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sobre algo: Sobre Kanye West e Beatles
Sexta-feira, 15 de Junho de 2012 (3:17:24)

 

Dois mil e doze e pessoas ainda julgam obras sem conhecer. O fim do mundo não pode vir cedo demais



 

 

SOBRE KANYE WEST E BEATLES

Por Marcelo Shaw

 

Uma vez muitos verões atrás estava numa festa e uma amiga veio correndo desesperada de perto do palco e gritou com todos os presentes “PORRA, AQUELE CARA DISSE QUE BEATLES É A TERCEIRA MELHOR BANDA DA HISTÓRIA, COMO PODE UMA PORRA DESSA?”. Isto bem aqui pra mim não é vida, se isso é ser humano eu não sou. Isso não é uma sinapse, uma ideia, um pensamento. Isso é menos estimulante que a porra do meu misto quente. Não há nada sagrado na vida então por que raios haveria de ter na música? Mais revoltante do que o culto a Chico Buarque é fã bosta que chama só de Chico porque eu tenho a porra da obrigação de saber quem caralhos é “Chico”. Foda-se Chico Buarque. Foda-se todo fã de qualquer porra que bota dita porra como uma instituição, uma Igreja maior do que o Estado. Os Beatles não são a melhor banda da história e quando eu digo isso digo com toda autoridade emitida pela minha opinião já que não existe nada mais que qualifica música. Pessoal, é tudo opinião. A diferença entre Rolling Stones e Sula Miranda não reside em nada objetivo, não há nada de físico que prove qualquer superioridade artística de um sobre o outro. Você não é melhor por gostar de Chico Buarque, pelo contrário, pesquisas de campo profundamente sérias apontam que há chances maiores de 50% de você ter hemorroidas.

Treze de Setembro de 2009. MTV é algo irrelevante desde 1994 ou algo assim, mas nessa noite eles serviram de palco pra algo que viria a ser profundamente marcante. Por todos seguidos escândalos que a vida do Kanye West tramitava, foi nessa noite que tudo chegou no fundo do poço. Taylor Swift aceitava um prêmio besta quando o Kanye West invadiu o palco, roubou o microfone e disse que a Beyoncé merecia mais. A punição cultural pública que se seguiu foi do deboche até análises mais sérias de personalidade, algo impensável. Depois de lançar 3 verdadeiramente excepcionais e influentes discos (The College Dropout, Late Registration, Graduation), West vinha de um mais fraco (808s & Heartbreak) e seu nome cada vez mais descia dos níveis estratoféricos alcançados logo no começo da carreira. Com essa noite, sua vida artística estava acabada.

Dez de Abril de 1970. os Beatles decidiram se separar. Depois de discos fortíssimos, as personalidades acabaram pesando mais do que suas obras. Não se aguentavam, não se falavam, não aturavam nada, essas porras. Perdido em toda a mística envolvendo a banda está o fato de que as carreiras solos de todos os integrantes foram monumentalmente medíocres. O único que quase se salvou foi o Paul McCartney que sempre teve um ouvido apurado pra melodias. Os outros três lançaram discos que só podem ser descritos como fracos, embora eu prefira chamar de palhaçada. Quando os Beatles se separaram, não foi uma banda que acabou. Foram 4 pessoas musicalmente relevantes se despedindo de qualquer forma dessa mesma relevância. Eles encararam o abismo aberto por todos os conflitos e ao invés de aguardar o abismo encarar de volta aceitaram se jogar e encontrar de primeira mão no chão.

Vinte e dois de Novembro de 2010. Por todo escrutínio horrível que a vida do Kanye West passou desde o falecimento de sua mãe, por tudo de ruim que lhe foi falado, por todo esquecimento que o rondava a cada passo. Tudo isso foi vingado nesse dia. My Beautiful Dark Twisted Fantasy não é só uma obra-prima, uma realização artística realmente impecável. Nada disso começa a fazer justiça pra força dessas 13 músicas. O álbum é a visão de um homem se afogando no mar só pra sair de dedo do meio erguido primeiro. A mensagem é clara, isso é sobre vingança. É uma porra de uma cruzada de um homem só contra todos que liquidaram seu talento antes da hora. Cada composição dessas é a perfeita reflexão do cotidiano no seu mais massacrante, é a glorificação dos momentos de maior tristeza onde percebemos que qualquer forma de escapismo é infelizmente infantil no melhor. O relógio está correndo e estamos morrendo. É sobre pessoas jogando futebol na praia num ritmo animalesco, garotos comendo no McDonald’s e filosofando sobre comunismo, atrizes de filme pornô achando cada pau o melhor da história, a fila na porra da padaria ficando cada vez maior enquanto você fica cada vez mais atrasado e sem tempo e velho, luzes de poste passando em cada respirada. É sobre as luzes. Sobre todas as porras de luzes.

Acho curioso o preconceito que existe com hip hop. Pessoal realmente se NEGA a ouvir. A maior parte dos críticos do Kanye West nunca ouviu nada dele além daquela vez em que estavam comendo pipoca vendo MTV esperando pelos quadros de comédias tão AI MEU DEUS ENGRAÇADOS! Isso tudo tá errado de tantas formas diferentes que eu simplesmente me sinto velho. Acredito que eu já devia ter aprendido a aceitar deixar cada um ouvir o que quer e eu realmente não me importo se qualquer um gosta ou não de algo. Não quero impor nada. Quero que não existam julgamentos sem conhecimento. A carreira do Kanye West num geral não pode ser categorizada como hip hop, é música. Extrapola gêneros. Deus, Justin Vernon participou do MBDTF. Se você acha que o enorme pulo na qualidade dos arranjos do Bon Iver do primeiro pro segundo disco não teve nenhuma influência do Kanye você é ou cínico ou, de novo, não ouviu a porra do disco em primeiro lugar. Vozes explodem em todos canais diferentes tão harmoniosamente, cada violino adiciona a quantidade certa de drama, a percussão flutua pelas melodias, os timbres todos estão simplesmente no lugar que deveriam estar mesmo sendo impossível de imaginar tal "lugar" antes, porra, o solo vocal dele na Runaway. Uma das mais repetidas e idiotas críticas à música eletrônica é sobre como falta emoção, como é “máquina” demais. Claro que isso é imbecil. No final da “Runaway”, Kanye West oferece um longo solo vocal gravado num microfone com um timbre eletrônico surreal de distorção. No final do dia, toda máquina depende do homem. Os métodos de gravação do MBDTF viraram lenda, com dezenas e dezenas de pessoas voando pra Honolulu pra gravar trechos diferentes. O processo conta, mas o que é julgado mesmo é o resultado. Essa porra desse álbum simplesmente aumentou a gama do que é possível na música.

 Só que não são homens nem mulheres que gravam música. São ícones. Nunca vamos conhecer pessoalmente nem o Kanye West nem nenhum dos Beatles, então nunca saberemos se são boas pessoas ou se gostam de molestar tubos de Coca-Cola. Temos então o culto de personalidade, apreciamos sua música que acaba dominando quem eles são na nossa visão. Quando Kanye West estava acabado, ele voltou com uma vingança e um disco que mudou completamente não só um gênero, mas a percepção geral da música do que era possível de se fazer num estúdio. Isso é raro. Foi o mesmo que os Beatles fizeram no Revolver. Não estou dizendo que o KW é igual aos Beatles. Estou dizendo que os Beatles podem os 4 fazer fila indiana pra chupar o palhação dum cavalo, o Kanye West simplesmente faz música melhor do que eles. Nada é sagrado rapazeada. Lidem com isso.


 
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