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sobre algo: Sobre o espaço ser só barulho
Quarta-feira, 15 de Fevereiro de 2012 (0:24:16)


Música nunca é só música. Música é a necessidade de analisar música. É a necessidade de tornar não músicos em parte da coisa. Qualquer garoto de bigode entende tanto. E, então, o que resta? Resta o som, o suor, as lamentações e celebrações.




SOBRE O ESPAÇO SER SÓ BARULHO
Por Shaw

Todo mundo que se acha de alguma forma envolvido com a cena musical independente ama reclamar da ausência de música autoral. É um amor profundo, doentio, quase uma paródia ruim dos filmes em que o Michael Douglas come todo mundo. Existe algo realmente depravado no prazer que o cara metido a indie sente em assistir uma banda indie. Ele então tenta tossir, engolir, rir e limpar a garganta, tudo ao mesmo tempo tamanha a excitação. E então, depois de coçar o mamilo, ele abre o verbo. Diz toda aquela poesia aos nossos ouvidos, naquele tom auto-engrandecedor que eu aprendi a odiar, amar, temer e debochar. Mas aonde eu moro, sendo que eu não posso falar da cena musical no Brasil inteiro, até porque simplesmente não me interesso, 99% das bandas soam como outra banda. O que existe de tão autoral nisso? Se você faz algo que grosseiramente lembra o trabalho de outro alguém, por que não só assumir e partir pro cover? Quero dizer, por que alguém tentaria escrever o próximo Sgt. Pepper's? Provavelmente vai ficar ruim, e nada vai mudar o fato que tu tentou fazer o próximo qualquer porra.

Isso sempre me incomodou, "música autoral". Paradoxalmente, meu texto é sobre isso, de algum jeito. Até agora, 2011 teve 4 grandes discos, pelo menos entre os que eu conheci. E os 4 são música autoral no bom sentido da coisa, são obras aonde a visão do criador fica evidente do começo ao fim. Não soa como nada além do trabalho da pessoa em questão, e isso eu acho bonito. Esses 4 magrões conseguiram achar alternativas pro que já era feito, mas que no fim não parece "alternativa". Entendeu? Essa parte desse parágrafo foi meio foda de escrever e mesmo assim acho que ficou uma bosta. Foi complicado ligar meu ponto inicial com o tema dessa coluna. Eu achei que era importante informar isso, e assim uso isso como recurso pra chegar aonde eu quero mais fácil.

O primeiro dos 4 que eu ouvi foi o Kaputt, do Destroyer. Impressionante como esse trabalho soa instantaneamente kitsch, é algo como um Pet Shop Boys beatnik. O conjunto de Vancouver abandonou um pouco seu lado mais rock pra focar nesse pop delicioso dos anos 80, e o resultado foi uma pornografia musical, um sábado à noite ideal. Além de ser um excepcional vocalista, o Daniel Bejar adciona um elemento de selvageria em tudo que ele toca. No New Pornographers era assim, e isso fica ainda mais evidente no seu projeto mais pessoal. E pra um disco tão baseado nessa sensualidade bizarra, ele consegue brilhantemente evitar de cair na auto-paródia. Bejar soa cansado, como um bêbado escondido no canto do bar pensando em tudo de novo. No final, as histórias que ele conta são tristes. Mas inevitavelmente charmosas, algo que te faz voltar sempre. Nem que seja só pra ouvir essa voz.

Dois produtores de música eletrônica lançaram seus álbuns de estréia em 2011, e são dois trabalhos completamente diferentes, separados por muito mais do que um oceano. Space is Only Noise é o nome do debut do nova-iorquino Nicolas Jaar, mas esse lindo nome também descreve o som perfeitamente. É inspiração no estado bruto, como palavras num liquidificador. Pense em algo tipo as bandas de big beat filtradas pela ótica do The Books, esse dadaísmo nunca deixa de ser irresistivelmente estranho. Em muitos momentos as músicas parecem sair do controle do compositor, como uma mansão mal assombrada lesada. Do lado inglês da coisa, o mais velho James Blake (21, contra 20 de Jaar) conseguiu algo massa com seu auto-intitulado antes mesmo de eu apertar o play: emputecer o Geoff Barrow. Engraçado que o instrumentista do Portishead achou que estava fazendo uma crítica ao jovem britânico o chamando de cantor de pub. Eu não vejo. Existe sim um pub na voz de Blake, mas é um pub decadente. Ele acabou sendo uma espécie estranha de singer-songwriter eletrônico. As músicas tem uma delicadeza e elegância que remetem ao trabalho de outros jovens ingleses, o The xx. Blake está sendo tão hypado quanto, e merece da mesma maneira. Música eletrônica de altíssima qualidade, mas acho que você pode sempre me mandar tomar no cu e ficar esperando o disco novo do Strokes. Alegria alegria!

Fechado esse texto, que certamente estava melhor na minha cabeça, temos o Smoke Ring For My Halo do Kurt Vile. Lo-fi é um gênero amplamente incompreendido. Você não está fazendo lo-fi por gravar algo meio chutado da forma mais amadora possível. É mais sobre uma postura intimista, um conceito que inevitavelmente se traduz no som. E o Kurt vile captou isso brilhantemente. Seu novo disco soa lo-fi, mas é totalmente preenchido, e a qualidade da gravação é limpa. Se o John Fahey tivesse gravado o Nebraska soaria como o instrumental desse disco. Já em sua voz, ele consegue ser melancólico sem ser chorão. O clima num geral é bem relaxado, e quando tu repara já tá no final do disco. E isso só pode ser uma qualidade, correto?


 


 
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