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entrevistas: 27 punks e suas bandas favoritas 2
Quarta-feira, 26 de Novembro de 2014 (5:07:03)

 

Supersônicos:  27 punks e suas bandas favoritas PARTE 2




GIGANTOR COM PAULO KOTZE

Paulo Kotze, 40 anos, é médico. Já andou de skate e surfou muito na vida. Amigo mais antigo de Renato Punk, foi baixista e vocalista da banda Pinheads. Atualmente, é professor de medicina na PUCPR e viaja o mundo dando aulas.

 

Você conheceu Gigantor quando os caras do Tube Screamers apresentaram para os Pinheads aquele split Down By Law/Gigantor? Foi identificação imediata? 

Sim, esse foi o primeiro contato meu com o Gigantor. Carlinhos me colocou o CD na mão, gravei, e pirei. Nesse split tinha uma das melhores músicas da minha vida, From The Mountains, um som que na época me chamou muita atenção. Me identifiquei de imediato principalmente por ser uma banda alemã, com raízes junto às minhas, e com um vocal de muita melodia e qualidade.

 

Essa influência deles de Weirdos, Ramones e Dickies é colossal né? A Alemanha tem bandas fantásticas mas Gigantor parece que poderia ser de qualquer outro país que seria a mesma coisa, concorda? Acha que parte disso se deve às letras do Jay Lansford que inclusive tocou nas bandas californianas Channel Three e Simpletones? 

Sem dúvida. A influência deles por Ramones, Dickies e Wildhearts é evidente demais. Eles são amigos dessas bandas. As referências ao Ramones são demais, como em Pizza Ramone e Barbara Ramone, Ramone Control, entre outras. Gigantor poderia ser uma banda americana facilmente. O vocal é simplesmente perfeito. Gagu não tem sotaque de gringo, tem um inglês perfeito, e a produção de TODOS os discos é sensacional. Jay Lansford deve ser americano, e por ter  tocado nessas bandas com certeza tinha experiência ao entrar pro Gigantor.

 

Como é essa história do Jenzz Gallmeyer colocar seu nome na lista de agradecimentos dos discos do Gigantor desde que vocês trocaram alguns emails nos primórdios da internet? Lembro uma vez que ele te enviou uma fita cassete com uma gravação do Apocalypse Dudes do Turbonegro. Ele comentou que era a melhor banda do mundo né...? E a gente nem conhecia. 

Sim, trocamos alguns emails nos primórdios da internet, nos anos 90. Fiz contato com ele, trocamos muitas informações, e ele me considerava um embaixador do Gigantor no Brasil. Ele é um cara mais velho, muito gente fina, e extremamente alternativo. Desde nossos primeiros contatos ele sempre me agradeceu nos cds. Por nada. Simplesmente por amar a banda. Coloquei muitas resenhas dos cds na amazon.com. E ele sempre valorizou isso. Renato Robert uma vez conversou com ele num show na Alemanha e disse que era meu amigo, o cara lembrou. Meus últimos contatos com ele foram via twitter agora há alguns meses. Uma vez eu tava tão desesperado para conseguir um cd novo deles, que pedi a ele uma gravação. Ele mandou um cassete preto com o gigantor 100! club no lado A e Turbonegro apocalypse dudes no lado B. Aquilo mexeu comigo. Turbonegro era um metal de muita qualidade, mas com veia punk evidente. Nunca tinhamos ouvido aquilo, e um som da Noruega daquele jeito me mostrou como há bandas boas que não conheciamos. Minha melhor história com o Gigantor é como consegui os cds. Muito caros e dificeis de achar. Meu irmão trouxe Atomic comprado numa loja alternativa na Alemanha. A maioria pedi pela amazon.com e morria com uma grana preta pelos impostos e alto valor dos cds. E os dois ultimos comprei na Tower Records em Tóquio, atravessei a cidade para ir lá comprar isso. Fiquei louco quando vi os cds e coloquei a mão neles. Eles são muito populares no Japão, o som deles encaixa muito com o país, e eles têm até algumas músicas em japonês. Conseguir os cds do Gigantor sempre foi uma tarefa árdua.

 

MARCELO VIEGAS COM ALL

Marcelo Viegas, 39 anos, é cientista social. Já teve loja de discos, selo independente e banda de stoner. Jornalista por opção, foi editor da revista CemporcentoSKATE de 2008 até 2012. Atualmente, edita livros de rock na Edições Ideal.


Como conheceu ALL? 

Eu conheci o Descendents primeiro, em 1989, através do vídeo “StreetsonFire”, da Santa Cruz. Como o acesso à música era muito difícil naquela época, eu só consegui uma gravação em cassete dois anos depois, quando coloquei minhas mãos na coletânea Somery. O ALL eu conheci em 1993, na casa do Fernando Jorge (ColdBeans), onde a gente se reunia antes/depois das sessões de skate na extinta pista de São Caetano, para tomar Mupy de maçã, ver vídeos de skate e escutar som. Eu já sabia que os caras do Descendents tinham uma outra banda, mas a primeira vez que vi/ouvi de fato foi nesse dia. BreakingThings estava ali jogado na bagunça de CDs do Fernando. “Original Me”, “Shreen”, “Cause”, “Guilty”... Foi paixão à primeira audição. 

 

Você acompanhou a banda em todos os shows naquela turnê brasileira no inicio dos anos 2000. Isso pode aniquilar a admiração que um fã tem pela banda ou pode catalisar ainda mais o apreço. 

Eu compartilho desse receio que você citou: o sujeito adora a banda, é super fã, e aí conhece os caras e eles são uns tremendos babacas. Acontece. Mas não aconteceu neste caso. Foi exatamente o contrário. Todos foram super atenciosos e gente fina. Trataram os fãs com muito respeito e atenção. Conversei com todos eles, e o tratamento foi além das minhas expectativas. Tenho boas lembranças de conversas com os quatro: o Bill Stevenson mostrando um álbum de fotografias da família dele (e escondendo uma foto “sensual” da esposa); a longa conversa com o Karl Alvarez num boteco perto do Hangar 110, tendo o prazer de tomar alguns cafés com o cara; o Stephen Egerton autografando os meus discos e contando pequenas histórias sobre cada um deles (ele disse que tem um carinho especial pelo ao vivo Hallraker, dos Descendents); e o Chad Price anotando o meu pedido pra tocar “Cause” na palma da mão, que veio precedido de um “Whynot?”. No show de Santos, o primeiro da curta tour, eu colei na banquinha de CDs e lá estava o monstro Bill. Meio sem jeito, mostrei minhas tatuagens do ALL pra ele, e ele sacou a câmera fotográfica e pediu para tirar uma foto. Depois de fotografar as duas, eu levantei um pouco mais a manga e mostrei a tattoo do Milo Goes to College, e ele ficou amarradão, deu pra ver o orgulho no rosto dele. Ele me disse uma parada que nunca vou esquecer: “É por causa de fãs como você que a gente mantém a banda até hoje”. Depois disso, ele apontou pra banquinha e disse que eu poderia escolher qualquer disco que eu não tivesse e levar de presente. Eu ganhei três CDs do Bill Stevenson neste dia: a coletânea do ALL (com faixas escolhidas pelos fãs e mixadas pela banda), o primeiro do Drag the River e o Local 1500 do Pavers.

 

Qual seu disco favorito? Vocalista favorito? E a música?

Meu disco favorito é o Pummel. Meu vocalista preferido... não tenho uma resposta definitiva pra essa: ao vivo prefiro o Chad Price (acho que ele consegue reproduzir melhor o que foi captado no estúdio), mas nos álbuns eu fico na dúvida entre ele e o Scott Reynolds. A minha música favorita é “Mary”, mas durante muitos anos foi “Cause”. A “Mary” ganhou a briga de uns anos pra cá, não sei explicar exatamente o motivo. É uma música que mexe muito comigo.

 

E o Filmage, documentário sobre o Descendents e o ALL... é bom?

É muito bom, mas eu sinceramente esperava mais. Talvez esteja dizendo isso por causa da cópia que foi exibida, com legenda em espanhol e português na mesma tela, o que me incomodou muito e prejudicou bastante a experiência. Além disso, a tradução para o português estava bem ruim e entrava com delay. As histórias retratadas são aquelas que todos nós meio que conhecemos, mas o legal mesmo é ver as imagens de época, registros caseiros, as entrevistas, as fotos... Gostei muito das histórias sobre o Frank Navetta (sobre a infância dele, o jeito de tocar e o "ódio de tudo"), assim como os detalhes sobre a vida (doença, relação difícil com o pai, mãe alcoólatra) do Bill Stevenson, mas achei superficial o tratamento à vida privada/acadêmica do Milo, e também esperava mais aprofundamento sobre os logos/artes da banda. Saí da sala de cinema felizão por ver uma das minhas bandas favoritas na tela grande, mas curiosamente saí com a sensação de que poderia ter sido melhor. Ainda assim, recomendo o documentário pra todo mundo! Assistam! Tem muita história boa, muita música boa e ainda tem o chororô do Dave Smalley, que tomava chicotada do Bill pra gravar a voz! Smalley comentou sobre a rigidez dos caras com o lance dos ensaios. O foco. Tipo, ele desceu do busão, foi comer no Alfredo´s e de lá direto pro ensaio!

 

Eles falam algo sobre como o Chad Price entrou na banda? Ele já tinha feito backing vocals no disco anterior ao Breaking Things. 

Não explica muito bem como eles conheceram o Chad, mas o Bill Stevenson comenta uma parada legal sobre o começo do Chad na banda: "O Milo ficou bom; o Chad chegou bom".


CAROL DOLL COM RUNAWAYS

Carol Küster, 33 anos, servidora pública, formada em Direito porém até hoje fazendo tudo errado. Tocou guitarra na banda indie Whir no final dos anos 90, e no começo do milênio foi baixista das bandas Havana e Os Incríveis Mun-Rás (punk nacional e garage). Depois de 10 anos de um longo e tenebroso inverno, voltou à ativa tocando guitarra na banda curitibana de punk rock The Jorgettes.

 

Você está com banda nova, Jorgettes, e o nome é uma homenagem à Joan Jett... certo?

Sim, é uma brincadeira com o nome da nossa musa inspiradora. O nome original era Queens of Noise, mas descobrimos que já existem outras bandas com este nome.


E o som é nessa linha das Runaways também?

Na verdade é mais na linha da Joan Jett & the Blackhearts, com bastante influência punk rock clássica, como Ramones, Clash, Dead Boys, etc. Mas não nos prendemos no estereótipo.


Tem algo de L7 ? Afinal L7 é Runaways versão anos 90... 

Tem sim, L7 é uma grande influência nossa, com seu som mais sujão e pesado. Elas chacoalharam o grunge dos anos 90, talvez sob esse aspecto seja mesmo uma versão metal das Runaways.


Interessante Cherry Bomb ter entrado no primeiro registro punk brasileiro, o LP A Revista Pop Apresenta o Punk Rock.

Cherry Bomb é icônica né, o primeiro grande sucesso das moças, também um dos pontapés iniciais da música punk do eixo LA-NY da segunda metadeda década de 70. O primeiro registro do Brasil não podia deixá-la de fora.


O que achou do filme sobre as Runaways?

Gostei bastante, importante para registrar a carreira meteórica da banda, que deve ser sempre divulgada e relembrada por ser a primeira banda séria de rock só mulheres. Achei bem fiel ao que realmente aconteceu. Foi baseado no livro escrito pela Cherie e aprovado pela Joan Jett, logo, se ela aprova... 


DEAD KENNEDYS COM ANDRÉ FOLLONI

André Folloni, tocou no Durango 95, Perverts, 2Bless, Circle of Trust e atualmente é baterista do Gamblers.


O que te pegou primeiro no Dead Kennedys? Sonoridade, músicas, letras, arte...? 

Primeira coisa que eu ouvi de DK foi o Plastic Surgery Disasters, comprei uma fita gravada na Megaphone do Omar.  Já de cara, a capa do disco me causou impacto. Depois a sonoridade foi arrebatadora, nunca tinha ouvido nada parecido - e até hoje nunca ouvi. Muito mais tarde fui entender as letras e isso completou meu fascínio e meu amor pela banda.

 

Possivelmente é a banda mais ideologicamente importante do punk americano, esbanjando ironia, cinismo, rejeitando dogmas...  

Acho que sim, que sob o ponto de vista político/anarquista/ideológico é a banda mais importante dos EUA. Há outras que têm temáticas parecidas, mas o símbolo DK é mais forte que qualquer outra.

 

Sinceramente acho que show do Dead Kennedys sem o Jello Biafra não vale a pena. 

Fui no show sem o Jello no Moinho em 2001. Conheci os caras no backstage, Peligro é um cara sensacional e o Klaus também foi bacana. O East Bay Ray estava meio ocupado. Depois o show foi estranho, momentos bons e momentos ruins, e o Ray foi meio boboca. Esses dias teve de novo e optei por não ir, acho que fiz bem, porque os videos que eu vi não me empolgaram.

 

O Jello Biafra and the Guantanamo School of Medicine foi uma bela surpresa para quem não esperava mais ver o Jello em tão grande forma nos anos 2010... 

Jello Biafra and the Guantanamo School of Medicine é uma bela surpresa. Dos antigos que voltaram com bandas novas e material novo, está ali com o OFF!, mas periga de eu gostar ainda mais do JBGSM. O show em Curitiba foi espetacular e o Jello no backstage foi muito amável e amigo. Quando entrei com o Mauricião ele estava em posição de yoga com as pernas pra cima na parede, mas se recompôs para conversar com a gente, tirar fotos e assinar meus compactos de spoken word dele.

 

Adquiri o livro que as Edições Ideal lançou recentemente: Dead Kennedys -  Fresh Fruit for Rotting Vegetables (os primeiros anos). O livro disseca o primeiro disco da banda e pelo pouco que folheei acho que teria que ser leitura obrigatoria de qualquer cidadão brasileiro dos 08 aos 80 anos. Já leu? 

Só as primeiras páginas em inglês que tem na internet. Preciso, onde voce comprou? 

Qualquer livraria tem. O de capa simples custa uns 39 reais e o de capa luxo uns R$60,00.


RAMONES COM DAVI PACOTE

Davi Pacote, 27 anos, passou por praticamente todas as bandas de punk rock do Rio Grande do Sul, hoje produtor musical, dono do Hill Valley Studio. Guitarrista da banda Os ToRto pelos últimos dez anos.


Como foi seu primeiro contato com os Ramones? Quando, onde, que disco? 

Clipe do “I Don't Wanna Grow Up” no programa Gás Total na mtv. Eu nem era muito fã de música antes disso, assistia a mtv só pra ver Beavis and Butthead, que eu lembre. Lembro até hoje exatamente a sensação de descobrir a pólvora, e o arrepio que deu ao ouvir essa música pela primeira vez, sem brincadeira. A partir dali minha vida deu uma guinada violenta, em um ano passei de ser o melhor aluno da sala de aula pra virar um dos piores hahaha, mas por outro lado comecei a tocar guitarra e daí partiu o rumo que levo a minha vida até hoje. Um fato irônico, eu tinha recém chegado da catequese à tarde quando vi o clipe nesse dia hahaha. Meu primeiro cd, o Adios Amigos, ganhei de presente de amigo secreto da catequese também huahuah. Infelizmente conheci a banda quando já estava prestes a acabar, e nunca vi ao vivo.

 

Se você pudesse escolher um ano pra ver um show deles qual ano escolheria?   

Acho que o show que eu mais queria ver seria o de Buenos Aires em 1996, acho o melhor show da melhor fase ao vivo do Ramones.

 

Em qual disco você escolheria ser uma mosca para estar dentro do estúdio vendo toda a barbaridade acontecer? 

Apesar de ser um dos discos que eu menos escuto, acho que o disco que eu acharia mais interessante de assistir a gravação seria o End of the Century. Sou fã do Phil Spector também, então ver esse time trabalhando junto seria foda!

 

Sei que você consegue perceber quais guitarras foram gravadas por Johnny e quais foram gravadas por Daniel Rey no Adios Amigos. Pra você é fácil perceber sendo um músico profissional? Você também consegue perceber as guitarras do Walter Lure no Sub. Jungle, Too Tough To Die e Animal Boy? Dee Dee não tocou baixo nos ultimos discos que ele participou. Você percebe a diferença de que foi outra pessoa que gravou? 

Com a experiência em estúdio gravando inúmeras bandas diferentes, começa a ser fácil notar as peculiaridades no jeito de cada músico tocar, assim como a gente nota o jeito e os trejeitos da fala de cada pessoa no dia a dia, saca? O Dee Dee e o Johnny são os mais fáceis de perceber, por tocarem de um jeito muito peculiar. Algumas músicas dos últimos discos dele na banda o Dee Dee tocou sim, mas a maioria delas não, do Animal Boy em diante.

 

SUICIDAL TENDENCIES COM ANDRÉ PUGLIESI

André Pugliesi, 35 anos, é jornalista e autor do blog jornalistademerda.wordpress.com e do stillcyco.wordpress.com


O que te pegou mais quando conheceu o Suicidal Tendencies? Quando e como foi esse contato inicial?

Meu primeiro contato foi com o VHS de "Lights, Camera... Revolution". Aluguei na Vídeo Show do Jardim Social. Eu era um jovem ainda, talvez 12 anos, por aí, ali por 1991. Fiquei muito impressionado pelo clipe de "Possessed to Skate", aquele lance meio banda, meio gangue, roupas próprias, bandana na cabeça, boné de aba virada. Galera destruindo a casa toda, pichação etc. Aliás, por muito tempo não me liguei que o ferinha do clipe era o Mike Muir.  

 

A sua ideia do blog Suicidal Maniac surgiu bem despretensiosa mas deu voz para quase toda a família S.T. inclusive os mais sumidos tipo Bob Heathcote. Para quem é fã da banda foram simplesmente maravilhosas aquelas suas descobertas. 

Tantos foram os comentários dos fãs, e até dos envolvidos, que, digamos, passei a ter noção da importância, ou do papel que o blog desempenhou. E o mais legal disso é que foi algo, como você disse, sem pretensão alguma. Eu gostava de pesquisar fotos antigas do Suicidal na internet e ir salvando numa pasta. Quase uma arqueologia da banda, fuçando em tudo. Quando vi, tinha um número grande de registros que coletei de sites obscuros. Na mesma época, quebrei o braço e fiquei de molho em casa. Sem ter o que fazer e sabendo da "inutilidade" de todo aquele material arquivado numa pasta qualquer, resolvi publicar num blog. Eis que certo dia encontrei o Louichi Mayorga naquela rede social de música que não lembro agora. Foi fantástico, pois junto com os outros dois integrantes do primeiro disco (Amery Smith e Grant Estes), ele havia sumido do mapa. E era o cara que eu tinha mais curiosidade, pelo nome chicano, a pose marrenta etc. Pedi uma entrevista e ele aceitou. Aí o blog decolou. Processo natural, fui atrás dos outros membros que foram ficando pelo caminho, para ouvir a história extra-oficial da banda que, afinal, é sempre o que mais interessa. Voltando ao início da conversa, fico muito feliz que tenha deixado um "legado" sobre minha banda predileta.  Muita gente considera o melhor site sobre o Suicidal e, sem falsa modéstia, concordo que alguns momentos foram bem legais mesmo. 


Deve ter sido surreal conhecer o Mayorga, a casa dele, o baixo amarelo, a vizinhança de Venice e ainda curtir uma festa no quintal do baixista original do Suicidal.  Acho que foi um presente para quem se dedicou com tanto carinho àquele blog. E isso é uma coisa que só o nosso querido punk rock/hardcore pode proporcionar...

Não boto muita fé em "destino", essas coisas, mas ter visitado o Mayorga talvez tenha sido mesmo obra de ALGO MAIOR, hehe. Foi absolutamente inusitado. Surreal. Extraordinário, enfim. Eu e o Abud saímos da festa na casa dele convencidos que tínhamos vividos um dos melhores dias da nossa vida. Não só por ser o Mayorga, mas por ter convivido num ambiente completamente diferente. Era a nossa primeira vez nos EUA e vimos algo REAL. Uma tarde num quintal de Venice, numa festa chicana, com banda, apinhada de LOCOS, uma vibe sensacional. E não parou por aí. No dia seguinte, fomos buscar a filha dele no colégio ouvindo ST no carro. Voltamos e ele abriu pra mim, talvez após décadas num armário trancado, álbuns e mais álbuns de fotos PRIVATE do ST. Gravamos entrevista no quintal. Foi absurdo. Dois anos depois voltei lá e fomos no show do Luicidal em Santa Mônica e ele me tratou como um "velho amigo". Sensacional. O fato de o punk rock/HC ser um lance mais, digamos, "despojado", sem "estrelas", certamente facilita essa aproximação. 

 

Não gostei do último show do Suicidal aqui em Curitiba no ano passado. Você acha que eles podiam ter acabado após o Suicidal For Life? Ou pelo menos ter dado um tempo?

Também não curti o show do ST. Fui num antes em NY e foi igualmente burocrático. O grupo tornou-se uma Disney de si mesmo. Um "parque temático" do Suicidal que você visita de vez em quando. E às vezes se diverte. O show que fui em 2007, no Circo Voador, foi excelente. Recentemente, entrou um batera novo com uma pegada mais direta, sem o firulismo do Eric Moore, o GORDAÇO QUE NÃO SUA. Isso deve ter melhorado a banda. Sobre ter parado ou acabado, eu sou da opinião que ninguém, além da própria pessoa, ou da banda, deve "decidir" a hora da aposentadoria. Se os caras curtem o palco ainda, ou precisam de grana (é justo), que sigam em frente. É claro que não é mais a mesma coisa, nada é. Mas não vejo problema em prosseguir. Seria muito legal uma reunião de dois ST, o de 1983 (Muir, Mayorga, Estes e Smith) e o década de 90 (Muir, George, Trujillo, Clark e Herrera). Seria igualmente um "parque temático", mas com mais diversão. Pena que é algo absolutamente improvável.

 

DEVO COM LULI MADSHADES SANT`ANA

Guilherme Sant'ana é arquiteto, atualmente vivendo no oeste australiano. Não tocou em nenhuma banda relevante (mas assistiu a quase todas). No verão de 1995 participou da lendária passagem dos Pinheads por Santa Bárbara do Oeste e Jundiaí.

 

Você conheceu o som do Devo ainda criança...

 

Sim, cara! Meu pai (sempre um grande apreciador dos conjuntos de rock) foi no inicio dos anos 80, morar no estado do Colorado, pra fazer um doutorado. Numa época em que havia somente um computador na cidade, o escritório do meu pai consistia basicamente em uma escrivaninha, um belo aparelho de som (amplificador, toca discos, gravador de rolo) e uma estante feita de tábuas e tijolos de concreto, repleta de discos de vinil.  Acostumado com os preços altos do Brasil, ele aproveitava pra comprar diversos discos a cada ida ao mercado (num estilo meio Mesbla). Sempre íamos junto (eu, minha mãe e minha irmã). Isso rolou incontáveis vezes. Lembro por exemplo dele comprando discos do Kiss, the Who, Queen (até porque havia essa relação com as capas, gigantes!)  Mas lembro bem de um dia, que ele escolheu um disco com uns astronautas na capa. Achei massa. Era o álbum Freedom of Choice. Eles estavam estourando na época com a música "Whip it". Ele (um gurí na época, né) passava as tardes estudando e ouvindo música, enquanto eu ficava desenhando em algum canto do carpê, minha mãe cuidando da casa...aquela vibe de uma cidade universitária dos 80's. Foi uma época muito boa da minha infância. E grande parte da minha formação musical, se deu nessa época.

 

Qual é seu disco favorito? E a música?

O disco é o mesmo Freedom of Choice, que considero perfeito. A música: “Girl U Want”. Ou melhor, “Planet Earth”!!!! Duas coisas merecem ser ditas sobre isso. O lance da cultura do vinil, que fazia com que decorássemos as músicas numa sequencia pré determinada. Acho isso interessante. E o booklet do vinil, era bem massa também. Era um catálogo de venda de produtos deles, meio falso, meio real. Aqueles com uma carta resposta. E uma curiosidade: mesmo sendo um disco fodíssimo, e cheio de linhas de baixo e batera e teclado sensacionais (coisas que a gente só percebe e compreende mais tarde) eu curtia essa música mesmo, pelo vocal robotizado no finalzinho. Por que imaginava que os caras eram meio astronautas, meio robôs.


Foi uma banda originalíssima e inigualável. E ainda tem histórias com o skate dos anos 70/80 como o video de Freedom Of Choice. Enfim, uma delicia em todos os aspectos!

Certamente! Como falamos antes, eram caras muito inventivos, e criativos. Acho muito legal esses personagens nos quais eles acabaram se transformando. Com relação ao clipe, acabei vendo bem depois esse do FOChoice. Mas sim, foda. Vibe rolerblade. Ótimo.


AGENT ORANGE COM GUILHERME PUPPI

Guilherme Munhoz é baixista do Redlightz, natural e residente em Curitiba (PR). Tocou nas bandas Coturno Bastardo, Rudinickyes e Circle Of Trust.


Aquele disco ao vivo deles (Real Live Sound) é uma pérola! Lembro que fiquei feliz quando vi que tinha uma versão deles de Police Truck.  É muito bom quando uma banda que você gosta faz cover de outra que você também ama! E Agent Orange tocando Dead Kennedys não era muito óbvio mas depois entendemos o quanto tem a ver...é? 

Esse álbum é perfeito, reúne toda a discografia deles, especialmente por ser uma fase em que tinha dois membros do Social Distortion. Police Truck tem tudo a ver, a guitarrinha ao melhor estilo surf music que governa o estilo Agent Orange, a pegada. E tem tudo a ver This Is Not The End como penúltima música hehehe, um clichê que pegou legal, pois a música é uma das minhas prediletas.

 

Quando eles lançaram o Virtually Indestructible, em 1996, eu achava que eles iriam finalmente estourar com alguma música mas não rolou. Mesmo eles sendo influência grande para as bandas que viraram mainstream na época tipo Offspring e outras...  

Eles vinham num ritmo de lançar algo bacana de anos em anos, e criou-se uma certa expectativa acerca de Virtually Indestructible. Mas a época era desfavorável, a tendência eram outros estilos como o hardcore, mesmo eles tendo sido inspiração para o que se seguiu a partir dali. Agent Orange sempre foi fiel ao seu estilo, sorte a nossa, basta ver aqueles que estão sempre colados neles, como a classic generation do skate californiano (Mike Palm é grande amigo dos Z-Boys), além é claro daqueles de North Shore.

 

Tenho uma teoria que é pura especulação mas o fato do Agent Orange ter processado o Offspring naquele caso de suposto plágio em Come Out and Play (que seria um plágio de Bloodstains) queimou o filme deles com pessoas influentes da cena punk emergente da época como a Epitaph Records, o Offspring, entre outros... Me parece que eles realmente se equivocaram, né? Afinal música parecida é mais do que natural no punk rock. 

Talvez isso realmente tenha se refletido no relacionamento e trouxe mais aborrecimento do que reconhecimento. Mas não acredito que tenha tido algum efeito sobre os fãs. O rock tem dessas coisas, interpretações que algumas vezes tendem parecer plágio, mas no fundo o que todos querem é fazer música boa, e aí ocorrem essas coicidências, especialmente o Agent Orange sendo uma influência.

 

SCREECHING WEASEL COM GUTO DE LEÃO

Guto de Leão: Jornalista, casado e pai de família. Músico fundador das bandas Magaivers, Stukas Lazy e Boneheads. Tocou também no Oskão. Atualmente é guitarrista e vocalista da banda de poppunk/bubblegum Os Ildefonsos. Costuma guardar suas economias para ver seus ídolos do rock na gringa!


Você é um grande fã de punk rock bubblegum. Quando conheceu o som do Screeching Weasel deve ter sido uma epifania...

Foi você quem me apresentou a banda, provavelmente no final de 1992, tenho até hoje a fitinha que você gravou pra mim. No lado A o My Brain Hurts e no lado B uma coletânea do Sham 69, incrível! Desde aquele momento este cassete só saía do toca-fitas do carro para ser regravada para algum amigo. Fiquei louco com a banda logo de cara: Guest List, Veronica Hates Me, Teenage Freakshow, Cindy's On Methadone e My Brain Hurts eram (e ainda são) algumas das minhas prediletas, este disco é repleto de hits. Logo na sequência alguém apareceu com o Wiggle, o Boogada (que embora seja piorzinho têm algumas pérolas) e de repente veio o sensacional Anthem For A New Tomorrow. Foi impossível não ficar louco com a banda! Foi por causa do Screeching Weasel, do Queers e, lógico, dos Ramones, que sempre toquei e sigo tocando em bandas de bubblegum - Stukas Lazy, Magaivers e Os Ildefonsos. 

 

Os considera subprodutos dos Ramones ou mais para bons filhos dos pais do punk?

Desde sempre fui fã dos Ramones, especialmente dos hits "pop" da banda (Sedated, Sheena, Touring, Boyfriend, Dangers Of Love, etc...), mas quando conheci o Screeching Weasel não relacionei o som da banda com o dos Ramones. Embora o que eu mais gostasse no som do SW fossem as melodias fáceis e refrões pegajosos, relacionava o som deles mais com os das bandas da California, como Bad Religion, NOFX e Pennywise, provavelmente por causa da bateria mais rápida, dos solos de guitarra, dos whohohohs e do vocal muitas vezes gritado. Bem depois é que comecei a relacionar muita coisa da banda com o som dos mestres do punk. E a partir deste momento comecei a perceber a importância que a banda tem, especialmente para os fãs mais jovens dos Ramones. Especialmente hoje, com os novos discos bem gravados, com excelentes melodias em músicas cada vez mais maduras, penso que eles são os legítimos filhotes dos pais do punk.  

 

Acha que depois do Anthem For A New Tomorrow eles deram uma decaída forte?

Discos como o My Brain Hurts e o Anthem For A New Tomorrow podem estar tranquilamente em alguma lista dos 10, talvez 20 maiores albuns punks da história, então é muito difícil manter a mesma pegada. Mas ao mesmo tempo não dá pra dizer que a banda deu uma decaída forte quando os álbuns que vieram na sequência são o How To Make Enemies and Irritate People e o Bark Like a Dog, dois discos muito bons. Entretanto, depois destes dois CDs veio a pior fase do SW, pouca coisa se salva do Television City Dream, EMO (horroroso até no nome) e o Teen Punks In Heat, álbuns realmente bem abaixo da média. Já a fase atual do Screeching Weasel, após o hiato de mais de uma década sem novos álbuns mostra um Ben Weasel cada vez melhor como compositor e também como cantor. Os dois discos mais recentes, First World Manifesto e o Carnival Of Schadenfreude (ambos de 2011), estão entre os melhores da banda. Outro disco que poderia figurar entre os melhores é o magnífico These Ones Are Bitter, disco solo do Ben Weasel, de 2007.

 

Qual é o seu disco favorito?

Alterna entre o My Brain Hurts e o Anthem For A New Tomorrow, com ligeira vantagem para o My Brain Hurts. 

 

Como é um show deles ao vivo?

Assisti a banda ao vivo ano passado (2013) no Irving Plaza, em NY. Minha desculpa para esta viagem foi justamente ver o Screeching Weasel ao vivo e realmente valeu a pena os anos de espera. Quase uma hora e meia de show, praticamente só hits da banda, uma do Riverdales e Lobotomy do Ramones. Banda muito ensaiada, destaque para o monstro nas guitarras Zac Damon, lugar bacana, som excelente, Ben Weasel motivado, público enlouquecido, quase nada de discursos sem fim e um merchandising legal. Um dos melhores shows de rock que já vi! 


SUPERCHUNK COM GILBERTO MELNICK

Gilberto Melnick, 40 anos, pai de dois, médico. Um dia marcou aula de guitarra mas o professor não apareceu, desistiu para sempre da ideia de tocar. Acompanha o rock desde 1988. Antes disso não sabia para quê servia música.


Eles surgiram em 1989. Possuem a própria gravadora, a Merge. Tem uma baixista chamada Laura Ballance. Ian Mackaye os cita até como influência. O baterista encaixou como uma luva tocando nos dois últimos discos do Bob Mould. Além da excelente sonoridade é sempre bem vindo ter boas virtudes saindo por todos os poros né...? Conheceu a banda com qual disco?  Lembro que fomos num show deles apenas um ou dois dias após o nascimento do seu primeiro filho. 

Dude, o Superchunk me foi apresentado pelo Dario. Um amigo, uns 12-14 anos mais velho que eu. Foi em 1994, eu bem perdido voltando de um ano fora do Brasil. Fazíamos os aqueces da noite na casa dele. Ele tinha um cunhado rocker novaiorquino, super antenado nas novidades e amigo dos caras da cena musical na Big Apple. Diz a lenda que ele é bem chegado dos caras do REM. Então o Dario sempre ligava e dizia que tinha coisa nova pra gente escutar na casa dele, "o Gary (o cunhado) me mandou...". Quando escutei a primeira vez o Superchunk, o Dario disse que eles iriam estourar, colocou o On The Mouth. Fiquei impressionado com a força do som deles. Talvez tenha casado bem com o momento de vida em que eu passava. Esse disco mostrava que eles tinham uma pegada própria, apesar de serem classificados como indie rock. Sem dúvida Laura Ballance é um nome próprio de alguém que nasceu para o rock! No verão de 94-95, o Dario sofreu um acidente de carro e veio a falecer. Foi um choque, o cara era especial e parecia imortal de tão pacato que era. Uns dias depois a irmã dele me ligou, dizendo que a mãe deles queria que fôssemos lá na casa dele e pegássemos os discos dele para ficar de lembrança. Fui lá, ele tinha muita coisa numas prateleiras... minha mão correu direto para o On The Mouth. E do lado estava o Foolish que eu não tinha escutado ainda. Saí dali, coloquei Foolish no carro e chorei. Até hoje me dá um nó escutar Without Blinking, por lembrar das coisas e dos momentos difíceis daquela época. 

[Curiosidade: O desenho tosco da capa do Foolish foi feito pela Laura Ballance.]

O tempo passou, continuei seguindo a banda, comprei discos de antes do On the Mouth e o Here´s Where the Strings Come In de 95, pra mim um disco muito foda. Depois teve o show no Circus, colosso. O show de 2000 logo a seguir do nascimento do Henrique eu fui, mas minha cabeça não estava lá. Lembro que eles não atingiram o mesmo nível que o primeiro show. Até encontrei com os caras no Bar Sucatão antes do show, a gente estava escutando um CD deles e eles pediram pra tirar. Com razão. Em 2010 veio o Majesty Shredding que eu baixei, mas não me pegou muito. Tem um novo do ano passado, mas não escutei. Sei lá, eles ficaram no meu passado como uma das bandas que podiam me fazer chorar e, diferente do que o Dario disse em 94, eles nunca estouraram. Mas merecem um lugar nas prateleiras dos amantes do rock, sem dúvida. 

 

DICKIES COM TIAGO MUNHOZ

Tiago Puppi Munhoz. Nascido e criado em Curitiba, aprendeu a ouvir punk rock com os irmãos e primos. Desenvolveu-se como gritador fazendo covers desde Circle Jerks, Misfits e Cock Sparrer à Queens of the Stone Age. É vocalista dos Redlightz.

 

Sei que tem uma história interessante sobre uma ida à um show do Dickies na Itália. Como foi?

Sim, era final de 2001 eu estava estudando arquitetura em Ferrara. Fui com um amigo passar o final de semana em Milão, onde assistiríamos ao show do Ska-P e outras bandas hardcore da época. Eis que ao entrar no local do show, vi um poster com data pros Dickies em Milão dentro de dez dias. Euforia total, roubei o poster e já deixei avisado ao nosso anfitrião que eu voltaria em dez dias para realizar um sonho. Uma dezena de dias depois, lá estava eu, na porta da casa do novo-amigo com uma mochila na mão e ansiedade total na cabeça. Partimos direto para o local do show: Club Transilvania Live. Era 20 de novembro de 2001, entro no salão ainda vazio vou até a banquinha de merchan para comprar tudo que fosse possível e sou amavelmente atendido pelo senhor Stan Lee, que fazia as vezes de vendedor. Depois de tentar explicar pra ele o quão feliz eu estava por aquilo estar acontecendo e o quanto eu sou feliz por ele existir de verdade, coloco as mãos no novo disco "All This And Puppet Stew". Aquilo ali fazia total sentido: entregar dinheiro para o guitarrista da minha banda favorita e ele me dá um CD autografado em mãos! Tá loco, isso sim é investimento em bem estar. Pontualmente às 21h o show começou com o baterista entrando no palco vestido de galinha amarela, Stan Lee foi o próximo, L'il Dave Teague, Leonard Phillips e... opa... Olga? Sério? Toy D'Olga!!! Sensacional! Olga assumiu o baixo para a perna européia dos Dickies. Eu não ecreditava que tudo aquilo realmente estava acontecendo. Curti o show inteiro com a barriga na grade, menos de 1,5 m de pessoas que dez dias antes eu não acreditaria que um dia assisitiria ao vivo. Show sensacional com direito à boneca inflável, máscara de mergulho, porrete de borracha, pintasso de pelúcia fantoche e uma música dos Toy Dolls à pedidos do público, não lembro qual foi pois meu cérebro estava anestesiado. Depois do show consegui acesso ao camarim para conversar com a banda. Setlist, encartes e caneta na mão lá fui eu conversar e pedir autógrafos à todos os envolvidos. Muito bem atendido por eles, até que, enquanto eu conversava com Leonard e sua tradutora italiana, perguntei à ele: "Cara, quando vocês vão tocar no Brasil?" não consegui ouvir sua resposta pois no mesmo momento a tradutora-imbecil me fala em italiano: "Que pergunta idiota, porque caralhos eles iriam ao Brasil? Sério? Brasil? É um idiota mesmo...". Eu tinha 21 anos na época, não soube como reagir. Reagir eu soube sim ao reencontrar cada um deles - com exceção do Olga - aqui em Curitiba, Paraná, BRASIL, quase 10 anos depois. Recontei a todos esta história do camarim, conversei tranquilamente com eles em clima familiar e tive a melhor noite de fã que poderia ter na minha vida. O set foi maravilhoso, Stan Lee me presenteou com o último adesivo que havia sobrado da tour, a palheta do show, uma assinatura na minha guitarra e uma aula de como uma banda deve preencher um palco, tratar seus fãs e tocar rock.

 

Você leva “muito a sério” uma apresentação ao vivo. Gosta mesmo da experiência de um show seja ele em locais pequenos ou grandes arenas, né?

Acho que quando a banda é importante para mim crio uma expectativa muito grande quanto à apresentação da mesma. Nenhuma nunca me desapontou em nenhum local, desde buracos sujos até mega festivais. Mas acho que o que mudou e marcou minha vida, foram todos os shows em locais pequenos, onde há a possibilidade de encontrar os músicos e perceber a pessoa que existe por trás do ídolo. Os melhores shows que fui em locais menores: Dickies, OFF!, Damned, Rezillos, Toy Dolls, Sepultura, Sham 69, Agent Orange, Bad Brains, Kyuss, Adolescents, Bad Chopper, Boys, Buzzcocks, CJ Ramone, Caravans, Mad Sin, Circle Jerks, Social Distortion, Nação Zumbi, Slackers, Dead Kennedys (sem Jello), New York Dolls, Cock Sparrer, Donnas, Ovos Presley, Inocentes, Jello Biafra & The Guantanamo School Of Medicine, Nashville Pussy, Misfits, Motorhead, Replicantes, Skatalites e Suicidal Tendencies. Os melhores shows em Megaeventos: Faith No More, QOTSA, Ramones, Turbonegro, Beastie Boys, Rolling Stones, Black Sabbath, Iggy Pop and the Stooges, X e Rage Against the Machine.

 

Quais foram os seus primeiros shows? 

Meu primeiro show: Pinheads e Resist Control, no Aeroanta '94. Meu primeiro show de verdade: Ramones na Pedreira, em '94. Depois desse ano nunca mais parei...

 

JESUS AND MARY CHAIN COM NETO

Neto  tocou no EX LAX, Marigold e atualmente mora em Curitiba e é guitarrista da banda No Milk Today.


Jesus And Mary Chain é uma de suas bandas favoritas tipo top 2 ou 3 mesmo não sendo uma banda da cena punk. E isso também acontece com outros amigos que tem o punk rock como maior gênero musical de adoração. O que você vê de especial neles?

Em meados de 86 o Punk Rock já não era tão incomum para mim. E quando você tem 12 ou 13 anos, a sua personalidade musical está aberta, pronta a ficar sólida como rocha, e os ouvidos e o coração estão abertos para preencher um vazio. Lembro da primeira vez em que ouvi. Meu irmão havia gravado duas músicas em uma coletânea cassete junto com outras bandas (New Order, Replicantes e The Clash). JMC foi o que mais me empolgou e chamou atenção, era uma nova forma de tocar, era uma banda que parecia não querer agradar. Quando os escutei foi como uma motosserra ligada a pedais, eram melodias vigorosas, um punk rock escuro, denso  e ressaqueado dos anos 70,  perfeito para um piá impopular e introvertido. Acho que se os Beach Boys morressem e virassem zumbis, seriam o JMC.


Qual seu disco favorito? E o menos favorito?


Acho que se uma banda está no seu top 3, não está lá a tôa e provavelmente não exista, para você, um disco ou alguma música ruim. É o que acontece com JMC para mim. Psycho Candy revolucionou e a história do rock britânico provavelmente seria diferente  e menos barulhenta  sem ele. Os irmãos escoceses mesmo sem saber tocar quase nada, mas com um talento único para suaves melodias, guitarras superdistorcidas e microfonia alta, fizeram isso com o lançamento em 1985 e, quando ninguém pensava que seria possível se superarem, Darklands  (1987) surgiu e o mundo começou a escutar.  Esses são os dois álbuns insuperáveis para mim e se não considerarmos  os álbuns b-sides,  em último lugar, mas não menos admirável, estaria "Honeys Dead". Vale lembrar que Psycho Candy completará 30 anos em 2015 e em maio deste ano foi lançada uma biografia oficial, “Barbed wire kisses: The Jesus and Mary Chain story”, de Zoe Howe.


Qual é sua música favorita?

A minha musica favorita sempre é a próxima faixa do disco, mas tem "The Hardest Walk", "Nine Million Rainy Days"  e "You Trip me Up" que arrepiam. Lembro que afrouxava as cordas do violão para tocar como baixo essa última.


Prefere a zueira infernal dos primeiros discos ou os mais acústicos como o Stoned & Dethoroned?


Com certeza a zueira dos primeiros discos, embora Stoned Dethoroned  revele um amadurecimento musical da banda sensacional.  Hope Sandoval, da banda Mazzy Star, faz uma bela participação  em "Sometimes Always".


Acompanha o trabalho solo do Jim chamado Freeheat? O que acha em comparação com o JAMC?


Quando soube que Jim Reid estava com uma nova banda fiquei muito animado e fui ansiosamente escutar, mas é complicado, pois a comparação é inevitável e nem sempre se dá o valor merecido.  Embora o William  erre demasiadamente nos shows ao vivo, ele é fundamental nas composições e melodias, é como o Didi sem os Trapalhões da década de 80, entende ?


Demétrius (Beach Lizards) foi em uns dois shows deles ultimamente e notou que o William Reid simplesmente desaprendeu a tocar guitarra... solos sofríveis mesmo os mais simples de executar... Você notou isso também? Sabe a razão? 


Realmente, Jim chega a mandar o restante da banda parar por algumas vezes quando percebe que William está totalmente fora. Acredito que William não se segura no álcool antes dos shows.
 Jim também já teve problemas sérios com bebida e a acho que a relação dos dois sempre vai ser problemática. 


Vê alguma chance de um disco novo de inéditas? Estão com esse papo faz uns cinco anos e nada! Será que a criatividade acabou?


Realmente eles soltaram  na mídia esta informação e estão se enrolando faz um sete anos. Como a relação continua conturbada entre os  dois, não tenho muitas esperanças. Eles moram em continentes diferentes e ainda teriam que  conciliar vida familiar, compromissos extras com horários de estúdio. Acho que teremos que contar um pouco com a sorte.  

PARTE 1



 
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