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sobre algo: Sobre Ema e Death From Above 1979
Domingo, 25 de Março de 2012 (2:59:45)


A música está morta. Não fazem mais o bom rock and roll como antigamente! Estamos vivendo no reino do Justin Bieber, com nada além de camisetas xadrez, bigodes, calça justa e ausência de Jesus Cristo, nosso salvador. Volta, Nelson Ned!



 



 

SOBRE EMA E DEATH FROM ABOVE 1979

Por Marcelo Shaw


Isso toma tempo. Alguns cigarros hipotéticos, noites mal dormidas, excesso de sol na cabeça, eternidades em reprises na TV, enforcamento auto erótico, problemas de visão e síndrome de Jesus Cristo. Pra sempre enamorado com as palavras, em sua leveza inebriante, fugindo de quem as fala sem compromisso qualquer, existindo num limiar entre sanidade e o hospício que nos ronda naqueles momentos de silêncio. Elas só dependem de nós para o parto e escapam pelo mundo tão maior que elas ecoando em cada vento, em cada resposta, cada vez mais alto até serem ignoradas e virarem um grito. E são nas noites em que não temos nada além delas, nos momentos que mais precisamos, são justamente nesses instantes que elas insistem em se dissipar por cantos obscuros do cérebro. Cem bilhões de pessoas já passaram por esse planeta, é a estimativa que aprendi no It’s Bad for Ya do George Carlin. Cada rua já teve alguns nomes diferentes, cada estrela já foi batizada por mais de um casal, cada sentimento já foi conhecido. Novas palavras não surgem, novas formas de expressão ficam datadas em questão de segundos. Talvez não haja um resgate, o número é massacrante, mas até números tem seus limites. A língua se encontra atrofiada, machucada, irreparável. Todos tivemos, em algum ponto, uma história pra contar. Então por que existimos num perpétuo silêncio?

Eu queria ser ator de novela das sete quando era criança, como minha mãe adoraria te contar. O meu caminho cheio de vírgulas, interjeições e metáforas de pinto não me permitem pensar em qualquer outra coisa além de escrever. Deixar correr um pouco da minha criatividade. A coisa é, eu nunca sou tão bom quanto eu acho. As minhas palavras ficam obtusas no momento em que acertam a página em branco, mas é nela que reside minha maior obsessão. É em preencher cada página em branco que se perde no meu caminho. É em travar batalhas com sinônimos e vírgulas. Deus abençoe a pretensão, rapazeada!

Só que sem isso nada é criado. Sem essa auto fixação nenhum romance seria escrito. Sem a tentativa de extrapolar seu próprio alcance através de obras de arte pra suprir a sua inabilidade consigo nenhuma frase longa do caralho igual a essa seria escrita. Nisso existe a música. Nisso existe quem faz a música. Jaquetas de couro e óculos wayfarer não seriam necessários sem complexo peniano. Guitarras não teriam sido inventadas sem as tão massivas melancolias. Deus, até mesmo música evangélica não seria popular sem os terrores noturnos. A beleza da arte é existir como instrumento que nos ajude a lidar e não lidar com o que não conseguimos lidar em primeiro lugar. Algo como enfrentar nossos monstros os ignorando. Nós não escrevemos pelos aplausos, escrevemos pela sensação de engrandecimento inerente do ato. Então permita a si mesmo certa arrogância transparecendo em sua obra. Porra, mal não faz. E se alguém te achar pretensioso, ei, você sempre pode dizer que é mecanismo de defesa.

Past Life Martyed Saints e You’re a Woman I’m a Machine habitam firmemente esse espectro às suas maneiras. O primeiro, da compositora Erika Anderson e lançado por ela como EMA, é um doloroso retrato fraturado de um sofrimento nunca realmente conhecido. As letras são tão tortas e labirínticas que fica realmente impossível de decifrar o que realmente ela quer dizer. Só fica o senso de desespero, as tristezas mais nítidas borbulham por frases como “If this time through, we don’t get it right, I’ll come back to you, in another life” alicerçadas em distorções e melodias feias. Da capa ao conteúdo, o que se passa aqui é muito semelhante a algum acidente do qual não conseguimos desviar os olhos. Não chamamos nenhuma ambulância, ficamos parados encarando o motoqueiro se contorcendo de dor no asfalto.

O outro, dos canadenses do Death From Above 1979, é o rock and roll glorificado. É impossível de tentar alguma análise séria, isso seria meio Rubens Ewald Filho comentando filme do Steven Seagal. Deus, porra, o DFA é o retorno dos filmes de porradaria. São as memórias de uma infância com Tartarugas Ninja, Turma da Mônica, Super Mario 64, aquela barrinha de chocolate que vinha uma figurinha de dinossauro, o conforto de sentar na poltrona numa tarde de sol e não ter que fazer porra nenhuma. É foda por nenhum outro motivo além de ser foda, não precisa de justificativa ou contextualização. Eles não têm remorso algum em fazerem isso tão melhor do que nós meros humanos e isso é a forma de arte mais sincera.

Cat Power talvez seja a única comparação justa a se fazer com o trabalho da EMA, mas mesmo assim é uma tremenda injustiça. A Chan consegue manter alguma poesia, suas músicas são bonitas num sentido mais tradicional. Ao ouvir a Erika cantando dá pra notar que não é bem por aí. Não há uma “Say”, nem muito menos uma “The Greatest”. Há o maremoto de descontentamento de “California”, o nervosismo sexual de “Marked”, o desajustamento total de “The Grey Ship”. Só o Hospice do The Antlers conseguiu conjurar com tanta fidelidade o lado negro humano inquieto, só que conseguindo ser domado. Não é bem sobre se entregar às sombras, é sobre quase fazer isso. Mas, enquanto o Hospice é uma obra dramática em mais de um sentido, o Past Life Martyed Saints é um soco no estômago. “You've corrupted us all with your sexuality, tried to tell me love was free” e raspa essa porra desse bigode ridículo.

“Well let's stay up all night or you can while I fall asleep”, Sebastien Grainger berra a todos pulmões. É meio delicado tentar trazer algum sentido pra essa ou qualquer outra letra. Fica só nítido uma misoginia machista totalmente desenfreada, em estado bruto. A única comparação possível é uma sunga vermelha, excesso de protetor solar, futevôlei, coçar o cu e cheirar o dedo. Ok, esquece essa última. A banda não tem guitarra só pra deixar ainda mais claro que eles estão meramente nos sacaneando. No final das 11 músicas, fica somente seu rastro de suor, dor de garganta, exaustão e a satisfação mais humana e instintiva entre todas as satisfações. E eles fizeram isso do seu jeito, com demência, empolgação, sexualidade, mão no saco e dedo do meio firmemente erguido para toda a audiência.

Ufa!

 


 
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