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sobre algo: O melhor disco de 2011
Quinta-feira, 29 de Dezembro de 2011 (21:59:31)

 

Minha interminável necessidade de analisar obras antes de ouvi-las por inteiro me trouxe mais uma grata surpresa. É bonito ser surpreendido por quão boas certas coisas boas podem ser. Mesmo as que dão saudade.



 




O MELHOR DISCO DE 2011

Por Marcelo Shaw

Onde estamos? Como pode minha memória ser ocupada mais por cenas de filmes do que de reais acontecimentos? Como posso eu sempre sonhar com estranhos, sempre em preto e branco? Quem ouve minha reza? Eu tenho a necessidade absurda de querer saber de tudo, mesmo quando não há nada pra saber. Pensar no que o futuro reserva é caminho livre pra infindáveis filosofias de bar de enésima categoria, como será que eu serei quando meu futuro chegar? A linha entre o racional e o animalesco cada vez se confunde mais, o que eu fiz pensando estar calculando na verdade foi meu instinto destrutivo mais merda mandando em mim. Se eu ando por todas essas ruas, de noite e na pior chuva da história, eu sei que não tenho ninguém além de mim mesmo para culpar. O que nós perdemos todos os dias por nossa inabilidade de crescer? Eu sempre sonho com fogos de artifício num parque de diversões, minha tão desoladora certeza. Bem ou mal, eu sempre sonho com esse frio. Mas se tudo passa, e tudo certamente passou, o que resta de mim? O que resta de mim? Eu ainda sou exatamente o cuzão que eu era antes, ainda não há nada em mim que eu respeite. Acordei com medo de perder mais, de deixar mais pra trás. Acordei com medo, dormi com medo, sonhei com medo. Onde estou?

Hurry Up, We're Dreaming tem o pior nome de disco da história, mas é o melhor disco do ano. Ela disse que eu preciso ouvir o disco inteiro antes de julgar alguma coisa, mas nos primeiros acordes de “Midnight City” eu já tinha me entregado. “Midnight City” não só é a melhor música de 2011, é também um dos melhores singles da história. Seu ritmo contagiante, o elegante arranjo, todos os instrumentos soam melhor do que em todas as outras bandas e, o principal, o vocal do Anthony Gonzalez. Por toda sua carreira, o M83 sempre teve possivelmente os melhores timbres de sua geração. As guitarras soam exatamente como guitarras devem soar, idem pros sintetizadores. Essa harmonia, em simbiose ao ponto de ser impossível de distinguir exatamente o que está sendo ouvido (de uma forma boa, não por parece ser gravado no banheiro como tanta banda de rock de garagem bunda), dava ao M83 um instrumental realmente excepcional. No seu novo trabalho, Gonzalez (único membro da banda) decidiu cantar de verdade. Ele não canta bem, mas num mundo aonde a Karin Dreijer não canta bem, cantar bem não é cantar bem.

O novo lançamento do M83, pra quem não sabe, é um disco duplo. Discos duplos tendem a ser uma merda, e isso não é reacionarismo bunda de análise musical, é apenas natural que álbuns duplos venham carregados de pretensão histriônica. E essa pretensão é verdade no HUWD, mas, por algum motivo, ela complementa o som da banda. Quando o desejo é fazer algo soar épico, você não consegue sem chegar perigosamente próximo do limite entre o ridículo. Eu queria escrever um texto triste. Não consigo fazer sem metáforas envolvendo cães mortos, sangue, práticas sexuais desagradáveis e miríades de lamentações. Você não cria uma música como “My Tears Are Becoming a Sea” sem abraçar esse excesso. O disco todo carrega esse lado explosivo, parece que em cada música é meramente questão de tempo até as coisas ficarem realmente barulhentas. Essa previsibilidade é confortável no seu efeito, soa familiar sem ser repetitivo. Eu sempre tive a impressão que uma música boa é aquela que está sempre a uma nota de soar divina, imaculada, etérea. Essa nota pode ou não existir, mas as melhores músicas são aquelas em que o artista chega perto ao ponto de você conseguir ver. Numa música chamada MINHAS LÁGRIMAS ESTÃO SE TORNANDO UM OCEANO, você meio que espera breguice. E breguice ali está! No seu estado mais puro, bruto, honesto. Quando as coisas explodem, Gonzalez chega bastante próximo dessa nota inexistente.

Um dos melhores elementos desse disco é sua constante farofice. “Steve McQueen” beira o rock farofa glorioso dos anos 80, com seu refrão grandioso, melodia pegajosa e a sensação inebriante de estar voando purpurina em cada batida na caixa. “Claudia Lewis” soa como qualquer coisa que o New Order ou o OMD teria feito nos seus momentos mais inspirados. “OK Pal” também carrega os anos 80 com toda força, assim como “Reunion”. É fácil de ver de onde Gonzalez tira sua inspiração, é difícil imaginar alguém fazendo melhor do que ele. Num mundo aonde rock de garagem feito pra soar retrô é considerado grande, é bom ver um artista pegando outra fonte e conseguindo fazer sua. “Raconte-Moi Une Histoire”, com sua criança narrando uma história sobre um sapo alucinógeno, pode ser comparada com diversas tentativas anteriores de narrar história por cima de música. Mas pra que? É raro os artistas que conseguem escapar das sombras, ao ponto de que qualquer comparação com o que veio anteriormente ser irrelevante. Não importa, né?

Em “Splendor”, já começando pelo nome, Gonzalez passa pelo território de auto-paródia. É similar em alguns sentidos àquelas baladas do UYI do Guns and Roses, só que aqui faz total sentido. Não importa nada, só o quão contagiante o coro é. O quão bonito o piano acaba soando. O como, no final de seus 5 minutos, qualquer defeito que possa ter aqui é esquecido. As faixas mais curtas, instrumentais servindo de interlúdio, todas soam no seu lugar. Prum disco duplo, é impressionante o quanto cada momento é aproveitado. HUWD soa como uma obra coesa, mas suas músicas podem, e devem, ser ouvidas individualmente. Nos primeiros acordes de “Midnight City” eu já tinha aceitado que eu ia amar o disco, mas Gonzalez conseguiu surpreender pelo quanto o resto de sua obra é espetacular. Cada vez mais música é criada pela facilidade, “verso-ponte-refrão” por cima de um riff é tido como obra-prima. É bom ver alguém se importando o suficiente pra ir além, buscando aquela nota hipotética. HUWD é o melhor disco da carreira do M83, é também um dos melhores trabalhos que eu já ouvi. Merece ser ouvido com atenção, embora não vá ser por muita gente porque, ei, é eletrônico! Se o M83 cada vez mais pende pro caminho do LCD Soundsystem nesse sentido, só me dá raros momentos de alegria de eu ser eu.

Eu sonhei com ela essa noite. Acordei diversas vezes imaginando meu celular tocando com seu número. Eu trouxe as coisas ruins, o preço pode ser ter as boas só em sonhos. Ao acordar, a certeza maior de toda a incerteza que existe sem ela.

 


 
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