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sobre algo: Sobre dirigir e tomar abrigo
Sábado, 10 de Março de 2012 (1:49:18)


A noite é a hora mais romanticamente feia do dia. É onde encaramos o que o dia não foi, onde a manhã encara com seus olhos dementes. É também a hora perfeita pra assistir reprises na TV, filme de sacanagem softcore e hockey no gelo.



 


 

SOBRE DIRIGIR E TOMAR ABRIGO

Por Marcelo Shaw

Somos criaturas violentas, as mais violentas de Deus. Há pouca sutileza em todos os nossos traços. Estouramos diariamente miolos quaisquer em algum lugar merda provavelmente no oriente médio e ainda temos que aturar gente usando turbante, peça quase tão medonha quanto boné. Porra, por quanto tempo teremos que aguentar a mera existência de um apedrejamento? Matamos outros animais pra fazer bolsas e sapatos e ainda temos que aguentar a proliferação de blogs de moda.

Destruímos florestas pra construção de campos de golfe, mas essa eu até acho uma boa. Richard Dawkins consegue ganhar dinheiro falando que Deus não existe, francamente, quão impressionantemente idiotas nós conseguimos ser? Quando ser ateu é desculpa pra ser um autor publicado de enésima qualidade talvez o fim do mundo não pode vir cedo o suficiente. Todo dia diferente surge uma banda de metal diferente, todas cantando sobre satã e mortes e sangue e porra Slayer é tão foda. Mas até quando cabeludos vão tirar fotos usando camiseta do Iron Maiden e fazendo cara de mal e isso permanecer socialmente aceitável? Há algo mais espetacularmente espetacular do que massacrar o inferno inteiro usando serra elétrica em DOOM? Somos violentos nas coisas boas e ruins, mas, sério, corta esse cabelo porra.

As melhores obras de arte são aquelas que existem no espectro do exagero. O artista precisa abraçar isso em si mesmo, desde ser violentamente romântico sem tempo pra medir a própria breguice, ou mais na linha Steven Seagal de porrar meliantes com bola de sinuca dentro de meia. Há pouca necessidade de adornos quando você consegue ser realmente visceral, quando sua mensagem pode ser ouvida sem necessariamente precisar ser falada. E precisamos disso, é uma forma de lidar com o monstro debaixo da cama sem entrar no mercado atirando na velhinha que estava lá só pra ficar meia hora escolhendo uns tomates. Se pudermos lidar com nosso ódio sem realmente odiar alguém, melhor assim.

Os dois melhores filmes do ano passado foram absolutamente ignorados pela crítica. “Drive” e “Take Shelter” tratam, de maneiras distintas, do mesmo instinto. Em “Take Shelter” temos um pai de família, brilhantemente vivido pelo Michael Shannon, que começa a ter visões apocalípticas e insiste em aumentar o abrigo contra tempestade. A beleza do filme está na perceptível e crescente queda à loucura tida pelo personagem principal. Uma coisa há em comum entre os homens dos dois filmes citados: ambos explodem em situações distintas embora igualmente violentas ao tentar proteger aqueles que amam. No caso do “Take Shelter” Curtis acaba mergulhando no abismo por amor à família. Em “Drive” o personagem sem nome feito pelo Ryan Gosling se perde em situações brutais por se afeiçoar à família da casa ao lado.

Onde em “Take Shelter” é possível correlacionar com o lado da esposa vendo o marido cada vez mais fora, em “Drive” não há isso. Não há um freio, uma conexão com a realidade, nenhum personagem fácil pra fazer tudo fazer um pouco de sentido. São exclusivamente tribulações extremas, tentar morder o mundo e ver que ele morde tão mais forte. O personagem sem nome acaba se envolvendo num roubo com a máfia e as consequências vão ficando progressivamente mais absurdas à medida que ele consegue escapar. Até que eventualmente o desespero fica claro e é a cena no elevador marca esse ponto sem retorno. Não dá mais pra escapar, o único caminho pra fora é através (Deus abençoe você, DOOM).

São também dois filmes lindamente estilizados. “Take Shelter” se passa num típico lugarejo meio subúrbio do centro-oeste americano, comunidade pequena onde todo mundo sabe quem come quem, quem apanha da mulher e quem tá participando de movimento de ocupação, que graças aos céus aparentemente morreram um pouco. Essa sociedade tão fechada só adiciona ao clima claustrofóbico. “Drive”, por outro lado, é expansivo, cafona, uma espécie de apocalipse trajado com luzes de neon. Acaba também prestando uma tremenda homenagem aos anos 80, com sua linda estética “fake”.
Gastamos tantos recursos tentando entender o porquê do universo sem sequer cogitar que o universo estaria melhor permanecendo um mistério. Vamos compulsivamente em todo o existencialismo antes de perceber que talvez seja melhor só existir. Esses dois filmes celebram o que há de mais humano na ocasional irracionalidade e tudo o que faz da humanidade mais interessante que o ser humano.

 


 
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