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entrevistas: Comedores de Lixo
Sexta-feira, 8 de Novembro de 2013 (0:47:17)

 

Aos Mortos: persistência e honestidade




 

+ entrevista

COMEDORES DE LIXO

Por Olga Costa e Adriano Stevenson

 

No processo de fabricação do vinho, existem várias etapas: colheita, esmagamento, fermentação, afinamento, envelhecimento e engarrafamento. Aí você me pergunta: “E daí? O que isso tem a ver com os Comedores de Lixo?” Respondo: Tudo! Nos confins do conjunto habitacional, Presidente Costa e Silva, assistindo aos ensaios da Rotten Flies, três moleques sem grana e com muita força de vontade deram início a uma jornada que já dura 16 anos. Com o passar do tempo, a banda foi mudando de formação, chegando ao ponto que culmina na sua melhor fase, o lançamento de seu debut, intitulado Aos mortos. Aqui você confere um bate-papo no qual o grupo paraibano de hardcore nos brinda com sua persistência e honestidade. Saúde! 

 

Como está essa formação nova? É como começar de novo?

Lawrence - Da formação mais antiga, só tem eu e Beto. Não é começar de novo, é continuar. Cada formação é um aperfeiçoamento, cada componente que entra vem com uma influência diferente, mas a gente mantém a nossa linha de som.


Marcel, você já conhecia a banda, mas como foi ter que pegar todas as músicas em tão pouco tempo?

Marcel - Até agora, ainda estou no processo de pegar as músicas! É música pra caramba! (risos). Tem hora que dá um branco e esqueço, mas é normal. Isso é só com tempo, mas, quando começam a dizer que vão chamar Anselmo de volta, só falto ter um ataque! (risos).


Foi você que criou a Comedores de Lixo?

Lawrence - A Comedores de Lixo foi criada da seguinte maneira: ensaiava na serigrafia de Jader, na Rua da Areia, a Rotten Flies. Quase toda semana, íamos assistir ao ensaio. Já conhecia a banda do Costa e Silva, ainda com Neto na guitarra. Eu era muito amigo de Jorge, estudava na Escola Técnica, e conhecemos Jader através de Beto. Daí a gente resolveu formar uma banda comigo no vocal, Jorge no baixo, Edvan na bateria e Jader na guitarra, a Ugly Duck. Nosso primeiro show foi no II Escarro Sonoro...


Vi vocês tocando pela primeira vez no Vox Odiun, no Cilaio Ribeiro...

Lawrence - A gente passou um ano tocando com essa formação...


Ugly Duck já era hardcore?

Lawrence - Sim, mas não tinha ideologia nenhuma. As letras eram sexistas, e a gente nem sabia o que era isso na época (risos)! Tinha uma letra que dizia: Glória era a puta mais gostosa da cidade. As letras eram do Jader. Nessa época, não tinha o lance do movimento punk caindo em cima dessas coisas, depois começou a ficar mais forte aqui em João Pessoa, e começou o policiamento. Depois disso, deu uma esfriada, e resolvemos formar outra banda. Dessa vez, seria hardcore com letras politizadas, sem sexismos, que tava com todo caralho aqui, o pessoal criticava muito o Matalamão (PE), que tinha vindo tocar aqui, caiu de pau.


A Comedores de Lixo existe há 16 anos. O que facilita e o que dificulta? Qual a ressonância do trabalho da banda depois de tanto tempo?

Lawrence - O que facilita é saber que já temos uma estrada, uma trajetória. É ter seu trabalho valorizado. O que dificulta é a questão de espaço...

 

Defina valorizado...

Lawrence - Valorizado pela galera da cidade, comparecer nos shows...


Você disse no Informativo da Cactus Discos em 2000...

Lawrence - Você está parecendo Ana Hickman: Você falou para a revista Contigo... (risos).


...onde fiz uma entrevista com a Comedores, e você falou assim: atualmente João Pessoa está muito parada... às vezes o pessoal vai aos shows, mas não entra, arruma dinheiro pra beber, mas não paga três reais num show... talvez seja o momento, deu uma decrescida e vai crescer de novo.

Lawrence - De 2000 até 2009, piorou muito. Começou a melhorar de 2010 pra cá. Teve tempo que a gente tocou apenas uma vez no ano! Tava tudo tão em   baixa   que  não  tinha show, não  tinha  porra  nenhuma! Principalmente porque se valorizava muito as bandas que faziam cover, isso foi uma merda! Teve um show uma vez que tinha três Nirvana cover numa noite só!


Aos Mortos é um apanhado do que a banda já fez ou é tudo inédito?

Lawrence - Não é um disco conceitual. É uma evolução... a nossa primeira demo tape foi Fator de Repressão num estúdio que tinha Williard, Wilhelm e Peixe nos Bancários. O primeiro CD foi a Velha Seca em CD-r, depois veio a coletânea Farinha, Hardcore e Rapadura, primeiro material prensado da banda. Depois veio De Deus e dos Homens, já com Klaton na guitarra. Nos créditos desse novo CD, tem todas as músicas compostas pela Comedores e Klaton Lins, porque ele compôs todas as músicas desse CD antes de deixar a banda. Roninho assumiu a guitarra, e começamos a procurar um baixista, e Anselmo veio gravou as músicas e depois foi embora para Portugal. Só fez gravar o CD e saiu!  Nada  antigo foi aproveitado, só tem músicas inéditas.


Por que “Aos Mortos”?

Lawrence - Não se faz disco ao vivo? Então, resolvemos fazer um disco chamado “Aos Mortos”. Junto com Nildo, a gente foi criando as ideias, a plateia toda de caveiras e por aí foi. É uma espécie de antônimo.


Nildo Gonzales fez a diferença na produção do CD Aos Mortos?

Lawrence - Sim! Nildo acompanhou os ensaios, a pré-gravação, a gravação. Até nas letras ele também ajudou, discutiu comigo, entonações, etc. Ajudou muito Beto na bateria... a presença de Nildo foi muito forte nesse nosso trabalho.

Roninho - No underground, não estamos acostumados com a figura do produtor. Muitas vezes, achamos ser irrelevante, mas foi bem legal. Foi a primeira vez que trabalhei com um produtor!


A capa é bem Misfits... quem foi que fez a arte?

Lawrence - Foi Jansen Baracho, de Natal, ele desenha muito bem! Além de gostar de hardcore e dessas paradas meio “walking dead”.


Como foi fazer Aos Mortos?

Lawrence - A gente estava sem gravar desde 2008. Daí paramos para compor o CD novo, não tínhamos capa, nada ainda. Foi quando Klaton foi para Natal, e aí ficávamos eu, Beto e Roninho fazendo as músicas.

Beto – No início, a gente deixou nas mãos dele, mas teve uma hora que foi preciso chegar no cara. No final, deu tudo certo.

Roninho - Tem um lance engraçado: é que Lawrence fazia as músicas no beatbox. Ele gravava no trabalho dele e trazia pra gente ouvir e passar pra guitarra (risos).

Lawrence – Já penso numa base. Hoje em dia, como tem o celular, gravo a ideia cantando a base. Um cara que estava lá no estúdio disse: “Meu amigo, quando faço isso a galera diz que sou abestalhado!” Pois eu faço direto, já deve ter umas dez músicas gravadas nesse celular. É muito bom, principalmente porque não tenho um violão em casa...


Qual foi a música que deu mais dor de cabeça nesse disco?

Beto – Fins Lucrativos...

Lawrence – A gente gravou e acabou descartando...

Roninho – Não gravamos com metrônomo.


Quais as que vocês gostam mais?

Roninho – Inimigos, acho muito foda!

Lawrence – Herança,  Alianças do Medo e Criança Soldado, gosto muito dessas três músicas.

Marcel – Herói e Criança Soldado.


A criação é um lampejo ou é um trabalho braçal?

Lawrence - Na maioria das vezes, a ideia vem quando estou dentro de um ônibus, no trabalho... quando vem uma ideia, escrevo. Nesse CD agora, muitas letras escrevi pensando na base que já tava pronta, mas a maioria das músicas anteriores veio do nada! É raro conseguir parar para pensar num tema, e, quando isso acontece, sai uma merda! (risos).


Você já pensou em sair desse tema contestatório?

Lawrence - Não. Até mesmo porque eu acho que o hardcore tem a ver com isso, de você expor a sua indignação. Tenho meu trabalho, mas não é por conta disso que vou deixar de ter a minha visão da realidade que é fudida! E eu não acho bom não, velho! Tem até uma letra que escrevi uma vez, mas nunca usei, que é assim: quando um dia estiver tudo maravilhoso/vou falar de amor. Mas não dá pra falar de amor agora, não, tem muita coisa triste. O hardcore está totalmente ligado a isso aí, não tem como se desvincular.

 

Se alguém chegasse pra você e afirmasse que, apesar de fazer um som rápido, pesado, com letras politizadas, vocês não são hardcore. Em que isso afetaria?

Lawrence - Eu perguntaria: o que é hardcore pra você? O hardcore está na minha cabeça. É meu jeito de viver, de pensar. Não tem nada a ver com questão social ou financeira. Não adianta você falar um monte de coisa e viver justamente o contrário. Eu vivo dentro do sistema, não posso dizer que sou contra, mas vou ter a minha maneira de viver.


Quem você destaca no cenário de bandas hoje?

Lawrence  -  Aqui tem  muita  banda  legal!   Aqui ainda tem uma cena forte nessa linha de som pesado. Tanto no metal como no hardcore. Destaco a banda E.R.R.O., gosto muito da Fucinho de Porco, Disacusia, No One Answers, Noskill, Madrecita.


O que você espera dessa fase nova da Comedores de Lixo?

Lawrence - Aos Mortos é o primeiro disco oficial. Provavelmente, a gente não vai tirar o que investiu, mas era algo que a gente esperava muito. O interessante é você poder lançar um material pelo que os outros acreditam! A música é a nossa válvula de escape! Não queremos viver de música.  O  mais   interessante da música é poder criar. Quando pensamos em lançar o CD, não pensamos em tirar o investimento, mas a questão de criar é que é foda e dizer: isso aqui quem fez fomos nós! Goste quem gostar! Não foi outra pessoa que fez, foi a gente. Isso é o mais importante. E, muitas vezes, quando o estresse bate, fazer música é isso...


Se vocês não fossem lançar Aos Mortos prensado, seria um problema lançar em CD-r?

Beto – Quando a gente ficou sem selo, pensamos o seguinte: vamos arrumar três selos. Pensamos em Klaton, Jorge... e vamos lançar em CD-r. Daí eu falei: eu prefiro que a gente faça um envelope com o CD prensado do que ter uma capa fuderosa e um CD-r dentro. 

Lawrence – A gente fez um investimento nesse CD e lançar em CD-r seria o mesmo que morrer na praia!

Roninho – Tem o lance da durabilidade também. O CD-r, com um ano, ele começa a descascar, o CD prensado tem um tempo de vida maior.


Quais os planos futuros?

Roninho – De imediato, tocar para divulgar o CD! E, quando chegarmos aos vinte anos, estamos pensando em fazer umas regravações.


O que você acha que a Comedores de Lixo não deveria ter feito?

Lawrence - Nada, acho que tudo o que a banda fez foi bem feito. Não tenho nenhum arrependimento. Já teve atitudes pessoais que hoje eu me arrependo, mas, quando a gente é imaturo, faz algumas coisas nada a ver...


Publicada no Jornal Microfonia #10 – setembro 2012




 
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