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sobre algo: Sobre Joy Division, Television e reflexões idiotas
Terça-feira, 15 de Maio de 2012 (4:54:39)

 

Algumas bandas passam por toda sua carreira com um peso tão forte que sua influência ainda ecoa tantos anos depois. Isso é só uma pequena homenagem a esses ecos



 



SOBRE JOY DIVISION, TELEVISION E REFLEXÕES IDIOTAS

Por Marcelo Shaw


Cigarro. Somos todos aficionados por tristeza e suas miríades de musas decadentes e inflamáveis desordens crescendo como tumultos invisíveis aos olhos menos treinados. Não há sentimento mais universal do que o mais puro descontentamento, perseguimos o que nos persegue com tamanho gosto e nisso reside a beleza da feiura: todos já estivemos lá, todos já olhamos para a lua em sua absolutidão e sentimos a brisa gelada no vazio dessa distância, todos já questionamos o reflexo no espelho com suas falhas e detalhes obsoletos, todos já passamos por essa rebelião adolescente.

Talvez por isso seja tão difícil falar de Joy Division sem mencionar toda a trajetória do Ian Curtis. Sim, você pode falar do trabalho de guitarra vanguardista e krautrock do Bernard Sumner calçado nos ângulos melódicos encantadores do baixo do Peter Hook e na bateria doente e massacrante do Stephen Morris. Você pode fazer isso tudo e seria um extremamente válido exercício em “pensar fora da caixa”, mas você erraria no ponto do que torna o Joy Division de uma excelente banda pra algo verdadeiramente transcendental: num mundo de estrelas do rock e magrões com barba por fazer de jaqueta de couro e todo esse cansado clichê, o Ian Curtis ainda é uma porra de um herói.

O que move a natureza da música são as revoluções instantâneas, o maremoto de novidades que rege toda a indústria e os seus segregados. Alimenta o sonho dos fãs com suas performances virtuosas no chuveiro pra uma platéia composta de sabonetes e torneiras e pelos púbicos deixados no azulejo por outro membro da família. Gostamos de rock e de suas facetas, desde o esplendor em vastos e receptivos peitos e na fúria das notas de suas bandas fora da lei até seu inevitável final decadente onde engordamos e nos revoltamos e começamos a nos odiar. Cigarro. É a bíblia pra nós garotos suburbanos, copiar o que já foi feito no poço inesgotável da cultura popular. Quando o Is This It saiu em 2001, não houve uma publicação que não aplaudisse a obra como a coisa mais revolucionária desde o queijo fatiado. 11 anos depois do seu lançamento, a estréia do Strokes ainda é o que era quando saiu: Um pastiche do instrumental do Television com o vocal do Iggy Pop. Iggy tem 65 anos, Tom Verlaine tem 62, 2012 e garotas surtam por garotos de calça apertada que tocam Strokes mal que só a porra. O glamour é um troço realmente imbecil.

Então como sobrevivemos nessa Nova Jerusalém? Essa Torre de Babel mongol de onde viemos atira realmente pra todos os lados. Rapazes com trinta anos e pose de estrela e infindáveis complexos penianos, outros que despejam toda sua revolta por nunca ter comido ninguém em cultos ao nazismo, garotas que escrevem cartas suicidas com a mesma tinta que escrevem odes pra os rapazes com trinta anos e pose de estrela e infindáveis complexos penianos, então aqueles outros rapazes vão despejar ainda mais ódio por não serem os escolhidos até que entram numa escola com metralhadora. Acho que é tudo cíclico. Cigarro. Todas as estações da lua passam pelo nosso cotidiano da mesma forma que passaram por tantos cotidianos, tantos guris retardados como eu já olharam pra esse paradigma todo e concluíram essa mesma merda. Alguns resistem ao massacre que é a passagem do tempo. O Ian Curtis, com suas danças idiotescas e sua lacônica timidez e seus demônios noturnos e seu barítono sufocante e sua morte ao som do The Idiot... Isso tudo não morre. Suas fotos vão sempre carregar um peso muito maior do que tudo isso, o quanto ele completamente destoava de tudo ao seu redor na música só vai ficar ainda mais incrível com a passagem do tempo.

A alçada do Television se estendeu mais visivelmente por duas bandas: as guitarras foram pro Strokes, o lirismo desesperado e relativamente sardônico caiu pro Pavement. A diferença fica na busca pela identidade, o Pavement encontrou a sua logo de cara no brilhantismo do Stephen Malkmus. O Strokes flutua num oceano vasto de algumas poucas músicas boas e uma estética filha da puta. E por todo meu ódio por quem trabalha com marketing num geral, eu sou forçado a reconhecer a poesia toda da coisa. Cigarro. Em algum determinado ponto, o que somos parou de importar. Não, não vou cair na auto paródia de discorrer sobre uma hipotética superficialidade do ser humano, não vou chorar pela beleza interna e muito menos lamentar pela decadência da civilização ocidental. Eu acho tudo fantástico, a ampla maioria de nós não tem muito o que falar mesmo, então que deixem a pose e a aura quase mística envolvida em tocar algum instrumento falar por eles. Tocar guitarra não é difícil, mas entrelaçar um monte de palavras rodeadas por longas metáforas de pinto também não é. Em vários sentidos, o Strokes é a banda ideal pra minha geração. Beira o non sequitur o quanto o som deles já foi feito antes, mas não importa, bote alguma brilhantina, jaqueta batida, óculos wayfarer, rapazeada magra e fotos com todos com as mãos no bolso e cigarro na boca e testemunharemos mais uma ressurreição de Cristo. Se mais pessoas vão ouvir Television acaba sendo irrelevante nesse ponto, mas é o preço que pagamos pelo espetáculo.

Durante todo o fervor até hoje meio incompreendido do Punk Rock, sempre houve o monstro no armário só aguardando pra escapar. Essas portas ainda estariam firmemente fechadas se não tivessem sido escancaradas pelo Joy Division. Ainda assim, a única banda que seria realmente comparável com eles é o Bauhaus, mas essa tinha uma qualidade teatral que simplesmente inexistia no conjunto liderado pelo Curtis. Das palavras que iniciam a “Warsaw” até o fade out da “She’s Lost Control” o som é mais pesado do que uma morte na família, soturno e ainda assim estonteantemente lindo. Ian Curtis teve uma vida fascinante, tanto que virou obra de cinema e aparentemente não há um jornalista musical que não o mencione em algum ponto. Só que ele realmente merece essa lenda que gerou em torno dele. Algumas tem substância, outras são só fumaça e espelho. Por todas suas tentativas de suicídio até a que finalmente deu certo, tudo em seu rumo foi marcado por suas elegantes passadas autistas. E cigarro.

 


 
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