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Quarta-feira, 26 de Novembro de 2014 (23:26:01)


"Gravar fita" e "baixar mp3": a perda da dimensão artesanal no consumo de música





"GRAVAR FITA" E "BAIXAR MP3"

A perda da dimensão artesanal no consumo de música

Por Raphael Cruz

 

Vivi em uma época na qual se gravava seu CD favorito em uma fita K7. Era um formato bem mais econômico do que o CD. Este se massificava na proporção do declínio de lançamentos fonográficos no formato LP.

“Gravar uma fita”, como dizíamos, era um verdadeiro ritual. Além do equipamento de som, você precisava do CD que ia gravar na fita. Era necessário usar a função "pause" quando a música escolhida encerrava-se e uma outra, que você não queria gravar, iniciava-se. Além de manusear esses apetrechos técnicos, o ato de gravar era um exercício de subjetividade. Fazia-se a seleção das músicas que iam ficar no lado A e no Lado B da fita. A sequência das canções era algo muito pessoal. Para esse ritual, exigia-se atenção aos mínimos detalhes e dispêndio de tempo. O custo de uma fita mal gravada era uma audição precária. Ao final era criado um objeto único. Especial não por seu formato material, facilmente adquirido em qualquer loja, mas por conter ali os gostos e referências de quem gravou a fita, um pedaço de sua alma.

Vivi também a época da mp3. Foi uma oportunidade de escutar todo tipo de música de todo tipo de lugar pagando apenas o custo da conexão à internet. Isso causou um grande impacto no hábito de consumo de quem havia se acostumado a comprar ou alugar CDs e gravar fitas. Você não precisava sair de casa nem usar dinheiro de papel para pagar por um disco novo. Ele simplesmente estava ali, ao alcance de um clique. Em termos quantitativos, nunca havia escutado tantas bandas e discos diferentes em pouco tempo. Em termos de qualidade sonora as mp3 estavam bem abaixo do som de um CD ou de uma fita bem gravada. Foi introduzida uma velocidade muito maior no consumo de massas da música. Uma rapidez no circuito produção-distribuição-consumo não experimentada pelos produtores e consumidores de Lps, fitas e CDs.

O ato de "baixar música", como dizíamos, não possuía a mesma dimensão artesanal de "gravar fita". Você não podia pegar o arquivo mp3 com as mãos, tudo se resumia ao ato clínico do clique no mouse. Você não podia desenhar ou escrever no mp3 como fazia na capinha da caixa da fita. O ato de emprestar a fita ao colega da escola ou da rua não era o mesmo que digitar um link de um disco em mp3 numa sala de bate papo ou fórum da internet. Esta é uma experiência com a marca do distanciamento entre os corpos, uma interação a longa distância mediada por cliques e não por toques. Consumir, escutar e compartilhar música se tornou um ato mais virtual e muito menos artesanal.

Raphael Cruz é sociólogo e ainda grava fitas K7.



 
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