Bem vindo a portal rock press 21 anos!
  Olá Anônimo!
Busca  
matérias: Waltel Branco
Segunda-feira, 6 de Julho de 2015 (16:46:59)


O mestre do soul brasileiro, o principal maestro de Henry Mancini, o romântico de Cuba





Em uma tarde chuvosa em Curitiba, a jornalista Juana Dobro visitou o maestro Waltel Branco. Em um bate papo rápido e descontraído, o célebre "baiano da baia de Paranaguá" contou um pouco de sua vida, suas idas e vindas, Henry Mancini, tv Globo, bossa nova, músicos de hoje em dia e por aí em diante. Confira a seguir as impressões deste encontro.

 

WALTEL BRANCO

Hoje Vai Ter Waltel

por Juana Dobro 

Em poucas notas me sensibilizou. Depois de um tempo eu voltei a sentar no sofá da casa do maestro Waltel. Numa tarde chuvosa de domingo em Curitiba, com filha no colo, gravador e caneta em uma mão; chave do carro, bolsa e câmera fotográfica na outra. Eu já o conhecia bem, já o vira tocar e palestrar, uma vez o encontrei numa lanchonete (inusitado!) e outra no restaurante chinês, quando apresentei-o à minha mãe. Mas sempre fico perplexa. Sou fã mesmo e me contenho para não abusar dos superlativos. Ao ouví-lo, abstraio a música para me concentrar no artista que a determina. Não sei o que é maior, se é seu som ou sua personalidade. Waltel transcende a arte, não é moderno nem antigo. Possui uma visão global e integradora da música, em toda sua plenitude. A emoção é sua receita.

É difícil acreditar que tudo é verdade, a começar pelos cabelos branquinhos no estilo Black Power, pele escura e ascendência alemã. Depois vem sua longa história que sem o gravador eu não conseguiria anotar: cada músico e cada personagem que compuseram essa obra biográfica. Não são apenas oito décadas de vida, mas um milênio de aventuras e experiências. Mais de 400 obras para violão, do choro à música dodecafônica; Tocou com Strawinski. Foi arranjador, instrumentista, produtor e se apresentou com gente do calibre de: Radamés Gnatalli, Tom Jobim, Johnny Mathis, Freddie Cole, Tim Maia, Gal Costa, Caetano Veloso, Françoise Hardy, Frank Rossolino, Nana Vasconcelos, Kenneth Garret, Max Bennet e tantos outros. Só para a Globo, fez incontáveis arranjos e composições para novelas, shows, seriados e jingles. Estudou com Villa Lobos, Sal Salvador e Segóvia; foi professor de Baden Powell e Roberto Menescal; ao lado de João Gilberto, Waltel é um dos pais da Bossa Nova e também do Jazz Fusion; aliás, arranjou todo o primeiro disco de João Gilberto, “Chega de Saudade”. Fez músicas com Pixinguinha e Jacob do Bandolim; elogiado por Astor Piazzola, compôs “Adios Noniño”. Tocou em um trio com Nat King Cole e também com Dizzy Gillespie; com Chico Hamilton, gravou o primeiro disco de jazz rock, pela lendária Sun Records. Convidado por Fidel Castro, trabalhou com afinco na "reformulação" da música de Cuba e a convite do Rei Juan Carlos de Bourbon, para quem tocou, passou 5 anos na Espanha; trouxe ao Brasil as primeiras aulas de música cubana e indiana. Lançou nomes de expressão nacional, sendo arranjador até mesmo do rei Roberto Carlos, além de Cazuza, Elis Regina e outros. Lecionou em universidades; escreveu no jornal O Globo, ao lado de Stanislaw Ponte Preta. Compôs choros, música erudita, dodecafônica, samba, jazz, rock, xaxado, baião, tango, hinos, mantras, trilhas e histórias. Participou (gravou, dirigiu, arranjou, tocou) em 1000 discos fundamentais da música brasileira desde a década de 50. Não obstante, foi consultor particular dos músicos do Wrecking Crew (apresentou o samba para Carol Kaye, Tommy Tedesco e Earl Palmer, entre outros). Ao lado de Quincy Jones (que também era seu cunhado), trabalhou para Henry Mancini e Lalo Schifrin, com antológicas canções para o cinema. Fez todo o arranjo para a trilha sonora dos filmes da “Pantera Cor de Rosa”, o que deu samba e transformou-se no cultuado disco “Mancini Também é Samba”.

Sua humildade surpreende, o faz passar despercebido. O Maestro circula de ônibus pela cidade! Pasmei. Manoel Neto, compilador do livro “A Desconstrução da Música Paranaense”, que estava sentado ao lado de Waltel, foi quem nos apresentou há cerca de cinco anos*. Sempre por perto, o pesquisador se preocupa em resgatar essa história toda. Aí eu me pergunto: “Como não o é reconhecido?” Waltel acha graça. Conta que trabalhar nos bastidores não dá fama nem grana. Reclama das dificuldades que vem passando nas Sociedades Arrecadadoras – ECAD. “As leis são invisíveis! Eu instruo os novos músicos a exigirem seus direitos”.

Retratá-lo requer sempre amplo painel. Suas idéias devem ficar para sempre no reino da vanguarda, se é que não pertencem eternamente ao domínio do ideal. Popular e folclórico, defende a identidade brasileira. Conta triste sobre o rumo que a Bossa Nova tomou no país do samba, tornando-se um movimento econômico, não musical.

Depois de uma maravilhosa conversa, eu estava ainda mais encantada (tem assunto para mais de um livro). Orgulhoso, Waltel me trouxe um exemplar de “A Obra para Violão de Waltel Branco”, um belo songbook compilado por Claudio Menandro e Álvaro Colaço. Um de seus poucos registros "oficiais".

Já me despedindo perguntei-lhe sobre a música atual. (risos) ”Não se fazem mais Bachs nem Debussys. Hoje, o sucesso é associado à produção e à política.” E o que falta? “MÚSICO”.

Fui embora, ainda chovia. Corri para o carro para que não nos molhássemos. Waltel abana da janela.

 

Descobrindo Waltel - documentario de Alessandro Gamo (2005)


tema de "A Pantera Cor de Rosa" 

do disco "Mancini Também é Samba" (Mocambo, 1966)


Peter Gunn (Mancini)

do disco "Mancini Também é Samba" (Mocambo, 1966)


Meu Balanço (1972)


Popcorn With A Feeling (Tema De Zorra)


Assim na Terra Como no Céu: Tema de Suspense (1970) 


Tim Maia - Sossego (1972)


Tim Maia - Pais e Filhos (1972)


Betinho - Você Tem Tempo (Chico Anysio/Arnaud Rodrigues)

*violão e arranjo de Waltel


Astor Piazzolla - Adios Noniño

*composição de Waltel


Quincy Jones - Soul Bossa Nova (1969)

*Nesta música, Waltel tocou violão e trabalhou os arranjos para o então cunhado


Henry Mancini - The Party (1965)

*composição e arranjo de Waltel para os estúdios Henry Mancini. trilha do filme "Um Convidado Bem Trapalhão"




 
 Links relacionados 
· Mais sobre Rock Press
· Notícias por admin


As notícias mais lidas sobre Rock Press:
Tudo que você queria saber sobre o U2


 Opções 

 Imprimir Imprimir


Tópicos relacionados


Desculpe, comentários não estão disponíveis para esta notícia.

Todos os Direitos Reservados Portal Rock Press ©

PHP-Nuke Copyright © 2005 by Francisco Burzi. This is free software, and you may redistribute it under the GPL. PHP-Nuke comes with absolutely no warranty, for details, see the license.