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discos básicos: Suicidal Tendencies
Quarta-feira, 31 de Julho de 2013 (5:22:21)


30 anos de Suicidal Tendencies





30 ANOS DE SUICIDAL TENDENCIES

Por Guto Jimenez

 

Lembro como se tivesse sido ontem: era o final de 1983, e eu e meu amigo Alexandre Calmon pegamos carona com o Cesinha Chaves pra irmos andar de skate na pista de Campo Grande. Antes de entrarmos no Túnel Rebouças, o dono do carro empurrou uma fita cassete no som do carro e avisou: “escutem só que porradaria, é perfeito pra se andar de skate!” O que entrava por nossos ouvidos adentro era um mix de punk vigoroso, metal acelerado como ninguém fazia e letras que eram um soco no fígado... O que era aquilo?! Parecia que tinham juntado a agressividade dos Dead Kennedys com o peso do Black Sabbath!  

Meia hora depois, a minha concepção musical estava mudada pra sempre – graças a “Suicidal Tendencies”, o álbum de estreia da banda que agora faz 30 anos de lançamento.

Era a banda do Mike “irmão do Jim” Muir, ou do irmão caçula do legendário skatista profissional de DogTown; além disso, eles eram de Venice Beach, o eterno abrigo dos bicho-grilos que ainda insistiam em existir no sul da Califórnia. Mesmo assim, ou talvez até por causa disso, o som era o contraponto perfeito à ilusão de “paz e amor” que os cabeludos fedidos a patchouli ainda acreditavam. Não é à toa que conquistaram uma legião de fãs por toda a cidade de Los Angeles, principalmente entre os skatistas, surfistas e gangueiros. Sim, Venice é até hoje um território dos Crisps, e não é à toa que as bandanas azuis se tornaram um dos símbolos da banda, dos Cycos, dos V-13s e de outras gangues da região.

Na verdade, era o esporro que precisávamos ouvir por aqui naquele momento musical dominado pelo punk rock ainda ascendente em terras cariocas. As bandas do punkarioca tinham uma sonoridade que dividia-se entre o “punk 77” e o hardcore, e naquela época não era possível que punks e “metaleiros” convivessem no mesmo espaço sem que se culminasse na inevitável porradaria generalizada. Uma banda que ousasse misturar os dois sons era inimaginável, até o surgimento do ST.

O disco em si é um clássico, e constaria fácil da minha lista de Top 10 de todos os tempos. É um trabalho visceral e furioso, agressivo e contundente, devastador como um terremoto e casca-grossa como uma roda de pogo. Não é à toa que bandas tão diferentes entre si como Anthrax, Cypress Hill e Limp Bizkit consideram o trabalho como “influência definitiva” em suas carreiras.

Dando uma geral música a música:

- “Suicide’s an alternative / You’ll be sorry”: uma gargalhada insana e malvada abre o disco, e a música conta a revolta de um jovem que está de saco cheio de tudo que o cerca, até mesmo da vida – típica de um cara revoltado com menos de 20 anos naqueles tempos.

- “Two sided politics”: chega a ser até mesmo um pleonasmo, pois qual político não tem duas caras?! “Não sou anti-sociedade, a sociedade é anti-mim” é o verso de abertura de uma tijolada nos cornos dos que, à época, dominavam o cenário geopolítico da época, muitos dos quais lançaram as bases econômicas que resultaram na crise financeira mundial de 2008.

- “I shot the devil”: na verdade, a música se chamava “I shot Reagan”, e diz a lenda que os membros da banda foram “convencidos”pelo FBI a mudarem o título... Menos mal que não mudaram a letra, onde detonam não só o canastrão que virou presidente daquele estranho país da América do Norte mas também outras figuras de destaque mundial daqueles tempos, como Sadat, John Lennon e até mesmo o Papa. “Apodreça no paraíso, você está perdoado no inferno” é o forte refrão virulento como poucos e, ao mesmo tempo, sarcástico como nenhum outro.

- “Subliminal”: não é de hoje que as bandas punks detonam as mensagens subliminares passadas pelas tevês – sendo “Ódio às tevês”, do Coquetel Molotov, um exemplo perfeito disso -, e “perigo, juízo final, assassinato, pesadelo” são apenas algumas das consequências dessa influência nefasta das “máquinas de fazer malucos”.

- “Won’t fall in love today”: por aqui, o Lixomania já tinha cantado que “os punks também amam”, mas poucos versos podem ser tão sinceros e escrotos ao mesmo tempo como “de mil coisas que poderia te dizer, metade seriam mentiras, mas uma coisa posso te garantir, eu não vou me apaixonar hoje”...

- “Institutionalized”: o grande sucesso do disco, e um dos primeiros clipes de punk rock no topo das paradas da MTV norte-americana. A música conta a história de um cara cujos pais decidem mandar pra um reformatório juvenil, e foi o trampolim da banda no rumo do reconhecimento mundial. Na época, fez parte da trilha sonora da versão original de “Repo Man”e de um episódio da série “Miami Vice”, com direito à aparição da banda ao vivo e tudo. 25 anos depois de lançada, a música foi homenageada no filme “Homem de Ferro”, e diz a lenda que foi uma escolha do próprio astro Robert Downey Jr., um ator chapa-quentíssima por natureza.

- “Memories of tomorrow”: como assim, “memórias do amanhã”?! Bem, os caras tinham menos de 20 anos quando compuseram a letra, que trata das ansiedades de jovens prestes a encarar a fase adulta e todas as inseguranças que vêm a reboque. Portanto, não se tratem de lembranças boas ou agradáveis, muito pelo contrário; é a própria recusa em fazer parte de todos os problemas e perrengues enfrentados nesse período de nossas vidas.

- “Possessed”: quase dois anos depois do lançamento desse disco, a banda D.R.I. lançou Crossover, que é considerado por muitos como o marco inicial da fusão entre o punk e o metal. Se os caras fossem realmente sinceros, teriam admitido que sugaram até a última gota dessa música pra comporem o tal “disco seminal”. Simples assim.

- “I saw your mommy”: a letra mais debochada e escrota do disco, relatando o papo entre dois amigos. “Eu acho que foi a melhor coisa que eu já vi, a sua mamãe morta bem diante de mim” é só uma pequena amostra de uma letra forte, boçal e completamente ignorante. Em 1983, era um chute no saco (ou nos ovários) da recatada sociedade dos EUA, com direito a pisão de boot em cima do que restou.

- “Fascist pig”: essa descreve os skinheads imbecis que se travestem de punks e só sabem arrumar confusão nos shows e nos lugares que frequentam, como se os outros tivessem culpa de sua condição ridícula de vida.

- “I want more”: mais um grito de ruptura do disco, dessa vez contra a total falta de perspectivas de uma era de incertezas pros jovens. Os caras não queriam um emprego qualquer só pra pagar as contas, nem serem escravizados a ponto de sofrerem um ataque do coração de tanto ralarem: eles queriam mais, muito mais.

- “Suicidal failure”: na minha opinião, uma das letras mais fortes de uma banda punk em todos os tempos. Imagine a cena: um cara de 19 anos, entediado e sem perspectivas, pega a arma do pai pra se suicidar mas não consegue. Então, vai em busca do mesmo pra ajudá-lo, não pra conversar ou pedir consolo – mas pra consumar o próprio ato em si. Tenso.

Entendeu agora o motivo de tanto culto à banda e a esse disco em particular? 

Não importa que o tiozinho aqui tenha passado do meio século de vida, nem mesmo o fato de ter assistido a outros shows da banda e muito menos o detalhe das minhas articulações não terem a mesma saúde de antes: no próximo dia 27/08, eu estarei no Circo Voador batendo cabeça, zoando e pogando pelo Suicidal Tendencies como sempre - na medida do possível, claro...



 
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