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sobre algo: Pinkerton e o Buraco Negro
Sexta-feira, 11 de Julho de 2014 (2:03:35)

 

Antes dos clipes com bichinhos e muppets, antes do bug do milênio, antes do fim dos dias de VHS, antes de aparentemente tudo o Weezer conseguiu lançar o disco mais pesado dos anos 90. Como?




 

Pinkerton e o Buraco Negro

Por Marcelo Shaw


Eu costumava gravar fitas de VHS com a programação da MTV. Não sei qual pedaço dessa frase revela mais minha idade, se é a parte do VHS, da MTV ainda com qualquer semblante de relevância ou ainda minha preocupação com estar ficando velho. Mas eu fazia isso, no alto dos meus 11-12 anos deixava a televisão ligada e o aparelho gravando Deus sabe como e só depois de terminado e não antes eu me permitia assistir. Eu basicamente procurava pelos clipes do Green Day porque eu e minha melhor amiga na época éramos tipo ultra fãs, mas me permitia assistir algum Blink 182 (afinal, eu vivia roubando o The Mark, Tom, and Travis Show do meu irmão) ou Offspring (dos quais eu inventava a letra pra mentir pros meus amigos que eu sabia falar inglês) ou até Lenny Kravitz... Tá, não Lenny Kravitz, eu nunca desci tão baixo, mesmo eu tendo um amigo que gostava pacas e com quem eu devia ter alguma dívida moral por ter roubado o Pokemon Gold dele.

Mas aí divaguei. O ponto era que um dos meus clipes favorito era o de “Island in the Sun” do Weezer. Era tão fofo, tinha uns bichinhos e eles cantando e meu Deus se aqueles filhotes não eram a coisa mais bonitinha da vida e música era legal também. Volta e meia aparecia algum clipe novo do Weezer, aquele com os Muppets era genial também. Nunca, no entanto, algo me pareceu tão bom quanto “Island in the Sun”. Algum bom tempo depois, quando eu tinha uns 15 anos e finalmente aprendi a mexer no Kazaa, fui atrás da discografia deles, principalmente dos três primeiros porque o Allmusic dizia que eram os melhores. Eu gostei muito do Blue Album e do Green Album, mas o segundo não me puxou tanto. As melodias não eram tão grudentas como no azul e o clima não era o mesmo e não tinham bichinhos felizes do verde. Eu nem lembrava do nome direito.

Vocês sabem como pessoas mais velhas adoram dizer que certas coisas vocês só vão entender depois? Sabe, como quando você acidentalmente aperta play no vídeo do quarto do seu irmão e se depara com uma filmagem meio amadora do que na época parecia uma mulher chupando um baita dum picolé estranho que o cara estava segurando perto da barriga enquanto ele emitia gemidos porque sei lá acho que devia estar gelado e pingando no seu umbigo? Eu já devia estar com idade o suficiente pra ser preso quando finalmente entendi aquele segundo disco, cujo nome eu não lembrava antes e agora sua simples menção parece tão mais mística pra mim. Pinkerton.

Sabem Barton Fink, aquele filme perturbador dos irmãos Coen? Aqueles que eles supostamente escreveram sobre estar com bloqueio criativo e acabou se tornando talvez sua obra mais poderosa? Ele tem alguma coisa sobre si, algo que parece tão real no auge da sua irrealidade. Tão palpável e ainda assim tão inacreditavelmente zoado... Você não consegue fingir emoções, não por muito tempo. Claro, você pode atuar, conseguir convencer, mas no final do dia não tem língua no beijo né? Autobiografia na criação não é um estilo, é uma necessidade.

Então se você é um cantor sensível de MPB, sinto muito mas você nunca vai chegar lá só parecendo um mendigo e sendo desafinado. A grande pergunta é como puta que pariu o Rivers Cuomo chegou lá. Olhar em retrospecto e perceber que o disco mais inexplicavelmente turbulento, pesado, indigesto e num geral esculhambado emocionalmente dos anos 90 (uma década por si só já bem fudida mentalmente) é do Weezer... Do Weezer! Da banda que caiu na autoparódia desde o bug do milênio, da banda de power pop meio Big Star, da porra da banda dos animaizinhos. Mesmo com uma competição pesada especialmente por parte de Eels e Spiritualized, o Pinkerton é o disco mais triste de todos aqueles anos. Como?

Porra, como? Como é um treco que eu gostaria muito de saber. Tá, o Rivers Cuomo é bipolar, mas uma caralhada de gordinhas no facebook também supostamente são. Ele teve que fazer uma operação naquele ano porque uma perna dele era mais curta que a outra, mas esses tempos eu vi um vídeo dum cadeirante dando um backflip numa pista de skates nem aí pra vida triste. Antes do Pinkerton eles estavam trabalhando em algo chamado Songs from the Black Hole, que foi cancelado e substituído pelo mais depressivo disco final. Leia isso de novo. O Pinkerton já nasceu mais pesado que algo chamado MÚSICAS DO BURACO NEGRO.

Não dá para dizer que o salto foi completamente sem precedentes, no entanto, já que o primeirão do Weezer já não era a coisa mais alegre do mundo. “The World has Turned and Left Me Here”, com sua depressiva necessidade de autoafirmação misturada com saudade de quem já deu tchau tchau indiciava um pouco que o abismo podia estar de olho. “Say It Ain’t So”, apesar de ter sido subsequentemente assassinada por tudo que é banda de barbudo acima do peso e certamente acima da idade pra estar em banda de cover, também tem uma temática pesadona, ninguém gosta de alcoolismo na família né. “No One Else” já era aquele casal que você vê no bar brigando por ciúmes sem qualquer motivo aparente, voando Nova Schin para tudo quanto é lado. Ainda assim, se isso era um aviso de perigo na estrada, o Pinkerton já abre como um imenso letreiro em neon escrito FUDEU.

A primeira frase que se ouve é “I’m tired, so tired, I’m tired of having sex”, com nomes de garotas sendo mencionados pelo rockstar cercado de groupies mais entediado do mundo. Logo em seguida, em “Getchoo”, Cuomo aceita sua posição ainda menos, o que faz sentido porque ele não poderia passar mais longe do David Coverdale nem se ele tentasse. “No One Else” é a música mais animada do disco todo e começa com “my girl is a liar”, sendo seguida por outra no qual ele percebe que é só atração sexual então ele prefere continuar batendo punheta. A parte fantástica é que isso somente abre caminho pra composição mais esculhambada do disco. 

“Across the Sea” é um colosso da piração errada, gloriosamente descontruindo sozinha qualquer romance já criado em forma de música. Contrariando sua letra, a personagem feminina aqui não tinha 18 anos, mas sim provavelmente 14 segundo o próprio Cuomo. Ele usa de musa uma carta que ela lhe enviou falando sobre sua banda e primeiro ele chora pedindo ajuda pra ela, mas pouco depois já está se questionando sobre “how you touch yourself”. O próprio instrumental é conduzido de uma forma que parece que em qualquer instante ele vai sair completamente do compasso e virar só 4 pessoas baixando a porrada nos seus instrumentos. “It's all your fault, momma”.

Isso deve ser destacado também, eu acho. Pra uma obra tão pesada, os arranjos são bem simples. Salvo algumas exceções pontuais, você realmente só vai ouvir 2 guitarras, 1 baixo, 1 bateria e backing vocals sem overdub. “The Good Life” até se permite ter um riff pegajoso, mas para seguir sua temática de alguém tentando renascer ao mesmo tempo que tem nojo de si mesmo esse mesmo riff é marretado na cabeça quase que irritantemente. E assim se segue, até que finalmente ele desiste completamente da banda de apoio. “Butterfly” é uma peça acústica incrivelmente sensível e quem já ouviu “Borboletas” do Amado Batista sabe que esses bichos são sempre uma boa metáfora para mulheres que ou você fez merda ou que fizeram merda pra ti. Aqui, no entanto, o Rivers Cuomo contraria um pouco isso, ele não parece estar falando de alguém. Ele parece estar falando de algo.

Só que... Sobre o que? Acho que eu coleciono um lead inteiro com perguntas que não consigo responder sobre o Pinkerton. Talvez pra boa arte realmente não existam respostas, só perguntas perpetuamente nos condenando a continuar voltando. E minha odisseia com esse disco nem foi uma coisa original, a própria imprensa na época teve uma reação que misturou indiferença com ofensa, com mais do que algumas listas colocando-o como um dos piores discos do ano. O Rivers Cuomo, possivelmente honrando sua palavra sobre ser bipolar, já disse que o disco é uma maravilha e que ele é uma merda nos anos seguintes. Vai ver o Pinkerton é que nem contar uma piada de estupro numa mesa cheia de feministas de tumblr, é tão inusitado que demora um pouco até que elas percebam que você é o pior ser humano do mundo.

Devaneios à parte, eventualmente, a poeira abaixou e hoje ele é reconhecido como um dos marcos dos anos 90. Como um instante perfeito, onde podemos despejar cada ideia errada do nosso cotidiano. Ei, não é como se pudéssemos estrangular nossos chefes, né?



 
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