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sobre algo: Sobre Spiritualized
Sexta-feira, 27 de Abril de 2012 (17:39:13)

 

O Spiritualized me precede nessa Terra, mas enquanto eu ainda não consegui encontrar meu caminho pra fora das metáforas de pinto, a banda britânica segue forte como um dos maiores nomes da música



 

 

SOBRE SPIRITUALIZED

Por Marcelo Shaw

Todos vivemos de amor. Uma das melhores histórias do rock and roll foi protagonizada por uma moça chamada Kate Radley. Em 1997, ela terminou com Jason Pierce, ex integrante do Spacemen 3 e atual líder do Spiritualized, pra se casar com Richard Ashcroft, vocalista do The Verve. Os anos 90 foram amplamente dominados pelo grunge e pelo brit pop, todo mundo queria dar pros caras do Oasis e todo mundo comia o baterista do Nirvana. O Verve explodia como uma das bandas de maior sucesso, porra, sua “Bitter Sweet Symphony” foi usada até na campanha do Sérgio Cabral, tantos verões atrás. Embora logo implodisse em carreiras solos irrelevantes, o Verve era um troço grande na época. A garota deixa o desajeitado Pierce e se casa com o comedor Ashcroft.

O resultado disso no J Spaceman veio na forma de Ladies and Gentlemen We Are Floating in Space, um doloroso registro de amores partidos e vícios compulsivos. 97 foi o ano do OK Computer, foi o ano em que a dinâmica da música inglesa mudou de vez. Blur e Oasis caíram em franca irrelevância, o Damon Albarn conseguindo algum exílio no Gorillaz. Verve foi esquecido. Ninguém mais sabia que merda era Travis. Desde então, os ingleses morreram de amores por Alex Turner, Pete Doherty e outros tantos menores compositores com suas calças justas revelando a curva do saco. “All I want in life is a little bit of love is a little bit of Love to take the pain away, getting strong today, a giant step each day” ecoa tão perfeitamente por todos os cantos do meu fone de ouvido. Tão corretamente como tudo em sua história, perdido no meio de tudo isso permaneceu o Pierce. Ele gravara um dos álbuns da década, ainda não tinha a adoração que seus contemporâneos tinham, sua mulher estava tomando tarugos rijos na porta dos fundos do magrão do The Verve, seu amor pela heroína crescia e crescia. Quando muros te cercam por todos os lados, a única saída está pra cima. Sim, Pierce achou Deus. Todos vivemos de amor, independente de qual seja.

Spacemen 3 foi uma das bandas mais influentes da história. Seu som abriu as portas pro Shoegaze e pro Dream Pop, sua política de “taking drugs to make music to take drugs to” até hoje não foi melhor personificada por ninguém. Os dois principais membros, Jason Pierce e Peter Kember, arquitetavam as músicas em torno de suas elegantes e retardadas guitarras. Notas que não fariam sentido em mais lugar nenhum estavam em casa em verdadeiras sinfonias e o teto branco derrete. Sonic Boom virou músico de estúdio e produtor, seus projetos subsequentes são excelentes, mesmo que por vezes difíceis e excessivamente experimentais. J Spaceman foi por um caminho que existe numa zona cinzenta da música. Experimental demais pra ser pop, pop demais pra ser vanguardista. Seus trabalhos eram como cultos, Lazer Guided Melodies e Pure Phase são perfeitas trilhas sonoras pra qualquer noite. No Ladies and Gentlemen, tudo foi aumentado. O disco é um registro perfeito de separações e corações quebrados. O excepcional Let It Come Down foi uma brilhante sequência, ainda mais grandioso do que o anterior. Dois álbuns menores seguiram. Pierce encarou o abismo da irrelevância. Voltou com o dedo do meio firmemente estendido. Ninguém mais conseguiria compor uma música como “Hey Jane”.

Nela começa a linda redenção de Sweet Heart Sweet Light, o melhor álbum de 2012 até agora. Redenção pessoal e profissional, na época Pierce se via numa batalha contra um câncer no fígado. Quimioterapia é um dos tratamentos mais fudidos possíveis e tudo fica claro aqui. É um disco de fé, fé fraturada, mas fé. Com vocalizações típicas de gospel, Pierce remonta o rock and roll de novo. Nunca exatamente um líder de tendências, em 2012 não seria o ano de começar. Não é o som que será repetido exaustivamente em nenhum verão. Não é o som que mudará outros sons. Deus, não é o som que trará todo o reconhecimento que ele merece. SWSL, com sua linda capa de “Huh?”, é um único torpor em 11 músicas. Tentar descrever o que acontece aqui é possível, mas não recomendável. Não faria sentido tentar resumir tudo que foi capturado aqui. É um adeus a tudo aquilo que nunca conseguiremos dar adeus. É um tributo aos ídolos caídos de infância. É uma devoção àquilo que não pode ser visto. É emoção em estado bruto, feia e decadente, linda e imutável. Os arranjos do Spiritualized ainda são gloriosamente bagunçados, com instrumentos, timbres e vozes voando de todos os lados. Tudo, no entanto, está exatamente onde deveria estar. Quando a bateria de “Get What You Deserve” decide sair do ritmo, ela está exatamente no tempo certo. Onde os violinos exagerados de “Too Late” poderiam soar cafonas e ultrapassados, seus pulsos soam preciosos. Perfeição é uma meta utópica que não foi alcançada aqui, mas em suas imperfeições habitam sua maior força. Pierce é frágil e fortalecido por algo maior do que ele. É um tributo pra toda a humanidade, todos os nossos terrores noturnos, todas nossas sensações. E porra, o que é música senão isso?

O que nos motiva a acordar por todas as manhãs complicadas é a nossa musa. Se é o que nos causa dor, é também o que pode nos salvar. Nosso amor é o que nos move, não há sobrevivência que não passe por ele. Por motivos desconhecidos, até hoje o Ashcroft é mais famoso do que o Pierce. Ninguém pensa ainda no Spiritualized como grande força da música inglesa. Mas no Sweet Heart Sweet Light, Pierce compôs 11 músicas melhor do que a maioria do que o seguiu ou o antecedeu. É um álbum forte, triunfante, gigantesco no melhor dos sentidos. Redenção vem carregada de mágoas e todas são usadas aqui como um longo sobretudo. Tempos violentos esses, Pierce representa um grito de luta. O mundo pode me viciar em sua química, tirar minha saúde, levar minha garota pra caras questionáveis, roubar-me de todo meu orgulho. O que ele conseguiu aqui é mandar tudo isso se fuder, sua paixão é simplesmente maior. É Jó mandando Deus tomar no olho do cu, celebrando seus males e permanecendo inquebrável. Por estonteantes melodias pulsantes, J Spaceman está ainda em 2012 aprendendo a superar os labirintos de sua estrada através de sua arte. Fica aqui minha pequena homenagem pra esse que é certamente um dos maiores nomes do rock and roll. Obrigado por tudo, meu doce astronauta.

 


 
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