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sobre algo: Sobre Phil Elvrum, Tim Kasher e Batman
Sexta-feira, 25 de Maio de 2012 (20:03:51)

 

Diversas reflexões repetitivas sobre o estado da arte e meu próprio estado mental. Vem que tem donuts.



 


 

SOBRE PHIL ELVRUM, TIM KASHER E BATMAN

Por Marcelo Shaw


Qual é o nosso motor? O que tão incessantemente buscamos em cada esquina? Como definir o que torna cada musa tão especial pra quem a admira? Palavras vêm e vão nunca parando pra tomar seu doce tempo, sentar ao nosso lado e só estarem contentes em existirem. Escrever é o ato constante de tentar aprisionar o que é dolorosamente livre demais, é tentar pegar água com a palma das mãos e ver o reflexo do sol se esvaindo pelos dedos. A parte complicada é que só não fica bom como deveria, pintamos nossos quadros e em cada pincelada visualizamos uma obra prima que simplesmente não se confirma ao nos afastarmos pra olhar de novo. Os momentos passam, a inspiração morre bêbada na calçada, nossas melhores frases são plágios e todo aquele trauma que nos motiva a produzir em primeiro lugar ainda permanece pra nos tirar o sono.

Então chegue em casa e tire sua roupa cansada e coloque um rider e coma uma mozarela de búfala e tome seu suco de tomate e só aceite que somos todos lamentáveis. Por todos nossos delírios de grandeza nossos dias são excessivamente pequenos. Alguns comerão mais gurias, alguns conseguirão empregos mais bacanas, outros serão mais notáveis, mas no fundo todos vamos morrer escrevendo um evangelho de cicatrizes irrelevantes em nossos corpos. Arte é só um reflexo disso. Domestica, lançado em 2000, é um disco conceitual sobre o divórcio do Tim Kasher. Foi o álbum que lançou o Cursive à semiconsciência pública e por lá eles se solidificaram ainda mais com o Ugly Organ, em 2003. Tim Kasher não é um grande letrista, não tem um grande ouvido pra melodia, na verdade ele é meramente um “bom” músico. O que o separa do resto?

Phil Elvrum nasceu em 1978 no aniversário de 12 anos do monge budista que se ateou fogo no Vietnam. Elvrum tinha 22 anos quando escreveu o It Was Hot, We Stayed in the Water, ainda gravando como The Microphones. Eu tenho 22 anos e cá estou eu escrevendo sobre o trabalho dele, o que tantos e tantos já fizeram. Só precisa de uma pessoa iluminada para a criação de uma obra prima, o resto de nós infiéis existe nas reflexões estabelecidas pelas grandes pontuações de tão poucos. Essa é a beleza da arte, todos queremos ser geniais, mas não. Não somos. Não podemos. O tempo nos separa. E mesmo pela subjetividade de tudo, você pode discordar da qualidade da obra do Elvrum, é só realmente difícil discordar do quão monumentalmente única ela é. Há um som na cabeça de cada um de nós, mas não conseguimos transmitir. Ele conseguiu por um meio tão individual que beira o intransponível. Choca, confunde, surpreende e inspira.

Kasher também encontra tem a força maior de seu trabalho na individualidade. Se o Domestica foi um disco sobre seu divórcio, o Ugly Organ é um disco sobre o ato de escrever um disco do tipo. Não satisfeito em compartilhar sua tristeza, ele precisou compartilhar o que é o ato de compartilhar e o que isso gera nos fãs. É um disco sobre a expectativa existente no artista, sobre a crueldade que é não conseguirmos desviar o olhar de um palhaço triste. A parte mais impressionante é que as letras dele são quase uma bosta, as composições não são maravilhosos, nada aqui é impressionante. Mas é tudo tão cativantemente brutal, em cada vírgula há um mar de honestidade, todo sentimento é grosseiramente gritado. Quando você não pode ganhar no talento, você certamente tem que vencer pelo esforço.

Só que até onde esforço nos leva a algum lugar? Se você nasceu chato como eu há boas chances de que você assim morrerá. Não há sentença de morte mais lamentável do que ser desinteressante. Eu já me repeti exaustivamente falando disso, mas arte num geral é uma fuga disso. Não é uma concessão divina pra mente genial de rapaz com barba por fazer grudando poesia auto depreciativa na parede de faculdade federal, isso é só nojento. Enquanto eu estou aqui me embabacando com as palavras numa tremenda dificuldade de montar um raciocínio próximo ao coerente, o Elvrum em 2012 compôs uma música como a “House Shape”. Ao lançar o Mount Eerie em 2003 ele parou de gravar como Microphones e passou a usar justamente o nome Mount Eerie. Por bons lançamentos ele foi crescendo até assumir uma nova identidade que justificasse essa mudança. Por que ele não grava com o próprio nome também é um mistério pra mim, mas como eu quero que meu nome artístico seja Massive Throbbing Schlong III então acho que entendo. “House Shape” é especialmente linda pros fãs dele porque é uma conclusão lógica de sua melhor música como Microphones, “Moon”.

Enquanto “Moon” foi construída em diversos violões fugindo de todos os cantos do fone e instrumentos de sopro que só podem ser definidos como “tortos”, “House Shape” é algo ainda mais indescritível. O instrumento predominante é o órgão, mas a estrutura e o arranjo da música são tão absurdamente alienígenas que chega a ser foda entender como isso conseguiu ser gravado. Dizer que ninguém faz algo parecido é redundante. O Dave Grohl ainda fazer sucesso em 2012 enquanto caras como o Elvrum são meio esquecidos é o mesmo princípio que leva o rapaz com barba por fazer grudando poesia auto depreciativa na parede de faculdade federal a comer todo mundo: fazemos arte pra fugir da nossa massiva imbecilidade, mas somos só apegados demais a ela.

Sim, eu sou bastante histriônico, você deveria ser também. A solução perfeita pra quem ainda não aprendeu a nadar é balançar os braços desesperadamente até encontrar alguma forma de equilíbrio. Não há muito equilíbrio pra ser encontrado nas músicas do Tim Kasher. O Ugly Organ termina com coro de “the worst is over”, mas será? Ficamos vivos como diz o título da música, mas algo acaba? O passado passa? Os traumas e ressentimentos crescem em todo minuto silencioso, o sentimento de bosta de ser um bosta transforma nossa pele em gemidos minúsculos. Viver deixa uma porra dum gosto ruim na boca. Se sua voz não te permite um canto tão lindo quanto o do Phil Elvrum, o que te resta é gritar como o Tim Kasher. Qual é o nosso motor? Acho que no final do dia não buscamos nada em cada esquina, só buscamos sair correndo e escapar de cada esquina escura na nossa cabeça.

 


 
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