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rip: lou reed
Domingo, 27 de Outubro de 2013 (22:31:49)


Morre Lou Reed





LOU REED

Morre o poeta do rock aos 71 anos 
 
por Bruno Eduardo
 

O rock imortaliza seus gênios. Lou Reed já tinha conquistado seu lugar na eternidade, ao lançar o estupido e genial disco de estreia do Velvet Underground. Porém, aos 71 anos de idade, o músico entra de vez para o hall dos intocáveis. Reconhecido principalmente pelo seu trabalho ao lado de John Cale, Lou Reed deixa este planeta em decorrência de uma insuficiência hepática crônica – devido ao impacto sofrido pelo longo tempo utilizando drogas pesadas. O vício nunca foi escondido. Nem o alcoolismo. Em "Heroin" (lançada em 1967), descreveu o seu envolvimento com a substância na seguinte frase: “heroína é a minha esposa, e minha vida”. Nascido no Brooklyn e bissexual assumido; casado com Laurie Anderson, apaixonado por poesia e romancismo - principalmente escritores como James Joyce –, Lou Reed era um artista errático, como toda arte deveria ser por natureza. 
 
E assim foi. 
Ele errou desde o começo. 
O rock venceu sempre por suas vias. 
R.I.P. LOU REED (1942 – 2013)
 
 

 

VELVET UNDERGROUND

Por João Eduardo Veiga


O álbum de estréia do Velvet vendeu pouquíssimas cópias, mas serviu de inspiração para que cada um desses compradores montasse sua própria banda. Certíssimo: o Velvet Underground deu origem ao rock alternativo, semeando o punk e todos os sons que transbordam inventividade.

A música pop produz deuses. Os quatro Beatles, tanto os mortos quanto os vivos, são deuses. Elvis Presley, estando morto ou vivo, é um deus. Todos eles, portanto, serão eternamente venerados. Só que a devoção aos deuses quase sempre acaba se transformando em uma fria burocracia. Quantas pessoas vão à missa de domingo por uma simples obrigação e, noite após noite, dão uma rezadinha apenas pela força do hábito?

Todo mundo sabe recitar o “Pai Nosso”, todo mundo sabe cantar “Yesterday”, todo mundo sabe rebolar como o “Rei”. Mas quem está realmente se importando com tudo isso? A verdadeira idolatria, aquela paixão vinda das entranhas, está direcionada ao inferno. Poucos se aventuram nessa viagem ao desconhecido, mas quem penetra na escuridão acaba sempre retornando como um grande fiel.

Então podemos dizer assim: o Velvet Underground é o inferno personificado. Não, o grupo não tem canções satanistas e seus integrantes – pelos menos até onde se sabe – nunca fizeram nenhum pacto com o diabo. O que acontece é que, mesmo que ouvido por poucos, o Velvet Underground é a banda mais cultuada da história. Para os fãs, seus discos não são uma simples trilha sonora; são um estilo de vida. Mesmo citado como grande influência por nomes tão díspares quanto Ben Kweller e The Walkmen, Velvet Underground ainda é uma banda muito mais comentada do que escutada.

ESPERANDO PELO HOMEM

No final dos anos 60, a música pop anglo-americana não fugia dos rockões de arena, do folk, da psicodelia e dos inocentes iê-iê-iês radiofônicos. Mas em algum ponto mal iluminado da cidade de Nova York as viagens maneiras de LSD eram trocadas pelos terríveis pesadelos provocados pelo consumo de heroína e as perversões sexuais faziam com que o amor livre pregado pelos hippies parecesse brincadeirinha de criança.

Quem tivesse coragem de dar uma espiada nesse canto sombrio veria seis pessoas: um traficante, um travesti, Lou Reed, John Cale, Sterling Morrison e Moe Tucker. O traficante estava fazendo uma entrega rotineira; o travesti estava apenas cumprimentando um velho conhecido. Os outros quatro eram os integrantes do Velvet Underground, uma banda que possuía uma definição nada convencional de rock’n’roll.

Vindo de uma infância conturbada, Lou Reed era um universitário interessado em música e literatura que, para juntar uns trocados, compunha canções fáceis e as vendia para a pequena gravadora Pickwick. Foi ali que conheceu John Cale, um galês de formação clássica que se mudou para os EUA a fim de ganhar a vida como músico profissional e encontrou espaço tocando com artistas que baseavam suas obras no minimalismo e na repetição, entre eles John Cage e LaMonte Young.

Desse encontro surgiu o conceito inicial – um experimento musical que fundia rock com vanguarda – e o nome The Velvet Underground, tirado de um livro de ficção barata do qual Lou era fã.

John Cale assumiu o baixo e Lou Reed, a guitarra e o vocal. Para completar o grupo, foram chamados o guitarrista Sterling Morrison (colega de Lou na faculdade de literatura) e o baterista Angus McLise, que saiu da banda ao alegar, logo após o primeiro show, que era contra a idéia de ganhar dinheiro fazendo arte. Em seu lugar entrou a andrógina Maureen “Moe” Tucker, irmã de um amigo de Morrison.

As canções que Reed havia anteriormente composto sozinho ao violão – todas com letras contendo pesadas referências a seus passeios pelos universos da loucura, do vício, do sexo bizarro e da literatura de William Burroughs, Hubert Selby Jr. e Raymond Chandler – começaram, a partir daí, a ser recriadas por toda a banda.

Espessos riffs de guitarra, batidas tribais e intromissões da viola elétrica (uma espécie de violino ainda mais estridente, importada do País de Gales por John Cale) eram o estranho e inédito sustentáculo das canções “Heroin”, “Venus in Furs” e “All Tomorrow’s Parties”. Com esse repertório, o Velvet Underground fez uma série de shows durante o ano de 1966, assustando uns espectadores – o grupo chegou a ser expulso Café Bizarre, no Greenwich Village – e fascinando outros.

Entre as pessoas que se encantaram estava Andy Warhol, artista plástico que, com sua chamada pop art, fazia sucesso entre os nova-iorquinos mais descolados. Andy, que também se aventurava pelo cinema (chamando atenção ao dirigir Sleep, um filme de quase seis horas que mostra apenas o poeta John Giorno durante o sono), pretendia injetar sua arte na música e enxergou no Velvet Underground – que, como ele, mesclava a vanguarda com o pop – o canal perfeito para isso.

Andy Warhol então “resolveu” (entre aspas porque, como reza a lenda, Andy jamais foi capaz de tomar uma decisão sozinho) contratar o grupo. Só que, para ele e seus comparsas, Lou Reed, sem presença de palco e cantando como um Bob Dylan isento de qualquer senso de ritmo, era anti-performático demais para estar à frente de uma banda como aquela.

Tiveram então a idéia de convidar a modelo e porra-louca Christa Paffgen, mais conhecida como Nico (um anagrama de icon, ícone), para assumir o microfone do Velvet Underground. Nico era uma alemã alta e de voz grave que, antes de se meter a cantora, morou em todos os buracos da Europa, participou de um filme do cineasta italiano Federico Fellini (La Dolce Vita, de 1960) e teve um filho com o ator francês Alain Delon.

O grupo, obviamente, não ficou nem um pouco animado com a chegada de Nico. Principalmente Lou Reed, que, segundo John Cale, “naquela época estava muito cheio de si e aveadado” e temia ser ofuscado por aquela beldade nórdica que adentrava em seu território. Receando perder a oportunidade de ser contratada por Andy Warhol, a banda acabou aceitando a presença de Nico com a condição de que ela cantasse em apenas algumas músicas. Foi isso o que aconteceu na turnê seguinte, batizada por Warhol de Exploding Plastic Inevitable.

Mais um espetáculo teatral do que um show propriamente dito, o Exploding Plastic Inevitable era um festival de bizarrias. O espetáculo consistia em uma performance da banda sobre projeções de filmes de Warhol, ao mesmo tempo em que dançarinos armados com chicotes e seringas serpenteavam pelo palco. Entre uma apresentação e outra, no meio de vaias e aplausos, entraram em estúdio para trabalhar em seu primeiro álbum.

 

TODAS AS FESTAS DE AMANHÃ

 

_The Velvet Underground & Nico (1967) - A estréia do Velvet Underground conta com o nome de Andy Warhol como autor da antológica capa com a banana (que no LP original poderia ser descascada, revelando algo fálico e avermelhado) e produtor, porém quem realmente cuidou da sonoridade do disco foi Tom Wilson – que conseguiu encaixar a banda no selo Verve, especializado em jazz.

Contradizendo a fama do grupo, o álbum abre com os ares ternos de “Sunday Morning”, uma balada em que Lou Reed canta com uma inusitada suavidade sobre um pianinho que mais parece um xilofone de brinquedo. Mas é um falso diapasão: a segunda faixa, “I’m Waiting for the Man”, é que vem dar tom ao disco. Repetitiva, suja e com uma letra que representa os pensamentos de um viciado enquanto espera por seu traficante, a canção funciona como o verdadeiro cartão de visitas da banda.

Não demora muito para “Venus in Furs” (com título tirado de um livro de Leopold Von Sacher-Masoch, cujo nome derivou na metade final do termo “sado-masoquismo”) surgir e, marcada por uma cortante viola, abrir espaço para a inquietante e auto-explicativa “Heroin”, com versos explícitos que descrevem em detalhes o poder da droga no corpo e na mente de um junkie. Outras duas faixas, “Run Run Run” e “There She Goes Again”, são rocks vigorosos executados com muita propriedade.

Nico, que quase saiu na mão com Lou durante as gravações, acabou cantando em apenas três músicas. Duas delas são as bonitinhas “Femme Fatale” e “I’ll Be Your Mirror”, mas é na mórbida “All Tomorrow’s Parties” – que acabaria servindo de modelo para sua posterior carreira solo – onde ela se sai melhor. O disco fecha da forma mais ruidosa e experimental possível com “The Black Angel’s Death Song” e “European Son”, deixando pistas de como seria o LP seguinte.

The Velvet Unederground & Nico foi ignorado pelo público e encalhou nas lojas. Chegou ao patamar de disco de ouro apenas nos anos 80, época em que a obra da banda foi redescoberta e transformada em cult por um novo público interessado em novos sons. Só foi lançado no Brasil em meados de 2003, com mais de trinta e seis anos de atraso.

 

_White Light/ White Heat (1968) - Mesmo com o fracasso comercial de sua estréia em disco, o Velvet teve uma nova chance e recebeu uma verba, mesmo que minguada, para a confecção do segundo álbum. Sem os vocais de Nico e com Andy Warhol à distância, elevou ao quadrado o caos mostrado no trabalho anterior e fez de White Light/White Heat uma das gravações mais extremas, agressivas e ásperas de todos os tempos.

Como se tudo ali tivesse sido cuspido à perfeição, o instrumental surge completamente incongruente – há quem diga que esse efeito foi em boa parte ocasional, motivado pelo boicote que o produtor Tom Wilson reservou à banda – e a lista de músicas não aponta nenhum momento mais ou menos doce como “I’ll Be Your Mirror” ou “Sunday Morning”.

Cinco faixas estavam no lado A do LP: uma rápida e suja ode à anfetamina (“White Light/White Heat”), a história sem final feliz do rapaz que se envia de presente para sua namorada (“The Gift”), o caso de um travesti que se submete a uma cirurgia de mudança de sexo (“Lady Godiva’s Operation”), uma canção pop às avessas (“Here She Comes Now”) e uma não-música repleta da distorção e microfonia (“I Heard Her Call My Name”).

Apenas uma faixa, no entanto, ocupava por completo o outro lado do vinil: “Sister Ray”, uma assustadora e adequadamente irritante jam session com 17 minutos e meio de duração onde guitarra, baixo, órgão e bateria se fundem em uma maçaroca sonora de letra nonsense e obscura. O álbum, claro, foi um fracasso de vendas ainda maior que seu antecessor, o que culminou numa temporada de brigas e levou à expulsão de John Cale por Lou Reed.

 

_The Velvet Underground (1969) - O terceiro LP do Velvet Underground não poderia ser mais diferente do anterior. É um disco com folks delicados e rocks alto-astral, a verdadeira calmaria depois da maior de todas as tempestades. A saída de John Cale, o integrante mais afeito a maluquices sonoras, fez com que Lou Reed tivesse todo o espaço necessário para espreguiçar seu ego e pela primeira vez deixar bem claro que era um transformer que nunca tinha medo de mudar de idéia.

O disco The Velvet Underground, intitulado – provavelmente não por acaso – como se fosse um trabalho de estréia, é um confessionário no qual Reed tenta se redimir de todos os “pecados” cometidos nos discos anteriores. São versos contemplativos (“Candy Says”) e esperançosos (“Beginning to See the Light”), com direito a uma oração (“Jesus”) e uma singela canção de amor (“Pale Blue Eyes”). Até mesmo a mais experimental “The Murder Mistery” – que se houvesse sido registrada em White Light/White Heat certamente soaria barulhentíssima – é polida e comportada.

Além disso, duas vozes diferentes são ouvidas: o novo baixista Doug Yule canta “Candy Says” com a suavidade que a canção pede e Moe Tucker fecha o disco exibindo seu refrescante timbre infantil em “After Hours”. O álbum foi lançado originalmente com uma mixagem chamada the closet mix, que pretendia fazer com que o disco soasse como se tivesse sido gravado dentro de um armário (!?). A versão atualmente disponível em CD, mixada anos mais tarde, traz um som – para o bem ou para o mal – muito menos nebuloso que o original.

 

_Loaded (1971) - Após ser demitido da Verve, onde gravou seus primeiros três álbuns, o Velvet Underground entrou na Atlantic Records com o objetivo de fazer um disco limpo – tanto no som quanto nas letras – e repleto de hits em potencial. Em sua originalidade simples e despretensiosa, o trabalho divide opiniões: uns o consideram como o mais bem realizado da banda, enquanto outros o tem como uma tentativa de “rendição ao sistema”. É, na verdade, uma mistura perfeita das duas afirmações.

Deliciosamente pop, Loaded é um clássico disco de rock’n’roll realizado com extrema competência. Lou Reed estava a fim de se tornar uma estrela e usou o Velvet Underground para testar sua capacidade de fazer sucesso – tanto que deixou o grupo antes mesmo do álbum chegar às lojas. Quer dizer, a banda que toca em Loaded não é exatamente o Velvet Underground. O baixista Doug Yule canta em quase metade das canções (“Who Loves the Sun”, “New Age”, “Lonesome Cowboy Bill” e “Oh! Sweet Nuthin’”) e a baterista Moe Tucker, cujas batidas eram marca registrada da banda, estava grávida e foi substituída pelo irmão de Doug, Billy Yule.

Mas o reconhecimento popular começava a ser esboçado a partir do marcante riff inicial de “Sweet Jane” e do hino “Rock & Roll”, duas canções que logo se tornariam algumas das mais pedidas no repertório solo de Reed. Loaded foi relançado, em meados dos anos 90, acompanhado de um CD extra com demos e embriões de baladas que posteriormente apareciam nos trabalhos de Lou Reed (“I Love You”, “Satellite of Love”, “Sad Song” e “Love Makes You Feel Ten Feet Tall”).

 

_Squeeze (1973) - Quando Lou Reed saiu do Velvet, em 1970, não imaginava o poder que esse nome evocaria mais tarde. Tanto que nem ligou em deixar o grupo em poder de seu membro mais novo e menos prestigiado, Doug Yule. Após alguns shows ainda contando com a presença de Sterling Morrison e Moe Tucker (recentemente lançados na caixa Final VU, de tiragem limitada), Yule ficou sozinho e chamou o baterista Ian Paice, do Deep Purple, e o guitarrista Willie “Loco” Alexander para mais uma turnê.

Com isso, além de já ser considerado por muita gente como “o idiota que substituiu John Cale”, Doug Yule passou a ser visto também como “o babaca que sujou a reputação do Velvet Underground”. Só que a culpa, no fim das contas, nem foi dele. Esse trabalho foi concebido como um álbum solo, mas a gravadora obrigou que fosse lançado sob o nome de sua ex-banda. Ouvido longe da sombra de Lou Reed, nem se mostra tão ruim assim, com um estilo que, sem o mesmo brilho, lembra um pouco o de Loaded. Squeeze nunca saiu em CD e os poucos LPs até hoje disponíveis são disputados a tapa pelos curiosos.

 

_1969: Velvet Underground Live (1974) - Não existe registro de nenhum concerto do Velvet Underground que conte com John Cale e a agressividade sonora dos anos de 1967 e 1968, mas este LP duplo (posteriormente dividido em dois CDs independentes) gravado em 1969 nas cidades de Dallas e San Fancisco mostra um irrepreensível show de rock. Inclui novos arranjos – mais suaves, diga-se de passagem – para “I’m Waiting for My Man” e “Heroin”, além de uma versão de “New Age” com letra completamente diferente da que apareceria em Loaded.

 

_Live at the Max’s Kansas City (1972) - Disco ao vivo gravado em 1970 de forma amadora por um fã presente na platéia do legendário bar de Nova York. Mesmo sem ter uma boa qualidade de som, é essencial por ser uma das últimas apresentações da banda – apesar de contar com as mãos pesadas de Billy Yule empunhando as baquetas. É interessante ouvir Lou Reed cantando “After Hours” e dizendo, depois de escutar um pedido do público, que não toca mais “Heroin”. Ele mudaria de idéia mais tarde, claro.

 

_VU (1985) - Lançado no princípio do revival do Velvet Underground que perdura até hoje, VU foi o primeiro mergulho no baú de raridades de Lou Reed e cia. O disco é uma coletânea composta basicamente por faixas que fariam parte de seu quarto LP, abortado quando o Velvet rompeu com a Verve/MGM. “I Can’t Stand It” e “Foggy Notion” são algumas das músicas mais exuberantes do grupo, enquanto “Ocean” talvez seja o primeiro exemplar de dream pop da história e “I’m Sticking With You” é mais uma canção fofíssima com Moe Tucker ao microfone. As duas únicas faixas de 1968, “Stephanie Says” e “Temptation Inside Your Heart”, ainda com a presença de John Cale, não destoam nem um pouco das outras e permitem que VU seja um álbum surpreendentemente coeso.


_Another View (1986) - A segunda incursão da MGM na arca perdida do Velvet resultou em Another View, disco um pouco menos interessante que seu predecessor. Entre as nove faixas, três delas não têm vocal (“Guess I’m Falling in Love”, “Ride Into the Sun” e “I’m Gonna Move Right In”), mas uma versão inicial de “Rock & Roll” e “We’re Gonna Have a Real Good Time Together” – que ficou famosa sendo tocada por Patti Smith em seus primeiros shows – fazem do álbum um item obrigatório.

 

_Live MCMXCIII (1993) - Sim, a banda se reuniu em 1993 e realizou uma turnê pela Europa. Os shows devem ter sido realmente arrepiantes para quem estava na platéia dessa apresentação em Paris – afinal, eram Lou Reed, John Cale, Sterling Morrison e Moe Tucker juntos no mesmo palco. Em disco, porém, as coisas não funcionam tão bem assim. O som é ótimo e o grupo aparenta estar muito bem ensaiado, mas talvez seja exatamente esse o problema: não é um Velvet Underground muito inspirado e espontâneo.

O maior vilão da história, no entanto, é o próprio Lou Reed, que simplesmente estraga todas as canções com seu vocal exageradamente falado. Está certo que o cara nunca foi – ainda bem – um cantor excepcional, mas aqui parece que Lou quer propositalmente matar todas as melodias e fazer com que ninguém consiga cantar junto com ele. A banda pretendia levar a turnê para os EUA e, quem sabe, trabalhar em um novo disco de estúdio, mas um novo desentendimento entre Reed e Cale fez com que todos os planos fossem por água abaixo.

 

_Peel Slowly and See (1995) - Caixa com cinco CDs contendo, na íntegra, todos os quatro álbuns oficiais de estúdio e mais um disco com demos de 1965. Essas demos, gravadas precariamente, contam com Lou Reed e John Cale tocando versões irreconhecíveis de “Venus in Furs”, “Heroin”, “I’m Waiting for My Man” e “All Tomorrow’s Parties”. Todos os discos vêm recheados de bônus, mas pouca coisa é inédita: são faixas de VU, Another View e dos álbuns ao vivo. O terceiro disco da banda, The Velvet Underground, aparece aqui na original the closet mix. E a banana da capa pode ser descascada!

 

_Le Bataclan ’72 (2004) - Há décadas rodando entre os colecionadores como um bootleg de respeito, a apresentação única que reuniu na França Lou Reed, John Cale e Nico após o fim do Velvet Underground finalmente é lançado de forma oficial (e luxuosa). É basicamente um “acústico” – com voz, violão, piano e a viola/violino de Cale – no qual o trio relê velhas canções (entre elas “Black Angel’s Death Song”, pela primeira vez inteligível) da banda e apresenta algumas peças inéditas de cada um, entre elas “Berlin”, que Lou Reed define como “minha canção Barbra Streisand”. Um registro emocionante para os fãs do Velvet Underground.

 

DEPOIS DE HORAS

 

 

LOU REED gravou o primeiro álbum solo (que estranhamente contou com a participação de Rick Wakeman e Steve Howe, um pessoal geralmente mais chegado ao rock progressivo) logo após a ruptura do Velvet Underground, mas não teve uma boa aceitação por parte da crítica e não conseguiu sair da obscuridade.

Porém seu admirador David Bowie não tardou em partir para o resgate de seu parceiro, produzindo com muito glitter o fundamental Transformer – onde estão os clássicos “Walk on the Wild Side”, “Vicious”, “Satellite of Love” e “Perfect Day” – que, ainda em 1972, atingiu as paradas de sucesso. O passo seguinte foi o belo e introspectivo Berlin (1973), tido por boa parte dos fãs como seu melhor disco.

Talvez sentindo remorsos por lançar um trabalho com pouquíssima guitarra, passou por uma fase bem arena rock com o ao vivo Rock’n’Roll Animal e Sally Can’t Dance, ambos de 1974, e, indeciso como ele só, rapidamente desistiu de ser pop ao gravar um álbum duplo e inaudível – essa era mesmo a intenção – chamado Metal Machine Music (1975), onde há muito barulho e nenhuma canção.

O disco, considerado como lixo atômico por muitos e como obra-prima por poucos, deixou bem claro que Reed, assim como seu camarada Bowie, estava disposto a experimentar formatos diferentes a cada investida. Tanto que um palatável Coney Island Baby (1976) logo chegou às lojas, seguido pelo cru Street Hassle (1978) e o jazzístico The Bells (1979).

Depois de atravessar a década de 80, quando enfrentou sérios problemas com as drogas e lançou New Sensations (1984), Mistrial (1986) e New York (1989) – três discos com um rock convencional e até, principalmente no caso do segundo, meio farofa –, Lou Reed se reuniu com seu desafeto John Cale para cunhar o excelente Songs for Drella, uma homenagem póstuma a Andy Warhol.

No total, a discografia solo de Lou Reed conta com vinte discos de estúdio e oito ao vivo, além de um batalhão de coletâneas e lançamentos não-oficiais. Seus trabalhos mais recentes foram o energético Ecstasy (2000) e The Raven (2003), uma espécie de ópera-rock adaptada do poema de Edgard Allan Poe. Apresentou-se no Brasil em duas ocasiões, nos anos de 1996 e 2000.

 

JOHN CALE produziu uma firme carreira solo, desde cedo alternando LPs mais pop e convencionais (como Vintage Violence, de 1970) com discos experimentais (Church of Anthrax, 1971). A função em que mais se destacou, porém, foi a de produtor. Assim que pulou fora do Velvet Underground correu para produzir, em 1968, o fundamental álbum de estréia dos Stooges, banda que revelou Iggy Pop.

Cale foi ainda o responsável por outras obras importantíssimas, entre elas o primeiro disco de Jonathan Richman and the Modern Lovers (1973) e Horses (1975), de Patti Smith. Além disso, ao longo dos anos, colaborou com artistas como Brian Eno, Nick Drake, Squeeze, Siouxsie & the Banshees, Happy Mondays e Super Furry Animals. Em 1998, compôs a trilha para um balé em homenagem a Nico, lançada no CD Dance Music.

Seu trabalho mais recente, Hobo Sapiens (2003), marcou o fim de mais de sete anos de espera por um disco de novas canções – o último havia sido o acessível Walking on Locusts, de 1996 – e foi amplamente aclamado pela crítica. Tocou no Brasil em 1999.

 

STERLING MORRISON continuou quieto em seu canto após deixar o Velvet Underground. Virou professor universitário e não lançou nenhum trabalho solo, aparecendo apenas como convidado em alguns discos de amigos (John Cale, Moe Tucker) e, a partir do final da década de 70, fazendo parte de uma banda de bar chamada The Bizarros.

Em 1994, participou do segundo disco do grupo americano Luna (freqüentemente comparado ao Velvet), no qual tocou guitarra em algumas faixas. Morreu no ano seguinte, após passar muito tempo lutando contra um câncer.

 

MOE TUCKER saiu da banda e desapareceu pelos subúrbios americanos, criando seus filhos com o salário mínimo que recebia ao trabalhar como caixa em uma loja de departamentos. Com a popularidade do Velvet Underground crescendo enormemente a partir dos anos 80, o dinheiro arrecadado com direitos autorais ficou mais encorpado e Tucker foi redescoberta por uma nova geração de roqueiros alternativos, entre eles Jad Fair (Half Japanese) e Kim Gordon (Sonic Youth), que a incentivaram a voltar à música.

Passou a tocar guitarra e gravou cinco discos, com destaque para Life in Exile After Abdication (1989) e I Spent a Week There the Other Night (1991). Há pouco tempo lançou um EP com covers de Phil Spector, um single com regravações das duas músicas que cantava no Velvet (“After Hours” e “I’m Sticking With You”) e um álbum ao vivo, registrado durante sua constante turnê pelos EUA.

 

NICO, ainda em 1967, gravou Chelsea Girl, um belo e estranho disco onde sua voz nada discreta aparece contrastando com singelos arranjos orquestrais. O repertório é formado por canções de seus ex-colegas de banda e outros artistas de peso como Bob Dylan, Tim Hardin e Jackson Browne.

Os três álbuns seguintes, os densos e góticos The Marble Index (1969), Desertshore (1970) e The End (1974), foram produzidos por John Cale e baseados em canções próprias de Nico, que se revelou uma grande compositora de letras intimistas. Assim como Lou Reed, afogou-se em drogas pesadas durante o fim dos anos 70 e boa parte dos 80, época em que lançou os menos celebrados Drama of Exile (1981) e Camera Obscura (1985).

Em 1988, supostamente livre das drogas, sofreu um acidente de bicicleta durante uma visita à Ilha de Ibiza, na Espanha, e foi encontrada morta junto ao meio-fio, vítima de uma hemorragia cerebral.


DOUG YULE, após comandar, até 1973, um Velvet Underground sem nenhum membro original, foi, por mais incrível que pareça, músico de apoio de Lou Reed durante meados da década de 70, chegando a tocar baixo no álbum Sally Can’t Dance. Participou da banda de carreira curta American Flyer e depois ficou por décadas sem dar as caras – provavelmente temendo ser atacado por um bando de fãs de Reed e Cale que o acusassem de oportunista.

Só reapareceu em 2002, com o disco Live In Seattle, gravação de um show em que toca várias músicas próprias e um punhado de versões do Velvet (“Candy Says”, “Beginning to See the Light”, “What Goes On” e “Sweet Jane”).

 

A NOVA ERA

O Velvet Underground tem um papel incontestável na história: criou o rock moderno. A banda abriu caminho para que, no fim dos anos 60 e 70, surgissem nomes como Stooges e MC5 – o chamado protopunk. E, é claro, foi daí que os Ramones e os Sex Pistols buscaram fôlego para fundar o punk.

Mas não foi só. Da new wave ao gótico, tudo o que já foi chamado de alternativo bebeu, de alguma forma, do álcool do Velvet Underground. Ainda nos anos 70, “Femme Fatale” apareceu no clássico do Big Star “Third/Sister Lovers” e David Bowie executava uma versão muito pessoal de “White Light/White Heat”.

Na Grã-Bretanha, o Joy Division emulou o lado mais sombrio da banda, enquanto o Jesus & Mary Chain foi fundo na idéia de afogar melodias bonitinhas em arranjos esporrentos. O Echo & the Bunnymen costumava tocar “Run Run Run” e “Foggy Notion” em seus shows; o New Order ia de “Sister Ray”.

Nos primeiros anos da década de 80 surgiu nos EUA um movimento rotulado pela crítica musical como jangle pop, que consistia na retomada de sons “malditos” dos anos 60. Duas bandas desse estilo costumam agradar em cheio os admiradores do Velvet Underground: The Feelies e The Dream Syndicate.

O R.E.M. também surgiu nesse meio e gravou, logo no começo de sua carreira, covers de “Pale Blue Eyes”, “Femme Fatale” e “There She Goes Again”. Depois vieram Pixies, Galaxie 500, Pavement...

O Nirvana gravou “Here She Comes Now” no mesmo tributo ao Velvet em que “European Son” foi tocada pelo Ride. A cantora Beth Gibbons, do Portishead, fechou seu show no Brasil com uma versão de “Candy Says”, canção que também serviu de lado B para as bandas Blind Melon e Garbage. O Teenage Fanclub escolheu “Who Loves the Sun” e o Buffalo Tom, “All Tomorrow’s Parties”.

No Brasil, além de influenciar centenas de bandas indie, o Velvet Underground era um dos grupos preferidos de Renato Russo (os primeiros versos da música “Mais do Mesmo” são uma homenagem a “I’m Waiting for the Man”) e “Pale Blue Eyes” – que também tem uma tosca gravação de Courtney Love – entrou no disco Verde, Amerelo, Anil, Cor-de-Rosa e Carvão, de Marisa Monte.

Os escoceses do Belle and Sebastian, que às vezes tocam “What Goes On” ao vivo, parecem ter baseado toda a sua obra no clima da canção “She’s My Best Friend” e, assim como existe gente que chama o Oasis de cópia dos Bealtes, os Strokes foram considerados como um clone moderno do Velvet.

Esse espírito continua vivo e perambulando pelo meio musical, fazendo com que, não sem razão, toda nova banda interessante venha logo a ser comparada ao Velvet Underground.


 

 


 
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