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discos básicos: Missing Persons, Spring Session M
Quarta-feira, 10 de Outubro de 2012 (21:41:56)

 

Um dos melhores discos dos anos 80, Spring Session M, do Missing Persons é um clássico ‘obscuro’ da new wave 



 

 

MISSING PERSONS

Spring Session M

 

Por Carlos Lopes

 

“Life is so strange when you don't know, how can you tell where you're going to? You can't be sure of any situation, something could change and then you won't know.(You ask yourself) where do we go from here? it seems so all too near Just as far beyond as I can see, I still don't know what this all means to me” (de “Destination Unknown”)

 

Durante a apresentação do Fantomas no Claro Que É Rock de 2005, maquinei instantaneamente: “Esse Terry Bozzio (baterista) é foda. Tenho que escrever sobre o Missing Persons!” O Missing foi a banda que me apresentou ao Bozzio e era parte de um estilo musical, atualíssimo para a época, chamado new wave. Gostem ou não, esse “tipo” de rock, revitalizou o gênero, trazendo uma nova estética (a era do vídeo clipe) e o rock de volta aos holofotes. Muitos torceram o nariz, naturalmente, mas após 25 anos, e alguma dose de saudosismo (e maturidade), as rusgas ficam “menos apaixonadas”. A new wave cumpriu o seu papel. 

No final dos 70, a discoteca imperava geral, o rock tinha praticamente acabado. (O mesmo fenômeno aconteceu no início dos 60, com os Beatles, que foram os responsáveis por trazer o rock de volta à cena.) Punks e cabeludos renasciam no submundo, mas muitos tinham o direito de ansiar pelo novo. E foi assim que aconteceu.

O Missing Persons (o primeiro nome foi U.S. Drag) desejava participar dessa nova estética, porém mantendo intacta a técnica e a bagagem que três deles trouxeram dos trabalhos com Frank Zappa (o primeiro EP da banda foi gravado no estúdio de Zappa). A estética era simbolicamente robótica; os sons de guitarra e sintetizadores (OBX e Mutron) prenhes da nova tecnologia (e não mais a velha escola “uma guitarra e um Marshall”); os cabelos pavoneados para o alto (inspirados pelo movimento “New Romantic” inglês, antecipando os cabeluchos da farofa norte-americana dos 80); a forma de cantar da vocalista esquelética Dale Bozzio (à época, esposa de Terry. A banda foi formada um ano após a união)que simulava uma boneca futurista coberta com roupas de plástico e desprovida de expressão (na verdade, cantava como a Betty Boop do desenho animado com Devo e Gary Numan), em oposição à década anterior, muito emotiva.

Terry Bozzio junto com a esposa Dale Consalvi (ex-coelhinha da Playboy, pode?) recrutaram o ex-guitarrista do Zappa, Warren Cuccurullo; o baixista Patrick O'Hearn e o tecladista Chuck Wild para fazer a área de clubes de Los Angeles.

Após um compacto e um EP, gravaram seu primeiro disco, Spring Session M em 1982, (o título é um anagrama do nome da banda), que faturou ouro, caindo como uma luva no gosto do público da MTV. Apesar do disco não ter feito um sucesso estrondoso (e apesar do disco de ouro), a banda nunca mais conseguiu gravar um outro trabalho que estourasse. 

A primeira faixa, “Noticeable One” fala “Minha imagem é dura e minha atitude pesada / Eu mexo os cordões / Estou na capa das revistas / Eu sou aquele das manchetes / Me perceba”. Me arrepio até hoje. O bumbo pesadão e mixado na cara, providencia uma pegada animal para um tema pesado e com suíngue robótico. Os coros (essenciais) e a guitarra com frases e licks perfeitos (gravada com o som da sala), providenciam um forte cartão de visitas. Não era totalmente moderno, possuía o som comprimido dos discos de Zappa, mas afirmava que a banda era bem mais do que óbvia. 

A segunda canção “Windows” tem uma melodia pop, pegajosa, e uma guitarra gemendo no fundo entre harmônicos e ecos. A letra triste, tecendo analogias sobre janelas, alimenta os riffs de guitarra, que parecem com os de Andy Summers do Police. Dale canta como um robô, dando seus gritinhos agudos, sobre o grave do baixo e do teclado. O solo de bateria no meio da música é uma cereja.

 

 

“It Ain't None of Your Business” soa bem anos 80 com frases de sintetizador no estilo Gary Numan, que eram uma das marcas da new wave robótica. Frases vindas subconsciente.

A triste e marcial “Destination Unknown” começa com um groove de teclado e guitarra matadores. A voz infantil de Dale disserta sobre dúvidas existenciais. O refrão melódico flutua sobre um ritmo marcial de bateria (os detalhes de contratempo!) e um riff de guitarra, quase metálico, que responde aos coros. E sse disco tem muito do “Reggata De Blanc” do Police (Sting, Sting), mas sem a “alegria” do trio inglês.

A faixa “Walking in L.A.” acelera o andamento, mais pesada e urgente, com o ritmo firme de Terry. Os riffs de guitarra e o solo hard rock dialogam com as frases hipnóticas do teclado. Dale canta: “Um truque de cinema não vai me enganar / É um anúncio de cartão extraído de um homem, um 40 mais da parada saído de um mostruário da loja de discos. Ninguém caminha em Los Angeles.” Obviamente, a letra faz uma anlaogia entre a superficialidade da cidade do cinema e dos seus moradores e não sobre a violência (como veremos no parágrafo final)de uma forma poética.

“U.S. Drag”, bem lenta com uma levada daquelas de 16/8, ou algo assim, mostra onde está a influência de Frank Zappa nessa história. Uma faixa sincopada, estranhuda e mantrica. 

“Tears” (que abre o lado dois do vinil) confirma a onipresença do estilo Police de tocar. Pra falar a verdade, noto essa influência no disco inteiro. As levadas de bateria e os acordes de “Tears” são “chupinhados” da banda bretã, tanto melodicamente como em termo dos arranjos. Até o “oh-oh-oh” faz parte. Deve ter sido escolhida para iniciar o lado dois, pela facilidade de absorção, porque o Police era muito popular.

“Here and Now” é outra faixa totalmente Police, porém puxando mais para o punk, assim como em “Born in the 50´s” do primeiro disco dos ingleses.

Agora chegou o momento da emoção: como descrever a terceira e fantástica “Words”? “Você me escuta? Você se preocupa? Meus lábios se movem, mas não há som. As palavras são audíveis, mas tenho minhas dúvidas. Você me olha como se estivesse confuso. É como ter chegado à última página, sem saber o que leu. Para que servem palavras se ninguém as escuta?” A letra é simplesmente fantástica. Não tenho palavras.

Os gritinhos de Betty Boop (e a minha frase favorita: “vou puxar o plugue”)sobre uma melodia empolgante e memorável, merecem nossa veneração eterna. É um clássico atemporal. Daqueles de levantar morto do caixão. A guitarra fala menos pois deixa espaços para o groove, tendo em mente o bem da música. O solo, cheio de efeitos de onda, flutua sob um monôlogo de Dale. 

O teclado, quase pop, acentua o tema enquanto os corinhos (que cantam “Para que servem?”) dialogam como elementos essenciais. Os indivíduos se prestam a engrandecer a composição e o estilo.

O disco fecha com mais três boas faixas: a new wave “Bad Streets” (com mais Betty Boops); a robótica e totalmente influenciada pelo movimento New Romantic “Rock and Roll Suspension” (com solos de bateria sobre temas quase Zappanianos) e a última estilo punk/new wave “No Way Out” com direito a final apoteótico.

Spring Session M é um disco que mora em meu coração. Pensei em vários trabalhos para dar o pontapé inicial, mas o Missing Persons foi o eleito. E bem convocado. Essa seção foi criada exatamente para falar sobre discos que amamos, sem freios. 

Em 2006, o selo Hypnotic lançou o CD “Walking in L.A.: The Dance Mixes” com remixes providenciados por estrelas do naipe de Nick Rhodes (Duran Duran), Kevin Haskins do Bauhaus e Wayne Hussey do The Mission. (O detalhe engraçado é o remix de "Walking in L.A." no qual Sen Dog do Cypress Hill “caga geral” empurrando o verso – que não existia na versão original -: "Nobody walks in L.A. 'cause you might get sprayed”, ou seja, “Ninguém anda por Los Angeles, pois pode ser pichado”.)

 

OBS: Chuck Wild grava hoje com o nome de “Liquid Mind”.

 

 

Do site O MARTELO

http://omartelo.com

 

 

 


 
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