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entrevistas: Não Conformismo
Terça-feira, 6 de Janeiro de 2015 (22:03:51)

 

Não Conformismo: autencidade a toda prova




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+ entrevista

NÃO CONFORMISMO 

Por Olga Costa e Adriano Stevenson


Não tem como separar Fred da sua banda Não Conformismo. Algumas ideias e ideais se misturam com o perfil de ambos. Fred, além de vocal, é colecionador de vinil, desde muito. Por conta dessa paixão criou o selo Atitude Consciente Records para lançar material da NC em todos os formatos possíveis. Recentemente, com o selo Microfonia, lançou o compacto 7” - Autoflagelo da Humanidade. Prestes a completar 44 anos, este cidadão residente do município de Macaé (RJ) criou um mundo onde a autenticidade impera, acima de todas as regras impostas. Nada fácil, não é mesmo? Sendo assim, Não Conformismo torna-se, até mesmo sem querer, a sua mais completa tradução!


O fato de ser colecionador de vinil te levou a ter um selo? Ou ter um selo independe de ser um colecionador?

Não, o selo existe por eu ser colecionador. Eu já não tinha tanta facilidade de efetuar trocas. O vinil me possibilitou um leque maior de opções de trocas. Eu escrevia pros caras e dizia que tinha um CD... eu tenho correspondentes que vendem CDs a um euro e estão encalhados, mas tem LPs a preço de 10 euros e vendem. Eu não penso primeiro no retorno financeiro. Tudo o que eu faço é de coração. Eu só venho acumulando dívidas, mas eu prefiro fazer aquilo no que acredito. É uma possibilidade que tenho de aumentar minha coleção com trocas. É uma certa vantagem fazer com que esse tipo de matéria chegue ao público restrito, infelizmente. Porque não fica aquela coisa supérflua. O CD, o cara escuta, depois coloca no computador, do computador para o MP3, do MP3 para um pendrive, que vai pra debaixo do armário! O vinil o cara vai tomar conta! Eu digo por mim, que tenho minha coleção, limpo, lavo e escuto meus discos. No início, quando começou o boom do CD, o vinil era contra aquilo. Hoje, passou a ser uma elitização desnecessária. O vinil nunca saiu de moda. Quem curte vinil nunca deixou de colocá-lo debaixo do braço e atravessou a cidade pra ouvir junto com um amigo. Hoje querem transformar quem anda com um vinil debaixo do braço em marciano! Não existe isso! Vinil é uma coisa comum, nunca deixou de ser. Sumiu um pouco das prateleiras e tornou-se mais caro devido ao sucesso do CD. Prefiro que meu trabalho seja propagado entre 10 pessoas que curtam o vinil, do que em mil que vão colocar em qualquer lugar e esquecer que ele existe.


Por que lançar em vinil?

Sou suspeito em falar porque sou colecionador. O vinil é algo assim: quem pega é alguém que valoriza a arte. Acho que o CD é um ótimo cartão de visita pra banda, para divulgar, mas o vinil é perpétuo. Quem compra é quem ama, não só a matéria, mas também irá prestar atenção na arte, na música que se faz, que, ao meu ver, a maioria das pessoas apreciadoras de CD não presta a atenção devida. E a arte do vinil é aquilo que você pode realmente apreciar e o CD te resume a algo muito superficial. Copiando o Discarga Violenta, o CD veio para facilitar o consumismo. É muito fácil comprar CD, vinil já fica um pouco mais restrito, e eu respeito essa restrição.


Existe, atualmente, apenas uma fábrica de vinil no país. Isso dificulta a manufatura do produto?

Vou ser curto e grosso na resposta: eu tenho meios de fazer o disco de vinil na República Tcheca, mas e o frete para mandar de volta pro Brasil? É caro! O disco fabricado aqui no Brasil não deve em nada ao mais top lá de fora! Então, acho que vale a pena. 

 

Não Conformismo tem na discografia um LP chamado Basta! e acabou de lançar o Autoflagelo da Humanidade em compacto. Conte a sua história.

Não Conformismo surgiu em 1993, gravou uma fita K7 em 94 chamada Caminhos por Liberdade que saiu em vinil em 2004, por uma gravadora de metal, que tinha uma subdivisão dedicada ao punk, pegou a fita da qual se perderam duas músicas, Soldado Raso e um cover do Minor Threat, e lançou um compacto com as restantes. Um dia, ele chegou lá em casa e disse: “Trouxe pra você!” O compacto pronto, sem pedir autorização, nem nada, porque eu acredito que a arte tem que ser propagada. Fizemos um show para o lançamento desse compacto. Nesse show, apareceu um amigo nosso, Sidarta, que era um salva-vida, curtia som e era  baterista, que, para a banda não acabar, disse que entrava na banda. A gente aceitou. O Autoflagelo tem uma história bem particular. Nós fizemos cinco músicas, regravamos Descamisados, que é uma música de 93, a primeira da banda, fizemos uma versão mais moderna, vamos dizer assim. Gravamos tudo ao vivo, e todos os donos de estúdio que gravamos até hoje dizem a mesma coisa: “vocês são a banda mais fácil que tem para gravar!”. Se o estúdio depender de vocês, fecha! (risos). O NC vai ser sempre assim. No dia que perder essa magia, perdeu a graça da parada. Não tem uma história particular, exceto que perdemos a primeira gravação. Porra, não tinha saco pra voltar e gravar tudo de novo! Só que há males que vêm para o bem! A regravação saiu muito melhor que a primeira.


Qual a diferença entre o Basta! e o Autoflagelo da Humanidade?

Se existir alguma diferença... o Autoflagelo teve mais tempo para ser elaborado. Se você prestar atenção, irá notar que o Basta! tem falhas. A verdadeira história da NC é a autenticidade. Isso é o que a gente prega. Cantamos o que vem do coração. No dia que isso não for natural a banda vai acabar!


O que te levou a estar onde você está hoje?

Comecei a ouvir rock muito cedo, e minha maior influência foi Kiss. Eu os vi na Tv e disse: é isso! Comecei a comprar meus primeiros discos, matava aula... tem um disco que me chamou a atenção e que tenho até hoje na minha coleção foi o Highway to Hell, do AC/DC. Uma vez, eu estava indo para a praia, no ponto do ônibus, encontrei Deko, que me falou que estava indo ensaiar e que a banda estava sem vocal. Eu tinha 14 anos de idade. O meu teste foi um cover do SOD e os caras falaram: “Passou!” Pouco tempo depois, aprendi quatro músicas, gravei uma demo chamada Destruição Metálica, que foi relançado em CD esse ano. Os discos que foram primordiais para a minha formação: Grito Suburbano e Crucificados pelo Sistema (RDP). Mas o disco que chegou e falou assim: “Essa é sua vida” foi o EP Rajoitettu Ydinsota do Rattus da Finlândia, que foi lançado pela Punk Rock Discos, que comprei a primeira prensagem em 1982/83.


Você ainda tem esse disco?

Tenho. Não toco, não empresto, tenho medo de arranhar! (risos). Em 2001, eu descobri o endereço de e-mail do baterista da Rattus, escrevi pra ele, dizendo que o EP Rajoitettu Ydinsota tinha mudado minha vida. Existe o Fred antes e depois desse disco. E eu pensei: “Esse cara nunca vai me responder, porra!”. O cara respondeu e  disse  que  as  minhas  palavras  tinham tocado o coração e me mandou fotos da excursão do EP! O Fred que sou hoje é a soma desses discos, sem esquecer o Fabião do Olho Seco e o livro Veias Abertas da América Latina de Eduardo Galeano. O que tenho na minha mesa de cabeceira hoje é Nada de Novo no Front de Erick Maria Remarque. É aquilo que o Olho Seco falava em Botas, Fuzis e Capacetes.


Você escreve apenas no momento em que vai colocar a melodia ou você escreve sempre?

Eu escrevo sempre e já passo uma melodia que tenho na cabeça para o resto da banda. A música Fantoche do Basta! Eu escrevi direcionada para uma pessoa, enquanto ia de casa pro trabalho e do trabalho pra casa. Coincidência ou não, Marlon, o guitarrista, chegou com uma base que encaixava exatamente no que eu pensava. Foi superelogiada pela Maximum Rock and Roll. Aliás, a banda ficou em primeiro lugar durante o mês de março de 2012 na rádio Equalizing X Distort do Canadá, com as músicas Justa Vingança e Instantes Covardes, e eles não sabiam o que eu estava cantando. Depois, traduzi e eles passaram a gostar ainda mais da banda!

 

E Arte da Guerra?

A letra não é minha. Fiz questão de deixar ela na íntegra, não mudar nada. É de  um amigo meu,  chamado José Aldo, que escreveu um livro de ficção chamado O Reino das Cinzas, que hoje está em sétimo lugar nas vendas em Portugal. Ele participou da banda Amnésia Moral, banda precursora de punk/hardcore na região dos lagos, do Estado do Rio.


Os discos que você citou como primordiais na sua formação como artista, também foram importantes quanto a sua forma de se expressar?

Com certeza! Antes de escutar esses discos, eu era um cara limitado a ouvir bandas de metal. Quando eu ouvi os discos que citei, percebi que o mundo era muito mais que espadas e dragões! Foram primordiais, não só na minha formação como artista, como membro da NC, mas também como homem.


Quem, atualmente, você cita como letrista?

Acho que tudo tem seu tempo, mas gostaria muito de ter 15 anos com a cabeça que tenho hoje, para absorver certas coisas, como por exemplo: Alucinação de Belchior. Queria muito ter absorvido esse disco com 15 anos de idade. Além de Belchior eu cito Zé Ramalho. E na parada punk: Ariel, Fabio e Jello Biafra.

 

O que você pode falar sobre a cena hardcore de Macaé?

Em primeiro lugar, eu não acredito na palavra cena. O hardcore que sempre foi uma coisa contra o capitalismo, o mainstream, hoje é parte disso. Jamais irei moldar o meu pensamento para poder participar de cena X ou cena Y. Eu faço a minha parte, que é lançar meus discos, acreditar e escrever e compactuar com pessoas que tenham a mesma linha de pensamento que eu tenho. Não faço parte de cena porque não vou fazer pose, nem tipo (isso eu respondo pelo NC). Se quiser nos convidar para participar de algum show, beleza! Se não quiser, azar ou sorte sua. Acho que é até sorte porque eu falo a verdade e já queimei filme de muita gente falando a verdade e vou continuar falando! A verdadeira consciência do homem está no travesseiro. Boto minha cabeça no travesseiro tranquilo, sabendo que amanhã ninguém vai me cobrar nada! Tudo o que eu faço com o meu selo, as trocas que são para aumentar minha coleção, não minto, mas eu não vou lançar uma banda que eu não acredito apenas pelo fato de vender bem. Prefiro ficar com um encalho do que é verdadeiro, do que um falso que vende bastante!


 

+ resenha

NÃO CONFORMISMO 

Autoflagelo Da Humanidade Ep 7”  

Vinil 2014 (RJ) 


O baterista da banda Rotten Flies (PB), ao ser perguntado sobre a união da cena local, disse certa feita: “aqui não tem união de porra nenhuma”. Essa frase define muito bem a letra de Cena de Merda. A raiva contida nas letras do Não Conformismo está estampada em todas as faixas, desde Autoflagelo da Humanidade (dizimando corpo e alma/e ainda vai perguntar o porque!), passando por Pobre Diabo (seu conformismo alimenta a fogueira), e Raiva Demais: não perca a capacidade de se indignar! A indignação é o primeiro passo para não se render as regras ditadas pelo sistema. O disquinho vermelho (sim!), termina com Descamisados, que fala do acontecido no governo Collor. Além da fúria escrita e verbal emanada por Fred nos vocais, NC conta com Marlon (guitarra), Alex (guitarra), Felipe (guitarra) e Sidata (bateria). Depois de ouvir esse EP (lançado graças a parceria do Atitude Consciente Records com o selo Microfonia) é impossível não questionar, ou pelo menos, não parar um pouco pra observar o que nos rodeia. Por Olga Costa


Matéria originalmente publicada em Microfonia 

 



 
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