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sobre algo: Sobre Ty Segall
Sexta-feira, 29 de Junho de 2012 (17:18:58)

 

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SOBRE TY SEGALL

Por Marcelo Shaw

 

Música é um negócio. Não no sentido em que comer cu e buceta é o negócio, mas no sentido em que vender cu e buceta é negócio. Há grana envolvida, status, porra! Você precisa faturar, viajar pra tocar em cidades tão distantes com uma namorada diferente em cada esquina, cheirar cocaína nos peitos de alguém, chutar a cabeça dos perdidões que ficam parados perto do palco, falar algo engraçadinho entre as músicas, comentar de Rolling Stones como se ninguém conhecesse ou, melhor, como se você tivesse uma porra de um direito divino de falar deles. Porra, você pode! Isso é rock and roll, rapazeada, um lugar eterno misturando palhaçada com meter o palhaço, o paraíso dos rapazes de 30 anos com complexo peniano e jaqueta de couro que ainda moram com os pais. Aí você quer montar uma banda. Você pratica violão até seus dedos realmente doerem, horas e horas até aprender a tocar um Nirvana. Aí você arranja uns amigos, aluga tanto tempo de estúdio pra ensaios. Começa a compor música, com tamanha atenção na melodia ao ponto de seus acordes clichês imitados da banda vizinha parecerem realmente algo ILUMINADO. E vocês tocam em palcos pequenos, palcos grandes, só pra mãe, pra algo que parece uma multidão. E só então começa sua discografia. Mas do nada aparece um magrão que simplesmente tem o que você não tem. Se eu soubesse descrever o que “isso” é eu certamente estaria dormindo numa pilha de dinheiro. Fato é, ele tem. Você não. As composições dele soam melhor, ele toca melhor, ele canta melhor, ele tem tão mais energia, seus versos gritam numa empolgação que você jamais conseguiria atingir, tudo soa simplesmente melhor. Ele não te fode, isso não é uma metáfora apropriada. Ele entra na sua casa, chuta a mandíbula da sua mãe, mija no cachorro, enxuga o pinto na boca do seu pai, enfia a cabeça da sua vó na janela, rouba seu miojo e quando vai embora sua irmã ainda fica com saudade. Música é um negócio ingrato.

Nascido em Palo Alto, na Califórnia, Ty Segall é o perfeito retardado que inexplicavelmente sabe o que está fazendo. Sua banda anterior, Epsilons, era o som da anfetamina pingando em cada canal do seu fone. Depois de quatro álbuns solo, algumas colaborações com outros artistas brilhantes da mesma cena (White Fence e Mikal Cronin) e participações em tantos outros projetos, ele tropeçou na Ty Segall Band, montada com Segall, Cronin, Charlie Moothart, Emily Rose Epstein. O debut da TSB tem nome e capa de disco de black metal, mas seu som não pode ser restrito em um gênero musical. Deus, é o tipo de álbum que não é nem música. Não foi feito pra ser ouvido, foi feito pra ser experienciado. É o melhor lançamento do ano? Porra, não é nem mais o ponto esse. Não é pra ser comparado, estudado, entendido, apreciado, porra nenhuma. É uma porra de um elefante branco na sala, ele simplesmente está lá. Inexplicável, aleatório, confuso, ignorante, bestial, mas também faz toda a normalidade parecer tão bem menos interessante. Com o Slaughterhouse, Segall conseguiu achar seu caminho para o sublime.

“Death” abre o disco com uma rabiscada de guitarra de onde estranhamente surge uma melodia. É essa a tônica do que Ty Segall conseguiu inserir aqui: tudo existe num ambiente profundamente barulhento, mas mantendo certo senso melodia. Essas músicas não parecem compostas, não consigo visualizar alguém ensaiando isso, quase acredito que isso tudo simplesmente brotou. Mas a realidade no caso é ainda melhor, alguém COMPÔS essa porra toda e decidiu tocar da forma mais absurdamente violenta e exagerada possível. Acho que não existe nada mais insubstituível na música do que a pura ignorância. Você está gritando pra ser ouvido, afinal! “I Bought My Eyes” tem vocal de música verão do amor e agressividade que só pode ser comparada com a dos Stooges. Ty, no entanto, conseguiu fugir desse estigma pendendo pra aspectos ainda mais devastadores. O solo torto dessa música meio que exemplifica, não há como ser resumido com nada além de PUTA QUE PARIU e assim em caixa alta. E tudo isso existe antes da faixa título e lá as coisas começam a ficar realmente fora desse planeta.

A terceira música do disco é a linha perfeita que separa a agressividade da babaquice. Enquanto as duas primeiras faixas são muralhas de baterias cocainômanas, guitarras francamente idiotas e baixos gloriosamente inaudíveis ainda que irremediavelmente presentes, “Slaughterhouse” é simplesmente um planeta em si. O riff é absurdo e com três segundos de música o Ty Segall já está berrando com todas suas forças num maremoto de eco. E não para. Nunca para. Só vai intensificando a tensão e quando tu parece estar pendendo pro final, porra, porra. Essa porra simplesmente explode no vocal comandado pelo líder da banda e na distorção mais animalesca. E termina num grito. “The Tongue” soa até normal perto, mas ouvida num cosmo próprio é uma criatura ainda tão demolidora quanto. E então prossegue, cada música trazendo um riff mais demente que a outra. O que difere esse lançamento de todos os outros da cena, incluindo aí o Thee Oh Sees, Black Lips, Night Beats, Smith Westerns entre tantos outros é o senso de paranóia que permeia cada segundo do álbum. Não há alívio, não há respiro. É tudo no máximo, tudo chuta sua cabeça o tempo todo até você se submeter. O grito de “FUCK THIS FUCKING SONG” no auge do desespero da versão para “Diddy Wah Diddy” resume basicamente a porra toda. Foda-se essa música, porra, foda-se a música num geral. Que forma melhor de lidar com todos os problemas além de jogá-los pela janela? Ignorância verdadeiramente é uma benção.

O Curren$y cantou uma vez na voz mais calma e emaconhada do mundo “we heard your shit and we laughed” seguido de “boss the fuck up”. Música é um negócio ingrato, por que você deveria tratar com respeito? Você deve ser maior, você não deve criar música porra, você deve quebrar qualquer porra de limite e tentar superar antes que você seja superado. O mesmo princípio vale em tudo envolvendo arte, porra, por que eu preciso só elogiar algo? Falar que é “bom”? Fazer uma crítica racional? Isso não faz sentido. Hipérbole é o caminho eterno da vida. Não há motivos pra explicação, pra racionalização, pro “sentido”. O lado bom é que sempre vai existir um retardado que nem o Ty Segall pra completamente desconsiderar as limitações estúpidas da música. E eu ainda vou estar aqui pra aplaudir.


 
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