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Matérias: The Smiths, A banda
Segunda-feira, 28 de Dezembro de 2009 (23:23:39)

 

Com sua combinação de melodias perfeitas, guitarras bem colocadas e vocação pessoal para a polêmica, os Smiths deram a fórmula perfeita para o nascimento do chamado britpop – a reação dos roqueiros ingleses contra a invasão grunge de 91. Eles merecem todo o caminhão de elogios que recebem. Os melhores, sim, senhor.



 





THE SMITHS

A Banda

 Por Marco Antonio Barbosa
   

Éramos todos 22 anos mais novos quando, em agosto de 1987, os Smiths anunciaram seu fim. A comoção foi generalizada, e não é exagero dizer que muitas vidas (ao redor de todo o mundo, e não só na Inglaterra) mudaram depois do fim da banda. Mas por que?
   
Porque os Smiths eram A BANDA. Vivemos hoje um momento em que qualquer bandinha vestida de camisas de flanela merece elogios tais como “os melhores da década”, “os seminais” etc... A cantilena é tamanha que já se banalizou. Com os Smiths não foi diferente; adjetivos como “a melhor banda dos anos 80”, “os pais do BritPop”, e quetais são facilmente encontráveis em matérias sobre eles. Mas, pela primeira vez, não há exagero nestes elogios. Os Smiths foram realmente a salvação do rock, em uma “ era glacial” para o gênero. Eles inventaram todo o som que a atual geração pop britânica faz. Eles representaram a última tentativa à palavra “indie” do gueto underground e provaram que, sim, pode haver sucesso sem comprometimento da integridade artística. Eles... bem, vamos à história, antes que eu me empolgue.


I – “Porque a música que eles tocam constantemente não me diz nada”

   
Para se falar francamente, o pop britânico em 82, 83 (a época em que os Smiths surgiram) era uma merda. As paradas eram dominadas à cada semana por um modismo diferente – new romantic, tecno-pop, new bossa(?), colocando em evidência mediocridades hoje para sempre enterradas, como Spandau Ballet, Adam & The Ants ou Kajagoogoo (meu Deus, quem?!). Uma época em que era “cool” para uma banda de rock usar ternos amarelos, ou camisas com babados. Preciso dizer mais alguma coisa...?
   
Foi nessa época que um cara chamado Steven Patrick Morrissey se emputeceu de vez com o estado das coisas. Morrisey era um sujeito estranho, obssessivo, solitário – e simplesmente maníaco por música pop. Ele vivia enfurnado em seu quartinho de classe média baixa em Manchester, a gloriosa cidade que já havia despachado para o mundo os Buzzcocks, o Fall e o Joy Division/New Order. Aliás, “estranho” é uma palavra simples demais para descrever a personalidade do vocalista dos Smiths. Morrissey desprezava ardentemente tudo o que cheirasse a modernidade, vivendo trancafiado em um universo próprio – cercado por filmes velhos, livros de Oscar Wilde e Keats e obscuros compactos de pop inglês dos anos 60. Sua timidez patológica o afastava de praticamente todo o contato humano. A única coisa capaz de fazer com que ele se aproximasse das pessoas era sua determinação em salvar sua amada música pop. Que estava em um estado lastimável.
   
Esta determinação o levou a se encontrar com John Martin Maher - Aliás, Johnny Marr – em 82, para formar o futuro coração/mente dos Smiths. Marr era o tipo de sujeito que nasceu para ser um astro do rock. Tocava guitarra e piano desde moleque e vivia vestido como se fizesse parte de uma banda. Guitarrista e compositor, Marr já tinha passado por um punhado de bandas sem expressão, procurando por uma voz e letras que fizessem algum sentido. Morrissey abriu seus velhos cadernos de poesia e nascia aí a dupla Morrissey/Marr. Digna de figurar no panteão dos grandes duos musicais – Lennon/McCartney, Strummer/Jones e outros poucos.
   
Depois de alguns ensaios com um baterista convidado, a dupla recrutou Andy Rourke e Mike Joyce respectivamente para o baixo e bateria. A competência evidente dos dois ajudou a amalgamar o som inicial da banda, que já tinha nome: The Smiths, ou aqui, “Os Silvas”. Idéia de Morrissey, claro. Em uma época de bandas com nomes exóticos e extravagantes, nada mais ultrajante que um nome completamente despido de atrativos, para que a música sobressaísse em primeiro plano. Depois de alguns shows locais, foram contratados surpreendentemente rápido, pela indie Rough Trade. Setembro de 83 veria o lançamento do primeiro compacto, “Hand In Glove”/”Handsome devil”, que, apesar de não conseguir entrar nas paradas, consolidou o prestígio crescente da banda, que vinha atraindo cada vez mais atenções com seus shows. Não demoraria para que os Smiths se tornassem “a próxima grande coisa” nas páginas dos tablóides musicais NME e Melody Maker.
   
E não era difícil ver por que. Sua musicalidade era fluída, sólida e, ao mesmo tempo, carregada de lirismo – música real e palpável, numa época em que as paradas eram carregadas de sons plastificados e cheirando a armação. As melodias de Marr remetiam ao pop dos anos 60, mas sem “regressivismo” ou coisa parecida. Eram complexas, mas instantaneamente assobiáveis e “grudentas”. Sua guitarra mágica dedilhava as linhas melódicas com precisão, aliando simplicidade e virtuosismo.
   
E havia Morrissey. Suas letras eram o último bastião de sentimentos realmente verdadeiros no mundo do rock. Morrissey cantava amores impossíveis, solidão, desprezo, isolamento – experiências viscerais que ele mesmo tinha enfrentado ao longo de sua vida “à margem”. Ele alterna brilhantemente a abordagem de suas letras – ora fala em um tom irônico (às vezes hilariante) de autodepreciação, ora em versos sentimentais e extremamente líricos. Por isto tudo – a vitalidade musical de Marr e a persona poética de Morrissey – os Smiths soavam desesperadamente reais para uma legião de jovens ingleses que estavam: A) Descontentes com o estado do pop inglês e B) solitários, sem grana, isolados, tal e qual Morrissey. Em resumo: a banda certa, na hora certa.


   
II – “A Inglaterra é minha e me deve um meio de vida”

   
Depois que os Smiths conquistaram o posto de “Single of The Week” no NME com “What Difference Does It Makes”, no começo de 84, a consagração estava a caminho. As primeiras entrevistas de destaque da banda se encarregavam de tornar Morrisey uma das mais notórias personalidades da música inglesa. Ele declarava para quem quisesse ouvir que era virgem (aos 24 anos), nunca tinha usado qualquer tipo de droga, detestava videoclipes e acreditava que os sintetizadores e a música eletrônica deveriam ser “queimados simbolicamente”. Era nessa época que o cantor andava com ramos de flores nos bolsos das calças (que eram atirados ao público, nos shows). Já em 84, antes mesmo de terem um álbum, os Smiths foram votados pelo público do NME como revelação do ano de 83.
   
O lançamento de The Smiths, em fevereiro de 84, foi saudado como “o debut da década”, e daí pra cima. O álbum de estréia continha todos os singles precendentes (“Hand In Glove”, “What Difference...”, a suprema “This Charming Man”) e mais um punhado de maravilhas seletas. Enquanto se encarregavam de varrer as paradas indie, outro álbum já estava no forno, coletando os singles lançados em 84, seus lados-B e algumas músicas do primeiro disco gravadas ao vivo em sessões de rádio. Hatful Of Hollow trazia toda a variedade sonora do quarteto – do pop condensado de “William, it Was Really Nothing” ou “Heaven Knows, I’m Miserable Now” à trip psicodélica de “How Soon is Now” passando por suaves momentos acústicos (“Back To The Old House”, “Please Please Please Let Me Get What I Want”). Nessa época é que os Smiths começaram a tocar por aqui – algumas FMs cariocas menos caretas já incluíam “This Charming Man” na programação.
   
Depois de uma turnê britânica que consolidou de vez o sucesso, viria o “verdadeiro” segundo álbum, Meat Is murder, em fevereiro de 85. Morrissey, um vegetariano militante, concebeu o disco como um apelo à consciência das pessoas sobre a matança de animais e consumo de carne. O álbum representa um passo gigante na evolução musical do quarteto. A banda deixava para trás a fase das “canções curtinhas” e partia para singles mais longos (“The Headmastes Ritual”, onde Morrissey exorcizava de vez os fantasmas de seu tempo de escola) e experimentos sônicos radicais – como na faixa- título, que juntava soturnos urros de animais e pianos descarnados. O ano de 85 veria a consagração definitiva da banda junto aos fãs ingleses, e a conquista do outro lado do Atlântico com uma curta mas concorrida tour nos Estados Unidos.
   
A idolatria à banda - especialmente à figura de Morrissey – atingia pontos de fervor religioso. O vocalista, sempre andrógino e misterioso, reclamava do assédio da imprensa e das distorções a seu respeito: “Ainda estamos em um estágio em que, se eu salvasse um gatinho de se afogar, no dia seguinte diriam: ‘Morrissey molesta cadáveres de gatos’. É ridículo especialmente para mim que levo uma vida praticamente sacerdotal”. Para os fãs, nada era tão importante quanto os Smiths, e as letras de Morrissey eram como testamentos de fé.

III- “Bem no fundo do meu coração, eu realmente quero partir”

   
The Queen Is Dead, o terceiro LP, foi avidamente aguardado durante o primeiro semestre de 86, indo direto para o topo da parada indie. A faixa-título era o mais virulento ataque à monarquia inglesa feito por uma banda de rock. O disco apresenta de típicas canções smithianas (“The Boy With The Thorn In His Side”, “There’s a Ligth That Never Goes Out”) ao romantismo derramado de “I Know It’s Over”, a mais bela canção de amor que Morrissey escreveu – não dedicada a uma mulher, ou a um homem... mas à sua mãe. Ao longo de 86, a banda ainda arrumaria encrenca com os disc-jóqueis de toda a nação, ao bradar “enforquem o DJ” no hit-single “Panic”. Morrissey conta que escreveu a letra quando estava ouvindo rádio uma tarde e anunciaram o acidente nuclear na usina de Chernobyl. Logo após dar a notícia, o DJ emendou na programação com “Wake Me Up Before You Go-Go”, do Wham!!! Resultado da polêmica: os Smiths banidos de pistas de dança e rádio, mas as vendas do single dispararam. (Este single chegou a sair no Brasil, em versão 12 polegadas.)
   
A babação-de-ovo em torno dos meninos de Manchester atingiu um ponto nunca visto na música pop inglesa. Na votação do NME dos melhores de 86, a banda levou o primeiro lugar em melhor banda, álbum, single (“Panic”) e vocalista. “Panic” anda levou o sexto lugar entre os dances singles (!) e Morrissey foi eleito “O ser humano mais maravilhoso do mundo” (!!!). Fevereiro de 87 veria o lançamento de The World Won’t Listen, outra coletânea com os singles que a banda não inclui nos álbuns oficiais (“Panic!, “Ask”, “Shoplifters Of World, Unite”, “Shakespeare’s Sisters”) e seus respectivos lados-B. O álbum teve uma reedição para o mercado americano, desta vez dupla e com o nome de Louder Than Bombs, que incluía o single “Sheila Take A Bow” e algumas versãos diferentes para músicas antigas, como “Back To The Old House” ou “These Things Take Time”.
   
O ritmo estafante e a superexposição da banda acabaria por esgotar os integrantes em 87. Particularmente Johnny Marr, que insistia para que tirassem férias. Para aliviar do clima pesado que ia se formando, Johnny dava suas escapadelas tocando nas horas vagas com várias formações: com Bryan Ferry, Keith Richards, e os Talking Heads. As fofocas em torno do futuro “empresarial” da banda também não ajudavam em nada a situação. Apesar de estarem contentes com a Rough Trade, eram pressionados por todos a buscar um contrato com uma major, e a dupla Morrissey/Marr já sentia que a gravadora era pequena demais para eles.
   
Enquanto gravavam a seqüência para The Queen Is Dead, Marr e Morrisey tiveram uma conversa decisiva. O guitarrista se sentia fisica e mentalmente exausto – não da banda, mas do circo armado em volta dos quatro. Marr manifestou claramente desejo de desistir de tudo, enquanto Morrissey sustentava que eles deveriam terminar o novo álbum e partir com tudo para um novo contrato com a EMI que seria definitivo para que os Smiths virassem uma superbanda. As coisas foram sendo empurradas com a barriga, até que, imediatamente após o disco ficar pronto, Marr viajou para Los Angeles, sem avisar aos outros. Uma semana depois, o guitarrista anunciava sua saída da banda, dizendo que “há coisas que quero fazer, musicalmente, que simplesmente não cabem no projeto dos Smiths”.
   
Morrissey negou veemente que estariam se separando após a saída de Marr. Algumas semanas de indecisão (e comoção nacional) se seguiram, enquano se cogitava o nome de Roddy Frame (Aztec Camera) para o lugar de Marr. Mas, finalmente, no começo de setembro, a Rough Trade anunciava oficialmente o fim do grupo. Morrisey iria seguir solo na EMI. We know it' s over.
   
IV – “E você acha que fez a coisa certa desta vez?”

   
Strangeways, Here We Come foi então o quarto album e o epitáfio dos Smiths. O disco refletia uma clara disposição de seguir novos rumos, com a introdução de sofisticados arranjos de cordas e piano, e incursões pelo rock experimental (“Death of A Disco Dancer”). Mas este ainda não seria o último suspiro dos Smiths em disco, visto que ainda houve Rank (ao vivo) e pelo menos um par de coletâneas póstumas.
   
Os caminhos dos sobreviventes foram tortuosos, Morrissey continuou excercendo sua vocação para a polêmica. Sonoramente, o vocalista tentou a princípio distanciar-se o mais possível do som que fazia com Marr, mas sua tática de achar novos caminhos acabou redundando em álbuns meio desengonçados (Kill Uncle, de 91, é o melhor – ou pior – exemplo disso). Finalmente, a partir de Your Arsenal (92) Morrissey conseguiu achar seu próprio (e muito bom!) som. Johnny andou muito por aí. Depois de largar a banda, ingressou nos Pretenders, mas só excursionou com a banda. Se juntaria com outro “seminal” astro de Manchester – Barney Sumner, do New Order – para formar o ultra-decepcionante duo Eletronic. Marr também gravaria dois álbuns junto com o The The, de seu amigo Matt Johnson. Mike Joyce e Andy Rourke chegaram a tocar com Morrissey de novo, por volta de 1990. Joyce venceu um processo contro Morrissey e Marr a respeito de royalties, e levou cerca de um milhão de libras por pagamentos atrasados (muy amigo!).
   
Hoje... bem, hoje os Smiths são HISTÓRIA, com todas as letras maiúsculas. Com sua combinação de melodias perfeitas, guitarras bem colocadas e vocação pessoal para a polemica os Smiths deram a fórmula perfeita para o nascimento do que hoje é chamado de britpop – a reação dos roqueiros ingleses contra a invasão grunge de 91. É por isso que não há nada de novo, por exemplo, no Suede – desde a bichice de Brett Anderson, copiada da androginia auto-irônica de Morrissey, até o som, descaradamente chupado das melhores coisas que os Smiths fizeram. E é por isso que eles, e mais ninguém, merecem todo o caminhão de elogios que recebem. Os melhores, sim, senhor.
     
 


 
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