
Brincadeira de criança? Quem dera. Suspended Animation é o ápice criativo de Mike Patton e sua banda predileta. Se nos discos anteriores o Fantômas era apenas uma banda conceitual, neste quarto trabalho de estúdio, o quarteto conseguiu o respeito de crítica e público, com um trabalho altamente inovador.


SUSPENDED ANIMATION
Fantômas
(2005)
Por Bruno Eduardo
Primeira curiosidade: o conceito do disco. O álbum é baseado no mês de abril. Ou seja, eles decidiram fazer um calendário musical. Para se entender melhor, é uma música para cada dia, começando em 04-01-05 e terminando na faixa 04-30-05. O encarte do Cd é ainda mais bacana, um mini-calendário com páginas ilustradas para cada faixa. Segundo a banda, o mês de abril é considerado o mês do humor nacional. A ilustração do disco foi feita pelo cartunista japonês Yoshitomo Nara.
A sonoridade do disco é outro destaque. Se o Fantômas gostou de flertar com o terror em Director’s Cut(2001), aqui Mike Patton decidiu trazer um clima mais bem humorado, e misturou o grindcore desenfreado do grupo com temas infantis. Mas isso não entrega o jogo.
Quando eu digo “Mike Patton fez”, é baseado nas informações técnicas. É quase que impossível acreditar, mas todas as músicas foram compostas por ele. O cara escreve tudo, e depois passa para os outros executarem a obra (prima). E não se dá ponto sem nó.
A genialidade do vocalista-faz tudo, leva o Fantômas a um universo sem conotação. Uma metralhadora multi-direcional. Mas que mesmo assim, soa agradável a qualquer amante de boa música. Essa mistureba cai redondinha. Isso, lógico, não seria possível se não fosse pela funcionalidade do quarteto, que cola, descola e unta todas as passagens de forma magistral.
Se o som da bateria de Dave Lombardo (Slayer) é um destaque, o baixo de Trevor Dunn apenas dá o tom para o circo pegar fogo. Com uma utilização cirúrgica de samplers e efeitos ambientes, Mike Patton preenche qualquer espaço que se preze. Entre os riffs matadores de Buzz Osborne (Melvins) e viradas tentaculares, há sons de cornetas, gargalhadas de crianças, bichos esmagados e os velhos berros pattonianos.
O que chama a atenção é a qualidade da proposta. Não é apenas uma vontade de soar experimental - aquela batida pretensão psicodélica. Esse disco acaba te convencendo que essa doideira realmente faz sentido. E que esse teatro do absurdo foi conduzido por algum cientista em um laboratório da NASA.
Mesmo sendo difícil imaginar a execução desse álbum ao vivo, foi graças a ele que a banda veio ao Brasil pela única vez. Detalhe: Com Terry Bozio na batera.
Tradicionalistas podem até torcer o bico, mas os racionais terão que admitir: Suspended Animation é sim, uma tentativa bem sucedida em sair do óbvio. É remar contra a maré. É um chute na falta de criatividade. E a idéia, mesmo que desvairada, é bem calculada.
Suspended Animation é arte em sua essência. É rock pesado como nunca se ouviu, é rock experimental como nunca se viu, e é uma banda como nunca se existiu. É Fantômas, deixando a sua marca com um dos melhores discos da década passada.
Esse disco é para se ouvir do início ao fim, mas recomendo os seguintes dias: 02-03-04-06-07-10-11-13-21-22.