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caixa preta: Os 10 Mais
Quarta-feira, 27 de Outubro de 2010 (22:47:46)


Com o download legalizado e os players cada vez mais bacanas, o mercado está criando outras regras e tentando minimizar o estrago.  Mas também estão explodindo uma ponte:  o fim da idéia do álbum está cada vez mais próxima.  Aos fãs menos conformados, sempre restará uma volta ao básico, quando o prazer da música não estava na gravação e, sim, na performance.  Aqui vão dez discos obrigatórios. 



OS 10 MAIS

Por Eduardo Abreu




ELIMINATOR – ZZ TOP (1982)
 
Reza a lenda que o empresário do ZZ Top certo dia afirmou que a banda jamais faria um videoclipe.  Ironicamente, foram os clipes e outros felizes acidentes que fizeram de Eliminator o álbum mais vendido da carreira do ZZ Top.  Depois de uma temporada de férias, Billy Gibbons, Dusty Hill e Frank Beard se reencontraram para discutir o novo disco.  Os dois primeiros haviam, por coincidência, deixado a barba crescer além da conta durante o recesso e o manager achou que aquele seria um look perfeito para a banda.  De chapéus, óculos escuros e enormes barbas, Gibbons e Hill se reinventavam como personagens pop do início dos anos 80.  O calhambeque vermelho da capa de Eliminator também era protagonista dos descolados clipes de “Gimme All Your Lovin’” e “Legs”, numa ainda jovem MTV, e virou sonho de consumo de 9 em cada 10 adolescentes rockeiros da época.

Se a embalagem que envolvia a “little old band from Texas” estava em dia com as tendências, a música seguia o mesmo caminho.  O ZZ Top, para satisfação de alguns e decepção de outros, nunca mais foi o mesmo depois de Eliminator.  O disco era mais pop, menos bluesy, com efeitos eletrônicos aqui e ali, mas com alguns dos melhores solos do mestre Billy Gibbons.  Se na década anterior o ZZ Top colheu muitos frutos com álbuns como Fandango!, Degüello e, especialmente, Tres Hombres, o então novo disco reafirmava a capacidade do trio em escrever rock sulista com um acento único, mas agora embalado por refrães ainda mais grudentos e um trabalho de guitarra que somava toda a escola blueseira de Gibbons com hard rock e um verniz mais pop –- num sentido completamente diferente do que se entende por pop hoje em dia.

Tudo é perfeito em Eliminator.  Uma seqüência de canções irresistíveis recheadas por solos excepcionais e com um estilo realmente único.  É rock com gosto de poeira e whisky barato, com ronco de motores e suspiros de gatas do interior.  Uma fórmula 100% “american band” e produzida num formato que preserva um surpreendente frescor. São idéias dos 70’s, formatadas com a cara dos 80’s e que, vinte e tantos anos depois, ainda soam muito bem. 

E o ZZ Top, passado todo esse tempo, mantém-se em ótima forma: continua com o line-up de 3 décadas atrás e gravando boa música.  Uma banda especial.
 
 


TIME’S UP – LIVING COLOUR (1992)
 
Há quanto tempo não aparece uma banda de rock com groove de verdade?  E há quanto tempo não surge um novo vocalista que te impressione?  Lá se vão muitos anos, você sabe…

Mas na segunda metade da década de 80 surgiu, da união entre músicos extremamente técnicos e um cantor impressionante, grupo com as qualidades acima descritas.  Era o Living Colour.  Mick Jagger logo sacou o talento especial da rapaziada e os apadrinhou, co-produzindo o primeiro disco, Vivid, que sairia em 1988 com o smash hit “Cult of Personality” e o sucesso “Glamour Boys”. 

Os quatro músicos negros de Nova York ocuparam um espaço que andava vago e ganharam grande projeção. Time’s Up, seu segundo trabalho, foi gravado já nos 90’s e permanece um dos mais iluminados momentos daquela década.

O álbum recupera a tradição de outra grande banda negra – o Bad Brains, de Washington DC – logo na primeira faixa e manda uma paulada hardcore que surpreende o ouvinte.  E a cada canção o disco vai revelando outras facetas.  Tem baladas black maravilhosas, a sarcástica e pesadona “Elvis is Dead” – com participação pertinente do lendário Little Richard –, 2 vinhetas bacanérrimas, a  sexy “Undercover of Darkness” – com uma canja de Queen Latifah –, e uma seqüência muito inspirada com o hit “Type” e a brilhante “Information Overload”.  A qualidade do repertório é tão exageradamente boa, que ainda “sobram” pérolas como as pulsantes “Pride” e “New Jack Theme”, a balada com influência de ritmos africanos “Solace of You”, a canção-assinatura “Someone Like You” e a belíssima “This is the Life”, cuja letra cala fundo em que já viveu mais do que 20 e poucos anos.

O nível de execução de cada instrumento é embasbacante, mas não cai na armadilha do exibicionismo.  Como uma espécie em extinção, o Living Colour era – e permanece sendo – uma banda que preza a técnica como ferramenta para registrar grandes canções.  E essa técnica passa, inclusive, pela voz.  Corey Glover é um dos melhores cantores em atividade.  Ao vivo, sua voz é impressionante.  E funciona tanto no repertório mais agressivo quanto em músicas mais suaves. Com tudo isso a favor, a banda ainda se preocupa em escrever sobre temas que interessam e não apela para a verborragia ou o panfletarismo.
Após Time’s Up, o Living Colour gravou Stain, com repercussão modesta, e, dez anos depois, voltou à cena com o consistente Collideøscope, que só interessou aos fãs.

Se a obra do grupo, com quatro álbuns e um EP, é objeto de culto para muitos, Time’s Up se destaca na discografia por um nível muito alto de composição, inventividade e registro em estúdio. Um clássico.
 
 


IN ON THE KILL TAKER – FUGAZI (1993)
 
Dez anos depois da explosão punk já não sobravam muitas idéias para as bandas que seguravam a bandeira.  Até o início dos 80’s, era comum o surgimento de grupos com formatos completamente diferentes entre si e que, ainda assim, soavam “punk”.  Mas o tempo muda tudo.  Alguns conceitos originais viraram base para cópias infindáveis e se transformaram em subgêneros com nome e sobrenome. 

Na segunda metade daquela década, o punk estava mais morto que vivo:  alguns grupos bandearam para o lado do metal em busca de um contrato, outros desapareceram e alguns insistiram em pregar no deserto.  Foi um período de pouca inspiração, reconhecido, inclusive, por quem militava na época. 
E foi nesse cenário pouco atraente que apareceu o Fugazi.  Liderado por Ian MacKaye, do extinto Minor Threat, banda que cunhou o termo straight edge, o Fugazi praticamente reinventou o punk.  A banda lançou 2 EPs excelentes em 1987 – auge do tédio punk –, que foram mais tarde reunidos com o título 13 Songs.  Em seguida veio o ótimo Repeater, seguido pelo intrigante terceiro disco Steady Diet of Nothing.

Após três álbuns em que reinava a mais ampla liberdade de composição, com músicos de fina técnica injetando um frescor criativo já esquecido no punk, eis que vem In on the Kill Taker.  Tudo que o Fugazi fez antes e o que faria depois, pode ser resumido por este precioso registro.  Raros são os álbuns em que a energia empenhada na gravação transparece ao ouvinte.  Os vocais desesperados e estridentes de Guy Piccioto se chocam com os do sisudo e sempre emputecido MacKaye – um ícone de integridade numa cena que perdeu a cara – , formando uma combinação impossível de ser copiada.

Mas a base instrumental é o verdadeiro coração do Fugazi.  São quatro músicos que têm uma relação quase simbiótica com seus instrumentos e isso é percebido em cada faixa.  Guitarra, baixo e bateria não são sub-utlizados. Pelo contrário.  Em In on the Kill Taker – e com mais intensidade nos álbuns que o sucederam – o Fugazi tenta extrair o máximo dos instrumentos.  Distorções, efeitos e ruídos de guitarras juntam-se a uma impressionante sessão rítmica com mais groove que qualquer outra banda do gênero.

Não há solos em In on the Kill Taker, numa época em isso não era um truque usado para parecer cool.  As músicas variam entre a agressividade em estado bruto, a melancolia e um mood próprio, difícil de definir. 

Como é raro acontecer, o Fugazi veio ao Brasil no auge da forma.  Fez shows antológicos com um repertório ainda novo e que, à época, poucos percebiam que era tão especial.  A entrega absoluta dos músicos no palco é uma extensão do que eles fazem em estúdio. E In on the Kill Taker é a chave para entender o Fugazi em disco.  O último instantâneo de inteligência no punk.  E isso quer dizer muita coisa.
 
 


SABBATH BLOODY SABBATH – BLACK SABBATH (1973)
 
O Sabbath é uma das bandas mais influentes da história do rock.  Entre fins dos 60’s e início dos 70’s, ninguém usava distorção de guitarra com aquela finalidade.  Ninguém compunha riffs tão sinistros.  Ninguém brincava com o capeta com tanto atrevimento.

Por conta disso, a banda recebeu críticas ranhetas de muita gente.  Foram chamados de “chucros”, de músicos limitados e de autores de letras retardadas.  Parece que, no rock, a história se repete a favor dos malditos. O que era apontado como defeito na música e nas idéias do Sabbath, foi justamente o que cativou uma platéia que ansiava por um pouco mais de perigo no rock’n’roll.

Só que as críticas fáceis e a categorização da banda acabaram ocultando muitas de suas qualidades.  Mais do que a banda que inventou o heavy metal – e essa é uma afirmação que não permite réplica –,  o Sabbath respirava a liberdade do mundo em que vivia.  Iommi, Ward, Buttler e Osbourne tocavam e gravavam o que lhes dava na telha.

Resultado disso são as incursões pelo prog, as baladas ripongas, o uso de efeitos eletrônicos, órgãos, flautas e coral.  As letras também não ficavam presas ao tema do sobrenatural.  Tinha muita crítica social – de “War Pigs” a “Into the Void” –, elogio ao uso de substâncias ilícitas e viagens psicodélicas.

Escolher o álbum que melhor expressa o Sabbath clássico não é tarefa fácil.  Seus três primeiros discos trazem boa parte das canções mais famosas, mas os seguintes enveredaram por uma linha mais experimental e versátil.  Os derradeiros da era Ozzy flertam com o progressivo e o jazz.  Espremendo bem, os 3 melhores discos do Sabbath seriam: Vol. IV, Sabbath Bloody Sabbath e Sabotage.  Na dúvida, ficamos com o segundo como exemplo do que eles eram capazes de fazer.  O disco tem, inclusive, a melhor capa entre os três – sempre um problema quando se fala do Sabbath –, mas não é só. 

A faixa-título é um exemplo de como a banda poderia ter patenteado a idéia de usar peso no rock.  E também uma prova de como Ozzy, sendo disparado o menos técnico entre todos os vocalistas dos dinossauros do rock, conseguia ser um bom cantor sem saber cantar (há uma desafinada específica na faixa Sabbath Bloody Sabbath que virou clássica, mas, justiça seja feita, esse é o álbum em que Oz tem sua melhor performance). 

Se o peso chama a atenção na abertura do disco, o Sab manda tudo às favas logo em seguida com sua versatilidade-anos-70.  O álbum reserva a instrumental “Fluff”, com seus dedilhados de guitarra, a estranha e eletrônica “Who Are You” (com participação inestimável de Rick Wakeman) e a épica “Spiral Architect”.  Tem ainda as pérolas “Killing Yourself to Live” (grande letra) e “Sabbra Cadabra”, ambas entremeadas por um farto número de riffs forjados pelo mestre em pessoa.  Ou alguém duvida que Tony Iommi é o maior “riff maker” de todos os tempos?

Enfim, uma obra-prima que, junto aos outros trabalhos do Sabbath registrados entre 1970 e 78, serviu para inspirar milhares de bandas e dar origem a muitos gêneros e subgêneros.  É tudo mérito ou culpa deles.
 
 


HARVEST – NEIL YOUNG (1972)
 
Seria mais fácil de entender se Neil Young tivesse escrito e gravado Harvest há alguns poucos anos e não em 1972.  Pois o disco se parece com tudo, menos com o trabalho de um músico de 20 e poucos anos de idade.

Harvest é o mais inspirado registro da longa carreira de Young, onde ele está cantando melhor e para o qual ele escreveu algumas de suas melhores canções.  Os arranjos são primorosos e as letras refletem sentimentos e experiências de alguém já bastante vivido, o que, apesar da idade do músico, parece ser verdade: Neil Young, àquelas alturas, havia perdido vários amigos vitimados pelo uso de heroína e daí vem a melancólica “The Needle and the Damage Done”.

Young, aliás, escreveu todas as faixas do disco, e contou com um time de primeiríssima para gravá-lo.  Se Harvest não tem a participação de sua banda de apoio Crazy Horse – provavelmente a banda de apoio mais famosa do mundo –,  conta com os não menos talentosos Stray Gators em sete das dez faixas.  As restantes são uma interpretação solo e ao vivo da já citada “The Needle and the Damage Done”, e as belíssimas “A Man Needs a Maid” e “There’s a World”, com a Orquestra Sinfônica de Londres.

Reside aí mais uma curiosidade de Harvest:  as sessões de gravação aconteceram em nada menos que 4 estúdios, sendo a maior parte do repertório gravada em Nashville.

Além dos Stray Gators como suporte – os guitarristas Ben Keith e Jack Nitzche são o fino quando se fala de steel e slide guitar –, o álbum tem participações importantes de James Taylor e Linda Ronstadt em “Old Man” e “Heart of Gold”, este um dos maiores hits de Neil Young, e os velhos brothers Stills, Crosby & Nash nos backing-vocals de “Are Your Ready for the Country”, “Alabama” e “Words”.

Neil Young faz uma ponte interessante entre o rock e o country, cantando sobre a vida no campo com a perspectiva de um imigrante – bom exemplo é a canção “Alabama” – , mas imprimindo sempre uma marca bastante pessoal.  Sua voz é inconfundível e os arranjos de backings são coisa muito séria para ele, o que ajuda a compreender as participações dos artistas acima citados. Young é também ótimo guitarrista, embora Harvest não seja o disco ideal para ouví-lo fritando sua guitarra ou criando mantras baseados em dissonâncias e microfonias – coisa que funciona maravilhosamente bem ao lado do Crazy Horse.

Neil Young faz parte de um grupo muito seleto de artistas e já se tornou há tempos uma espécie de instituição.  Sua longa discografia tem momentos sublimes e Harvest concentra algo do melhor que esse canadense compôs em mais de 30 anos.  Ouça.
 
 


JAILBREAK – THIN LIZZY (1976)
 
Já imaginou ser negro, filho de mãe solteira e pai desconhecido na Irlanda dos anos 50?  Não soa como uma infância das mais fáceis.  Acontece que o protagonista dessa história descobriu-se um ótimo cantor e letrista e, após o fim (melancólico) de sua carreira, a história virou clássica e o homem virou mito.  Phil Lynnot, líder do Thin Lizzy, ganhou estátua no centro de Dublin, virou selo comemorativo e conhecido na terra de Bono Vox como “o pai do rock irlandês”.

E é fácil de entender:  Lynnot era um grande artista e uma personalidade fascinante.  Sua mistura étnica pirava a cabeça dos irlandeses e dos britânicos.  As garotas suspiravam.  E os aspirantes a rock star copiavam seu estilo na frente do espelho.

O Thin Lizzy foi a melhor banda de hard rock do mundo e não tinha fórmula para isso.  Suas canções eram simplesmente irresisíveis.  Fosse a parte mais pesada do repertório – que nunca chegou perto da baboseira reinante no gênero –, as baladas lindas e com um quê black que devem ter matado de inveja muita gente da Motown ou simplesmente o rock’n’roll em formato puro.  O Lizzy era versátil em todas essas áreas.

Mais um caso de gosto pessoal, mas que também vale pela amostra de todas as suas armas, o álbum Jailbreak é o Thin Lizzy que você tem que ter.  Tem um pouco de tudo o que eles faziam tão bem: o rock’n’roll classudo da faixa-título, a balada assustadoramente linda “Romeo and the Lonely Girl”, o heavy rock com as famosas guitarras dobradas que muita gente copiou de “Emerald”, a charmosa “Cowboy Song” e o hit single supremo “The Boys Are Back in Town”.

De uns pra cá, virou moda resgatar o Lizzy como influência.  The Darkness, Hellacopters, Turbonegro e companhia se amarram eu usar e abusar do que fez a banda de Lynnot.  E só pra manter Jailbreak no centro do papo, bandas tão diferentes como Supersuckers e Cardigans regravaram canções desse disco.  Compre, roube ou pegue emprestado.
 
 


BETTER SHRED THAN DEAD (1959 – 1996) – DICK DALE
 
Por que uma antologia para representar o disco essencial do rei da surf guitar e não um álbum tradicional?  Fácil:  Dick Dale é do tempo dos singles.  Esse CD-duplo que merece um espaço na sua coleção repassa a obra do guitarrista mais subestimado da história do rock em quase 40 anos de bons serviços.  E ainda tem um booklet de primeira.

Dale, se você não sabe, é o sujeito que gravou “Miserlou”, aquela música que virou sinônimo do filme “Pulp Fiction”.  E foi graças ao filme que o músico saiu do ostracismo.  Muita gente voltou olhos e ouvidos para conhecer uma obra já esquecida e esse interesse tirou o artista de um retiro forçado.

Mas a história começa bem antes.  Nos anos 60, a Califórnia brilhava ao som de Beach Boys, Ventures, Trashmen e…Dick Dale.  Era ele o tão badalado rei da surf guitar.  Seu estilo selvagem de tocar guitarra surgiu antes que o mundo estivesse preparado para entendê-lo.  Foi o primeiro a lançar mão de certo tipo de palhetada, comum para outros instrumentos de corda, e que seria uma espécie de gênese do rock mais visceral.

O problema é que aquele tipo de música precisava de potência ainda desconhecida para ser executado como Dick Dale imaginava.  Não havia amplificador ou estúdio de gravação que desse jeito.  O mítico Leo Fender virou cobaia de Dale – ou teria sido o contrário? – na tentativa de produzir equipamentos capazes de dar conta de tamanha carga sonora.

Se em âmbito técnico o rei forçou o desenvolvimento de melhores amplificadores, na parte criativa sua influência foi até maior.  Jimi Hendrix era figurinha carimbada nos shows do guitarrista e um fã confesso da escola criada por Dick.

Só que a chegada dos anos 70 lançou o músico a um esquecimento gradual que virou o mais profundo limbo.  E lá ele permaneceu por mais 20 e tantos anos até ser acidentalmente ressuscitado por Quentin Tarantino.  Seu retorno não foi comercialmente triunfal – e nem faria sentido –, mas também não passou despercebido. Os excelentes álbuns Unknown Territory e Calling Up the Spirits concretizam, finalmente, o som imaginado por Dale na década de 60 e que os estúdios da época não conseguiam registrar. 

E também foram esses discos de sua retomada que o fizeram viajar pelo mundo, chegando ao Brasil em 1997.  Dick Dale chegou por cá com um power-trio venenoso e fez shows de arrebentar, ainda que com o pouco público em São Paulo, o palco minúsculo de Santos e um melancólico cancelamento no Rio.  Mas a lenda sobreviveu para tocar por aqui e, quem não tinha idade ou juízo para vê-lo ao vivo na época, ainda pode despender algumas verdinhas para comprar o indispensável Better Shred Than Dead.
 
 


YOU ARE WHAT YOU IS – FRANK ZAPPA (1981)
 
Zappa é o mais idiossincrático de todos os mitos do rock.  Embora reconhecidamente importante, ele é pouco compreendido e raramente freqüenta listas com essa.  É como se Zappa só existisse na cabeça de seus fãs, que não são poucos.

Com uma obra iniciada mais concretamente nos anos 60, embora ele já tocasse desde os 50’s com bandas pequenas de jazz e doo wop, Frank Zappa percorreu todos as esquinas de um imenso labirinto musical ao longo de 30 e poucos anos.  O aspecto mais impressionante de sua obra é a quantidade de gêneros que ele visitou, reinventou e subverteu.  Mas quando se fala de fatos impressionantes, Zappa é “o” personagem.  O cara revelou uma infinidade de músicos brilhantes – de George Duke a Steve Vai –, integrou uma das trupes mais dementes da grande enciclopédia do rock – os Mothers of Invention –, se apaixonou por instrumentos não-convencionais, depôs nas sessões do PMRC dando um baile na turma de Tipper Gore (assunto longo para esse espaço), dirigiu filmes pirados em que Keith Moon, por exemplo, aparecia vestido de freira, mas, principalmente, gravou muito.  São cerca de 70 discos.  É isso aí: Zappa só pensava em música.

Ao contrário dos adjetivos pouco inteligentes que lhe são atribuídos, como  “doidão”, FZ não era o porra-louca que se poderia supor.  Ele era casado, não abusava de substâncias e seu maior interesse era mesmo o de escrever música. 

Outra coisa que confunde parte do público e dos jornalistas musicais é o humor supostamente exagerado de Zappa, como se ele próprio não se levasse a sério.  Bobagem.  O título de um de seus discos dá a pista:  “Does Humor Belong in Music?”.  Para Frank Zappa, o humor era parte importante de sua obra e um veículo que lhe permitia tripudiar do lado mais imbecil da sociedade americana – tema pelo qual ele era obcecado.  Na base da piada, Zappa desancou republicanos, adolescentes babacas, rednecks, gente da alta sociedade e, com um empenho especial, os pastores televisivos.

Considerando o volume de sua discografia, é virtualmente impossível citar um único disco que resuma a música de Zappa.  Mas como sua carreira é dividida em períodos mais ou menos identificáveis, ficamos com a banda dos anos 80 e um de seus álbuns mais populares.

You Are What You Is não sintetiza nem de longe tudo que Zappa fez, mas dá boas pistas de quem eram seus “inimigos” e de como ele transitava com fluência entre gêneros.  É um disco com arranjos vocais absurdamente elaborados, uma instrumental top na obra zappiana (“Theme for Sinister Footwear”), solos de guitarra que desafiam adjetivos (destaque para os de “Conehead” e “Dumb All Over”) e um tom geral de sacanear a América que estava virando yuppie naquele exato momento.  Claro que sobram farpas para religiosos (“Heavenly Bank Account”), machões (“Harder Than Your Husband”) e, para justificar o famoso humor politicamente incorreto, mulher feia (“Jumbo Go Away”).

Uma geração de brazucas com mais de 30 anos foi afetada pela exibição do clipe de “You Are What You Is” nos programas de antigamente.  No vídeo, Zappa e um de seus maiores comparsas – o excepcional cantor Ray White –, apareciam no meio de uma balbúrdia com jogadores de futebol americano, cheerleaders, um sósia de Reagan eletrocutado e a Ku-Klux-Klan! 

Fãs de música mais jovens provavelmente não terão uma isca desse tipo e, honestamente, preocupa o fato de que não ouvirão falar de Zappa em lugar algum.  Mas se conselho serve para algo, You Are What You Is é a dica para eles…
 
 


SOMEWHERE BETWEEN HEAVEN AND HELL – SOCIAL DISTORTION (1992)
 
Dá para medir um pouco da importância do Social Distortion ao perceber que metade das coisas que são moda no rock atual, eles já tinham feito há quase 20 anos.  E isso vale para música, estilo, atitude e o que mais couber dentro alguma classificação.
 
Está escrito na linha do tempo.  Em 1979 o Social D tocava punk rock dos bons e seu vocalista – o muito talentoso Mike Ness – borrava os olhos com lápis preto.  Em 83 eles já tinham sido tema de documentário, ao lado do não menos influente Youth Brigade, e gravado um álbum de estréia que virou discografia básica do punk californiano. 

Em 88 Ness, já todo atrapalhado por consumo abusivo de drogas e prisões, compôs Prison Bound, um álbum que plantava as sementes do que um dia batizariam de alt-country.  Em 90 falavam de um universo permeado de carros envenenados, bad boys, alcoólatras, fracassados, pin-ups e um certo Johnny Cash, com a regravação de “Ring of Fire” – 15 anos antes do revival em torno do “man in black”. 

E, finalmente, em 1992, juntaram tudo que haviam feito antes e deram forma de um diamante chamado Somewhere Between Heaven and Hell – um dos últimos grandes álbuns de rock’n’roll gravados.  Mike Ness está cantando e tocando melhor do que nunca e o repertório traz temas clássicos da discografia do grupo. “Cold Feelings” é “a” música de abertura para um álbum, “Bad Luck” virou clipe de alta rotação nos States, “When She Begins” foi descoberta pelas rádios de classic rock com 10 anos de atraso e “Bye Bye Baby” é o rock’n’roll cool por excelência.  Há, claro, dois covers para antigos e relativamente desconhecidos singles dos anos 60: “King of Fools” e “Making Believe”.  E para cobrir todos os espectros, vale citar o blues que fecha o disco: “Ghost Town Blues”.

Ainda que Somewhere Between Heaven and Hell não tenha, a rigor, contribuído com a invenção ou renovação de um gênero, é um marco no rock’n’roll escrito e executado em altíssimo nível, mas, além disso, uma apropriação inteligente e apaixonada de idéias que andavam escassas naquela época.  Quartorze anos depois, o Social D ainda colhe os frutos por ter se mantido fiel a suas idéias.  A banda se transformou numa espécie de instituição do rock californiano, com fãs em todas as facções, e um exemplo copiado com reverência, inclusive, por bandas famosas.
 
 


PUTA’S FEVER – MANO NEGRA (1989)
 
Banda que deu sentido a um termo aparentemente vazio:  latin rock.  Saído da França, o Mano Negra integra um pequeno grupo de bandas européias que botou pra quebrar da segunda metade da década de 80 até meados dos 90’s.  Nesse sentido, estavam na mesma freqüência mental e sonora do também excepcional Urban Dance Squad, da Holanda, de quem eram amigos.  Ambos os grupos eram formados por gente de várias etnias, vinham de países com tradição pop/rock modesta e duraram o suficiente para gravar cinco ótimos álbuns cada. No caso do Mano Negra, a aventura foi muito além dos registros em disco.  A banda era praticamente uma trupe e viajava pelos lugares mais improváveis, tocando para o povo, e se passar julgamento na cultura alheia.  Seus shows documentados mostram uma energia inacreditável no palco e uma rara interação com a platéia.  A passagem explosiva pelo Brasil em 1992 continua na memória de quem presenciou. Liderados, criativamente, por Manu Chao, que vinha do bom Hot Pants, o Mano Negra misturava Clash com salsa, (muito) rockabilly com ritmos afro-caribenhos, pitadas de hip hop, rock steady e visita a outros ritmos latinos. 

Não era a idéia artificial de world music interpretada por ingleses e americanos que observavam de longe culturas “exóticas” .  O Mano Negra, por sua formação multiétnica e sua obsessão de tocar em todos os cantos do planeta, passeava com naturalidade e fluência por gêneros regionais. Mais um dos casos de grupo com discografia impecável, o Mano Negra achou a alquimia perfeita em Puta’s Fever – seu álbum mais popular.  O disco traz músicas em francês, inglês, espanhol e um arranjo genial para a canção tradicional árabe “Sidi H’ Bibi”.
O pontapé para turnê desse álbum aconteceu em Pigalle, famoso distrito da luz vermelha de Paris, e virou um dos mais enérgicos registros audiovisuais do rock em algumas décadas - o filme Tourneé Generale.


Para mais Mano Negra, leia a detalhada resenha do extraordinário DVD duplo “Out of Time”


(Agosto 2006)
 


 
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