em sua platéia os quatro membros do Joy Division, embora eles não soubessem que fariam história juntos.

Bernard (ou Barney) Sumner (ou Albrecht, ou Dicken) foi ao show com seu amigo de escola Peter Hook, e a energia dos Pistols no palco foi determinante para que eles, junto com seu colega Terry Mason, resolvessem formar uma banda. Bernard, que já andava dando uns trancos em uma guitarra, convenceu que Terry assumisse a bateria, enquanto Peter comprava um baixo (mesmo sem saber nada de música). A trinca começou a ensaiar, e logo puseram um anúncio convocando um vocalista. O primeiro e único sujeito a atender a convocação foi um certo Ian Curtis.

Curtis, que contava com vinte anos na época, era uma personalidade no mínimo complexa. Ele conjugava uma vida cotidiana um tanto prosaica (já era casado e trabalhava como operário em uma fábrica de tecidos) com uma insuspeita profundidade psicológica - que se refletia em seus escritos. Ian possuía um gosto musical bem mais apurado que seus futuros companheiros de banda: era tarado por Velvet Underground, Doors, Iggy Pop, Kraftwerk e David Bowie. Quando se reuniu com Bernard, Peter e Terry (já conhecia os três de vista, de tanto ir a shows), ele já estava tentando formar uma banda, sem muito sucesso.

Apesar da falta de perícia de Terry nas baquetas, a química entre ele e a dupla guitarra/baixo ficou evidente de cara. De cara também eles não se restringiram a covers: já foram logo fazendo as primeiras músicas, as quais ficaram todas sem registro. A amizade que Ian travou com os Buzzcocks foi fundamental para dar um maior gás na nascente banda, que ainda não tinha nome. Uma primeira sugestão (vinda de Richard Boon, empresário dos Buzzcocks) foi Stiff Kittens ("gatinhos duros") e não chegou a ser aceita pelos quartetos. Pouco depois do primeiro show - no dia 29 de maio de 1977, no Electric Circus de Manchester, junto com os Buzzcocks - o grupo se decidiu pelo nome de Warsaw, extraído da canção "Warsawa", de David Bowie.

Após a saída de Terry, outros dois fulanos ocuparam a bateria antes da chegada de Stephen Morris, que atendeu a um anúncio visto na vitrine de uma loja de instrumentos musicais. Stephen vinha da mesma cidade que Curtis, a pequena Macclesfield, satélite de Manchester. Com sua entrada, ficou claro que esta seria a formação definitiva para o Warsaw. E foi já com essa formação que o grupo registrou sua estréia em vinil, participando da coletânea Short Circuit, gravada ao vivo no Electric Circus em outubro de 77, e só lançada em 78. A música escolhida foi "At a Later Date".


II - A divisão da alegria ingressa na fábrica

Em dezembro de 77, o Warsaw gravou quatro canções para serem lançadas num EP, manufaturado e distribuído (precariamente em ambas atividades) pela própria banda. No entanto, antes do disquinho finalmente sair - e se chamaria An Ideal For Living - a banda mudaria seu nome para Joy Division, procurando evitar confusões com o grupo londrino Warsaw Pakt. O nome escolhido veio das infames "divisões da alegria" mantidas pelos nazistas nos campos de concentração, que eram casas onde as moças judias eram obrigadas a prostituir-se para os oficiais da SS. Seria a primeira de várias acusações levantadas contra a banda, que estaria supostamente fazendo elegias ao nazismo. Os membros do grupo nem se deram ao trabalho de responder...

Depois de fazerem seu primeiro show como JD (janeiro de 78), os quatro rapazes entraram em estúdio em maio, com a intenção de gravarem uma demo para seu primeiro álbum, uma vez que já existiam alguns selos (até mesmo a major RCA) interessados. O resultado das sessões foi um tanto decepcionante para o grupo, e a gravação acabou sendo arquivada. Mas não por muito tempo: as fitas gravadas emergiram depois como o legendário pirata Warsaw. No disco (hoje, disponível em CD), pode se ouvir a clara evolução do grupo, desde sua formação: do punk rock cru e acelerado de 77, o quarteto já havia avançado para um som mais climático e menos óbvio, ainda que necessitando de polimento. As letras de Curtis discorriam sobre solidão e abismos existenciais, enquanto o trio instrumental descia o couro nos arranjos. Músicas como "Leaders of Men", "No Love Lost", "Warsaw" e "Transmission" (esta última, regravada) surgiriam anos mais tarde em discos oficiais do grupo.

Dessa época data o início da associação do grupo com Tony Wilson, que então era um produtor de TV e empresário de shows em Manchester, mas que acalentava planos de manter sua própria gravadora. O sonho de Wilson se concretizou com a fundação da Factory, junto a Peter Saville (autor das capas dos discos do Joy Division e New Order), Martin Hannett (produtor de todos os discos do JD) e Rob Gretton (road manager do New Order até hoje). O primeiro disco da Factory, o EP A Factory Sample, contém duas faixas do JD: "Digital" e "Glass", já produzidas por Hannett. Depois que contatos com a RCA e com a Warner não deram em nada, o quarteto resolveu ficar em Manchester mesmo e lançar seus discos pela Factory.

Em janeiro de 79, as coisas finalmente pareciam começar a andar para a banda - eles já estavam conseguindo se apresentar em Londres, Ian Curtis ocupou a capa do jornal londrino NME e em março os quatro abriram um show do The Cure. Não que tudo fossem rosas: também nessa época, Curtis foi diagnosticado como epiléptico, o que o obrigou a depender de fortes medicamentos. Suas experiências com os ataques da moléstia o inspiraram a escrever a letra de "She's Lost Control", uma das mais memoráveis músicas do JD.

Maio de 79 viu o lançamento de Unknown Pleasures, o primeiro álbum do Joy Division. Junto a Martin Hannett, a banda fez com que seu som simplesmente não se parecesse com nada já escutado. Hannett jogou o baixo (agudo e melódico) e a bateria (cheia de viradas e eco) à frente da mixagem, deixando as guitarras no fundo, como uma massa de distorção e reverberação. No meio de tudo, vinha a voz impressionante de Curtis, descortinando um panorama de desolação e desordem mental. As músicas que vinha sendo buriladas nos shows ("Disorder", "Shadowplay", "Interzone", "Wilderness") ficaram irreconhecíveis - e magníficas. O quarteto dava vários passos adiante das limitações do punk rock, refogando influências tanto dos mais importantes artistas "proto-punks" (Lou Reed, Stooges, MC5) quanto dos sons experimentais que Curtis ouvia (Kraftwerk, Can, Bowie fase Low e Heroes). O disco foi instantaneamente glorificado pela crítica, e logo o JD era a sensação da cena independente inglesa. Seus shows, agora com a banda mais afiada, se tornavam cada vez mais concorridos. Apesar de tudo, o grupo corria da superexposição como o diabo da cruz; dessa época vêm os informes sobre a "intratabilidade" dos quatro em relação à imprensa.


III - Mais perto, mais perto

Em setembro de 79 o grupo apareceria na TV para toda a Grã-Bretanha pela primeira e única vez (tocando "Transmission" e "She's Lost Control" no canal 2 da BBC), e em outubro partiriam para uma bem-sucedida turnê pelas ilhas britânicas com os Buzzcocks. Isso aumentaria ainda mais o bochicho em torno da banda, que partiria para sua primeira turnê pelo continente europeu em janeiro de 80. Na volta para casa, o culto ao grupo já tinha crescido ao ponto do aparecimento de dezenas de piratas, gravados de seus shows. Em março, os quatro entrariam em estúdio para registrar as canções do seu segundo álbum. As coisas corriam bem para a banda, mas não para Ian. O cantor teve sua epilepsia agravada, ao ponto de sofrer um ataque em pleno palco, durante um show em Londres, em abril de 80. Dias mais tarde, foi internado após uma overdose de medicamentos. O ritmo intenso de trabalho do grupo, diversos problemas pessoais e a obrigação de depender de remédios deixaram Ian muito estressado, de forma que tiveram que adiar vários compromissos ao vivo. Só que o bonde não podia parar: o JD já estava com sua primeira excursão à América agendada, para o dia 20 de maio de 1980.

Além disso, voltaram ao horizonte do quarteto as conversações com a Warner Bros. No dia 2 de maio, o grupo faria sua última apresentação ao vivo (ainda que não soubessem disso), em Birmingham. No dia 18 de maio, Curtis fez com que sua esposa Deborah fosse dormir na casa dos pais, e partiu ele mesmo para a casa de seus pais. Ele passou a tarde ouvindo Iggy Pop e à noite assistiu ao filme Strosek, de Werner Herzog. Depois recolheu-se. Foi encontrado enforcado com um lençol, em seu quarto. Ian faria 24 anos em dois meses; e deixou além da esposa uma filhinha. Numa nota sobre a cama, uma frase: "Não posso suportar mais".

Diversas razões podem ser apresentadas para um ato tão extremo. Ian vivia nos últimos meses de sua vida uma profunda depressão, agravada pelo estafante trabalho com o JD (ele chegou a cogitar de desistir do grupo, o que talvez salvasse sua vida). No entanto, determinante para o suicídio de Ian foi a crise conjugal que ele e Deborah enfrentavam. O vocalista mantinha um relacionamento com uma jovem belga chamada Annik Honoré, a quem conheceu durante a turnê européia do JD e que passou a acompanhá-lo todo o tempo. Ian torturava-se de culpa por estar traindo Deborah, mas ao mesmo tempo não conseguia abandoná-la. A dilacerante letra de "Love Will Tear Us Apart" reflete bem o estado de espírito do cantor.

Em junho de 80, finalmente sairia Closer, o sucessor de Unknown Pleasures - e, que devido à tragédia que se abateu sobre a banda, tornou-se um dos álbuns mais ansiosamente aguardados de todos os tempos. Mais uma vez produzido por Martin Hannett, o grupo deixou seu som ficar ainda mais desolado e esparso. Sintetizadores e ritmos eletrônicos ("The Eternal", "Decades", "Isolation") deram as caras, em meio à peculiar barragem sonora produzida pelo trio de instrumentistas (como em "Atrocity Exibition" ou "Colony"). O suicídio de Ian contribuiu para deixar o tom geral do disco ainda mais "down" e depressivo. O que não impediu que o grupo atingisse pela primeira vez o Top Ten inglês com Closer, e que o single de "Love Will Tear Us Apart" batesse na 13ª posição.

Já em 1981, a Factory lançaria o LP duplo Still, que compilava sobras de estúdio do quarteto num disco e no outro editava o agora mitológico concerto de 2/5/1980, o último do grupo. A intenção da gravadora foi barrar a fome dos piratas, que tinha atingido níveis estratosféricos após a morte de Curtis. Em 1988, a coletânea Substance 1977-1980 também reunia alguns lados-B e faixas raras, um repertório revisado em 95 com outra coletânea (Permanent, que incluía uma versão remix para "Love Will Tear Us Apart"). Mas todo o legado do Joy Division só teria seu "sarcófago" definitivo com o lançamento do box quádruplo Heart and Soul - oitenta faixas, juntando praticamente tudo o que o grupo registrou.

A história do JD acaba aqui. Mas há outra história que se inicia pouco depois da morte de Ian, mais exatamente no dia 29 de julho de 1980. Foi quando um trio de instrumentistas, remanescentes de um grupo que havia há pouco ficado sem vocalista, subiu ao palco pela primeira vez. O nome do novo grupo era New Order...


Leia NEW ORDER


OP em RP#37

















Ian com a filha...

...Natalie Curtis

 
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