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discos básicos: Sobre os 20 Anos de Nevermind
Segunda-feira, 1 de Agosto de 2011 (19:40:34)



Nevermind parece ter esgotado tudo sobre o que o mundo seria hoje e há vinte anos. Tudo está atual e desconfortavelmente suspenso na noite do tempo. Dá medo, mas é grande arte.







Sobre os 20 Anos de Nevermind

Por Carlos Eduardo Lima


Eu comecei a escrever sobre música em 1996, numa encarnação impressa desse mesmo Portal Rock Press. Nessa altura, Kurt Cobain já tinha estourado seus miolos e o mundo era um lugar estranho e sem nenhuma garantia. E estava ficando pior. Os anos 90 do século XX são, até agora, o início de uma nova sociedade, epitomizada por tecnologia e grana, na qual apenas o saber funcional, ou seja, aquele que vai ter dar mais condição de ganhar mais grana num emprego totalmente tecnológico, vai ser "útil". Uso as aspas porque, a meu ver, todo saber deveria ser útil, desde decorar nomes de capitais ou sei lá, conhecer marcas de avião.

O que eu quero dizer com isso tudo é que, se a sociedade muda, a música muda com ela. Ela é produto indissociável da época em que acontece, ainda que possamos apreciá-la fora desse tempo de concepção, quando há as chamadas obras de arte atemporais. E não fui eu que disse isso apesar de sempre ter mantido essa opinião em meus textos aqui e alhures. O pai desse pensamento é o sociólogo alemão Norbert Elias, manifestado em seu livro "Sociologia de Um Gênio", sobre o compositor Wolfgang Mozart.

Nevermind, do Nirvana, é, desse jeito, um produto específico da época em que foi feito, ou seja, 20 de setembro de 1991. O mundo em 1991 já prenunciava configuração política e modus operandi sociais e econômicos de hoje  e dava a idéia de que se transformaria num lugar estéril. Mais ou menos as mesmas intuições que outros escritores, George Orwell e Aldous Huxley, ingleses, socialistas e intelectuais, tiveram nos anos 20, quando o mundo retrocedia rumo ao fascismo. De alguma forma igualmente intuitiva, um sujeito oprimido de classe média, sem qualquer erudição acadêmica, foi capaz de colocar em forma de música todo o medo mundano diante de uma rotina fútil e sem sentido. Kurt Cobain, sem exageros, foi o último compositor que conseguiu sintetizar o retrato de seu lugar e torná-lo possível para pessoas que nunca viveram onde e como ele vivia. Adolescentes da Bulgária, da Austrália e do Uruguai deve ter se reconhecido nas letras de Cobain e sentido a atávica vontade de mudar o mundo - ou mesmo rebelar-se contra ele - após experimentar o peso das músicas de Nevermind. Não cabe julgar qualidade delas, mas a importância e o efeito que tiveram. Se a MTV conspurcou o disco e o transformou em mais um competidor pelo topo das paradas, não importa. O estrago estava feito e o nome do Nirvana, cravado na história.

Era um tempo em que "música independente" e "indústria musical" ainda faziam sentido e que havia algo que se perdeu hoje em dia: as conversas sobre música na loja de discos. Se temos downloads extra-rápidos em banda larga, de nada eles valem se não houver informação, percepção, capacidade de separar o joio do trigo, sabe, fazer valer a liberdade conquistada e não deixá-la perder o significado em termos como "fácil" ou "grátis", que nos fazem confundir as bolas às vezes. O Nevermind do Nirvana não era fácil, nem grátis, mas era um grito por liberdade. Pode ser comparado às grandes obras do rock, seja pelo ataque punk ou pela crítica social da black music do início dos anos 70. Ou pela ousadia de misturar música sinfônica com rock (o nascimento do progressivo, que muita gente burra não reconhece como um estilo revolucionário dentro do rock).

 

 * CEL, ou Carlos Eduardo Lima, é historiador, jornalista e fã de música. Na verdade ele se acha a última Coca-Cola no deserto. É ranzinza, implicante, detonador e metido a mauzão, mas é um bom coração. Seu problema é levar a música pop a sério demais.


 
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