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sobre algo: Sobre Californication
Sexta-feira, 16 de Março de 2012 (17:50:24)


Vinte e quatro horas por dia parece vinte e três horas a mais do que o necessário. E esse ainda foi um ano bissexto e eu estou ficando mais velho do que o tempo ao meu redor. Esse texto não é sobre Whitesnake, mas deveria ser.



 



SOBRE CALIFORNICATION


Por Marcelo Shaw


Quando era pequeno eu adorava assistir Arquivo X, aquela música tema no teclado de motel era deveras estimulante. Eu ficava com medo de andar em corredores escuros, mas, porra, tenho isso até hoje. Acho que isso é uma tônica da minha vida, eu tenho essa tendência de procurar coisas sobrenaturais pra depois ficar me cagando de medo. Deus, até hoje tenho medo de jogar Zelda: Majora’s Mask e surgir aquela estátua me encarando quando eu tiver mijando. Monstros, fantasmas e demônios não respeitam nada, talvez esse seja o problema. Se meu corpo for possuído quero aviso prévio, se eu ver meu avô morto no quarto quero que ele solte a letra previamente, se o cachorro sorrindo aparecer no meu sonho espero que ele passe a bola e não fique me apavorando. Qual o problema de vocês, criaturas de outro mundo? Vocês não tem uma porra de outro mundo pra viver? Vocês não cansaram de levar surras incontáveis minhas no Mortal Kombat II? O estoicismo do David Duchovny, encarando alienígenas e seu péssimo senso de humor, meio que fazia toda a série valer a pena.

Eu me lembro de ver aquela propaganda do Californication com a moça jogando um papel como bauruzinho pro Duchovny de um carro pro outro. Havia alguma canalhice ali que não me convencia, parecia um high 5 de distância de um BROS BEFORE HOES. Na época eu assistia Lost... Tá bom, mentira. O enlatado americano faz parte da cultura brasileira tanto quanto o famoso “jeitinho”, Caetano Veloso, cabeludo com camiseta do Iron Maiden, viadinho de calça justa, roubalheira e protestos chatos contra roubalheira que me fazem desejar que roubassem mais. Nós somos a nação do Alexandre Frota, mas aí divaguei.

Ao finalmente dar uma chance pra série foi uma revelação. Não era sobre cafajestagem, era sobre relacionamentos errados. Não era tentativa de ser engraçado, era realmente engraçado e cheio de alma. Não era sobre o David Duchovny comendo todo mundo, era sobre ele merecendo comer todo mundo e ainda mais. Há pouco espaço pra interpretação na nossa cultura. O James Brown foi preso por bater na mulher e justificar a condenação com o fato dele ser negro carrega consigo uma carga humorística tremenda. Claro, não se você for a mulher da história, mas isso não é forma de encarar nada, afinal, milhares de pessoas morrem mal na África a cada segundo e isso não impede ninguém de rir do Rafinha Bastos, mas devia. Não pela África, mas porque o Rafinha Bastos merece ser esfaqueado. Defeitos existem aos montes por aí, quando isolados emocionalmente conseguem ser engraçados ou até admiráveis.

E admirável certamente qualifica o personagem de Duchovny, Hank Moody. Não é o melhor personagem, não tem profundidade necessária em muitas das suas crises e sua persona de trovador incompreendido fudendo tudo ao seu redor já foi explorada de todos os ângulos possíveis. Mas foda-se. O que você vai fazer? Assistir o Alexandre Frota fazendo uma adaptação de Batman onde o personagem dele se chama Gayson? Assistir o Steven Seagal em sua nova série, True Justice, espancando diversos meliantes sem perder um centímetro de cintura? Você pode fazer isso e francamente deve. Mas dando uma chance pro Hank Moody acaba por se relevar um personagem crível, tridimensional, demasiadamente humano, daqueles que veriam Nietzsche numa prateleira e ririam porque, porra, ESSE HOMO. O elenco de apoio faz justamente isso, apoia, com suas imperfeições e exageros diversos. O segredo da série reside justamente nessas interações, na alma que se faz presente. A relação dele com a mulher é num geral errada, mas ainda uma que dá pra relacionar. Sua amizade com o agente é prejudicial pra ambos, mas de uma forma invejável, ficando claro que prejudicial a saúde mesmo é ficar entediado. Não tem filosofia de vida, não é algo a ser seguido, não é nada. É uma história, uma belíssima história nisso.

Arquivo X e meu medo do escuro exemplifica o que nos fascina tanto nas histórias dos outros: não há nada mais belo do que assistir de fora. Se um carro bater de frente num poste aqui da rua, minha primeira atitude seria tirar uma foto e não ligar pra polícia. Eu sou aquele idiota na multidão que sempre fica olhando o cara que vai se jogar do prédio. Sou um ser humano contemplativo na minha natureza, eu gosto de ficção mesmo quando é real. A fauna de vícios e idiotices humana nunca falha, é o fator comum em todos os milhões de anos de evolução. Aceitei-me como fã de enlatado americano e não há nenhum melhor do que Californication. Não é perfeito, ninguém é perfeito e nem precisa ser. Seus roteiros espetaculares criam vida numa das melhores obras contemporâneas em qualquer mídia.

 


 
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