
Em sua segunda vez no Brasil, divulgando a turnê Time Machine, o Rush toca no dia 8 de outubro em São Paulo, no Estádio do Morumbi, e no dia 10 no Rio de Janeiro, na Praça da Apoteose. Direto dos arquivos de PRP, confira as deliciosas exclusivas feitas com Alex Lifeson e Geddy Lee.

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+ Exclusivas Alex Lifeson e Geddy Lee
RUSH
Na trilha vaporosa do peso perdido
Por Löis Lancaster
De vez em quando se tem a ilusão de que todo mundo pensa como nós, gosta das mesmas coisas... é quando certos eventos, que vínhamos esperando há tanto tempo que passamos a julgar impossíveis, de repente acontecem. Às primeiras trombetas dos arautos anunciando sua chegada, percebemos que vários fiéis ocultos esperavam também. Este é um ano em que várias tribos (e não só a do rock) puderam ter essa alegria, e pensaram que já poderiam morrer tranqüilos, ou pelo menos que cairia um pé-d’água de humilhar dilúvio. Roger Waters tocando por aqui? Brasil pentacampeão? Rush no Brasil? Lula presidente??? (A matéria é de 2002)
Como esta não é uma revista de análise política, não me aterei ao último e mais incrível fato (apesar de que, como pode ser comprovado a seguir, Alex Lifeson não acharia nada mau). Fiquemos com o segundo mais incrível: não obstante os sombrios incidentes ocorridos com Neil Peart nos últimos anos, a banda canadense mais famosa de todos os tempos está de volta, lançando álbum novo, e dessa vez por aqui.
Trata-se de um mamute do rock, não um dinossauro - o Rush é comparativamente mais recente, tanto que Geddy Lee e Alex foram fortemente influenciados no início da banda (segunda metade da década de 70) por Led Zeppelin - e por essa condição velhos fãs tirarão do armário as antediluvianas camisas pintadas à mão e acorrerão em massa ao estádio, o que com certeza fará indivíduos mais novos ou desligados perguntarem: "afinal, quem são esses caras de quem nunca ouvi falar, e por que tanta gente gosta deles?" Cá estamos nós para tentar responder.
Para começar, vamos dar bois aos nomes que já pipocaram neste texto: Alex Lifeson (nascido Alex Zivojinovic) é guitarrista, e quando era um garoto tão tonto em Toronto vivia procurando lugares para tocar com sua banda de hard rock (hoje em dia, graças ao revival dos 70, é bem fácil ver reprises dessa cena ocorrendo com garotos daqui).
O primeiro trampo que eles conseguiram foi ganhar 25 cents por noite tocando no porão de uma igreja anglicana, um lugar chamado "Coff-Inn" (!) mas os três - além de Lifeson havia John Rutsey na batera e Jeff Jones no baixo e vocais - eram despossuídos de recursos, e um amigo de escola de Alex era baixista equipado: Geddy (Gary na certidão, mas de tanto a yiddish mama de sua yiddish mama chamá-lo carinhosamente com seu sotaque arrevesado, o apelido ficou) era constantemente instado por telefone a emprestar seu amplificador de baixo para os concertos da banda do amigo. Um dia não faltou só o ampli, mas também o baixo... e o baixista. E Geddy foi chamado para tocar com Alex.
Já sob o nome de Rush, mas ainda com Rutsey na bateria, o trio gravou seu primeiro álbum, epônimo, pela Mercury, em 1974. Na contracapa do vinil é visível a influência do estilo glam rock nas roupas e penteados dos três, e aos primeiros acordes de "Finding My Way" já se nota que o vocalista Geddy juntava um timbre agudo e peculiar com a experiência de muitas audições de Robert Plant e seus característicos "ooh-yeah", mas foi com o segundo disco - Fly by Night (1975)- e a chegada do excepcional baterista Neil Peart que o hard rock do trio ganhou em peso e originalidade.
Neil estava voltando da primeira de suas jornadas de autodescoberta: ele havia largado sua família e país para tentar se estabelecer como músico em Londres, aos 18 anos, e se sentiu péssimo, como atesta a letra de "Circumstances", do álbum Hemispheres: "A boy alone and so far from home / endless rooftops from my window / I feel the gloom of empty rooms / In rainy afternoons". Sim, Neil era poeta, e não demorou para que assumisse as letras do conjunto, além das baquetas.
Fly by Night foi um grande sucesso, e a banda começou a ficar conhecida fora do Canadá, tocando com bandas como New York Dolls e ZZ Top. No entanto, o álbum seguinte, Caress of Steel (1975), não teve a mesma repercussão, talvez por ser mais soturno e introspectivo e apostar num formato de composição mais longo e identificado com o rock progressivo - vide "The Necromancer", uma suposta continuação de "By-Tor and the Snow Dog", do disco anterior, e um lado inteiro da bolacha com o épico meio esotérico "The Fountain of Lamneth", cuja parte "Didacts and Narpets", um anagrama para "Addicts and Parents" (Viciados e Pais) pode ser considerada a coisa mais louca que o Rush já gravou.
2112, lançado logo em seguida (1976), mostra uma coesão maior dentro desse formato, com a música-título também ocupando um lado inteiro do vinil e narrando uma visão de mundo futuro onde a música, como toda a cultura do mundo, é manipulada e ditada por um grupo de sacerdotes que oprimem o povo - algo como um 1984 que apresenta a descoberta de que as pessoas podem criar e tocas sua própria música como possibilidade de salvação.
Como os próprios integrantes admitem, 2112 marca o início da maturidade sonora do Rush, e abre (após o primeiro trabalho ao vivo, o duplo All The World’s a Stage) o ciclo de uma série de álbuns de estúdio que flertam com o progressivo sem abrir mão de sua personalidade, e apresentam canções com temas tão ou mais interessantes que "2112", mas se fôssemos mencionar todos aqui....
Acompanhados pelo produtor Terry Brown, lançaram A Farewell to Kings (1977), Hemispheres (1978), Pernament Waves (1980) e Moving Pictures (1982). Esse último é provavelmente o álbum mais famoso do trio, contendo a clássica "Tom Sawyer", cuja abertura foi tema do McGyver nas telinhas brasileiras.
E provavelmente o solo dessa canção abriu um precedente histórico no que depois se tornaria um problema para o Rush - o uso de teclados como base de um trecho de composição. A linha que ouvimos no instrumental central de "Tom Sawyer" antes de Lifeson entrar com a guitarra era uma frase que Geddy tocava para testar o sintetizador.
Acompanhados cada vez mais pelos teclados, os trabalhos seguintes foram incorporando elementos do reggae, do rap e principalmente do pop dos anos 80. Counterparts (1993) representou um retorno ao som mais pesado do começo (os advogados do diabo podem dizer que isso também foi seguir a moda, no caso o revival dos 70), e em 1994 a banda decidiu pela primeira vez entrar em recesso.
Foi quando Alex Lifeson gravou seu primeiro álbum solo, acompanhado de uma banda chamada Victor. Ao voltarem à ativa, gravaram Test for Echo (1996), também na linha mais hard, e um outro disco ao vivo, Different Stages. Em agosto de 97 a filha de Neil, Selena, morreu num acidente de automóvel e, um ano depois, Jackie, sua esposa, sucumbiu ao câncer. Quem pode pensar em continuar normalmente a levar a vida depois disso? Ninguém.
Por isso Peart largou tudo que lembrava sua antiga vida, pegou uma moto e viajou de Quebec ao Alasca, depois foi descendo pela costa oeste do Canadá e Estado-Zunidos, México e Belize, e voltou a Quebec. Foram 88.500 quilômetros percorridos numa busca por algum sentido para viver, e como a literatura sempre foi sua companheira, Neil fez um diário de bordo que compilou posteriormente num livro, Ghost Rider - Riding the Healing Road. Enquanto isso, Geddy Lee lançava também seu álbum solo, My Favorite Headache.
Não é preciso ser xerloque pra imaginar que a banda se desintegrou, certo? Errado. Ressurgido das cinzas, o power trio lançou o álbum de estúdio Vapor Trails, apostando numa eliminação dos teclados em favor das guitarras. E, mais importante: veio ao Brasil! Em entrevista exclusiva para ROCK PRESS 66,6% do Rush (menos o que toca sentado) - Lifeson e Lee são uma simpatia e falaram de várias coisas, desde direitos autorais na Internet até política internacional! Vejam só:

ENTREVISTA ALEX LIFESON
De Rush a Bush
Como você não é nem o vocalista nem o letrista da banda, as pessoas têm que se aproximar da sua expressividade principalmente pelo seu instrumento. Isso faz com que você seja o mais preocupado com o aspecto instrumental do Rush, ou pelo menos o aspecto harmônico, sendo seu instrumento a guitarra?
Sim, de fato. Você tem razão, é um modo diferente de expressar emoções, e sou eu que trago essa preocupação com o aspecto harmônico e de "letra musical", de fraseado melódico sobre a harmonia, essa "atitude" que é difícil de se obter no baixo ou na bateria. E talvez por isso nós tenhamos enfrentado problemas no passado, em relação aos teclados na banda. Sabe, quando os teclados são usados em excesso, ficam no caminho, barrando a expressão da guitarra. E a guitarra vem do coração... talvez por isso essa tenha sido uma época difícil.
Em quais álbuns essa situação ficou mais crítica?
Em Power Windows e Hold Your Fire. Especialmente Power Windows. Parte do problema nesse álbum foi que nós fizemos os teclados antes das guitarras, apenas porque era conveniente no cronograma de gravação. E nós ficamos malucos com todos aqueles teclados. Todas as partes que eu havia escrito para as faixas foram na guitarra, e de uma hora para a outra elas não serviam mais. Tive que recriar trechos de guitarra que casassem com os teclados. Eu gosto desses álbuns, gosto das canções, mas foi dificílimo. Quando começamos a trabalhar em Vapor Trails, eu disse ao Geddy que realmente queria ficar longe dos teclados tanto quanto possível - apesar de que já nos últimos álbuns lentamente estávamos nos livrando deles. Achei que esta era uma boa oportunidade para sermos bem "orgânicos" ao fazer o álbum - para uma mudança de atitude da nossa parte.
Quem é mais freqüentemente o responsável pelos compassos quebrados nas músicas?
Nós todos tendemos a ser responsáveis por isso (risos), o que é bom, porque afinal temos que fazer todos juntos! No passado, nós tínhamos partes originalmente em 4/4 e pensávamos o que fazer para deixá-las mais embaralhadas, mais difíceis de tocar... era o nosso jeito de compor essas coisas mais estranhas. Hoje em dia, o jeito que se trabalha com o Pro Tools e todos esses programas permite que você crie qualquer tipo de estranheza que quiser - gravar, mudar, manipular um pouco mais... Mas compor as coisas desse jeito e depois ter que tocar ao vivo pode ser difícil. É sempre difícil. Mas é esse o grande desafio do palco. Por exemplo, nós tocamos "Natural Science" nesta turnê. E ela tem um grande número de 'notas fora', de compassos muito estranhos, e cada show é um desafio, se você consegue tocar tudo certo é uma vitória que te deixa muito feliz.
Falando em "Natural Science": dizem que quando vocês primeiro conceberam o álbum Permanent Waves, a intenção era fazer um épico sobre cavalaria medieval, Rei Arthur etc. Você poderia dizer quais trechos nesse disco traria traços desse conceito abandonado?
Sabe, nós estávamos às voltas com essa idéia já há alguns álbuns, acho que a primeira vez que falamos nisso foi em Farewell to Kings. Tinha a ver com o que Neil estava escrevendo, mais na época desse disco. E a idéia foi sendo rolada, porque quando fizemos "Cygnus X-1" em Kings isso nos levou a Hemispheres, mas ainda falávamos nela. Depois de terminarmos Hemispheres, vimos quanto trabalho esse projeto deu, e quisemos realmente nos afastar daquele universo de fantasia que vínhamos usando nas músicas para buscar algo mais moderno, mais novo. Talvez o que fique mais na cabeça dos fãs nesse sentido seja aquela parte de “Natural Science” que lembra uma marcha, como uma cavalaria... (cantarola a linha) "tum - tum - turum - tum tum dum dum"... Sim, é mesmo! É como uma parte de apresentação desse conceito - mover adiante, marchar para frente, progredir, assumir uma nova posição, é como representamos isso musicalmente. É ótimo, e aposto que muitas pessoas vão delirar assistindo essa canção ao vivo. É uma das minhas favoritas, porque é uma música difícil de tocar, e quando a executamos bem... cara, nós realmente ficamos contentes.
Qual álbum você considera o mais perfeito da banda, aquele que você sempre quer escutar?
É uma pergunta difícil, porque... nenhum deles é perfeito. Para mim, nós terminamos um álbum e eu fico orgulhoso e feliz com ele por, digamos, três semanas. Aí eu começo a analisar friamente, a me distanciar, e penso "isso aqui poderia ter ficado melhor, aquela parte poderia ter sido mais curta, ou nós não deveríamos nem ter gravado essa música..." e é sempre assim! Quer dizer... eu não escuto Vapor Trails já há algum tempo, e eu lembro que da última vez que escutei comecei a me sentir assim também em relação a ele, poderíamos ter encurtado uma ou outra canção, mixado melhor um trecho aqui, outro ali... eu acho que é importante se sentir assim, porque do contrário não se acha que pode melhorar. Se um álbum é perfeito, então... é perfeito, qual o motivo para gravar de novo? Há sempre algo em que você pode trabalhar, e é isso que me faz continuar tocando.
E com relação a solos? Tem algum que você goste mais de tocar ao vivo?
Sim, eu tenho alguns favoritos. O solo de "Limelight" é provavelmente o de que eu mais gosto. É bem fluido, líquido, e... elástico, parece que se move e ocupa todo o espaço. Eu sempre gosto de tocá-lo nos shows.
Sua outra banda, Victor, deve lançar algum novo trabalho no futuro?
Não, eu acho realmente que não. Quero fazer um novo disco solo, mas provavelmente não será sob o nome Victor, nem com as mesmas pessoas. É uma característica minha, eu gosto de seguir adiante, de tocar com outras pessoas, experimentar coisas novas, explorar áreas diferentes. Adorei fazer aquele álbum, era algo de que eu realmente precisava na época... eu tinha recursos muito limitados, gravamos em casa, no meu porão. Foi bem difícil, um verdadeiro desafio. E achei bom trabalhar com aquelas pessoas, eles se tornaram muito bons amigos, mas... fazer um projeto solo de novo com as mesmas pessoas, sabe, não é bem um projeto solo. Então, o que eu acho que vou fazer é deixar tudo mais por minha conta, me concentrar em construir as composições sozinho e chamar algumas pessoas para tocar em uma faixa ou outra.
Aquela inevitável pergunta: o que você conhece de música brasileira?
Muito pouco, quase nada. Heather, a minha esposa, gosta de dance music e tem muitos CDs, mas eu não me lembro de nenhum nome. Parte deles é brasileira, mas eu mesmo não conheço. Na verdade, eu não ouço muito música pop. Numa outra entrevista me perguntaram a mesma coisa, e disseram que me entregariam alguns CDs de música brasileira atual.
Aqui no Brasil há muitos grupos e instrumentistas que fazem um som fortemente influenciado pelo jazz-rock de escola americana, de Berkeley. São sempre as mesmas escalas, os mesmos arranjos. O que você acha disso?
Acho uma limitação. Ao tocar ou compor não se deve ser restringido por nada. Não quero demolir nenhum tipo de escola musical, mas minha experiência pessoal é de que muitos músicos dessas escolas acabam achando muito difícil improvisar, não conseguem ser livres para experimentar. É claro que não são todos. Mas se um músico tem essa formação, é difícil quebrá-la. Quando você procura uma escola é porque tem um talento natural, e não para saber se o que você ouve deve ou não ser considerado "certo", se você pode ou não colocar isso no papel. E essa liberdade faz parte do que posso perceber da música brasileira - vem mais do coração, da intuição.
O Rush passou por muitas fases musicais em sua existência. Houve bandas que influenciaram vocês nessas mudanças de fase?
Nossas influências variaram. Certamente nos primeiros anos o Cream, Jimi Hendrix, Who, foram grandes influências quando tocávamos na garagem. No início dos anos 70, nos inspiramos em Jethro Tull, King Crimson, Pink Floyd, Yes, Genesis... havia o movimento progressivo que nos interessava bastante. E havia o Led Zeppelin, claro, que teve um grande impacto em nós - provavelmente a nossa maior influência. Quando começamos a gravar nossos próprios álbuns, nós procuramos criar um estilo original. Acho que no período do 2112 esse estilo já estava consolidado.
E com relação a guitarristas? Você falou em Jethro e King Crimson, que tinham os grandes Martin Barre e Robert Fripp. Quem mais te influenciou especificamente na guitarra?
Acho que Jimmy Page foi minha maior influência, quando eu estava começando. Martin Barre era um guitarrista fabuloso, eu aprecio o modo como suas intervenções integravam o som do Jethro Tull. Havia muita coisa acontecendo naquelas músicas, e a guitarra tinha um importante papel melódico e harmônico, sempre precisa e direta... com certeza isso foi importante para mim.
Quando você cria um trecho de guitarra, qual elemento é idealizado primeiro? O tipo de som que sai dos pedais, a harmonia, a melodia, o ritmo...
Todos esses fatores têm importância, mas... eu acho que não é o mais importante. Pode parecer um pouco tolo, mas eu fecho os olhos e toco, e o que sair naturalmente é aproveitado. Acho que aí está a minha força, nessa espontaneidade dos primeiros instantes. Não é a coisa mais precisa do mundo, a idéia mais perfeita, é o sentimento que sempre acabo buscando. É difícil analisar esse processo... considero o aspecto harmônico e o melódico e tento costurá-los numa única linha.
E você considera interessante gravar improvisos para escutá-los posteriormente e selecionar os melhores fragmentos?
Sim, esse é exatamente o processo que eu uso.
Os softwares de manipulação sonora baseados na gravação digital, como você mencionou anteriormente, ajudaram você nesse processo?
Sim, nós sempre usamos essa aparelhagem. Trabalhamos com o Logic Audio, que é outro tipo de software, desde que ele começou a ser comercializado, no início dos anos 90. Sempre procuramos usar a melhor tecnologia disponível, ou quase a melhor. Esse é um fator interessante especialmente em Vapor Trails, porque nós demos um grande passo no sentido contrário, num sentido não-técnico, ao compor, e por outro lado usamos um processo bem técnico ao gravar. Com Pro Tools e todos esses outros programas você pode selecionar trechos de improvisos, e foi o que fizemos - gravamos algumas jams durante uns dias em que saíamos tocando qualquer coisa, nada era predeterminado. A não ser uma vez, em que determinamos tocar no tom de ré maior em 120 BPMs de andamento, durante uma semana. Então, depois desse tempo você ouve a gravação, corta os melhores pedaços e começa a juntá-los em uma música. Em seguida são acrescentados alguns overdubs, e ouve-se de novo, é possível colocar um trecho do meio no começo... você está sempre mudando as coisas de lugar. É isso que a tecnologia pode oferecer - resultados instantâneos para o que a sua imaginação criar, enquanto no passado era preciso tocar a música toda de novo para tentar novas direções.
Moving Pictures foi um dos primeiros álbuns a usar gravação digital...
É verdade!
...e essa nova forma de gravar foi na época um grande impacto para vocês?
Foi, e sabe de uma coisa? Nós achávamos que estávamos no melhor dos mundos com essa descoberta, um método novo de gravação, que era uma revolução e todo mundo ia passar a usar... e, sob um ponto de vista, realmente foi, mas demorou todo esse tempo, vinte anos, para que a gravação digital chegasse num nível em que você pode ter uma resposta quase perfeita ao que você toca e ao que você quer. Acho que desde o jeito como gravamos digitalmente aquele álbum até agora foi uma jornada muito mais longa e lenta do que esperávamos. O padrão da época era 8 bits, se tanto, talvez 6 bits... e hoje em dia se fala em gravação de 32 bits... é um mundo digital completamente diferente do que era antes.
Você prefere escutar CDs ou vinis?
CDs. Eu não tenho mais vitrola em casa.
Mas há quem diga que o som do vinil era melhor, mais cheio...
Eu acho que há uma verdade nisso, mas há também uma clareza nas freqüências mais altas que não se tem no vinil, e obviamente não se tinha nas gravações de rolo. Os harmônicos agudos ficam muito mais evidentes. Depende do tipo de música que você escuta. Para dance, ou rock, música pop, realmente há uma perda de qualidade. Mas para música clássica, ou as diferentes sonoridades da world music, há uma abertura de freqüências no CD que não é possível nos LPs. Há um tempo atrás eu escutava os dois, mas agora me decidi pelos CDs.
Você falou em música clássica. Há um interesse seu pela música contemporânea, de autores como Stockhausen, Ligeti, Varèse, que lidam com a questão da sonoridade de outro modo?
Sim, eu gosto desse tipo de exploração e, à minha maneira, eu faço experiências nesse campo no meu estúdio, nas minhas horas vagas. Procuro essa conexão entre a manufatura do som e a música propriamente dita. É um papel muito importante do músico buscar essas novas e poderosas sonoridades, mas não digo poderosas no sentido de pesadas, e sim aquelas que fazem seu coração bater mais depressa, esse é o objetivo.
No estúdio, quem é o mais preocupado com a mixagem das mús...
Geddy (risos). Ele é o mais preocupado o tempo todo com tudo. Especialmente com a mixagem. Ele odeia! É difícil, você sabe, ficar escutando aquilo de novo e de novo... é trabalho para meses e meses. E é a parte mais crítica, porque você gravou algo e quer ter certeza de que está aparecendo da melhor maneira, e é muito difícil de saber. Há muitos modos diferentes de se acertar, e de se errar, mixando um disco.
E vocês têm alguma técnica para lidar com o ouvido cansado, como sair um pouco do estúdio e depois voltar...?
Sim. Para esse álbum, ele ficava na sala da técnica por algumas horas, e depois eu por mais horas... nós revezávamos. Outras vezes - poucas - íamos os dois juntos, para decidir algo mais complicado. E sempre saíamos para pôr as gravações no som dos nossos carros, que é geralmente a condição mais crítica para se ouvir. A resposta dentro do estúdio é perfeita, não dá para confiar apenas nela. E o melhor modo de testar a gravação no carro é com ele andando, então nós ficávamos rodando em volta do estúdio com o som alto, as pessoas pensávamos que éramos loucos (risos), mas é o jeito de se ter uma área de audição realista.
A visão do que o Rush significa para você mudou muito desde o início da banda?
Mudou... sabe, é difícil para mim lembrar como era a minha visão da banda em 1968, ou em 1974... mais tarde, começamos a excursionar pela América do Norte e foi uma grande virada para nós... lembro que na época eu pensava que se pudéssemos durar mais uns cinco anos, fazer mais cinco discos, isso seria fantástico... e nós estamos aqui! No início dos anos 90, na época de Presto e Roll the Bones, eu achava que a banda deveria ser mais pesada do que estava, houve uma certa "amolecida" no som, e penso que poderíamos ter tomado decisões melhores em relação a pessoas que estavam mais próximas... era ótimo trabalhar com Rupert Hine, grande cara, muita diversão... mas eu não acho que ele tenha sido o produtor certo para esses álbuns. Acho que perdemos um pouco a direção nesses trabalhos, e levou muito tempo para recuperá-la. Counterparts foi um começo de mudança nesse sentido.
Em algum momento vocês pensaram em acrescentar um quarto membro à banda, para os teclados?
Sim. Eu e Geddy conversamos sobre isso para a turnê atual. Nós nunca acrescentaríamos ninguém à banda, mas pensamos em alguém para ajudar nos shows. Ele realmente queria isso, ficar livre para andar pelo palco, e cantar, e tocar baixo, e não ter que se preocupar com os teclados, os efeitos e tudo o mais... mas no fim, eu disse a ele que parte da razão para assistirem nosso show é que somos só três caras, e nós três fazemos tanto barulho (risos)! E se é muito trabalho... é claro que é, mas esse é justamente o nosso ponto. Trazer mais alguém a essa altura nos faria parecer muito... velhos, muito acabados. Aí o Geddy me deu razão (risos).
Voltando ao álbum atual: em uma faixa, "Peacable Kingdom", a letra comenta o atentado de 11 de setembro nos Estado-Zunidos. Vocês acham que, sendo uma banda canadense, conseguem ter uma visão mais crítica do que aconteceu, dos dois lados da questão?
Eu acho que sim, que nós temos um ângulo muito mais crítico. É estritamente minha opinião, não sei se representa o que o povo canadense pensa: eu acho que foi horrível o que aconteceu, mas também acho que os EUA tendem a ser muito "cabeça-fechada" em relação ao seu papel no mundo, e muito hipócritas, e a política externa, como eles lidam com as outras nações... eles poderiam verdadeiramente ajudar (...) Acho que os EUA estão usando os eventos de 11 de setembro para forçar uma política de agressão, e isso é muito perigoso.
E a eleição de Bush contribuiu para esse estado de coisas?
Com certeza! Basta olhar as pessoas à volta dele, como Cheney [vice-presidente] e Rumsfeld [secretário de defesa]... esses caras são belicistas, adoram a idéia de uma guerra. E Bush é uma marionete... o cara não sabe nem falar inglês! (risos) É verdade! E esses são os homens mais poderosos do mundo? Um cara que não sabe nem falar com você? É de dar medo. Ele ganhou com uma margem mínima as eleições, não era tão popular; Gore era a opção popular para o governo. Mas tudo o que aconteceu, e a maneira como a opinião pública foi conduzida para aprovar essas lutas, é uma busca por popularidade. Eu posso ver na América, quando falo com as pessoas que tinham opiniões pacifistas, não-intervencionistas sobre a política internacional, essas mesmas pessoas hoje têm um ponto de vista totalmente diferente, muito mais agressivo, violento. E a imprensa americana, a CNN, se esmera em manter esse clima de paranóia e de medo. Nós temos estado por lá muito tempo desde junho, e voltamos para o Canadá tem uns quatro ou cinco dias, estamos agora vendo os noticiários canadenses e percebendo como são diferentes, como são equilibrados e isentos, mostrando simplesmente os fatos. Nos EUA, é aquela chama de guerra queimando na televisão, é filme de guerra em cima de filme de guerra, velhos e novos, todos sobre soldados, sobre moral americana, é como se eles ainda estivessem na Segunda Guerra Mundial!
Hoje, a letra de "The Trees", sobre os altos carvalhos (símbolo dos EUA) tirando a luz dos outros vegetais mais baixos e de como se resolve a questão serrando todas as árvores, parece quase uma profecia...
Sim, claro, poderia ser visto desse jeito, é verdade.
Aqui no Brasil nós temos opiniões muito parecidas com as suas.
Eu acho que em todo o resto do mundo as pessoas pensam assim. É um jeito mais equilibrado de ver as coisas. Todos diriam para os EUA "foi horrível, e nós sentimos muito sobre o que aconteceu em setembro com vocês, mas por outro lado vocês vêm provocando pessoas, batendo, matando pessoas por muitos e muitos anos, em toda parte. O que vocês esperam? Acham que podem sair sempre por cima, achando tudo maravilhoso, e tão poderosos que acham que todo mundo quer ser igual à América?" O mundo não quer ser igual à América. Os EUA não apreciam culturas diferentes. Eles realmente não gostam. Sabe, eles taxaram a KLA [Kosovo Liberation Army] em Kosovo de terroristas, um ano antes de irem à Iugoslávia eles estavam lá, destruindo tudo, matando pessoas, eles eram... terroristas, como muitos desses caras da Al-Qaeda. Decidiram mudar de lado porque não gostavam do Slobodan Milosevic. E no processo de bombardear um país soberano sem declarar guerra, eles assassinaram mais de três mil inocentes.
Num dos curta-metragens reunidos no filme 11'9"01 sobre o atentado a Nova York, Ken Loach mostra que em 1974, num outro 11 de setembro, os EUA ajudaram a bombardear o palácio presidencial, matando Salvador Allende e preparando a ascensão de Pinochet ao poder.
Sim, veja o que eles fizeram lá! E em 1988, quando Saddam Hussein matou milhares de curdos, a América não falou nada - eles estavam abastecendo-os com armas. Aquelas armas... são americanas! Então... o que eles queriam? O que mais incomoda os americanos é que aquele atentado ocorreu no seu próprio solo. Se fosse em outro país, eles não estariam tratando as coisas desse modo. Mas como aconteceu nos EUA, essa foi a desculpa perfeita para a enorme máquina de propaganda deles entrar em ação. E está fora de controle agora. Totalmente.
Bem, voltando agora à música...
(Risos) Deveria ser uma entrevista sobre música, não é? Me desculpe...
(Mais risos) Que nada, acho que música é bem mais abrangente do que a gente pensa, muita coisa influi. Bem... o que você mais gosta de fazer quando não está tocando nem compondo?
Eu gosto de jogar golfe, comecei a aprender há uns dez anos e continuo praticando... jogo tênis, pratico mergulho, tenho o meu brevê de piloto já há uns vinte anos, e de vez em quando estou voando. Mas a música ocupa uma grande parte da minha vida. Quando eu não estou com o Rush, estou no meu estúdio caseiro, mexendo com sons, experimentando.
Para finalizar: sobre o que você gostaria de falar e a imprensa nunca lhe pergunta?
Bem... política não é nada mau (risos)...!
Pois é... muitas pessoas têm medo de expressar certas opiniões, mas às vezes é importante.
Geralmente é perigoso, porque quando as pessoas se expressam, coisas podem acontecer, e se você se manifesta contra o que muitas pessoas pensam, até mesmo... como eu falei há pouco, minhas opiniões sobre a América... se você diz coisas assim, podem haver menos chances de trabalho, a sua situação fica difícil. E não devia ser assim. Devia haver liberdade para manifestar suas opiniões. Eu gosto quando se debate por que a América é como é. Nós temos nossos problemas também no Canadá, todos têm. Há o problema da tensão entre a parte francesa do Canadá e os que falam inglês, uma pequena parte da população quer a separação desses locais, e o impacto que isso teria no país inteiro, quer dizer... política é sempre um campo de... exaltação de ânimos, eu acho (risos).
E essa diversidade lingüística que vocês têm se reflete mesmo nas letras do Rush, como em "Circumstances", onde há o verso em francês "Plus ça change, plus c´est la même chose"... isso aumenta as possibilidades expressivas para vocês, não?
Aumenta, e dá também um maior alcance de visão. Aqui no Canadá nós somos geralmente chamados de "blasée", de em-cima-do-muro, e sabe... nós adoramos isso. (Risos) Nós gostamos sempre de ver os dois lados de cada história. Os canadenses geralmente são muito educados, se comportam com equilíbrio. Se disserem que somos como os americanos, não é verdade. Somos similares em alguns aspectos, mas eu vejo o lado violento da América, que não existe neste país, e isso nos amedronta um pouco, porque as gerações mais novas acabam influenciadas por esse tipo de cultura, e nós não queremos isso. Queremos manter o clima de paz que o Canadá tem. Os soldados canadenses são um pequeno exército, bastante fora de forma, mas eles estão em várias partes do mundo em áreas de conflito como mantenedores da paz. E os canadenses se orgulham muito do seu exército ser voltado para a paz, não para lutar em guerras. Mas nós estamos sendo lentamente infiltrados por essa agressividade da América nesses últimos dez anos.
A globalização e a internet têm servido para disseminar ainda mais esse "american way".
Sim, e há muito na América que é maravilhoso e poderoso, que tem muito valor. E eles podem fazer muito mais. É a primeira vez em muitos séculos que temos uma única superpotência, que poderia trazer enormes benefícios para o mundo, respeitando as características de cada nação. Todos poderiam ficar muito orgulhosos deles, se eles se importassem mais com as pessoas... eles não se importam com os afegãos, ou com os iraquianos... a questão é apenas o dinheiro, o petróleo, é eles conseguirem mais petróleo com o Iraque para não dependerem tanto da Arábia Saudita e começar a pressioná-los! Bem... eu vou ficar maluco. Acho que é melhor parar por aqui (risos).
Alex, foi um grande prazer bater esse papo com você. E acho que os leitores vão adorar ouvir as suas opiniões.
Foi um prazer para mim também, Löis. Espero vê-lo quando estivermos por aí. Um grande abraço!

ENTREVISTA GEDDY LEE
Por cordas diferentes...
Sendo o cantor de letras de outra pessoa, você tem de concordar na maioria das vezes com suas palavras. Como foi isso no começo, quando Neil entrou na banda?
No começo foi fácil, porque eu não gostava de fazer letras e ele parecia gostar disso, então me liberou desse encargo (risos). Eu achei ótimo... não era hiper-crítico em relação ao que Neil escrevia, estava aliviado, com outra pessoa assumindo o trabalho. Obviamente, enquanto crescíamos musicalmente juntos, eu me tornei mais crítico e com mais opiniões sobre o tipo de coisas que gostaria de cantar, e como cantar certas coisas era difícil musicalmente. Nossa relação mudou muito através dos anos, desenvolvemos um grande respeito um pelo outro, e ele sentiu que poderia confiar em mim como um escritor confia num editor - o que eu acho que é material para texto escrito, o que eu acho que posso cantar, compatível com a minha capacidade. Então, boa ou ruim, a minha opinião acaba sendo muito importante no resultado final da canção.
E como foi cantar suas próprias letras em My Favorite Headache?
Foi uma aventura muito interessante para mim trabalhar com novas pessoas, novas circunstâncias, escrever as letras eu mesmo. A princípio foi difícil criar a confiança necessária... trabalhar com Neil é sempre um prazer, nós trabalhamos muito juntos e eu estava confortável, depois de um tempo comecei a gostar muito desse processo, e foi quase uma ameaça para mim, ser capaz de dar forma a idéias em letras de música sozinho, sem muita discussão. Sabe, se eu tinha um problema com alguma letra do Neil eu só tinha de mencionar isso e nós achávamos uma resposta, ele é uma pessoa muito fácil de se trabalhar junto, nunca aparece um problema muito grande. Mas não é a mesma coisa de se fazer as coisas sozinho, quando você pode simplesmente jogar tudo fora se de repente não gostar...
Quando você está tocando e cantando, onde é mais difícil dar expressão: na voz ou no baixo?
No baixo você pode se expressar muito facilmente, em muitos sentidos não é tão importante quanto a expressão que a voz permite. Uma canção pode ser um sucesso ou um fracasso dependendo de quanta expressividade sua voz alcança, enquanto o baixo é geralmente um elemento bem sutil na composição. Então, acho que expressão na voz é mais difícil porque é mais importante.
Você teve influências de vocalistas de outras bandas no seu jeito de cantar?
Através dos anos, muita gente me influenciou. Hoje em dia, nada que possa ser reconhecido muito facilmente, mas no início obviamente Robert Plant, Jon Anderson, Jack Bruce, Ian Anderson... os cantores de que eu mais gostava. Quando fui ficando mais velho, as influências se diversificaram muito, e são mais difíceis de se apontar. Sempre que eu ouço uma boa música no rádio, uma boa idéia sendo tocada, isso me faz querer compor. Mas as referências vão ficando muito sutis. Por exemplo, se eu te disser que sou influenciado pela Björk, você nunca acreditaria, mas é verdade... pode ser em alguma orquestração, ou alguma atitude, alguma linha vocal, é bem discreto, mas está lá.
A Björk fez um musical recentemente. Há algum filme do qual você goste tanto que gostaria de ter feito a trilha sonora?
Claro, há toneladas deles! Gosto muito de cinema. Tenho muitas afinidades com os temas que alguns diretores exploram, eu gostaria muito de fazer alguma experiência nessa área. Com certeza farei algum dia.
Quais são seus diretores preferidos?
Eu adoro o trabalho do Francis Ford Coppola, do Martin Scorcese, aprecio demais o Clint Eastwood, acho um diretor muito subestimado.
A banda sempre se reúne em jams para gravar e colher novas idéias?
O modo como foi a vida do Rush por muitos anos tornou isso impossível. Nós fazíamos muitos shows, e só conseguíamos fazer jams nas passagens de som. Costumávamos gravar essas passagens, eu levava para casa e tentava ter alguma idéia baseada nelas. Na feitura deste último álbum, invertemos o processo, e o que mais fizemos foi improvisar em jams para compor as músicas.
Fora do Canadá, quais são os lugares onde vocês têm mais retorno de fãs?
É claro que, recentemente, no México e na América do Sul, mas nós temos muito retorno na Alemanha, na Grã-Bretanha, Amsterdã... muitos lugares da Europa.
E como é cantar para pessoas que não falam inglês, quando vocês dão shows nesses lugares? Há alguma diferença?
É muito interessante, porque no meu próprio país, o Canadá, nós tocamos em Quebec, onde, por exemplo, muito poucos falam inglês e, num certo sentido, os franco-canadenses são nossos maiores fãs. Então, não acho necessário falar um bom inglês para entender algo de nossas músicas.
Você e o Alex se envolveram em outros trabalhos fora do Rush recentemente. Isso foi uma causa ou uma conseqüência do período de inatividade da banda?
Não posso falar pelo Alex, mas eu tinha planos de trabalhar com Ben Mink (guitarrista de K.D. Lang, co-compositor e co-produtor do trabalho) antes do período de inatividade, era algo que eu já havia decidido, mas não tinha idéia de que se tornaria um álbum, e acho que o período inativo do Rush tornou isso mais viável.
Como foi o advento de teclados na banda? Você alguma vez anteriormente achou possível controlar todos aqueles equipamentos?
Não, eu não tinha a menor idéia de que isso se tornaria um monstro... hoje eu acho bom poder mudar o clima no meio do show e tocar alguns teclados, mas é muito melhor ficar livre para percorrer o palco tocando baixo, que é o que mais gosto de fazer. O bom nessa turnê de agora é que esses dois momentos estão bem equilibrados.
Qual a sensação de apenas três pessoas tocarem as vezes em palcos tão grandes, como vocês ocupam todo esse espaço?
Nós fazemos muito barulho! (risos) É a nossa especialidade... muito barulho!
Vocês têm alguma limitação de tempo no estúdio para gravar e mixar os álbuns, ou a liberdade é total?
É mais ou menos livre... é claro que depois de um ano as pessoas começam a bater na sua porta, a cobrar material novo. É sempre assim - mas desde cedo tivemos liberdade quanto ao que iríamos gravar. No primeiro álbum nós fomos financiados pelo nosso empresário, e não sabíamos bem o que e como estávamos fazendo, mas nunca estivemos numa situação em que alguém de fora nos dissesse o que fazer, sempre fizemos o que quisemos.
E com relação aos videoclipes? O roteiro é feito apenas pelo diretor, ou vocês dão idéias a ele do que querem que apareça?
O diretor faz uma sugestão e, se concordamos, trabalhamos com ele para desenvolvê-la. É claro que, se não gostamos, demitimos o diretor! (risos)
Alex me disse que você é o mais preocupado com a mixagem dos álbuns. Como é isso para você de ficar escutando a mesma música de novo e de novo até ficar satisfeito?
Sim, essa é a parte mais difícil, e mais crítica. Você pode ter tudo bem gravado, e sua performance pode ter sido inspirada, as músicas serem boas, mas se o menor detalhe na mixagem sair errado, pode arruinar a música inteira. E mixar requer muito tempo, e paciência... e você tem sempre que checar fora do estúdio, para ouvir em outras condições. Para mim é no meu carro, eu tenho que testar nele porque geralmente é dirigindo que eu escuto música. Se a faixa fica boa no meu carro, acho que ficará boa em qualquer lugar.
Sua visão do que o Rush significa para você mudou muito através dos anos?
Sim, é claro. Quando eu era mais jovem, era apenas um sonho tocar numa banda, com várias pessoas na sua frente, gravar discos com a minha música... eu não acreditava que fosse possível. Mas então você segue em frente, e percebe que é possível, depois você se acha muito importante, aí tem um período em que você percebe que é apenas mais um músico e não é tão importante (risos). Hoje eu estou num ponto da minha vida em que me sinto de novo privilegiado, por ainda ter a oportunidade de fazer música e tocar para as pessoas... é o que atualmente mais me dá satisfação - eu sinto que gosto do que vim construindo, e gosto muito dos meus fãs.
Qual o álbum do Rush que, após todos esses anos, você considera especial, que foi mais marcante?
É difícil dizer... o 2112 se sobressai, e também o Moving Pictures, o Permanent Waves se destaca também... Power Windows... e, surpreendentemente, Hemispheres sobressai bastante também.
Alguns grupos de discussão na internet consideram Permanent Waves um disco às vezes sombrio, mais introspectivo que os demais. Você concorda?
Faz muito tempo que eu não escuto esse álbum, então não posso dizer com certeza. Talvez isso tenha a ver com as fotografias em preto-e-branco da capa, com algumas letras serem mais introspectivas, como "Entre Nous" e "Different Strings"... mas faixas como "Spirit of Radio" and "Free Will" não são exatamente sombrias. "Jacob´s Ladder" é bem lírica, a letra tem a forma de um soneto. Não acho que seja sombrio. Grace Under Pressure, esse sim, é um álbum sombrio.
Pois é. Esse álbum e Caress of Steel têm títulos bem sugestivos, como se através da pressão fosse possível alcançar estágios mais elevados de realização; essa é uma idéia recorrente entre vocês?
Grace Under Pressure é mais como um teste de caráter... não sei se você chega a um estágio mais elevado, mas com certeza descobre de que você é feito quando está sob pressão.
Como vocês escolhem as músicas antigas que vão re-ensaiar para apresentar nas turnês?
Essa escolha é a mais difícil de todas, porque você tenta agradar a si mesmo, agradar aos fãs... apresentar um show que tenha um fluxo dinâmico, que não fique arrastado... basicamente tentamos seguir o que os fãs nos pedem, o que escrevem para nós, e tentamos pegar músicas que não tenhamos tocado por um tempo e que continuam "frescas" para nós, e que combinem com as novas canções, que felizmente o público tem apreciado também.
No álbum Vapor Trails, em "Peacable Kingdom", a letra comenta o atentado de 11 de setembro nos Estado-Zunidos. Vocês acham que, sendo uma banda canadense, conseguem ter uma visão mais crítica do que aconteceu, dos dois lados da questão?
Eu não sei se é crítico, porque muitos canadenses morreram em 11 de setembro também... foi mais um golpe no livre-arbítrio (Free Will) do que qualquer outra coisa... acho que nós apenas dissemos como nos sentimos sobre esse grande vão cultural que ficou tão à mostra nesse dia. Essa é a parte triste da canção.
Sobre o que você gostaria de falar e que geralmente não perguntam?
Quão bonitos nós somos (risos)! Brincadeira... nós falamos sobre tantas coisas! Eu sou sempre grato numa entrevista por ter uma conversa interessante com uma outra pessoa. Entrevistas, especialmente por telefone, são coisas estranhas porque você está apenas... falando com uma voz no escuro, esperando que seja interessante, passando o tempo...
E passar o tempo? O que você gosta de fazer quando não está envolvido com música?
Além de ficar com minha família, com meus filhos, eu tenho muitos hobbies, gosto de fazer várias coisas. De jogar tênis, pedalar por longas distâncias, viajar com a minha esposa.
Há alguma razão específica para a freqüência de quatro álbuns de estúdio para cada álbum ao vivo?
Começou como uma coincidência, então virou um plano, e agora eu acho que é hora de... interromper o plano (risos).
Como vocês escolhem a ordem das músicas num álbum?
É como escolher as músicas para um show, é muito difícil. Principalmente agora, porque é um único lado. Sabe... em primeiro lugar, eu adoro álbuns em vinil.
Sério?
Sim. Porque eu acho que os CDs prejudicaram nosso amor pela música. O que quero dizer é que o vinil era grande, era delicado, você tinha que cuidar dele, então era uma coisa preciosa, como um velho livro. Você tinha que respeitá-lo. CDs são pequenos, parecem insignificantes - as caixas se quebram, eles são descartáveis. Acho que são simbólicos de como reverenciamos menos a música hoje em dia do que há vinte anos atrás. E também era interessante no vinil a disposição de vinte minutos por lado, você podia ter dois climas diferentes, ou duas jornadas diferentes com um pequeno intervalo entre elas. Agora com o CD são mais de setenta minutos de uma tacada só, para fazer isso fluir é mais difícil.
E você acha que no CD há uma perda de qualidade sonora em relação ao vinil?
Não. Acho que o CD reproduz o som tão bem quanto o vinil. É uma questão de gosto - eu tenho amigos que colecionam vinil, e eles juram que os LPs soam melhor, mas é apenas porque os seus aparelhos de som são projetados para fazer o vinil ter um som melhor. Não acredito nisso. Acho que em termos de som o CD foi uma mudança para melhor. Só lamento a trivialização da música, a perda do impacto das capas, por exemplo.
A capa de Exit.. Stage Left, onde há elementos de todos os álbuns anteriores...
Pois é. Eram como posters, era como fazer arte em posters. Agora você folheia um livretinho, se tiver a sorte de conseguir tirá-lo da caixa sem rasgar... sem falar nos picture discs em vinil, que eram mágicos. Eu acho que deveriam fazer CDs com capas do tamanho das de vinil, trazer de volta os CDs gigantes!
E você ainda acha que nas rádios, como na letra de "Spirit of Radio", "all this machine making modern music can still be open-hearted"? Esse processo de trivialização não está se estendendo também às músicas que são tocadas nas rádios?
Eu concordo. Acho que a indústria radiofônica não é saudável. Não acho bom quando você tem, por exemplo, nos EUA, uma ou duas pessoas que controlam todas as estações de rádio. Isso não é liberdade. Eles estão decidindo o que milhares vão ouvir. Isso dói. Você chega em uma cidade e um cara controla duas estações, toca dois tipos de música diferentes nas duas, ele não pode estar lidando de uma forma honesta com esse público, é tudo marketing.
Como você se sente fazendo parte de um seleto grupo de vocalistas que qualquer um reconhece na primeira sílaba cantada? Como Ozzy, Robert Smith...
Acho ótimo! (risos) Você sabe que a minha voz foi sempre o ponto em que os críticos se fixaram para falar mal ou bem da banda... durante uma época eu passei a cantar num registro mais grave, e isso coincidiu com uma suavização no nosso som. Mas agora as músicas estão com mais punch, eu voltei a cantar agudo. Acho que dá mais energia, e parece apropriado para esse novo momento. A minha voz vai para onde a música a leva, na verdade. E agora que estamos mais velhos, nós queremos... fazer mais rock (risos).
Com relação à internet, já que falamos no mercado de música, hoje em dia muitas pessoas estão podendo baixar e gravar livremente músicas de artistas sem pagarem copyright. O que você acha disso?
É errado gravar músicas de outras pessoas sem pagar por elas. Esta é a única área no mundo onde roubar entra em discussão. Em qualquer outra profissão, isso seria impensável, nem se consideraria como ponto de polêmica. Mas como músicos, porque nós teríamos de discutir se nossa música deveria ser gratuita? O que nós fizemos de tão errado para sermos subjugados e levarem o produto do nosso trabalho embora? Eu acho um absurdo. Passei um ano fazendo este disco. Gastei um número X de dólares, e foram horas e horas de trabalho. Não fiz isso para simplesmente levarem embora. Não acho que isso leva em conta o trabalho que tantas pessoas têm para fazer o álbum.
Mas a internet pode ser um território onde as pessoas tenham a liberdade de escutar a música que quiserem, fora do monopólio das rádios...
Bem, eu acho a rádio via internet excelente, é bom poder ouvir qualquer música que se queira, você clica no link, paga por ela, ou o site paga e têm seu retorno por anúncios, e a música chega até você. É uma grande diferença.
Geddy, foi muito bom falar com você. Estamos muito ansiosos pelo show. Conheço gente que daria tudo se fosse preciso para ver vocês, esperaram muito por isso.
Eu também gostei, foi divertido. Peço desculpas por só agora estarmos tocando no Brasil, e espero que vocês gostem do que temos para mostrar. Até!
(originalmente publicado em RP 65)