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matérias: 10 anos sem Curtis Mayfield
Terça-feira, 29 de Dezembro de 2009 (0:39:32)


Dez anos sem o mito musical Curtis Mayfield. O melhor compositor e arranjador da música negra norte-americana já surgido em todos os tempos, uma influência definitiva nos tímpanos que deixou um legado indelével e incomparável aos bons ouvidos e aos ativistas de causas igualitárias entre os homens.



 

 


CURTIS MAYFIELD

O “Gênio Gentil” – 10 Anos De Saudades


Por Guto Jimenez


 
Rio de Janeiro, anos 70. Um jovem pré-adolescente carioca, ouvinte das emissoras AM Mundial e Tamoio, não podia ouvir o hit “Give Me Your Love” sem sentir um arrepio no corpo todo; aquilo era exatamente que ele queria dizer pra menina mais bonita da sala, uma paixão platônica que naturalmente não tomava conhecimento da existência do moleque. Depois de ficar sem lanchar por quase tres semanas, o pirralho conseguiu juntar a grana de sua mesada pra comprar o disco que continha aquela canção maravilhosa, pra copiar a letra e oferecer à menina. Ao ouví-lo em casa, uma surpresa – a música tinha uma introdução divina que não tocava nas rádios, com guitarra e violinos que se alternavam e se completavam, e que deixaram o menino embevecido.

O jovem chorou, não entendendo a intensidade das emoções que os seus ouvidos tinham-lhe provocado.

Corta pro dia 26 de dezembro de 1999. Uma data especial na vida de um homem, pois foi nesse dia que sua filha fez 3 anos, comemorados devidamente numa casa de festas num bairro próximo à sua casa. A despeito de toda a felicidade que a ocasião causou, a festa em si deu uma canseira danada como era de se esperar; após a criança ter ido dormir, tudo o que ele queria era dar um relax em frente à TV antes de se deitar, já que mais uma semana de trabalho se iniciaria no dia seguinte. A alegria acabou pouco tempo depois - quando ele soube que, naquele mesmo dia, o mundo dera adeus a Curtis Mayfield.

O homem chorou, não acreditando na intensidade das emoções que a notícia tinha lhe causado.

O menino e o homem são a mesma pessoa, esse mesmo que produz essas palavras. Superfly foi o segundo disco que eu comprei na minha vida, e acho que foi ali que comecei a ter noção do que significava o conceito de “arranjo musical”. Afinal, todas as nove músicas do disco exalavam uma harmonia entre os instrumentos e denotavam uma coesão sonora que até então passavam batidas por mim, que estava apenas começando a nutrir um interesse especial por música. A elaboração e o lirismo de canções como a já citada, e mais “Freddie’s Dead”, “Little Child Runnin’ Wild” e “Pusherman”, bem como todas as outras no vinil, simplesmente me arrebataram e fizeram surgir um novo fã. 

Mas esse texto não é sobre Superfly especificamente, e nem pretendo dissecar a vida & obra de um dos mais inspirados compositores e arranjadores musicais que o universo já conheceu. Longe disso; só gostaria de destacar alguns fatos marcantes desse homem singular, que podem trazer algumas pistas sobre o que o fez transformar-se no mito musical que ele é. Um homem que, por seu lirismo e poesia ímpares, pode até não estar mais entre nós fisicamente, mas deixou um legado indelével e incomparável aos bons ouvidos e aos ativistas de causas igualitárias entre os homens. Um homem modesto, enfim, com um talento infinito – e que se tornou um ícone musical de todos os tempos.
 

*  Cabrini Heights - O lugar onde Mayfield passou boa parte da infância e adolescência em Chicago era tão chapa-quente que tinha a alcunha de “Cabrini Highs” (algo como “as doideiras de Cabrini”); afinal, não havia nenhum bloco que não tivesse o seu próprio traficante de drogas. Esses, e mais cafetões menos favorecidos, pilantras fracassados, ladrões de meia-tigela, viciados e outros meliantes de modo geral dominavam o pico e fizeram com que o conjunto habitacional adquirisse uma péssima fama e que se transformasse num lugar a ser evitado até os dias de hoje. Ali, Curtis viu a miséria humana em sua pior forma, bem como a inércia dos que estavam mergulhados na lama e se recusavam a sair dela por “ser assim mesmo”, e começou a se inspirar e a não se conformar da mesma forma. Hoje em dia, a vizinhança é conhecida como Cabrini Green, o que não adiantou muito porque o pico continua sendo barra pesada.
 

* The Impressions - Ao lado de alguns músicos locais, Curtis formou o conjunto de R&B que foi um dos pioneiros a incluírem temas de protesto em suas músicas. Pode-se dizer que foi o pontapé inicial da extensa reputação que ele construiu como militante da causa de conscientização das massas negras, e dos caminhos pelos quais deveriam ser seguidos pela integração à sociedade  Foi nesse grupo que ele começou a mostrar duas características que seriam marcantes em sua carreira: a afinação das cordas de sua guitarra com os tons de piano e o uso do vocal em falsete.
 

* Civil rights - O movimento norte-americano dos direitos civis possivelmente não teria a mesma difusão entre as massas negras caso não fossem as composições de Mayfield, conclamando as minorias à reflexão, conscientização e, principalmente, a combater o conformismo tão típico de quem não acredita no próprio potencial. Pode-se dizer que o trabalho dele se situava entre Martin Luther King e Marcus Garvey, ou ainda entre o pacifismo e a ação positiva. Não é exagero algum dizer que ele se tornou um dos principais porta-vozes musicais do movimento black, ao lado de James Brown e Sly Stone, com uma grande diferença: sua música induzia à reflexão em primeiro lugar, pra depois contagiar o resto do corpo e fazer os esqueletos chacoalharem. Além disso, ele compôs a maioria dos hinos cantados nas manifestações do movimento que aconteceram nos EUA entre o final dos anos 60 e o início da década de 70 do século passado.
 

* Curtom Records - 1970 trouxe o selo próprio de Curtis, pelo qual ele lançou grande parte de seu trabalho lançado ao longo daquela década e que foi um dos primeiros selos a pertencerem a artistas negros. Como se não bastasse, produziu e lançou álbuns dos The Impressions da qual ele havia feito parte, bem como de artistas como The Staple Singers, Donny Hathaway, Linda Clifford, The Natural Four e Baby Huey and the Babysitters – de onde saiu ninguém menos que a Chaka Khan. O selo durou exatos 10 anos, e teve como expoente máximo o álbum que levaria a raça negra a refletir sobre a sua situação na sociedade daquele país, o mesmo que mudou a minha vida: “Superfly”.
 

* Superfly - Tudo o que já poderia ser escrito sobre esse álbum já o foi feito. A palavra que melhor define esse trabalho de Curtis Mayfield é “obra-prima”, sem tirar nem por. A trilha sonora de um típico filme da estética blaxploitation havia recebido uma trilha que antagonizava com as imagens na tela; enquanto que se assistia a um festival de atitudes bárbaras típicas dos guetos negros da época, o som que emanava dos alto-falantes era como um libelo pacifista e antidrogas. Um som que enfeitiçava os ouvidos e mandava o recado direto pra mentes: só porque algo já é assim, não quer dizer que tem que ser assim pra sempre.  O trabalho não só é considerado como o auge da criatividade de Mayfield em particular, como também é um marco definitivo na história da música afro-americana daquele país; pode-se dizer, sem nenhum exagero, que o álbum mudou a história da black music pra todo o sempre. Após esse disco, Curtis passou a ser chamado como o “Gênio Gentil”, um apelido que resumiu com perfeição quem que ele era e como passava a sua mensagem.
 

* Trilhas sonoras - Desde a época do The Impressions que Curtis era contratado pra compor trilhas sonoras pra produções de cinema; na verdade, a 1ª vez foi em 1963, pro filme “Lillies in the Field” estrelado por Sidney Poitier. Em sua carreira solo, além de “Superfly”, outras trilhas compostas por ele foram pros filmes “Claudine”, “Let’s do it again”, “Sparkle”, “A piece of the action” e “Short eyes”. Curiosamente, os 6 trabalhos foram produzidos em 5 anos, paralelamente aos seus lançamentos de estúdio como artista solo. Músicas de Mayfield também podem ser ouvidas nas trilhas de filmes desde aquela época, e mais recentemente foram temas de produções como “I’m gonna git you, sucker”, “Hollywood shuffle” e “Friday”.
 

* Produção prolífica - Contando com Superfly e as trilhas sonoras, Mayfield gravou nada menos do que 19 álbuns em 27 anos de carreira solo. Seria muito injusto destacar somente o seu disco mais conhecido e as canções ali contidas, sem pelo menos citar alguns dos sons mais marcantes de sua carreira. Vou mencionar somente as que eu mais curto da extensa obra do grande mestre, uma espécie de mini-guia pra melhor conhecer e apreciar: “Get Down”, “Move On Up”, “If There’s A Hell Below, We’re All Going To Go”, “Beautiful Brother Of Mine”, “Future Shock”, “Kung Fu”, “Sweet Exorcist”, “Mother’s Son”, “Soul Music”, “Party Night”, “Show Me Love”, “Do Do Wap Is Strong In Here”, “You’re So Good To Me”, “Do It All Right”, “Tripping Out”, “Something To Believe In”, “People Get Ready” – sem falar no disco Superfly, de cabo a rabo.
 

* Músicas pros amigos - Desde 1960, quando Jerry Butler gravou “He will break your heart”, canções de Curtis Mayfield foram gravadas por inúmeros artistas. A constelação inclui gente como Aretha Franklin, Thr Righteous Brothers, Johnny Rivers, The Staple Singers e The Isley Brothers, entre outros; uma versão misturando “One Love” com “People Get Ready” colocou o compositor junto com ninguém menos do que Bob Marley. Essa música em particular ganhou uma versão de Jeff Beck e Rod Stewart, e até a baba En Vogue atingiu o topo das paradas gravando “Giving him something he can feel”.
 

* Desgraças muitas - Que o mundo é injusto, todos os que habitam esse planeta o sabem desde que nascem. Uma das grandes provas disso aconteceu em 1990, quando um refletor de luz caiu sobre Curtis num show ao ar livre no Brooklyn, causando a paralisia do gênio do pescoço pra baixo até o fim de seus dias. Embora ele não pudesse mais tocar guitarras e nem escrever, compôs e dirigiu as gravações de seu último álbum, “New World Order”, cujos vocais foram dolorosamente gravados por ele verso a verso, deitado no estúdio. Um ano antes de morrer, os médicos tiveram de amputar sua perna direita em consequência de diabetes, e nem isso foi suficiente pra impedir o mestre de participar da faixa “Astounded”, do grupo canadense Bran Van 3000, só lançada em 2001.
 

* Honra ao mérito - O “Gênio Gentil” apresentou a “solução mágica” pra inúmeros problemas que afetavam a raça negra norte-americana, que nada mais era do que a conscientização das massas como única maneira de se achar soluções pros graves problemas que infelizmente os afligem até os dias de hoje. O reconhecimento da comunidade já seria o suficiente pra imortalizá-lo - bem como o simples fato do próprio Jimi Hendrix considerá-lo como a sua maior influência musical de todos os tempos –, mas o universo da música reverenciou o mestre de várias maneiras. Em vida, a honraria foi bem significativa: em 1995, recebeu um Grammy Lifetime Achievement, como reconhecimento por sua obra musical. Postumamente, as homenagens prosseguiram: em 2003, o Impressions foi incluído no Vocal Group Hall of Fame; no ano seguinte, a revista Rolling Stone elegeu Curtis Mayfield como um dos 100 Maiores Artistas de Todos os Tempos. O ícone imortal da black music também faz parte do Rock and Roll Hall of Fame and Museum, por ter “apresentado pedidos urgentes de paz e irmandade em canções extensas e cinematográficas que apresentaram uma nova agenda musical para os tempos futuros”.
 

Ainda que se juntassem todos os adjetivos conhecidos, nem assim seria feita justiça à obra de Curtis Mayfield. Ele foi o melhor compositor e arranjador da música negra norte-americana já surgido em todos os tempos, uma influência definitiva nos tímpanos e na sonoridade que desenvolvi. Se você conhece, certamente deve gostar também; se não conhece, não perca mais tempo: conheça e admire você também a obra do “Gentle Genius”. É satisfação garantida.     


http://www.myspace.com/curtismayfield


 


 
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