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entrevistas: Cheguei Bem A Tempo De Ver O Palco Desabar, Ricardo Alexandre
Quarta-feira, 19 de Fevereiro de 2014 (13:49:36)


“Cheguei Bem A Tempo De Ver O Palco Desabar” traz ao leitor uma visão privilegiada e astuta sobre o desenrolar do rock nacional dos 90 até hoje






LIVRO CHEGUEI BEM A TEMPO DE VER O PALCO DESABAR

Entrevista com Ricardo Alexandre

Por Bruno Eduardo

 

“Cheguei Bem A Tempo De Ver O Palco Desabar” traz ao leitor uma visão privilegiada e astuta sobre o desenrolar do rock nacional dos anos noventa até os dias de hoje. Dividido em vários capítulos vivenciados pelo o autor, o livro pontua uma época de proliferação do gênero - explicando também todas as mutações contemporâneas. Sempre no intuito de desvendar os caminhos do mundo pop, Ricardo Alexandre é um dos jornalistas que mais ajudaram a segmentar o movimento nas últimas décadas. Editor da revista Bizz em sua última tiragem, hoje ele está à frente da Tudo Certo Conteúdo Editorial, e possui seu blog na internet. Se tivéssemos que fracionar a história do rock no Brasil, diríamos que 2/3 de sua biografia já foi contada pelo jornalista. Além de “Dias de Luta” - que decifra a era de um movimento marcado nos anos oitenta - Ricardo dirigiu alguns documentários que vasculham a memória dos fãs. Foi assim com “Napalm – o som da cidade industrial”, e com o sensacional “Júlio Barroso – o marginal conservador”. Porém, em sua nova obra, Ricardo Alexandre se distancia de qualquer responsabilidade editorial, para assim poder expressar uma visão descontraída - e particular - dos principais acontecimentos no mainstream noventista.  

 

 

Ricardo, para começar nossa conversa, fale sobre a escolha do título: "Cheguei bem a tempo de ver o palco desabar".

Bem, eu estava particularmente interessado em livros com trechos de frases no título, como "O barulho na minha cabeça te incomoda?" do Steven Tyler. E já sabia que o livro organizaria eventos em que eu estive presente. O capítulo sobre o Juntatribo2 [episódio em que o palco desabou na primeira noite do Juntatribo2, que era organizado no Observatório da Unicamp] foi um dos primeiros que fiz, porque, além de engraçado e curioso, foi muito simbólico pra mim. Percebi que "Cheguei bem a tempo de ver o palco desabar" teria tanto a conotação de remeter para um capítulo-título quanto para uma leitura mais metafórica, do desabamento do mercado da música como o conhecíamos.

 

Ele poderia se chamar "Diário de um roqueiro anônimo", não? Já que são relatos bem particulares de situações vivenciadas dentro do mainstream, só que contadas por alguém, que não um artista. Seria o outro lado da moeda? Ou um novo lado da história? Você consegue ver dessa forma? 

Mais do que isso. Eu não sou protagonista em nenhuma história, ou praticamente em nenhuma história. Sempre fui um observador privilegiado. Alguém que, de algum jeito que eu não sei explicar, conseguiu um equilíbrio muito interessante entre o distanciamento e a confiança dos artistas. E alguém que passou muito tempo pensando nas histórias todas e suas implicações. Normalmente essa teorização está mais “editorializada” de maneira sutil. Nesse livro ela está escancarada, porque o formato de blog-livro permite isso.

 

Por falar nisso, o livro evidencia também a importância do jornalismo cultural no Brasil. Naquela época os jornalistas eram a principal forma de um fã poder enxergar o universo de seu artista. Não acha?

Puxa, nunca havia pensado nisso nesses termos... Mas não acho que nós, jornalistas, fossemos os únicos elos entre público e artistas... Havia o rádio (o mais forte, na minha opinião), os festivais, os shows nas casas pequenas. O que eu sinto é que, de fato, a internet 2.0 permitiu que o público gerasse seu próprio conteúdo. Isso foi uma revolução, e tem sido uma revolução até hoje. No caso da imprensa escrita, que era mal preparada, e muito jovem, o golpe ainda não foi totalmente assimilado.

 

Digo mais na questão particular mesmo. Eu, como fã de rock, só sabia de coisas que aconteciam nos bastidores lendo revistas e jornais. Inclusive, vários capítulos de “Cheguei bem a tempo de ver o palco desabar” me causam um sentimento de descoberta (se é que posso definir assim).

Eu sinto falta do sentido estético que o jornalismo dava ao cenário musical. A música perdeu muito de seu charme por causa dessa “desimportância” da imprensa. Recentemente eu escrevi no meu blog um texto sobre o Metallica [leia AQUI], dizendo que eles traíram o discurso de independência e streetwear que eles tinham nos anos 80. E a maior parte dos comentários foi: "Mas e daí que eles traíram? a música continua boa e eu me divirto nos shows". Eles têm razão, eu também me divirto. Mas sinto falta dessa importância quase ética, atitudinal, que a música tinha e que estava muito ligada à prospecção jornalística. Hoje a música é um arquivo digital, normalmente sem nome: "Track01", que te bate por reação orgânica. É um processo mais natural, bestial, que me incomoda um pouco.

 

Verdade. Atualmente as coisas parecem ter muito adereço e pouca substância. Em “Cheguei bem a tempo de ver o palco desabar”, você tenta reunir a maioria das transformações culturais que o rock sofreu nos anos noventa até chegar o início da década passada. Você cita desde a ascensão de alguns artistas como Raimundos, por exemplo, como cita também o ruir das gravadoras - pontuando os últimos sucessos do mercado (Anna Julia e Mulher de Fases). Que tipo de analogia você consegue fazer entre as mutações dos períodos 80/90 e 90/00 - levando em consideração seus dois livros "Dias de Luta" e "Cheguei bem a tempo..." ?

Eu acho que nos anos 1980, o Brasil era um país social, culturalmente e politicamente ansioso por um tipo de música cosmopolita, apátrida, internacional. Acho que era a nossa forma de dizer que, depois de 30 anos de isolamento, a gente tinha, sim, condições de soar como se estivéssemos em Berlim ou Manchester. Nos anos 90, a possível "linha evolutiva" do rock brasileiro, iniciada com os Mutantes e os Novos Baianos foi retomada, com MUITO mais pegada roqueira e com mais ironia e leveza, duas marcas claras dessa geração. Mas os anos 80 foram uma história completa, com começo, meio e fim. A história dos anos 90 foi abruptamente interrompida por causa do "boom" da indústria fonográfica. Isso só ficou claro pra mim fazendo o livro - o quanto o cenário musical foi prejudicado justamente pelo nosso período de maior euforia comercial. Foi ali que o jabá destruiu as rádios, que as vendas consignadas destruíram as lojas de discos, que as bandas sem vocação para vender 1 milhão simplesmente desistiram.

 

Ou seja, o palco realmente desabou... 

Claramente. Criatividade sempre existirá. Faltava o palco agora.

 

Muitos colegas exaltam a importância das cenas independentes, como a salvação do rock. Você acha que o rock ainda pode ter uma sobrevida nesses pequenos movimentos - mesmo que haja certa banalização da obra fonográfica, em geral?

Sem dúvida as cenas independentes são importantes e devem ser celebradas e estimuladas. Mas eu sou um cara que se criou com o pop, e estou disposto a defender que é justamente a característica "breakthrough" do pop que faz toda a engrenagem girar (tanto a do mainstream quanto a das cenas independentes). É disso que sinto mais falta. Sem esse aspecto (que surge de uma conjunção de fatores, de veículos de mídia a vocação dos compositores) o rock vira um blues, um jazz, que sobrevive de sua cena independente, sem relevância alguma para as pessoas nas ruas. 

 

Se tivéssemos uma trilha sonora para "Cheguei Bem A Tempo De Ver O Palco Desabar", qual seria? 

1-"Esperar o quê", Virna Lisi

2-"Da Lama ao Caos", CSNZ

3-"A Cerca", do Skank

4-"Diário de um detento", Racionais MC's

5-"Ratamahata", Sepultura e Carlinhos Brown.

 


LANÇAMENTO DO LIVRO

Cheguei Bem A Tempo De Ver O Palco Desabar

Rio de Janeiro – Dia 20 de fevereiro (quinta-feira), às 18h. 

Livraria Cultura Cine Vitória (Rua Senador Dantas, 45, Cinelândia). 

Debate com Ricardo Alexandre, Pedro Só e Sílvio Essinger e pocket show acústico com o grupo Piu-piu & Sua Banda.



 
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