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sobre algo: Sobre Música II - Ainda Musicando
Sexta-feira, 31 de Agosto de 2012 (3:09:04)

 

Sequências, como todos sabem, só prestam em Star Wars, Die Hard e qualquer um com o Charles Bronson.



 

 

 

SOBRE MÚSICA II - AINDA MUSICANDO

Por Marcelo Shaw

 

Eu tinha 15 anos, talvez 16, quando recebi a ligação. Alguns verões já distanciavam meu relógio daquele último carnaval na piscina no Rio de Janeiro e eu já começava a pegar o mau humor de Itajaí. Tive que atender, por vezes, acho que por completo egoísmo, queria não ter atendido. Era um amigo do passado, sua voz estava trêmula e frágil como se as linhas de telefone por si só a pudessem cortar. Ele disse que sua irmã tinha morrido. Não consigo me lembrar do que estava fazendo, até esse dia penso nesse momento como estar contando alguma piada ofensiva e subitamente um satélite do canal de Golfe desaba queimando a cidade inteira. A cortina revelando a noite diariamente, mas em algumas há poucas estrelas mostrando o caminho.

O lamentável sobre os video games da nova geração e sua conectividade com a internet é a extinção do evento que era alguém ter algum joguinho. Era um status social quase tão grande quanto ter uma televisão grande para assistir o final da primeira temporada de Digimon, episódio esse que até hoje não faz porra de sentido algum, mas ainda assim foi lindo. Super Smash Bros então era um culto, era divertido botar o Pikachu e o Mario pra se espancarem como se não houvesse amanhã. Foi perto dos meus 11 anos e era num quarto quente de verão no Rio de Janeiro e todos os 16 olhos estavam ligados na TV. Eram 4 times de 2 e não estar jogando fazia o tempo derreter. A maioria das crianças de 7 eram irritantes, mas a irmã do amigo que me convidou pra jogar não era. Foi o dia que a conhecia, ela passou pelo quarto e perguntou se ele tinha visto alguma coisa, saiu sem uma reclamação ao ouvir uma negativa.

Os dias voaram apressados em suas horas longas e eu logo virei bastante amigo desse guri. Então volta e meia estava na casa dele e comecei a socializar com a irmã também. Um dia eu lembro que ao chegar no prédio em que ambos morávamos, encontrei-a sentada numa poltrona da portaria sozinha e perguntei se estava tudo bem e ela disse que sim embora tinha ficado trancada pra fora porque os pais saíram e não deixaram chave. Nós demos uma volta e eu comprei um picolé pra ela, acho que eu já tinha 13 anos e idade o suficiente pra ser gentil. Ela me escreveu uma carta de tchau quando me mudei. Eu chorei naquela noite.

Por mais que alguém queira te dizer que “se importa”, essa porra não é verdade. Embora seja o clichê inevitável, milhões de pessoas morrem na África em cada respirada nossa e o que fazemos? Estamos sentados numa tela brilhante compartilhando foto ambientalmente consciente em rede social ou dizendo pra todo mundo sair do computador e ir ler um livro. Numa sociedade de pessoas com ensino superior e ainda assim analfabetas funcionais, acho que isso nunca foi uma escolha. A verdade é que se importar além de um determinado microcosmo definido por si mesmo como aquilo que voluntariamente ou não te importa (nesse ponto eu ri pelo “capitão óbvio” que eu acabei de escrever, mas eu tenho um ponto que vem em breve) é impossível. Dependemos da nossa taxa de amostragem e quem te disser que não está mentindo até porque estará te dizendo isso pela internet ou pelo celular ou no corredor do Shopping. Dita essa merda toda então entra o meu problema: que porra eu fiz quando recebi a notícia?

Nada. Eu baixei minha cabeça no travesseiro e deixei tudo vir a mim. Sobre todos esses anos, sobre tudo que passei perto da guria, sobre tudo que deve ter passado em sua vida durante todo esse tempo em que estive fora. E com os planos dela, o que acontecem? E todo o “pause” nunca a ser reiniciado que toda a família foi submetida? Todo nosso crescimento, todo aprendizado e ainda tudo é tão volátil. Estou a um “qual é o sentido?” de questionar qual que é a porra do sentido disso tudo. Ela era uma criatura tão doce e não se encontra mais nesse mundo, eu aqui ajeitando minha cueca na virilha estou e ainda ouvindo Iron Maiden, isso não entra na minha cabeça. Conhecemos transeuntes randômicos todos os dias e raramente algum será além de uma vírgula em nossa jornada. Mas alguns, porra, alguns viram pontos borrados por lágrimas. Eu devia ter estado mais perto. 

Ao longo da minha vida, aprendi algumas lições valiosas. Com meus terrores noturnos quando era criança aprendi a não confiar nem na única pessoa do mundo que devia te dar amor. Com meus “Comandos em Ação” aprendi a baixar a porrada. Com “Chrono Trigger” e “Ocarina of Time” aprendi que o mundo podia ser bonito. Com tantos períodos parecidos em sequência aprendi que era possível fazer uma retórica bacana. Com a música aprendi que ser idiota era errado e que se você não fosse bom em algo então devia estar fazendo outra coisa, obrigado Dave Grohl e nem precisa me devolver meus 17 reais que gastei naquele CD de merda. Com meus 20 anos aprendi que ainda devo ter 5. E com você, minha princesa, aprendi que aprender essa porra toda não te prepara pra quando alguma pessoa querida pega a estrada rumo ao norte. Nada te prepara pra vida nem pra morte, nada te prepara.

Se nada puder ser feito e eu tiver que envelhecer e morrer, tu me contas como foi pra ti?


 
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