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Entrevistas: Retrofoguetes
Quarta-feira, 3 de Fevereiro de 2010 (23:22:34)


Com base na surf music dos anos 1960, incluíram na fórmula ingredientes do psychobilly, garage e o que mais aparecesse pela frente. Recentemente, lançaram o disco Chachachá com 14 temas que dão uma pequena amostra da complexa sonoridade do trio soteropolitado.



 


+entrevista


RETROFOGUETES


O  melhor disco de 2009


"O critério é se a música é ruim ou boa"


Por Alexandre Saldanha

 

Em Salvador, a quilômetros dos holofotes do sul e sudeste, em 1993, nascia uma das mais respeitadas do psychobilly brasileiro: os Dead Billies. A banda lançou dois discos (Don't Mess With... the Dead Billies, de 1996, e Heartfelt Sessions, de 2000) até encerrar as atividades em 2001. É neste ponto que tem início a história dos Retrofoguetes.

Com base na surf music dos anos 1960, incluíram na fórmula ingredientes do psychobilly, garage e o que mais aparecesse pela frente. Recentemente, lançaram o disco Chachachá com 14 temas que dão uma pequena amostra da complexa sonoridade do trio soteropolitano. Por e-mail, Morotó Slim (guitarra), CH Straatmann (baixo) e Rex (bateria) conversaram com o Portal Rock Press.



No início, os Retrofoguetes eram Morotó Slim, Rex e Joe Tremodo, todos ex-Dead Billies. Como foi a transição de uma banda para a outra?


Morotó - Eu e Rex, já tínhamos uma banda instrumental de surf music, mas não era com Joe no baixo. Quando o Dead Billies acabou, foi uma alegria! Chamamos Joe imediatamente para a banda [risos].


Rex - Mosckabilly [vocalista dos Dead Billies] havia decidido sair da banda para investir em um trabalho solo. Como eu já tinha chamado Morotó pra montarmos juntos uma banda instrumental, que inclusive já se chamava Retrofoguetes, resolvemos manter a formação dos Dead Billies com Joe no baixo e fizemos desse projeto uma prioridade.


Por que decidiram seguir na música instrumental?


Rex -
A gente sempre tocou alguns temas instrumentais no repertório dos Billies, inclusive gravamos a música "Tarântula", um tema autoral, no primeiro disco da banda. A surf music instrumental sempre foi uma grande influência na nossa música.


Morotó - A música instrumental sempre estava presente para a nós. Ouvíamos surf music e outras coisa relacionada há muitos anos. Já rolava um surf music no primeiro [disco do Dead Billies] - e um bolero para guitarra no segundo - "Night of Excess".



Como foi substituir o baixista Joe Tremodo? Você já conhecia Morotó e Rex?


CH Straatmann -
Foi tranquilo, Joe já era um amigo quando entrei na banda. Nos conhecíamos da própria cena local, e fizemos vários shows juntos (Dois Sapos e Meio e Dead Billies). Inclusive já tinha feito uma jam com Rex e Morotó numa dessas passagens de som.


Como foi o convite?


CH -
Quando Joe saiu, ainda no primeiro ano de formação da banda, tive um contato inicial com Rex e Morotó e logo em seguida eu já estava ensaiando as músicas e compondo material para o Ativar Retrofoguetes!, nosso primeiro disco. Já são sete anos de banda e estamos trabalhando de vento em popa.



Em que ano acabou o Dead Billies? O Dead Billies ainda é um fantasma para vocês?


Rex -
A banda se desfez em 2001 e em janeiro de 2002 os Retrofoguetes fizeram seu primeiro show numa praia em Salvador, como não poderia deixar de ser. Nós somos um pouco românticos e saudosos, mas o Dead Billies nunca chegou a ser um fantasma. Os Retrofoguetes conseguiram muito rápido uma visibilidade que os Billies levaram dez anos pra alcançar, nós sempre procuramos manter as duas coisas bem separadas. Os Retrofoguetes sempre tiveram vida própria, apesar da Dead Billies ser uma grande referência pra gente.



Existe alguma chance remota de uma volta ou algum show com os Dead Billies?


Rex -
Podemos ser contaminados por algum troço radioativo e voltarmos zumbificados, mas, fora possibilidades científicas ou paranormais, acho muito difícil isso acontecer.

Morotó - Sim, mas completo não!
 


A banda sempre deixou claro em shows e, principalmente, no último disco que busca influências de fontes totalmente diversas e incomuns. De onde vocês buscam inspiração?


Morotó -
Onde existe musica boa. Mas afirmo que a verdade está no passado, nos velhos disco de rockabilly, psychobilly, surf music, country music, swing jazz, cocktail lounge, spy music, western, música clássica, boleros, polcas, frevos satânicos de guitarra baiana da década de 70, western swing...


CH - Pescamos as idéias que sem de nossas cabeças, nos juntamos e a coisa começa a fluir, é só estar atento para captar o que surge no ar.


Rex - Tudo que a gente gosta de ouvir influencia de alguma forma o nosso trabalho. Acho que o grande desafio é fundir coisas tão diferentes e conseguir manter uma coerência, deixar tudo natural e autêntico. Hoje, nós tocamos polca, valsa, tango, mambo, surf music, rockabilly, mas tudo isso soa muito Retrofoguetes. Compomos e executamos essas músicas com muita personalidade.

 


Recentemente, a guitarra baiana passou a ser uma constante nos shows dos Retrofoguetes. Qual a importância desse instrumento para o trio?


CH -  
A Guitarra Baiana é um instrumento muito diferenciado, descende do bandolim e foi criada na Bahia. Compor para esse instrumento é uma ampliação da nossa linguagem e trata-se de resgatar o legado e a importância dele dentro da música.

Rex - Nós três, desde crianças, somos muito fãs do Trio Elétrico de Armandinho, Dodô e Osmar, que são os inventores da guitarrinha, que é como chamamos o instrumento aqui em Salvador. Já pensávamos em homenagear o trio há muito tempo, mas pra isso Morotó precisava estudar a guitarra baiana. Finalmente em 2008, encaramos o desafio e criamos o "Retrofolia", o nosso baile de carnaval, e já nesse primeiro ano contamos com a participação de Aroldo Macedo, irmão de Armandinho, filhos de Osmar, e Morotó foi premiado com o troféu Dodô e Osmar como melhor instrumentista do carnaval. No Retrofolia do ano seguinte, já reunimos no palco a família: Armandinho, Aroldo e André Macedo. Além disso, participamos dos encontros de guitarra baiana promovidos por eles e saímos com um trio elétrico nosso no circuito Barra/Ondina. Hoje, o carnaval já faz parte de nossa agenda.


Morotó - Tanto para mim ou para Rex, a guitarrinha faz parte de nossas vida. Crescemos ouvindo o gênio da guitarra baiana Armandinho Macedo, com seu irmãos Aroldo, Betinho e André Macedo praticamente tocando em nossas portas, durante a nossa infância até a adolescência, quando eles mudaram do bairro, que ficava na cidade baixa. Mesmo de longe dava pra ouvir o som inconfundível do instrumento!  A guitarra baiana foi o meu primeiro instrumento, mas não cheguei a aprender bem pois eu só tinha 10 anos. Um ano depois, ganhei um violão e fui logo aprendendo guitarra, que era um instrumento mais fácil que a guitarra baiana. Aí a GB ficou esquecida por anos, até eu realmente aprender, três anos atrás, para tocar no Retrofolia. Não tive muita dificuldade, pois os LPs do trio elétrico Armandinho, Dodô & Osmar, não saíram da minha vitrola. Eu conhecia todas as musicas, isso facilitou muito.  Hoje nos fazemos parte do resgate do instrumento aqui na Bahia, que foi quase destruído pelo axé music e sua voracidade capitalista. As musicas do Armandinho, Dodô & Osmar, mesmo tendo origem no Carnaval da Bahia desde os anos 50, nunca foi e nunca será axé music, pelo simples fato de ser no ritmo do frevo (de origem Pernambucana) e com uma grande dificuldade de execução, podendo ser até comparado à musica erudita pelo fato de as músicas serem muito complicadas. O mais legal disso tudo é que era totalmente instrumental até o ano de 1977, quando Moraes Moreira colocou letra em uma musica de Osmar Macedo, o Double Morse, e se transformou em Pombo Correio. Mesmo assim, os disco não deixaram de ter em sua maioria musicas instrumentais até final dos anos 1980.


Em Protótipo de Demonstração 1 (2002), a banda seguia na linha mais psycho surf, mais próximo à pegada dos Dead Billies. Em O Maravilhoso Natal dos Retrofoguetes (2004), vocês soam mais swing, como a Brian Setzer Orchestra. Em Chachachá (2008), a banda parece mais entrosada e com uma sonoridade diversa, mas com identidade própria. Como se deu essa evolução? Foi intencional?


Rex - A gente não costuma pensar muito qual rumo a nossa música vai tomar, tudo acontece muito naturalmente.


CH - Retrofoguetes é um projeto originado do fim dos Billies. O Protótipo de Demonstração contava ainda com Joe na formação. Ainda naquele ano entrei para a banda e passamos a compor o material do Ativar Retrofoguetes!. A influência existe, mas houve total liberdade artística na criação das músicas. Nunca fui tolhido nesta ou naquela direção. Se você observar, verá que neste disco há bolero, valsa, polca, hardcore, surf music. No disco de Natal fizemos apenas um swing ["Bate o Sino"], gravado nos moldes tradicionais, com contrabaixo acústico, guitarra semi-acústica. As outras seguiam uma linha mais polca ou surf mesmo. Esse foi um projeto especial de releituras. No disco Chachachá a gente começou a compor muita coisa variada, então resolvemos desencanar. O bacana é que nestes sete anos de banda a coisa estava tão coesa que poderíamos fazer qualquer música em estilos variados e soaríamos Retrofoguetes. Temos uma simbiose muito forte, você pode perceber isso nos shows também.


Morotó - O Chachachá é um reflexo do que ouvimos e naturalmente nos inspiram várias ideias que evoluem junto à nossa capacidade como músicos. A maioria das musicas do Chachachá foram feitas quase todas inteiras e de primeira, com se já soubéssemos o que iríamos tocar. Temos um pequeno gravador que usamos para salvar nossas ideias. Levamos para todos os cantos do Brasil e o curioso é que poucas musicas foram feitas em Salvador, a maioria viajando.


Vocês se consideram uma banda de surf music ou o gênero é apenas uma das referências no som dos Retrofoguetes?

CH - Ambos!


Rex - A gente misturou tanta coisa que eu nem sei mais como definir nosso som, mas a surf music tem uma presença muito forte no nosso trabalho.

Morotó - O rockabilly e a surf music sempre estarão presentes no nosso som, e essas características estão relacionadas com o timbre da guitarra, com o delay e com o reverb, e também na maneira que tocamos e criamos nossas músicas e a pagada do baixo e batera. Mas também nunca deixaremos de tocar ou gravar uma música porque ela foi concebida como um tango, por exemplo. O critério é se a música é ruim ou boa.


Entre clássicos e novidades, quais bandas vocês costumam escutar?


Rex -
Ouço mais clássicos que novidades: Stray Cats, The Cramps, Reverend Horton Heat, Frank Sinatra, Yma Sumac, Les Baxter, Martin Denny, Benny Goodman, Elvis, AC/DC, Kiss, Tom Waits, Armandinho, Dodô e Osmar, Julie London, The Clash, Ramones, Devo, Jobim, Henry Mancini, Lalo Schifrin, Perez Prado, Xavier Cugat, Serge Gainsbourg, David Bowie, Beach Boys. Das coisas mais novas, gosto da Imelda May, Nouvelle Vague, Koop e Gotan Project.


CH - Cara, muita coisa. Como baixista, ouço algumas coisas particulares tipo [Charles] Mingus, [Jaco] Pastorius, Lee Rocker, Willie Dixon, John Paul Jones.  Gosto de música do leste europeu, polcas. Ganhei um disco de música tradicional da Moldávia que eu pirei, curto também Django Reinhardt.  Soundgarden gosto bastante, Led Zeppelin... Ouço também música clássica, como Stravinsky, estudo umas coisas de Bach no contrabaixo. Gosto das musicas de Armandinho dos anos 70, Tom Jobim, Umas coisas de rockabilly...  Meu gosto musical é muito variado...


Morotó - Tem anos que escuto as mesmas coisas! [risos] Stray Cats, Reverend Horton Heat, Cramps, coisas antigas da Sun Records, mais Link Wray, Les Paul, Merle Travis, Chet Atkins, Joe Maphis. Tem uma coletânea chamada Ultra Lounge, tem 25 discos, com vários artistas, Martin Danny, Esquivel, Lex Baster, Deke Dickerson e Marco Di Maggio. Devem ser as coisas mais novas q eu tenho aqui, grandes guitarristas de rockabilly dessa nova geração.



Vocês têm seu próprio trio elétrico, respeitando a tradição baiana. Como o público recebe os Retrofoguetes entre todo o axé do carnaval da Bahia?


Morotó -
O carnaval de hoje em dia está muito mais diversificado, tem o nosso público que segue o trio, que é um incrível palco andante. O público vai mudando a cada metro.


Rex - Tudo que a gente faz é muito autêntico, muito sério e bem feito, isso faz com que a gente seja respeitado sempre.

CH - Nós não temos nosso próprio trio elétrico, recebemos um convite para fazer esse projeto no carnaval e nos cederam um trio para aquela apresentação. Temos recebido esses convites e feito algumas ações nesse sentido. A Bahia tem muitos artistas e a música produzida aqui não tem apenas um estilo. Não somos uma monocultura, vide Novos Baianos, Armandinho, Dorival Caymmy, João Gilberto, [Gilberto] Gil, Caetano [Veloso], Maria Betânia, Pitty, Cascadura, Ronei Jorge, entre tantos outros. No carnaval saem também outros atristas em trio. O público curte, é tanta coisa acontecendo ali, ter um show como o nosso num festival para milhões de pessoas é ótimo.


Nessas ocasiões, vocês chegaram a ter pessoas ilustres assistindo. Qual é a sensação de reconhecer na plateia pessoas mundialmente conhecidas curtindo o show de vocês? 


Rex -
Vi Caetano [Veloso] pulando atrás do nosso trio. Tive a impressão de ter visto Elvis também, mas acho que era um fantasma.

Morotó - Uma vez Caetano Veloso, estava dançando na rua e me cumprimentou quando passamos com o Foguetão [nome dado ao trio], mas eu sou míope, não consigo ver muita gente de longe, não! [risos] É serio!

CH - Já vimos Caetano pulando atrás do nosso trio. Homenageamos nossos mestres do trio de Dodô e Osmar de corpo presente. A sensação é muito bacana, são caras que têm uma vida dedicada à música, que nos trouxeram tanta coisa boa com sua arte... Só podemos dar o melhor de nós em troca.



Vocês tocam em vários dos maiores festivais independentes do Brasil (Goiânia Noise, Campeonato Mineiro de Surfe, Festival de Verão, etc). Qual a vantagem de tocar nesse tipo de evento?


Rex -
Realmente já fizemos a maioria dos festivais independentes do país e isso tem sido uma grande vitrine pro nosso trabalho. Inclusive, o Chachachá foi lançado no Abril Pro Rock, em Recife, no ano passado. Os festivais são importantes também pra gente manter contato com as outras bandas, produtores e selos. Hoje, temos amigos no país inteiro.

CH - Divulgar o trabalho, apresentar a nossa música para todo o país, estabelecer novas parcerias. Fazer parte dos festivais e circular pelo país é muito importante.


Morotó - Circular nos maiores festivais de música do país é muito bom! É uma ótima oportunidade para mostrar o nosso som para quem não conhece e consolidar pra que já curte.



Já surgiu algum convite para tocar fora do Brasil?


Morotó - Não lembro.


CH - Ainda não.

Rex - Estamos esperando por isso.


 
Quais são os planos para o 2010?

CH - Continuar com a turnê do disco novo, levar essa turnê para outros países e continuar compondo novas músicas.

Morotó - América Latina e Europa estão nos planos. Trabalharemos muito para que aconteça.

Rex - Tocar na gringa seria bem legal. No mais, dar continuidade na divulgação do Chachachá. Ficarmos ricos, quem sabe?
 

 

Além dos Retrofoguetes, vocês fazem algum trabalho solo ou com outros artistas?

Morotó - Eu não.

CH - Em estúdio somos bastante requisitados individualmente. Não temos trabalho solo. Eventualmente acompanhamos outros artistas, desde que isso não atrapalhe os trabalhos do Retrofoguetes.

Rex - Já toquei com outras bandas como Nancyta e os Grazzers e o cover de Michael Jackson, Os Maicols. Gravei o disco solo de Nancy Viégas, o “Mezzo Delirante”, o disco da Gonorréia - banda contemporânea do Camisa de Vênus - e o disco de um gringo maluco de Los Angeles chamado Joel Justin. Ano passado, gravei as baterias do disco de rock de Luiz Caldas, mas atualmente estou só com os Retrofoguetes.
 

 

O que é mais difícil em música instrumental: compor músicas ou criar nomes para elas?

Morotó - Os nomes!! [risos]

Rex - Compor, é claro! Batizar as músicas é a parte mais divertida.

CH - Para mim é tudo a mais pura diversão, não vejo como uma dificuldade. Algumas músicas já dão indícios do que pode ser o seu nome, principalmente quando nascem inspiradas por situações. Fazer música instrumental e depois dar um nome é uma parte natural do processo, a gente se diverte com isso.
 

 

Qual o melhor show que vocês já fizeram? Por quê?

Rex -Já fizemos grandes shows, mas é difícil citar um. Alguns festivais foram sensacionais como o Abril Pro Rock e o Festival do Sol em Natal, no ano passado. As vezes em que tocamos em Goiânia, e foram muitas, foram muito bacanas. Adoramos tocar no Campeonato Mineiro de Surfe porque a gente se sente em casa, já tocamos em quatro edições, eu acho. [na verdade, foram três: 2003, 2006 e 2009]
O show de lançamento do Chachachá, aqui em Salvador, foi a realização de um sonho. Foi a primeira vez que uma banda de rock lançou um disco na sala principal do Teatro Castro Alves, um dos principais palcos da América Latina. Tocamos pra 1.500 pessoas, lotação máxima da casa. Foi emocionante.

Morotó - Cara, eu nem lembro assim!! Todos são sempre bens legais. O melhor em produção, sem dúvida, foi o do lançamento do Chachachá no Teatro Castro Alves, conseguimos reproduzir no palco o nosso CD em detalhes, como ele foi gravado, tivemos varias participações de músicos incríveis, tudo foi de primeira. Brocamos! [risos]

CH - Cara, para mim o melhor show é o próximo.
 

http://www.myspace.com/retrofoguetes





+ resenha

Retrofoguetes surpreendem com Chachachá


Por Alexandre Saldanha
 


Nem passando pelo Protótipo de Demonstração nº1, por Ativar Retrofoguetes! ou pelo Maravilhoso Natal dos Retrofoguetes era possível prever o que o trio baiano estava preparando. Com Chachachá, Morotó Slim, CH Straatmann e Rex foram além de qualquer expectativa.
Se nos discos anteriores todas as composições passavam – em algum momento – pela surf music, isso agora é apenas uma das milhares de referências. Assim como as ilustrações da capa e encarte (todas criadas pelo baterista Rex), a música que abre o disco, “Vênus Cassino”, remete à extinta banda belga Fifty Foot Combo. Trata-se de um tema pesado, com guitarras cheias de reverb e muita percussão.


O efeito imortalizado por Jimi Hendrix é homenageado em “Fuzz Manchu”, em que tanto a guitarra quanto o baixo aparecem distorcidos. Em seguida, é a vez de “Constelación”. A faixa, que começa fraca e baixa, cresce constantemente, ganha peso e é presenteada com o acordeon de Saulo Gama. Continuando na linha latina, “Enmascarado” é um surf à la Los Straitjackets (principalmente nas composições de Daddy-o Grnade) com direito a castanholas.


“O Falso Turco” traz o baixo ao primeiro plano, com riffs estalados. Ao fundo, guitarras reverberadas com acompanhamento de marimbas e vibrafones dão um clima misterioso. Em alguns momentos, a sonoridade de “Turco” traz à cabeça cenas clássicas de perseguições de Tom & Jerry.


Ainda na latinidade, “Maldito Mambo!” é um mambo swing nervoso como nos momentos mais inspirados de Brian Setzer à frente de sua orquestra. Nesta faixa, a guitarra vira quase coadjuvante, dando espaço para os metais assumirem a dianteira. A cereja no topo do bolo são os gritos de “Aaaah! Uh!” de Moskabilly (ex-companheiro de banda de Morotó e Rex nos Dead Billies).


Mademoiselle Zazel – que remete à primeira artista circense atirada de um canhão – é uma marchinha de circo. Com toques de frevo, a música anima e cria suspense ao mesmo tempo. Perfeita trilha sonora para quem pretende seguir os passos da Senhorita Zazel original.
Na divertida “Wreining Rouing Mai Maind”, Morotó toca guitarra, lap steel e assume os vocais para criar um rockabilly cantado em língua nenhuma – exceto por algumas palavras em inglês perdidas pela “letra” da música. “Um Diabo em Cada Garrafa” continua na linha ‘billy’, mas dessa vez, no psychobilly. A faixa remete – claro – aos Dead Billies, mas também a Reverend Horton Heat, com o peso, e guitarras ao mesmo tempo aceleradas e limpas. “Um Foguete para Memphis” - uma homenagem à cidade que revelou grandes nomes como Elvis Presley e Johnny Cash, entre outros – não podia ser outra coisa que não um country/rockabilly como aqueles feitos em 1954. O acordeon volta a figurar na melancólica “Santa Sicília”, uma belíssima canção com idas e vindas. A música alterna entre passagens tristes – predominantes - e trechos animadíssimos.


Retornando à veia principal da banda, “Bikini, 1958” é um surf lento para se ouvir no fim de tarde à beira do mar. Em alguns momentos, a música ameaça crescer e volta à delicadeza do início. O oposto acontece em “Tirem Esses Eletrodos de Mim”. Trata-se de outro surf, mas dessa vez pesado, e forte. No entanto, torna-se uma canção arrastada, com clima lounge, abrindo espaço para “Absyntho”, que encerra o disco.



 


 
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