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sobre algo: Sobre Ema e The Knife
Terça-feira, 23 de Outubro de 2012 (3:14:20)

 

Reflexões que eu já esqueci sobre que porra eram. Acho que tem a ver com meu sonho de virar protagonista de novela das 7.



 

 

 

SOBRE EMA E THE KNIFE

Por Marcelo Shaw

 

Quão racionais nós somos? Nossos momentos são permeados frequentemente por reações absolutamente instintivas, porra, na maioria desses momentos não temos controle algum. Seja uma dança torta, uma risada nervosa, palavras fugindo de nossas bocas completamente anônimas de nossos cérebros, beijos isolados por fumaça de infinitos cigarros, noites que só dormimos de dia. Ela sorri num borrão preto e branco e você pode tentar racionalizar para tentar te convencer que não é um sorriso bonito, mas seu corpo rejeita. Nossas noções são frequentemente rejeitadas pela voz muda que reside em nossa existência. Somos animais. Mais precisamente, somos bestas de carência feroz e dócil revolta. Não há nada de muito pensado nas vírgulas de nossas histórias, nada de muito planejado nos nomes que decoramos, nada de muito lógico no que queremos. Quão racionais nós somos?

Corações batem quase que numa sinfonia e ainda assim cada pequeno desvio nos separa tão radicalmente. Mas há dois sentimentos que todo ser humano recebe no nascimento e que nunca mais são perdidos: tristeza e frenesi. E não importa o quanto tentamos estilizar ambos, ainda são primais e inexplicáveis. Todos os outros sentimentos são variações desses, mesmo a felicidade é o reflexo de uma tristeza que foi percebida e cuidada; mesmo o amor é um frenesi destinado em um único ponto, mas ainda assim incontrolável.

Past Life Martyred Saints começa com a música mais longa, uma odisseia em pouco mais de 7 minutos entitulada “The Grey Ship”. Memórias favoritas, não importa o quão distante estejam, nos seguram nos piores momentos e essa é a temática da faixa de abertura do segundo disco da americana Erika M. Anderson, melhor conhecida como EMA. Começando num lo-fi sufocante, eventualmente “Grey Ship” evolui em uma valsa torta de distorção e as letras ficam ainda mais fraturadas, até terminar em “Great grandmother lived on the prairie, Nothin and nothin and nothin and nothin, I got the same feelin inside of me”. Embora não seja a forma mais animada de começar um disco, isso só abre espaço à massiva “California”. No que talvez seja a música mais emocional de 2011, Erika só canta em um trecho da música e é justamente em “But I'm just 22 and I don't mind dyin”. O resto é recitado com um drone de guitarra no fundo pontuado por breves toques de piano que só levemente mantém a música indo. Exatamente como o sorriso da garota em seu indecifrável fundo preto e branco, a mistura da clareza em que as palavras da EMA são faladas e sua anárquica companhia sonora fazem dessa só mais uma de tantas coisas que são realmente foda de explicar. PLMS não alivia sua tensão em momento algum, sendo até o fim uma viagem pelos cantos sombrios de sua autora. O disco acaba num encantador sussurro de Erika, mas a palavra que sai dali é “scar”.

Nascida na sueca cidade de Nacka, no dia 7 de abril de 1975, Karin Elisabeth Dreijer raramente aparece com seu rosto em público. Tanto em sua banda, The Knife, quanto como Fever Ray, pseudônimo de sua carreira solo, Karin usa de maquiagem, máscaras e iluminação para construir em conjunto com sua sempre igualmente disfarçada voz algo que só pode ser descrito como a dança mais mongol já imaginada. Nos meus idos dias de metaleiro, chegando ao ponto de realmente discutir discos tipo do Iron Maiden, um dos temas mais lembrados nessas discussões era a presença ou ausência de alguma balada. Isso se estende pro Rock num geral, pessoal ama reparar quando não tem nenhuma balada, ou ainda “po, essa é mais calminha, mas é bonitinha!”. Karin, em conjunto com seu irmão Olof, extrapolou isso pra puta que pariu no monolítico Silent Shout: não há uma porra de um instante que não seja da brutalidade mais bonita já feita. Os sintetizadores são convidativos, as batidas contagiantes, mas caralho como a voz da Karin é selvagem. Chegando no final das 11 músicas que fazem parte dessa tão descontrolada obra-prima, é realmente surreal imaginar que uma única mulher fez todas, sem exceção, vozes que são ouvidas aqui. E dizer que isso se deve pela distorção do vocal é errar completamente o ponto. Simplesmente não há controle para o vocal dela. “I raise my hands to heaven for curiosity, I don't know what to ask for, what has it got for me?”, de “Marble House”, é um dos momentos mais animalescos já registrados em qualquer forma de arte. Não há civilização no mundo do The Knife.

Tanto o Silent Shout quanto o Past Life Martyred Saints são provas de quão grandiosa a irracionalidade humana pode ser. Seja como em “Marked” onde a EMA deseja ter apanhado do ex-namorado como recurso de expressar solidão, ou em “Like a Pen” onde a Karin canta em absoluto êxtase “I hold my breath and then count to three, on and on outworn”, ambas as obras são provas de que há alguma força que nos incentiva a criar. A seguir em frente, a criar, a tentar absolutamente de tudo pra achar aquela frase perfeita, a fazer inúmeras metáforas envolvendo sorrisos bonitos na distante probabilidade de gerar um desses sorrisos na garota, a acordar mesmo percebendo que hoje tão logo será ontem. Que nos leva a fazer a porra toda, enfim. Se não entendemos que força é essa, como podemos entender qualquer merda? Somos ignorantes, lindos em nossa ignorância e é assim que eu prefiro viver.

 

 


 
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