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rip: Solomon Burke
Domingo, 10 de Outubro de 2010 (23:26:59)

 

Ninguém cantava como Solomon Burke, ninguém. Ele era capaz de abrir a voz para ser ouvido pelos deuses do Olimpo e também de cantar de forma extremamente íntima, como se sussurrasse ao ouvido de cada pessoa. Como todo grande narrador/sermonista/cantor, também conhecia a importância da pausa e do silêncio. Solomon Burke era a arte da voz e a voz da arte.



 




rip

SOLOMON BURKE

A morte de um verdadeiro rei


Por zeca azevedo


Nunca fui partidário ou simpatizante do monarquismo. Quando da consulta popular sobre a forma de governo que o Brasil devia adotar, realizada no ano de 1993, achei grotesca a campanha pró-monarquia, da qual participava o Jards Macalé. A ideia de conferir algum tipo de distinção social à família Orleans e Bragança é repulsiva e não merece consideração séria. Já temos muitos parasitas que vivem à custa do dinheiro público; sustentar os luxos de uma família real em um país como o nosso seria uma ofensa moral. Felizmente  o regime monárquico não  voltará a nos incomodar, e os Orleans e Bragança só continuarão sendo "família real" para redatores e leitores da revista Caras.

Minha aversão ao monarquismo costuma se estender aos autoproclamados reis e rainhas da música popular. "Rei da MPB", "Rei do Rock": títulos como esses são geralmente inventados por profissionais do marketing ou pelos próprios artistas para valorizar ou supervalorizar carreiras artísticas e/ou acervos fonográficos. O cabotinismo dos "títulos monárquicos" é comum à música negra. James Brown foi/é o "Rei da Soul Music", Aretha Franklin é a rainha, Michael Jackson foi/é o "Rei do Pop". Solomon Burke era/é  "The King of Rock ‘n’ Soul".

Solomon Burke era um homem grande. O excesso de peso o impedia, nos últimos anos, de ficar em pé no palco para cantar. Solomon cantava sentado, como se estivesse em um trono real. Era um imagem poderosa, como esse tipo de imagem costuma ser. No entanto, o poder real de Solomon Burke emanava da música que fazia, em especial da voz sagrada de barítono que saía de sua garganta.

A história pessoal de Solomon Burke é digna de filme. Aos sete anos de idade, ele era o "Wonder Boy Preacher" que realizava sermões em igrejas pentecostais negras. Durante um tempo trabalhou como embalsamador em uma funerária. Era arcebispo da igreja que ele mesmo fundou, "House of God for All People". Nas apresentações coletivas de soul music nos anos 60, Solomon descolava uma grana extra vendendo galinha frita, pipoca "mágica" e sanduíches de costeleta de porco para seus colegas artistas. O homem sempre precisou fazer dinheiro, pois tinha quatorze filhas, sete filhos, noventa netos e dezenove bisnetos. Ainda estava na ativa, realizando shows pelo mundo e gravando discos aos setenta anos. Isso tudo até hoje, 10 de outubro de 2010, dia em que morreu. Não foi determinado se Solomon faleceu no avião que o transportava para a Holanda ou no aeroporto, já em Amsterdã. Para nós, isso é mero detalhe. O que importa é que o homem já não está mais conosco.

Sempre lamentamos o desaparecimento de um artista cuja obra marcou a vida de milhões de pessoas pelo mundo afora. Solomon Burke será pranteado pelos fãs de soul não só porque foi um dos pilares do gênero nos anos 60 e 70, mas também porque continuava a gravar discos excepcionalmente belos. Don’t Give Up on Me (2002), com suas versões de canções de Bob Dylan, Brian Wilson, Tom Waits e Elvis Costello, conquistou a crítica especializada. Nashville (2006), obra-prima do country soul, é o meu disco favorito da década passada. Nothing's Impossible, lançado na primeira metade de 2010, é o mais bonito que ouvi este ano. Infelizmente, este último álbum acabou se tornando o testamento artístico de duas figuras legendárias da música mundial, Willie Mitchell e Solomon Burke.

Ninguém cantava como Solomon Burke, ninguém. Ele era capaz de abrir a voz para ser ouvido pelos deuses do Olimpo e também de cantar de forma extremamente íntima, como se sussurrasse ao ouvido de cada pessoa. Era um grande contador de histórias e, acima de tudo, um mestre cantor: nunca vocalizava além da conta, fazia uma leitura inteligentíssima das canções, tinha um lindo timbre. Era dono de delicadeza rara entre cantores populares - e até entre cantores de soul, que geralmente cantam do púlpito para as multidões. Nem mesmo Al Green era tão delicado. Solomon era um gigante que sabia flanar como um passarinho. A voz dele era como o ar, indispensável, leve e sutil, mas capaz de intensidade que derruba as estruturas mais sólidas quando necessário. Solomon Burke sabia o momento certo para destacar uma sílaba, uma palavra ou uma frase, para deslizar sobre a canção ou para desabar sobre ela. Como todo grande narrador/sermonista/cantor, também conhecia a importância da pausa e do silêncio. Solomon Burke era a arte da voz e a voz da arte.

Talvez pela sofisticação do seu canto, Solomon Burke não tenha sido um artista de soul com grande apelo junto ao público pop. O cantor e compositor nunca teve uma gravação nos primeiros lugares das paradas de sucessos, ainda que tenha influenciado alguns dos principais nomes do rock. Nos anos 60, os Rolling Stones regravaram dois clássicos do repertório do gigante da música soul: "Everybody Needs Somebody to Love" é a faixa que abre o segundo álbum do grupo de Jagger e Richards, "The Rolling Stones no. 2"; "Cry to Me" está em Out of Our Heads. Jake e Elwood Blues, a/k/a Dan Aykroyd e John Belushi, gravaram "Everybody Need Somebody to Love" para a trilha do célebre filme dos Blues Brothers (1980).

Desnecessário dizer que nenhuma cover supera as versões originais de Solomon Burke. Ouve-se o som de Solomon Burke na voz de Van Morrison. Até na literatura pop de Nick Hornby encontramos Solomon Burke. No livro Alta Fidelidade, de 1995, o personagem principal, Rob Fleming, cita "Got to Get You Off My Mind" (1965) como uma de suas canções favoritas – e tenta, inutilmente, fazer um bando de ingleses brancos e sem suíngue dançar ao manhoso ritmo midtempo da faixa.

Infelizmente, o legado musical do Solomon Burke foi quase totalmente ignorado pelas gravadoras brasileiras nas últimas duas décadas. Nos anos 60, 70 e 80, os álbuns do Solomon eram editados regularmente em LP no Brasil. Foi assim que conhecemos trabalhos fundamentais como "If You Need Me", "Rock 'n' Soul", "We're Almost Home", "Music to Make Love By", "A Change is Gonna Come" e outros. Na era do CD, que já dura mais de vinte anos, apenas dois discos do Solomon foram lançados no Brasil: Sidewalks, Fences And Walls (1979) produção do Jerry "Swamp Dogg" Williams, foi editado duas vezes por aqui com capa adulterada e som horrível, uma vez pela Paradoxx, outra pela coleção Soul Music da Altaya. O outro foi o Don't Give Up on Me publicado pela Sum Records em 2002.

A Warner não teve a decência de lançar por aqui nenhum título do Solomon da fase Atlantic, nem mesmo a coletânea simples The Very Best (que inclui "Soul Meeting", lado A do único compacto do supergrupo The Soul Clan, formado por Solomon, Arthur Conley, Ben E. King, Don Covay e Joe Tex). Nos anos 90, a Warner lançou no Brasil coletâneas de Percy Sledge e Clarence Carter e simplesmente "esqueceu" do Solomon Burke. Uma vergonha. A era do mp3, do download (gratuito ou não) de música, torna novamente acessível ao fã brasileiro de soul a obra de Solomon Burke. Só não se torna íntimo desse precioso acervo musical quem não quer.

Até ontem, Solomon Burke era para mim o melhor cantor de soul music vivo. Hoje, embora eu já não possa mais dizer isso, posso afirmar que ele sempre estará entre os maiores de todos os tempos. A música dele me consola, me emociona, me ilumina e me alegra há muitos anos e vai continuar a me acompanhar até que a minha hora final se apresente. Hoje posso dizer: eu, antimonarquista convicto, tive um rei.

 







 
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