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caixa preta: Mano Negra
Quinta-feira, 12 de Agosto de 2010 (17:33:05)



A energia do grupo, que tinha um certo ar de trupe circense, me cativou imediatamente, mas minha experiência, por algum tempo, ficou restrita à boa lembrança daquele especial de TV. Eu não tinha qualquer amigo ou conhecido que tivesse ouvido falar do Mano Negra, muito menos alguém que me emprestasse um disco deles. 



 

MANO NEGRA

Música para o povo


Por Eduardo Abreu


Fui apresentado ao Mano Negra numa tarde de sábado no início dos 90’s.  A TV Gazeta – emissora local de São Paulo –, por algum motivo além da minha compreensão, resolveu exibir, na íntegra, um show da banda francesa.  Sim, num sábado à tarde.  A energia do grupo, que tinha um certo ar de trupe circense, me cativou imediatamente, mas minha experiência, por algum tempo, ficou restrita à boa lembrança daquele especial de TV.  Eu não tinha qualquer amigo ou conhecido que tivesse ouvido falar do Mano Negra, muito menos alguém que me emprestasse um disco deles. 

Até que, para minha surpresa, a banda aporta no Brasil algum tempo depois.  Era 1992 e eles chegavam na América do Sul a bordo de um navio batizado de Melquíades e na companhia do grupo teatral Royal Deluxe.  Saiu até anúncio na Rock Brigade (!), aproveitando o lançamento nacional do álbum King of the Bongo.  Estive no show realizado no ainda novo boulevard do Anhangabaú.  A expectativa foi plenamente atendida, ainda que a experiência tenha sido um tanto incomum:  o show aconteceu durante a tarde e perante uma multidão de desavisados. 

Mas o Mano Negra faria uma apresentação extra no saudoso Aeroanta, casa de shows que recebeu bandas históricas na década de 90, e aí tive a oportunidade de sentir, de verdade, o impacto daquela mistura irresistível de rock, ska e música latina.  Eu e um amigo subimos no palco e fizemos os backing-vocals de “King of Bongo” (!) e, após o show, tomamos uma Ypióca com o guitarrista Daniel Jamet (!!).  Muitos anos se passaram e aquele show, com casa cheia e uma banda completamente incendiária, permanece fácil no meu Top 5.

Bem, se com pouco acesso à obra do Mano Negra eu já era um quase-fã, o que dirá depois daquela turnê?  Foi um caminho sem volta:  aos poucos fui comprando todos os discos da banda que pude encontrar.  A discografia ficou completa e com direito ao ocasional bootleg.  Foi uma espécie de apreciação musical solitária, já que os franceses nunca tiveram muitos fãs no Brasil – e olha que, três anos antes de vir para cá, eles já tinham tocado em outros cantos da América do Sul e estavam no topo da parada em vários países da Europa com o álbum Puta’s Fever.

Mas o Mano Negra, ironicamente, acabaria após – e por causa – dessa turnê de 1992, batizada de “Cargo Tour”, em referência ao meio de transporte escolhido.  Foram cinco meses de viagem num navio com 80 pessoas – incluindo integrantes, roadies, tripulação e o pessoal do Royal Deluxe – e o desgaste foi inevitável.  Até então, a banda tinha vivido intensamente cada ano de existência e chegou a um ponto em que precisava urgentemente de férias.  Ao invés disso, passaram quase meio-ano dentro de um navio, realizando, inclusive, o trabalho braçal de descarregar containers e montar grandes palcos em praças públicas (em Caracas tocaram para 120 mil pessoas!!). 

A despeito do sucesso arrebatador na França e da grande repercussão em toda a Europa ocidental, o Mano Negra continuava sendo, por essência, uma banda do povo.  Não apenas essa turnê-monstro pela “América perdida” mostra isso:  no auge da fama, abriram mão de fazer uma temporada no badalado Zènith, de Paris, para armar uma tour pelos subúrbios da cidade.  A loucura foi tanta que, para esse shows, o grupo precisou contratar sua própria equipe de segurança – os Buffallos, equivalentes franceses dos Panteras Negras –, pois era preciso gente com tato, não com truculência, para lidar com platéias cada vez mais ensandecidas.

O sucesso também chegou ao Japão, onde gravaram o disco ao vivo In the Hell of Pachinko, e nos EUA e Canadá a banda mantinha uma certa aura cult.  Enfim… a história já estava devidamente escrita quando deixaram a América do Sul em 1992.  Ou quase, já que eles ousaram voltar para uma arriscada turnê, de trem!!, pela Colômbia, aventura que virou livro e deu fôlego para que gravassem um último e brilhante álbum de estúdio – Casa Babylon .  O álbum não teve turnê promocional, mas gerou um derradeiro hit:  “Larchuma Football Club (Santa Maradona)”.

Manu saiu em carreira solo poucos anos depois e, claro, acompanhei seus trabalhos desde o início com o mesmo interesse.  Quando a obra-prima Clandestino foi lançada – originalmente pela Ark 21, selo de Miles Copeland – me vi inclinado a fazer minha primeira compra pela internet.  Motivo:  nem mesmo na Galeria do Rock, concentração de lojas onde se encontra praticamente qualquer disco, foi possível localizar o CD…

Porém o mundo dá voltas e cerca de dois anos mais tarde, Manu já era artista cult no Brasil.  Muito maior que o Mano Negra chegou a ser por aqui.  Um fenômeno que jamais pude compreender, mas que me parece um pouco ligado à turma universitária que se esbalda na tríade surf-reggae-maconha e que elegeu, para seu próprio bem, Manu Chao como uma espécie de porta-voz.  Se eles conhecem a trajetória de Manu ou entendem a profundidade de sua mensagem, aí já é outra conversa. 

Fato é que essa popularidade tem lá suas vantagens.  Manu e sua atual banda de apoio – Radio Bemba – se apresentaram várias vezes pelo Brasil, sempre com pouquíssima ou nenhuma divulgação e com casas inexplicavelmente lotadas.  Desde os concorridos shows na histórica chopperia do Sesc Pompéia, em São Paulo, até apresentações necessárias no Forum Social de Porto Alegre.
 A energia é a mesma dos tempos de Mano Negra, mas sua obra, de frontman da maior banda francesa da história a uma espécie de trovador, ganhou maior relevância com os anos.  É o artista que canta o que realmente precisamos ouvir nesses tempos bicudos.

Seria tarefa quase impossível dar uma pincelada minimamente decente na carreira do Mano Negra e de Manu Chao nesse espaço e, ainda por cima, citar minha relação pessoal com a música que eles produziram.  Mas saiba, caro amigo, que o tema da coluna não surgiu à toa.  É que em fins de 2005 saiu lá fora o tão aguardado DVD oficial do Mano Negra.  E não é apenas um registro de show com alguns depoimentos ou uma mísera coletânea de clipes.  Nada disso:  Out of Time é simplesmente o mais completo e bem realizado DVD sobre uma banda de rock que este escriba já teve o prazer de assistir.  Uma realização que superou com folga o mais exagerado sonho de consumo de qualquer fã do Mano Negra.

Out of Time é duplo e tem cerca de quatro horas de material.  São dois documentários primorosos, um show gravado em Pigalle – região do baixo meretrício de Paris –, vários clipes, músicas inéditas e trechos de apresentações por todo o planeta (da República Dominicana ao Japão, passando pelos shows no Brasil, com direito à histórica jam do Mano Negra com Jello Biafra!).  Edição e pós-edição são simplesmente de cair o queixo, com animações, gráficos, vinhetas e uma produção geral embasbacante.  A coisa é tão bem feita que Out of Time já pode ser chamado de o registro definitivo da banda.  Tudo o que precisava ser dito ou mostrado sobre o Mano Negra está ali.  E feito com muito estilo.

O DVD tem legendas em inglês, espanhol e italiano, e não tem restrições de região.  Porém, há um pequeno inconveniente:  os discos estão no formato PAL, que não é lido por todos os DVD players nacionais.  Mas se eu fosse você, corria atrás de uma cópia mesmo assim.  Out of Time pode mudar seu gosto musical pra melhor.  E isso não tem preço.

 

(Março 2006)


 
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