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sobre algo: sobre slint e beach house
Sábado, 29 de Setembro de 2012 (5:53:31)

 

Dor de cabeça.



 

 

 

SOBRE SLINT E BEACH HOUSE

Por Marcelo Shaw

 

A coisa sobre nós enquanto família é que na verdade somos uma única grande sinfonia. O segredo disso é que algumas notas destoam tão irrelevantemente. Não é o suficiente pra soar errado, mas está lá. Somos todos estranhos, mas porra, porra, alguns são simplesmente mais estranhos. Bullying é um conceito relativamente novo, só que ficou tão batido, esmurrado até onde não havia mais nada além de solo, ao ponto de parecer secular. Não é. Minorias sempre foram minorias, pessoas esquisitonas sempre brotaram por cada centímetro da Terra. Mas essa porra de ideia de um grupo abusando de outro é recente. Eu sempre fui de fora disso tudo. Não pratiquei bullying porque não saberia nem como fazer isso, não sofri bullying porque sempre fui bizarro demais pra isso sequer valer a pena. Isso é uma solidão de merda. Queria que me chamassem de gordo pra eu ter outros gordos com quem me identificasse eventualmente, como uma grande família acima do peso. Não.

Era uma tarde de verão daquelas idiotas na adolescência em que eu não conseguia fazer nada além de teorizar sobre quão melhor tudo seria se já fosse inverno. Aquela capa. Quatro cabeças acima do lençol de água mais fundo imaginável. As expressões de alegria pareciam irônicas e quase acidentais ao mesmo tempo. Essa foto não parece ter sido tirada, parece algo que o primo do vizinho do teu irmão certa vez viu no céu de Piracicaba tantos anos atrás. Só que está lá. Comecei pela última música por causa dessa minha curiosidade chata de querer saber o final antes de qualquer coisa, nunca fui bom com encerramentos então por que raios não deixar o melhor pra depois? Havia algo que soava parecido com sinos bem no começo. Então entra algo dissonante ao ponto de ser absolutamente absurdo. E então a letra falada ao invés de cantada. Cansada. Incidental. Linda. “I’m sorry, and I miss you” como desabafo mais sincero e irracional. “Good Morning, Captain”. Isso e todo o resto do Spiderland ainda soam como um presente impossível.

Solidão é um conceito universal. Tristeza é uma realidade brutal e ainda assim tão inevitável. Nosso lado negro está intrinsecamente associado com tudo aquilo que parecia tão acessível. Há algo de doce na tragédia e em como ela aflige aos menos desavisados inesperadamente. Tranquilamente como um reflexo da lua no lago de onde batalhamos para emergir. Sutil como todos os sussurros da Victoria Legrand. Tempo atrás vi na internet um idiota dizendo que queria essa voz em seus ouvidos. Há sim uma imensa sensualidade nos trejeitos da Victoria, mas ela certamente não soa feliz em te ver. Ela é a musa, só que a musa é constantemente estuprada. A musa é sempre constantemente estuprada nos meus pesadelos. A musa é constantemente estuprada. Mas sua voz não é nada como meus pesadelos, é uma porra de um sonho criado fora desse mundo.

Não há na história da música quaisquer acordes que soem tão nervosos quanto os do começo de “Don, Aman”. Chegam pouco após as primeiras palavras escaparem da boca do Brian McMahan e com a guitarra já ecoando ele confirma “it felt good to be alone” com a menor certeza imaginável. Então piora. Sempre piora. As batidas se confundem com os instantes da noite e o protagonista se vê maniacamente ensaiando consigo mesmo um discurso nunca a ser proferido. A respiração do McMahan fica mais pesada enquanto ele recita os versos, até que em “he felt he knew what that was” tudo desaba por alguns segundos na mais barulhenta das distorções. É o ataque de pânico mais breve já registrado em música, mas até hoje permanece o único com qualquer fidedignidade. Por que eles estão sorrindo mesmo?

Quando eu era mais jovem, fui com minha família para Petrópolis e, tendo nascido no Rio de Janeiro, qualquer contato com o frio e com a natureza parecia algo realmente revelador. Foi numa fazenda, eu me lembro. As vozes das conversas ficavam cada vez mais esquecidas no contexto, que por sua vez virava só um grande borrão. Só as montanhas cercando a fazenda restavam. Tão imponentes, tão distantes, tão absolutamente etéreas em sua beleza. Não há esperança sem desespero. As montanhas são lindas, mas estão distantes. Seriam tão lindas se estivessem perto? Todos sentimos falta do nosso passado, mas ele sequer foi bom? Acho que esse é o grande mérito do Bloom, fazer algo soar nostálgico sem ser de forma alguma saudosista. “The moment when a memory aches” eventualmente é cantado em “Wishes”; “All the recollections spinning in a field, left in your possession til it isn't real” em “The Hours”; “Can I believe in how the past is what will catch you” em “Wild”. A merda do passado é que ele insiste em não passar, a merda do presente é que ele não vem numa porra dum laço, o nosso futuro está em relatar isso. Não há qualquer problema por mim enquanto existam pessoas que nem o Alex Scally e a Victoria Legrand fazendo isso soar tão encantador quanto a visão daquelas montanhas de Petrópolis.

A coisa sobre nós enquanto família é que na verdade somos uma única grande sinfonia. E música nos mantém vivos.

 


 
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