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sobre algo: Sobre Modest Mouse
Sexta-feira, 30 de Março de 2012 (18:29:56)

 

A ideia é tentar entender os ensinamentos do missionário RR Soares, só porque ele assim tesudo.



 



 

SOBRE MODEST MOUSE

Por Marcelo Shaw

Há um Deus? Fomos criados por alguma ordem superior ou somos assim acidentais? Olhei o mar e não senti a presença de Deus, na verdade não senti presença alguma. Decidi correr e tentar ignorar que a porra do céu está constantemente ameaçando cair, desviando dos caranguejos que corriam perto dos meus pés. Talvez exista um motivo pra morte ser tamanho mistério, se eu soubesse o que existe depois dela provavelmente não estaria vivo. Não pode haver uma saída fácil, um atalho. Precisamos de algum engrandecimento, mas em algum ponto ele é demasiadamente elusivo. Cá estou eu, no maior calor do mundo, tentando não ser assassinado por caranguejos psicopatas, com pensamentos muito além do meu corpo. Eu tento me animar. Tento de novo. Porra de caranguejos...

Se Deus de fato existe, não fomos abandonados por ele se somos inferiores ao ponto de não conseguir realmente captar Sua essência? Fomos deixados em selvas, sem direção alguma, tentando tatear nosso caminho pelas árvores e tentando fugir de lesmas e lagartixas. E se quando morrermos for de fato isso? Aí é ainda mais bosta, quase impensável. Há um instinto de sobrevivência forte demais em cada um de nós, não nascemos pra ter fim. Se você parte do princípio que há algum aprendizado, o que aprendemos em 70 e poucos anos? Cagar e limpar a bunda, beber cerveja e dirigir desviando das blitzes, fazer piada racista e ouvir U2, rir até as lágrimas descerem por inteiro no nosso trêmulo corpo? Eu nunca consegui dormir direito e não há absolutamente nenhum prazer nisso pra mim, então eu não vou saber como é sonhar escapismos todas as noites? Se o princípio não é aprendizado, qual é então? Existir? E se o amor que eu sinto for maior do que essa vida, maior do que só a existência?

Isaac Brock, líder do Modest Mouse, entende que existem infinitamente mais perguntas do que respostas. O final do filme é conhecido, mas sempre cochilamos no meio dele ou perdemos a atenção e esquecemos quem é o vilão. Cada aplauso no final só glorifica o fato de não realmente captarmos o enredo. Reclamar do Deus católico é imbecil, nivelar a discussão em religião é errar feio o ponto. Há algo além daqui? Estamos vivendo nossos últimos instantes? Eu nunca mais vou conseguir formular uma piada de pinto depois que for nessa? Se a memória de James Brown vive através de sua música, onde está ele pra lembrar junto? The Moon & Antarctica, colossal disco lançado em 2000 pelo Modest Mouse, descamba raramente pra superficialidade que é trazer noções religiosas no meio. Na maior parte do tempo, nossa confusão existencial é registrada em quinze excepcionais músicas.

Quando o Moon & Antarctica foi lançado, o Modest Mouse já era uma das principais bandas do indie rock americano. Seu brilhante The Lonesome Crowded West elevava as melodias do Pixies a algo muito mais demente, é uma declaração de amor ao nosso instinto de estrangular muitas das pessoas que cruzam nosso cotidiano mesmo que indiretamente, é também um fidedigno registro do como é se sentir sozinho na maior das multidões. No Moon & Antarctica eles abandonaram um pouco a estética lo-fi e o resultado é uma produção expansiva, com instrumentos e sonoridades saindo realmente de todos os lados. O disco é encorpado, não há um instante em que não tenha algum som que te faça perguntar que porra de instrumento é aquele.

É nas letras, no entanto, e no conceito que o disco realmente brilha. Todas as questões são feitas sem expectativa de alguma solução plausível, todos os temores rotineiros são romantizados, toda nossa busca fútil por engrandecimento é tão grande. Os momentos são gigantes, os terrores noturnos são comuns, nossa equação num geral é torta e falha. Se temos medo até da nossa própria sombra, como poderíamos ser os fantasmas? Brock encara com certo cinismo sua latente mortalidade, a massacrante vida humana é ironizada, a ainda mais devastadora dúvida do que nos resta ao fim dessa vida nunca é realmente concretizada. Fica no espectro abstrato em que toda essa merda habita.

Moon & Antarctica não é um disco alegre, é um disco que celebra nossa própria tragédia. É o clichê de “rir pra não chorar”, porém um extremamente bem contextualizado. Um dos discos mais incrivelmente bem pensados e inteligentes, cada passagem contida na quase uma hora de duração merece ser conhecida.

 


 
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