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entrevistas: Rotten Flies
Terça-feira, 13 de Maio de 2014 (23:17:39)

 

A nova fase da banda e os votos renovados com o punk/hc




 

+ entrevista

ROTTEN FLIES 

 

Por Olga Costa


Algumas pessoas acreditam que o destino de cada ser do nosso planeta está traçado. A Rotten Flies amargou a espera de dez anos para o primeiro disco ser lançado. Entrou numa rota de colisão tão violenta que culminou com a troca de vocalista. Sentiram-se, mais uma vez, alvo de falatórios, policiamentos e cobranças. No entanto, viver dentro de um saco de gilete parece ser a sina desse quarteto, que carrega a essência do punk em suas veias. Um viking, de não muito longe, inalou por anos, acolheu e chegou para tornar essa essência ainda mais vibrante. A seguir, Beto, Cecílio, Adriano e Francisquinho falam da nova fase da banda e dos votos renovados com o punk/hardcore.


Vocês entraram em estúdio bem ensaiados. Como foi esse processo até chegar à gravação de fato?

Cecílio – Começamos a ensaiar, o disco estava 100 por cento pronto e, quando fomos gravar... aí foi raw punk! (risos)

Adriano – Foi um processo tortuoso. Não foi fácil, foi o disco mais difícil. Na verdade, na Rotten Flies, nada é fácil! A vontade e o interesse da banda foram maiores em querer finalizar. Passamos por momentos difíceis e chatos, ao mesmo tempo, foi bom também porque houve uma renovação. Eu sempre tirava onda comigo mesmo, dizendo que “a Rotten Flies é um carro velho, que andava um pouquinho e parava”...

Cecílio – Mas, agora, o carro velho pegou e foi para aquele cara que faz umas reformas e está envenenado agora! Tá um motor raw punk!(risos)

Beto – A gente achou que o processo seria mais difícil, mas depois melhorou e agora é só alegria!

Cecílio – Quando paramos o processo, eu pensei o seguinte: pior do que está não pode ficar, não! Ou parava de vez, ou iria melhorar!


É correto afirmar que, com esse CD, vocês redescobriram como é tocar como uma banda?

Adriano – Nós somos hoje uma velha nova banda!

Cecílio – A gente voltou a saber o que é tocar numa banda! Porque fazia muito tempo que a gente não sabia o que era isso. Estávamos numa situação que, aparentemente, era uma banda para quem estava de fora.

Adriano – Era um “bater o cartão”... “porra, tem ensaio hoje!”... desde que eu entendo de RF, não é muito diferente, não, a gente sempre queria mais e não podia ter. Ou a gente se acomodou a não ter isso.

Beto – E, por conta de muitos ensaios, quase dois meses sem vocal, quase nos tornávamos uma banda instrumental!

Adriano – Teve até um ano...

Cecílio – Mas esse um ano foi diferente, pois estávamos sabendo...

Adriano – Voltando à resposta, a gente redescobriu mesmo. Tem uma coisa que quero deixar bem clara: Eu já toco há um bom tempo. Vou até fazer uma piada interna aqui - “há mais de 20 anos” e, quando é dia de ensaio, é o meu dia mais feliz. Eu gosto disso, depois desse tempo todo! Nunca vou dizer que acho uma merda ter ensaio e agora está melhor ainda! Ensaio é o combustível da banda! Quando se forma uma banda, é para se fazer música, o resto é conseqüência! Nunca vi a banda tão unida como agora!


Essa união da banda fez com que vocês tomassem mais gosto em reouvir e/ou redescobrir sonoridades?

Beto – A banda está mais agressiva, devido ao vocal de Francisquinho, que tem uma pegada bem agressiva. Mas a RF nunca teve uma postura séria demais, a gente tocou o que gostava, só que, atualmente, está agressivo. E pegar as músicas antigas é muito bom, porque, às vezes, você até esquece de como elas são legais.

Adriano – Acho que, com a entrada de Francisquinho, o que ele agregou, foi o que a gente já sabia. A RF era um barril de pólvora, mas não tinha faísca, Francisquinho foi que fez detonar. Ele apenas seguiu o que já existia. Ele deu um empurrão no carro, o carro pegou, ele entrou e foi simbora! Vou citar uma frase de Lawrence, da Comedores de Lixo: “às vezes, uma faísca cria um incêndio.” E era dessa faísca que estávamos precisando.


Francisquinho, como você se sentia antes de ser convidado para assumir o vocal da banda e como você se sente hoje?

Francisquinho – Eu tenho um carinho e um respeito muito grande pela RF. Não nego que, quando recebi o convite, fiquei um pouco apreensivo, porque era para tocar com três caras que tem uma história e quem tinha que correr, para alcançá-los, era eu. Por essa razão, eu me esforcei e juntei o que eu sei fazer com o ódio que tenho dentro de mim e trabalhei para que a RF desse uma guinada.


Vocês gravaram o Amargo (2002) no Estúdio Peixeboi. Como foi trabalhar novamente com Marcelinho Macedo?

Adriano – Marcelinho, para mim, guardadas as devidas proporções, é um George Martin. Martin era maestro e foi produzir os Beatles. Marcelinho é do jazz, mas ele entende a linguagem. Quando eu falo, ele entende o que quero! É legal trabalhar com alguém que não é do mesmo estilo porque ele vai descobrir algo que, provavelmente, alguém que saque muito do estilo, deixaria passar. E isso engrandece o som. Dessa segunda vez, acho que ele está muito melhor! 

Beto – Até comentei com Marcelinho que o disco Orgamestron, do Motorhead foi produzido por um cara que produziu a galera do funk dos anos 70. E o Orgamestrom é o disco mais pesado do Motorhead, ficou fuderoso. Não tem que estar dentro do hardcore... é muito tranquilo gravar com Marcelinho.


 

De certa forma, Saco de Gilete aponta para vocês uma nova forma de fazer música?

Adriano – Em parte, porque Saco de Gilete é um apanhado de várias fases da Rotten Flies. Tem músicas da época de Gil (guitarrista), Neto (guitarrista), Edy (guitarrista). Mas Francisquinho já mostrou alguma coisa, a música Saco de Gilete é um exemplo disso, Meu Inimigo Sou Eu, Dizimador... o próximo será a prova de fogo porque seremos apenas nós quatro. Saco de Gilete é uma fase nova e próxima, será uma continuação dela.

Beto – Para saber como vai ser o próximo, é só escutar as músicas que Francisquinho compôs.


Francisquinho, você não possuía a familiaridade de compor dentro de uma banda, como foi ter que começar a fazer esse trabalho de fazer letras, melodia, encaixar?

Francisquinho – Compor foi difícil. Toda a vida, eu tive uma ligação muito forte com o punk hardcore. Colei muito tempo com os punks e já tinha uma revolta incubada dentro de mim. A partir do momento que cheguei na RF, liberou na minha cabeça... eu não fazia letras, mas já tinha a revolta. Apenas juntei o útil ao agradável e estou passando todo esse ódio para as letras.

Cecílio – No primeiro ensaio, Francisquinho já chegou com uma letra!


De onde veio a ideia da letra de Saco de Gilete?

Francisquinho – Saco de Gilete fala da falsidade do nosso meio. São pessoas que, na sua frente, dizem uma coisa e, por trás, uma outra. Isso é estar dentro de um saco de gilete, porque você não sabe em quem confiar, a qualquer momento você é estiletado, rasgado, entende? Como tenho uma certa noção de quem são essas pessoas, a letra foi criada para essa galera.

Beto – Acho que essa letra tem um sentido mais amplo... os políticos cortam o povo do nosso país o tempo inteiro. Gilete, não, o povo é empalado!

Adriano – São os cortes vivenciais, segundo Alexandre Falante da N.T.E.


Pegando o gancho de Beto com relação aos políticos... no documentário do Clash, Joe Strummer pergunta: o que você faria se pudesse governar o mundo? Ele mesmo diz, em seguida, que não tem uma resposta...

Beto – A resposta não vai acontecer nunca! A resposta é honestidade, mas isso não vai vingar no mundo...

Adriano – Governar o mundo é uma merda! É melhor sem governados e sem governantes...

Francisquinho – Nem ia chegar a governar, iria ser morto em poucos meses!


Como vocês definem a nova fase da Rotten Flies? Vocês deram o máximo nesse disco novo?

Adriano – Eu vejo a banda com mais vontade. A gente ensaia todo final de semana, e tinha muito tempo que não fazíamos isso! E com 4, 5 horas de ensaio! Francisquinho se empenhou muito, aliás, foi um empenho conjunto dos quatro. Esse é o melhor momento da banda! E isso é só um pingo do que ainda estar para vir.

Cecílio – Acho que a gente não deu o máximo, ainda não! Estamos esquentando, nos acostumando ao modo de ser de uma banda.

Beto – Quando teve a mudança, a gente não imaginava que ia ser rápido encontrar um vocalista. Na minha cabeça, íamos testar algumas pessoas e, ano que vem, a gente ia começar a gravar material novo. Só que tivemos sorte, o cara estava do nosso lado. Tudo foi muito rápido, e, nessa pegada, eu só espero coisa boa!


Vocês mencionaram a mudança. Como foi ver uma questão interna da banda sendo exposta numa rede social?

Beto – Há três anos, a gente pensou em fazer um livro da RF. Quando começou o processo do livro, eu tive uma noção de que alguma coisa ia mudar na banda, porque mudou o clima. Depois a banda parou um ano, logo depois de ter lançado o Rota de Colisão. Em seguida, voltamos a ensaiar, mas não estava legal, tava meio que obrigação e culminou na mudança. Essa é a minha visão.

Adriano – Eu via que, realmente, eu, Cecílio e Beto nos divertíamos, mas o vocalista não se divertia tanto quanto a gente. Parecia que estava carregando um fardo muito pesado. Marcelinho me falou que existe uma síndrome antes da gravação: ou você grava ou vai dar merda. E, uma semana antes, aconteceu um desconforto interno. A questão foi resolvida, e nós voltamos, só que instrumental! Fazer hardcore instrumental não dá, tem que ter a voz.

Cecílio – A conversa final foi muito tranquila. Ele disse que entendia e que a amizade era a mesma, que, se precisasse de ajuda com o novo vocalista, não teria problema algum... até aí, eu entendi. Eu só não entendi o depoimento!

Beto – Quando terminou a reunião, eu disse: essas palavras aí não vão rolar não! Vai vir chumbo! E foi dito e feito! Conversando com Adriano, no dia seguinte, depois da reunião, levantamos a possibilidade de até ligar pro cara! Vinte minutos depois, Adriano liga de novo e diz: “Hei, véi, não vai rolar ligar mais, não.” E eu disse: “O que foi que houve?” “O cara lavou roupa suja na internet.”

Adriano – Se tinha uma chance para voltar, morreu ali na rede social.

Cecílio – A troca de vocalista se consolidou depois do texto na rede social.

Beto – O texto definiu tudo. Eu disse a Cecílio e a Adriano que não íamos responder, era melhor deixar pra lá, porque eu não tenho mais saco pra isso! Eu quero me divertir! Eu quero tocar!

Adriano – Se a gente fosse revidar, ia virar Revista Contigo. Queremos só tocar! Existe um código interno nosso: o que acontece e o que é falado na banda, fica entre os membros da banda, e esse código foi quebrado.

Cecílio – Tanto que a visão que o pessoal tinha de fora não correspondia ao que realmente estava acontecendo.

Francisquinho – Quando eu soube de alguns fatos, eu fiquei de bobeira, porque nunca isso tinha chegado aos meus ouvidos, mesmo eu sendo fã da banda e indo a quase todos os shows.

Adriano – Todos tinham uma visão romanceada da banda. “Eles estão juntos há vinte anos! Que maravilha!”, e o cassete rolando em casa!


Quero encerrar com um trecho de uma entrevista realizada pelo Sávio Vilela com Ian MacKaye (Minor Threat): “As pessoas falam: “o punk está morto”; e eu digo: “não, o seu punk está morto”. O punk não morre... Enquanto houver mainstream haverá underground. Enquanto houver inércia e tédio e a tentativa de convencer a garotada que este é o jeito como as coisas são, o punk vai dizer: “nós rejeitamos isso”.

Francisquinho – Isso aí é meu livro de cabeceira!

Adriano – O que a gente faz está totalmente fora do mainstream. Nós somos os ‘meninos feios’ e seremos sempre. Como diz meu amigo Sopa d’Osso: “fazer música punk não é bonito”.


Rotten Flies

Entrevista originalmente publicada no Jornal Microfonia

 

 


 
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