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sobre algo: Sobre Cat Power
Sexta-feira, 2 de Março de 2012 (0:36:37)



Ouvir Tom Waits e olhar pra fora numa janela imunda de ônibus é um tipo de filosofia automática opressiva e esmagadora, mas ao mesmo tempo tão sedutora. É o canto da sereia, na versão do Nelson Ned.



 


 

SOBRE CAT POWER

Por Marcelo Shaw


Fogos de artifício colorem as paredes de minhas memórias. Foi em alguma virada de ano, 2000 ou 2001, não lembro qual era o medo que regia a humanidade naquele dia. Lembro-me de não pegar elevador achando que ia ser lançado no céu e explodido em milhões de pedacinhos. Não há impossível quando você tem 10 anos. Morava na Barra da Tijuca e o Rio de Janeiro inteiro parecia ocupar aquelas areias. Tinha show do Belo, eu me lembro de cada roupa enfadonha usada por cada ainda mais mefistofélica amiga de minha mãe. A multidão empalada em espumante barato e gargalhadas histéricas e crianças passando como zunidos de balas sem direção por aparentemente todo lugar, sujas e descalças, sem qualquer forma de vaidade. A hora se aproximava, eu podia sentir.

Os sussurros viraram gritos com o álcool pingando em cada minuto que passava como segundo, terremotos de excitação pelo desconhecido. A porra do ano ia trazer regozijo pra cada alma que chegasse sem remorso e, Deus, como tentavam. A festa no apartamento encontrava seu ponto sem retorno, aquele que me marcou tanto. Eu queria ver os fogos, sempre quis, e o preço de admissão era encarar um show do Belo. Há pouco em qualquer literatura que sirva pra destacar o quão inacreditavelmente merda essa proposta parece, é o tipo da coisa que merece sua própria linguagem, uma que nunca venha a ser conhecida e passe seus tempos trancados em qualquer porra de cabeça doente ignorável. Meu pai estava visitando e foi o primeiro a se negar, então minha mãe virou pra mim. Neguei. Ficamos eu e meu pai sentados na frente do aparelho de som, ouvindo Ramones, AC/DC, Led Zeppelin, tornando cada um trilha pros últimos momentos do ano. Lá fora fogos de artifício estouravam enquanto eu e meu pai sentávamos no tapete escolhendo ritualisticamente o que tocaria a seguir.

Eu devo culturalmente tanto ao meu pai que não é nem engraçado, acho que eu estaria com parafina no cabelo se tivesse descido à praia naquela noite. Uma das heranças mais fortes dessa noite é a minha tendência a escolher trilhas pra tudo. Música me acompanha, me protegendo do silêncio de meus pensamentos, me escoltando pelo meu tortuoso caminho de hesitações profissionais. Porra, gravar VHS com programação de clipe na MTV e ter que pular o Lenny Kravitz é uma arte perdida, como metáforas ruins envolvendo minha obsessão por metaforizar a própria metáfora. Ouvir Tom Waits e olhar pra fora numa janela imunda de ônibus é um tipo de filosofia automática opressiva e esmagadora, mas ao mesmo tempo tão sedutora. É o canto da sereia, na versão do Nelson Ned. Ominosas noites sem perspectiva passaram por mim como flechas, cada uma delas com o acompanhamento de alguma melodia. Foi num show que a encontrei, nada mais justo. Não me lembro de uma música que tocou, mas lembro de suas palavras pra mim.

Por um momento, fecho os olhos e enceno a noite de ano novo. As cores dos discos, os nomes das músicas, as sonoridades que se abriam diante de mim. Minha primeira prova do espanto de estar vivo, daquela sensação montanhosa inominável que persiste por toda nossa existência, a cinérea percepção do paraíso nunca a se revelar. Ou alguma porra do tipo. Abro meus olhos e encaro fixamente nossa foto. Uma lágrima por cada quilômetro até eu perceber a proximidade que se seguirá e aí abro um sorriso que não cabe em meu rosto. Tantos dias sem sua respiração em mim, me pego rezando que pra cada um desses existam muitos mais com a minha mão sentindo o seu peito subindo e descendo. Eu sei que o universo proveio esse amor e eu sei que dele resultará ainda mais tantas lembranças. Há uma trilha pra esses dias e poderia ser outra senão Cat Power?

Chan Marshall canta com o peso de séculos, sua voz é linda e grotesca no que carrega consigo. O andamento arrastado de suas músicas é irrequieto, há um cenário de desolação em cada vírgula em forma de respiração. Ainda assim a alma tão humana de suas músicas é confortante como imaginar figuras nas nuvens passando. São baladas permeadas com tristeza, como alguém olhar o reflexo no espelho com desdém. Só que sua amargura é doce, é uma beleza que brota do lugar mais improvável. “If drinking don’t kill me, well I don’t know what will” resume todo o corpo de obra dessa americana, sua voz nunca cessa de nos lembrar disso. Passeando por colinas de púmice sem absolutamente nada pelo horizonte, com o medo do inferno circulando cada espaço no céu e fazendo sua presença ser sentida pelas dores da batalha. Como insanos uivos pelo deserto, lá está a voz de Chan, lutando pra chegar ao final de sua composição. Tão humana.

Saudade é uma palavra brasileira como aprendi num gibi do Cascão e seu significado é tão universal. No entanto eu confundia sempre com nostalgia, até finalmente entender. Aquela noite com os fogos de artifício no tapete é nostalgia, saudade eu tenho de você. Está em cada tecla de piano, em cada nota perdida, em cada divagante lamuriar. Eu sorrio pelo reencontro e anseio toda a felicidade do mundo pra você até lá. E como poderia não fazer de Cat Power minha trilha até lá?

 


 
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