cinema: Avatar
Quarta-feira, 6 de Janeiro de 2010 (1:24:51)
Avatar é uma espécie de Alien às avessas, sendo o eixo comum o papel do capitalismo vilão. O filme é bom. No mínimo, tem a coragem de levar ao extremo um estado de coisas que já vem se ensaiando faz tempo: o cinema como escapismo hi-tech.
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AVATAR
Por Löis Lancaster
Acabei de assistir Avatar em 2D - amanhã verei em 3D. E vou colocar aqui algumas questões que percebi .
1 - Criação versus Representação
Reconheço uma linha com dois sentidos. De um lado, arte narrativa com enredo pouco familiar, feita para interagir com e mudar seu mundo, forçando-o a pensar e a criar relações. De outro lado, a familiaridade total - entretenimento feito para fazer você se sentir dentro dele, viver numa representação do real, real onde a meta do hábito é você viver sem ter de pensar.
Nessa ponta é que situo avatar: o máximo de simulação da realidade que ainda se pode chamar de cinema. No aspecto motor, depois temos os games. A tecnologia, e a indústria que a banca, propiciarão logo games com a resolução de avatar, provavelmente em 3D (e serão pirateados, claro). É nesse sentido que cine 3D torna DVD obsoleto, que torna TV, que torna rádio, que torna livro obsoletos, e por aí vai: na representação do real. Já na outra ponta dessa linha que citei, nenhuma forma de arte ficará obsoleta por causa da tecnologia, de Homero a David Lynch.
2 - Sobre a 'historinha'
• Avatar é uma espécie de Alien às avessas, sendo o eixo comum o papel do capitalismo vilão. Em Alien I, o andróide, movido por suas diretrizes capitalistas, quer manter o monstro vivo para fins biotecnológicos. Em Avatar, o monstro mantido pelo capitalismo somos nós. A alegoria fica mais óbvia por conta do "petróleo" a ser explorado. E nesse ponto, é interessante no filme ver os 'marines' como os mercenários que são.
• DEVERIA haver uma música do Yes na trilha do filme. Não só pelos cenários estilo Roger Dean, como por a música perfeita já existir. Homeworld, a música-síntese de Avatar, foi feita pelo Yes para um game sobre o espaço. Confiram:
• O jogo de espelhos das mentes entrando em outros corpos: os humanos nos dos nativos, os nativos nos de seus animais, a platéia no paraíso artificial do filme. Como um Matrix menos auto-referente, mais pulverizado em mundos possíveis. A ciência só consegue mudar provisoriamente o corpo, enquanto a mística nativa de Pandora (como os ensinamentos hindus) reunifica a alma ao todo cósmico, que pode gerar no corpo uma vida independente. De todo modo, os canais de passagem são experiências transcendentais. Um grande momento é quando o corpo humano do herói entra em contato com o corpo nativo da heroína - que ele só pode experienciar moribundo.
Mas é isso. História trabalhada não é o foco aqui. Seria tão inútil quanto colocar A Comédia Humana como enredo de um game de ação. O filme é bom. No mínimo, tem a coragem de levar ao extremo um estado de coisas que já vem se ensaiando faz tempo: o cinema como escapismo hi-tech.
Um pouquinho da letra de "Homeworld" agora, pra vocês verem a relação:
"So many displaced among the future dreamers / Realised their doubles / Took a new step / A question of origin"
"Just what keeps us so alive / Just what makes us realise / Our home is our world, our life / Home is our world".