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caixa preta: Pitty & Patton
Quinta-feira, 12 de Agosto de 2010 (17:14:27)

 

Não era o programa Presepada, mas bem que podia ter sido. A MTV fez da baiana Pitty sua repórter por 15 minutos em ocasião do festival Claro q é Rock. A missão era propiciar a moçoila um mimo típico de rockstar tupiniquim:  encontrar-se com um de seus ídolos para um bate-papo.  O herói, nesse caso, era Mike Patton, sujeito que dispensa apresentaç ões, mas, se você insiste em confirmar, sim, é o ex-vocalista do Faith No More e atual integrante de umas dez bandas, entre as quais o Fantomas, que tocou no citado festival. 



 



MÁSCARA

Janeiro 2006


Por Eduardo Abreu


Pitty, que também é cantora, chegou para a conversa com colinha e tudo. Estarrecedor foi descobrir, assim que ela abriu a boca, o que de tão importante justificava a folha sulfite perdida no colo. Pitty quis saber quando o Fantômas tinha chegado a São Paulo. “Esta manhã”, respondeu Patton. “E vocês já fizeram algum turismo?”. Mike seguiu a cartilha da revista MAD e mandou uma resposta cretina para uma pergunta idiota: “Eu visitei meu banheiro. E vi umas merdas lá”. A dublê de jornalista não sabia ao certo se ria e, na dúvida, voltou os olhos à sua colinha.

Como se o constrangimento inicial não lhe servisse de alerta, Pitty manteve-se fiel a seu patético questionário. O que se seguiu foi o embaraçoso segmento de auto-afirmação nacional, vício comum em entrevistas conduzidas por jornalistas culturais brasileiros - Pitty não está sozinha nessa. A rockeira quis saber se Mike havia comprado os vinis - pronunciados em português mesmo – d´Os Mutantes, os quais ele teria dito querer adquirir em sua última passagem pelo país. A resposta foi positiva. Uma pergunta dessas deve levar a algum lugar, suspeita o arguto espectador. Mais balela nacionalista se segue: “E você conhece outras bandas brasileiras?”. “Lots!”, afirma o músico que, por um mero detalhe, tem muito a dizer e toca com gente talentosa como uns tais de Buzz Osbourne, Trevor Dunn e Terri Bozzio, todos presentes ao lado da não tão boa baiana.

Provavelmente Pitty imaginou que ouviria de Patton nomes de alguns de seu “bróders” quando o interrogou sobre as bandas brazucas que ele conhecia. Não foi bem assim. “Secos & Molhados. Eles são muito bons”.

A carência de amor à brasileira prosseguiu: “Vocês planejam gravar de novo em português?”. Se, em tempo real, fosse possível fazer uma intervenção e congelar a conversa, seria interessante saber o que o Fantômas gravou na língua de Camões. Ou talvez ela ainda esteja lá atrás, com o “Caralho Voador” no pensamento. Mas já que o espectador não tem direito a um pause futurista na TV, segue a resposta de Patton, depois de uma reveladora espiada na colinha de Pitty: “Não temos planos! Mas nunca se sabe... Eu acabei de gravar uma faixa com a Bebel Gilberto”. Pitty não tinha opinião escrita no papel e emendou um comentário absolutamente infeliz: “It’s a singer here”. O desdém da estrela local daria tema para outra coluna, mas deixa estar.

A entrevista começou a se parecer mais e mais com um teste de paciência para o artista sentado ali e que dedicava, ao lado de seus colegas de banda, minutos preciosos para as perguntas de Pitty. “E você conhece alguma palavra em português?”, insistiu a musa dos rockeiros imberbes. O americano deu uma resposta que bem pode ter sido ato falho: “Sacanagem!”. O público adulto da MTV, àquelas alturas, pensava o mesmo. Sacanagem.

Pitty resolveu então dar seu golpe de misericórdia. Depois de furtar ao espectador qualquer questão pertinente ao Fantômas ou à prolífica produção musical de Patton - seria demais esperar que ela conhecesse, por exemplo, o mito Terri Bozzio -, a garota quis saber, na única pergunta aberta aos quatro integrantes, se eles tinham algum arrependimento na carreira. Mike Patton fez o que deveria ter feito um produtor da MTV e praticamente encerrou a entrevista, ele mesmo perguntando: “Quanto tempo dura esse programa?”. O sorriso débil sumiu do rosto de Pitty, que sentenciou, muito sem-graça, o fim da conversa: “Acho que os caras aqui estão querendo tocar”. E o entrevistado enfim disse o que muita gente, no sofá de casa, gostaria de ter dito: “Queremos tocar e parar de falar merda!”.

Sintomática da “brodagem” que assola o anêmico show business nacional e da carência de profissionais gabaritados na Music Television brasileira, a aventura de Pitty como repórter foi vexatória. E a cantora, mimada com ela só, tratou de espetar seu (ex?) ídolo com palavrinhas tolas num fotolog. Quem sabe ouvir seu primeiro sucesso radiofônico lhe fizesse algum bem? Tire a máscara, Pitty.



 


Eduardo Abreu, 34, é jornalista e designer de vídeo, web e mídia impressa. Foi editor da revista 100Tribos entre 1994 e 96, colunista do Contravenção e desde 2003 colabora com a Rock Press



(Fev 2006)
 


 
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