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entrevistas: Ariel, Invasor de cérebros
Sexta-feira, 11 de Julho de 2014 (0:22:36)

 

Ariel, o Invasor de Cérebros, uma das testemunhas mais importantes de como o punk surgiu no Brasil





 + entrevista

ARIEL

Invasor de Cérebros


Por Olga Costa e Adriano Stevenson


Quanto menos, se tem, mais se faz. O menos, raramente, é uma escolha e na maioria das vezes, uma condição. Nessa condição de menos, a criatividade tende a aumentar. Foi numa condição de querer menos que o punk rock surgiu, pois o mais estava demais! Buscar os três acordes básicos do velho e instigante rock’n’roll moldou um estilo que, ainda e muito, incomoda o estabilishment. O punk resiste e persiste em dizer não ao que é ditado como regra. De dizer não ao que se tenta enfiar goela abaixo todos os dias, de formas diversas. Esse estilo que causa desconforto é colocado debaixo do tapete, “não se pode dar asas ao punk”, mas ele está aí, para quem quiser ouvir! O nosso entrevistado é uma das testemunhas mais importantes de como o punk surgiu no Brasil. Confira a seguir.

 

Foto Luiz Abbondanza

 

O que você ouvia antes do punk?

Comecei cedo, porque com 10 anos, eu adorava ouvir rádio. A única informação que tinha de música era do rádio. Não tinha muito disco, não tinha muita coisa, era muito difícil. No começo, eu ouvia Steve Wonder, era pop, mas tinha conteúdo, mas, logo depois em 1973, comecei a escutar rock’n’roll com Alice Cooper, Black Sabbath, mas depois já não curtia muito bandas como Led Zeppelin, Deep Purple. Escutava porque tocava em todo lugar, em toda festinha de rock tocavam essas bandas, mas eu ia mais pro lado B mesmo, como Dust,(primeira banda do Marky Ramone), Hawkwind, Captain Beefheart, Captain Beyond. Em 1974/75, vieram Stooges, MC5, esse som mais pesado mesmo... Pra curtir rock aqui na quebrada... aqui onde eu moro é Vila Palmeira, do outro lado da avenida ali, é a Vila Carolina, aqui é onde começou uma cena de um monte de gente. Então curtir rock aqui era muito foda, a gente vivia em boteco, era a única opção. A única forma de lazer, fora isso, era um campinho de terra pra jogar bola. A gente começou a usar droga ali, a brigar, a fazer truques... era essa juventude que era o punk, porque o punk era a forma mais baixa de música e de jovem mesmo, era o cara que não tinha opção.


Qual foi o teu gatilho pro punk?

Isso tudo!


Isso foi na fase pré-punk e quando foi que você percebeu que era punk mesmo?

A gente já curtia esse tipo de som, já andávamos junto numa turma... todo mundo andava, com outro tipo de roupa, com calças de tergal, não tinha calça jeans. Depois de um tempo, calças jeans, aqui no centro, da cidade comprávamos como se fosse droga. Ficava neguinho na esquina gritando, e, quando você queria o produto, levavam você num prédio, que você podia pensar que seria roubado. E tinha uma sala onde tava tudo lá, tinha uma costureira que apertava a boca da calça na hora, pra ser diferente, isso antes do punk, a gente já era sem saber! No mundo inteiro, surgiu ao mesmo tempo! Estou pesquisando muito sobre as bandas de powerpop, mod, bandas de 74/75 que nem sabiam o que eram, mas quando surgiu a palavra denominando, todo mundo se identificou. Foi a mesma coisa com a gente.


Aconteceu algo semelhante com Sopa d’Osso (RN). Ele disse que passou um tempo em Fortaleza, e, por lá, o movimento surgiu dessa mesma forma...

O rock já não dizia mais nada pra gente! Bandas como Led Zeppelin, Deep Purple eram monstros, nunca iamos tocar como esses caras! Ou vou ter que entrar num conservatório e ficar a minha juventude inteira aprendendo a tocar. Esse rock não dava pra dançar, não rolava mais uma energia. Essa nova juventude foi buscar no rock and roll dos anos 50, quando tinha algo de empolgante, de pegar três acordes e tocar de qualquer forma! Foda-se, vou me expressar! E aqui em São Paulo, algo particular da Vila Carolina era que o pessoal escrevia muito, escrevia demais, tinha muito texto, e a gente transformou tudo isso em música. 


Você lembra qual foi a sua primeira composição no Restos de Nada?

Rebeldia Incontida. Eu entrei na banda por causa disso, porque eu ficava nos bares declamando os meus poemas. A gente trocava muito isso. Douglas já era musical desde que nasceu, o pai dele tocava sanfona. Ele era apaixonado por música e tanto que depois se formou em música. Quando ele começou a compor, só foi lapidar os textos e fazer as músicas! As letras, muitas vezes, surgiram antes.


Douglas faleceu em fevereiro de 2013...

Douglas estava meio afastado. Dava aula no final de semana. A gente ficava puxando ele. E dissemos: ô, Douglas, vamos pegar esse ano e fazer uns shows para comemorar. E a gente já tinha vários lugares para tocar. Na terça-feira, fizemos uma reunião para falar disso. Na sexta, ele liga, dizendo que estava sentindo uma dor no braço, fizeram uns exames, não deu nada. No sábado, ele voltou com a mesma dor, passaram uns remédios e, no domingo, ele morreu, um ataque do coração fulminante. A gente tinha conversado na terça feira! Estávamos super empolgados, sabe... o batera do Invasores de Cérebro, ia ficar uns quatro ou cinco meses em Londres fazendo um curso, estava tudo certo...


E o que aconteceu com o Restos de Nada?

Então... sai o Clemente, sai o Charles (baixista e baterista) Daí a gente pegou outras pessoas, mas depois o Charles acabou voltando, mas mesmo assim, a gente estava muito disperso, e resolvemos formar o Desequilíbrio. Continuamos a tocar as músicas do Restos de Nada e compor outras. Ficamos um ano. Em 1981, eu entrei no Inocentes.


Vocês chegaram a gravar algum material com o Desequilíbrio?

Não. Tinha umas fitas de ensaio, que o Fabião (Olho Seco) queria lançar, mas acabou não dando em nada... mas tem uns ensaios interessantes... 


Deu para aproveitar alguma música do Desequilíbrio para o Invasores de Cérebro?

Não. A gente tocava alguma coisa do Restos de Nada, mas nem estamos tocando mais. A morte do Douglas abalou demais, foi foda. O Douglas foi muito importante! Foi ele que começou tudo. Ele ensinou muito gente a tocar... sempre fomos muito próximos...


E daí começou Inocentes... você foi convidado?

Fui. Mauricinho tinha saído e teve um som em Campinas e quando chegamos lá, parecia um circo chegando. Os caras da janela aplaudindo (risos). Cantei umas quatro músicas com eles. Depois os caras queriam ser rock paulista, comecei a tretar e me mandaram embora. Eles queriam tocar nas casas da moda, fazer sucesso, mudar as letras, adocicar mais. Aí eu falei não! Somos reconhecidos por causa disso, pela nossa radicalidade.


Foto arquivo pessoal Ariel

 

Diz a lenda que a música “Ele Disse Não” é para você, é verdade?

Eu não sei. Sempre pensei que era pra mim, mas nunca perguntei pro Clemente.


Houve um hiato do Inocentes para Invasores, não?

Foi. Acho que foi do movimento todo. Os Inocentes chegou a acabar. Foi no Natal, chegaram e pintaram o Clemente com um extintor de incêndio, o negão ficou branco, chamaram de traidor, mas depois eles voltaram e lançaram Pânico em SP. Eu não estava nesse dia, estava preso. Foi no natal, estava na boca do lixo, a gente foi fumar um e chegou uns caras da policia, dizendo que estávamos roubando os carros. Mó visual de punk não vai tá roubando carro, velho! Ia ser identificado por qualquer um! Putz. Minha saída foi traumática, passei um tempo sem falar com o Clemente... ele queria o rock paulista. Quem começou a produzir eles foi o Branco Mello. Aí rola um negócio interessante - Os Titãs foram buscar a essência de nós, aqui na periferia. E só a gente tinha, aprendemos na raça. A gente aprendeu do nosso jeito, da nossa forma e com nossa poesia e era algo da rua, que os caras não tinham. E depois os Titãs lançaram Cabeça de Dinossauro que é uma cópia, chupada das músicas dos Inocentes da época e fizeram um puta disco!

 

A relação dos meios de comunicação e o movimento punk sempre foi conturbada, como anda essa relação hoje?

Depois do festival Começo do Fim do Mundo, final de 1982. Em 1983, já estavam vindo de pau pra cima da gente. A imprensa, a polícia, não se podia sair na rua de visual porque era ridicularizado, apanhava e era preso toda hora! Se usasse ribite então, que hoje é moda, todo mundo usa! No programa da Regina Casé, tava falando de punk dia desses, dizendo que “o punk surgiu numa butique da Vivianne Westwood e Malcolm McLaren, portanto, punk é isso mesmo, é moda, sem isso o punk não teria existido”. Aí começou um monte de gente com moicano falso, umas roupas idiotas e ela com uma jaqueta cheia de arrebites e eu pensei: é o fim do mundo! (risos). Depois de 1983, o Fantástico veio e fez uma matéria que acabou com o punk. Muita gente foi presa, muito foram mandados embora de casa, do trabalho, tratavam a gente como lixo. Foi uma caça às bruxas! Nesse período de 83 a 88, não aconteceu nada em São Paulo. As bandas que tinham sobrado eram Cólera, Inocentes e Ratos de Porão. Ratos tinha virado metal, Cólera não tocava mais na cidade, tocava só no interior e outros estados e Inocentes também. Garotos Podres era careca, skin, era outra coisa. Só tinha as casas noturnas, Madame Satã, Rose Bombom, Vitória Pub...


Nessa época, rolou muita treta com os carecas...

Essa época foi a que mais teve treta! Aqui em São Paulo tinha dezenas de gangues e os carecas era uma gangue, a mais, porque cansaram de apanhar dos punks e formaram uma gangue para se defender dos punks e depois de um tempo começou a ideologia, a doutrinação e viraram nazistas. Fui obrigado a mudar de casa umas duas vezes, eles vinham atrás da gente. Era terrorismo, cara!


Você falou que escrevia poesias, ia pro bar... a Thina Curtis mandou pra gente Cadernos da Sarjeta, o movimento tinha a ver com zine?

Era aleatório. A gente pegava poesias de pessoas que estavam perdidas numa gaveta, sem nenhum critério. Não era só os punks, era uma coletânea, tinha o pessoal do gótico que tava também. Isso foi nos anos 90. Mas penso em retomar, ponho muita coisa no facebook, e isso incentivas as pessoas, tem muita gente que escreve e não tem onde mostrar. A internet era tudo que a gente queria. Antigamente se gravava um disco e distribuir? Você conseguia gravar e ficava com uma pilha de discos em casa. Não é uma opção ser punk, não é uma opção ser desse jeito, tocar com 3 acordes, sabe? É uma condição! Quando que um cara da quebrada aqui, poderia ter acesso a tudo que os outros caras tem? Nunca! Quando se conseguia uma guitarrinha tonante, que desafinava a toda hora, era algo de outro mundo! E uma Gianinni então?!


O seu processo de compor com Restos de Nada e Invasores de Cérebros mudou?

O processo é o mesmo. Às vezes, eu venho com um texto, às vezes, alguém chega com uma base e vamos encaixando, meio a martelo, mas vamos encaixando. Eu continuo escrevendo muito.


 

Punk no novo milênio, como é que está?

Confuso, muito confuso! Não estou entendendo muita coisa, sabe? É o que falei, a gente, quando começou, não tinha um formato, a gente formou, criou e não tínhamos referência de punk. No Restos de Nada, as músicas não tinham referência de punk, a referência era daquele rock maldito, mas já era punk, assim como as músicas de muitas bandas lá de fora. Quando em 1979, falaram que o punk acabou quando morreu o Sid Vicious, daí veio o grito Exploited com Punks Not Dead e hoje em dia, tem diversos estilos dentro do punk. Pra mim, ta muito confuso, se perde um pouco da essência. E, para mim, não é só mais uma cena, são várias!


E o punk no Brasil, começou em Brasília (risos)

Em 1968, o Índio, que era da Condutores de Cadáveres, e mais velho que a gente, nessa época, ele já curtia som. Eu tinha uns 8 anos, e ele, uns 14. Ele tinha um primo que morava em Detroit, que mandava fita cassete dos Stooges, e ele passava pra gente. O cunhado do Douglas, na época, conseguia alguns discos, então, quando eles vieram falar em Ramones, a gente já tava cansado de ouvir música muito mais fudida. Vocês conhecem o livro Dias de Luta? Uma porcaria! Tem umas informações truncadas, o cara viaja, fala umas merdas...


Você estava lá...

Até falei pro meu filho: leva de volta essa merda que eu não quero ler mais, não!  Só aqui nesse bairro tinha uns 50 punks que andavam num puta visual, com jaqueta de couro, coturno, saíam todos juntos, pegavam um busão (não pagavam) pro centro, pra ouvir esse tipo de rock e essa coisa nova que vinha! Isso é palhaçada! Dinho Ouro Preto, punk? Renato Russo, punk? Com florzinha e cantando música italiana?  Música rebelde é diferente! Ser rebelde é diferente! Por que o toddynho não estava quente como ele queria, ele era revoltado por isso? Por que os pais viajavam muito pelo mundo todo? Aqui a realidade era outra, é a que estou te falando! O punk para gente foi isso, essa molecada esperta, malandra que conquistou seu espaço há quase 40 anos. Não adianta falar que acabou, porque a gente vê os moleques nos shows na empolgação e dizendo que nós influenciamos eles. É isso que vale a pena continuar, é a minha forma de expressão. Eu escolhi o punk como forma de expressão.


Invasores de Cérebros

Publicado originalmente em Microfonia


+ Leia também Entrevista Ariel (2008)


 
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