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discos básicos: 30 Anos de London Calling
Segunda-feira, 14 de Dezembro de 2009 (3:23:47)

   
Há exatos 30 anos o álbum London Calling foi lançado na Inglaterra – dia 14 de dezembro, não por acaso a data de nascimento do anarquista italiano Errico Malatesta, favorito da corrente política da banda. Se há uma bolacha de vinil que marcou toda uma geração e que teve o poder de não deixar nada como era antes é esse álbum duplo considerado como a obra-prima do Clash.



 


 


30 ANOS DE LONDON CALLING


Por Guto Jimenez
 

Há exatos 30 anos o álbum London Calling foi lançado na Inglaterra – dia 14 de dezembro, não por acaso a data de nascimento do anarquista italiano Errico Malatesta, o teórico favorito da corrente política da banda. Nostradamus também nasceu nesse mesmo dia, alguns séculos atrás, mas nem mesmo ele foi capaz de prever a revolução musical perpetrada pelo trabalho que resultou num disco atemporal, encantador e influente até os dias de hoje. Se há uma bolacha de vinil que marcou toda uma geração, e que teve o poder de não deixar nada como o era antes, é esse álbum duplo considerado como a obra-prima do Clash.
 
 
REVOLUTION ROCK

Hoje em dia, qualquer artista de meia tigela se gaba por fazer um trabalho “eclético”, e que “agrade a todos os ouvidos”; em 1979, o buraco era bem mais embaixo. Esses clichês ainda não estavam tão disseminados há 30 anos, e uma banda que não seguisse um determinado estilo sofria com o rótulo de “sem identidade” que os mais puristas faziam questão de aplicar. O próprio Clash sofrera isso na própria carne ao ser rotulado de “traidor do movimento punk” por conta de seu disco anterior, Give’Em Enough Rope.

O lançamento de London Calling fez do Clash a primeira banda então moderna a ser considerada “eclética” com identidade própria, e se transformou num divisor de águas na história do rock. Quem mais teria moral pra misturar pitadas de punk com reggae, rockabilly, ska, salsa e jazz, numa era em que as tribos não se misturavam e até tretavam sério entre si?! Só mesmo a maior banda de rock de todos os tempos.


 
HATEFUL

Apesar de na época não restarem mais quaisquer dúvidas sobre o talento e o potencial do Clash, os executivos da CBS quase tiveram uma síncope coletiva quando souberam da decisão irrevogável e inegociável da banda: lançar um álbum duplo pelo preço de um simples.  Eles já haviam gasto muito mais do que imaginavam ao concordarem em produzir o disco anterior nos EUA, e não estavam dispostos a ceder nem um pouco na resolução de impor uma condição bem sádica. Se a banda insistisse, teria de bancar do próprio bolso; crentes que estavam lidando com alguma banda burguezinha qualquer, imaginavam que o grupo iria amarelar por causa do $$...

Tadinhos. Pensavam que a iniciativa seria um tiro no pé... O Clash bancou a iniciativa, dividindo os custos com a gravadora e aceitando receber royalties de um LP simples. A banda mirou no que viu e acertou no que não viu – e acabou, isso sim, mudando a história da música dali em diante. E o álbum atingiu o disco de ouro na ilha antes mesmo do final daquele ano, meros 17 dias após o seu lançamento.
 

THE CARD CHEAT
 
Os tais executivos deviam pensar que todo punk era um idiota completo como o Sid Vicious. Veja você: primeiro, fizeram o maior doce pra aceitarem as exigências de produção e vendas do disco imposta pela banda. Só concordaram mediante a condição de que o tal segundo vinil seria somente um mega-single, de iguais 12 polegadas a ser tocado em 33 1/3 rpm, numa forma “malandra” de satisfazer a banda e não aumentar muito os custos de produção.

Mas como malandro é o cavalo marinho, que vive embaixo d’água e não carrega peso, os caras se estreparam em tiras transversais de vermelho, branco e azul. O tal segundo vinil acabou virando os lados 3 e 4 do disco, contendo nada menos que nove músicas a mais. E assim, a vontade da banda acabou sendo feita apesar das tentativas cômicas & trágicas de levarem dos patrões uma pernada...
 


TRAIN IN VAIN

Anos antes, o Clash havia declarado numa música: “chega de Elvis, Beatles e Rolling Stones em 1977”. Ironicamente, se inspiraram na capa do disco de estreia do Rei do Rock pra capa do seu terceiro LP, a despeito de serem artistas de uma outra gravadora. Muitos dizem que foi de propósito, pois Strummer jamais tinha se esquecido da decisão dos “poderosos” em relação ao primeiro single da banda – eles queriam “Remote Control” - e a CBS lançou “White Riot”.

O disco começava a ser clássico pela própria capa, com a célebre foto de Paul Simonon destruindo seu baixo num show em NYC. A fotógrafa Pennie Smith não queria que a imagem fosse usada de jeito nenhum, pois achava que a foto estava fora de foco demais pra servir de capa de disco, mas ela teve de se conformar: Strummer cismou que aquela seria A foto. E quando ele cismava, não iria mudar de ideia nem se o mundo acabasse ou se lhe arrancassem os braços e pernas; Strummer podia ser gente boa e tudo o mais, porém era notoriamente mais intransigente do que uma mula empacada no deserto que imaginasse estar se afogando... 
 


THE RIGHT PROFILE

Não há como negar: London Calling jamais teria sido o disco que é se não fosse pelo produtor Guy Stevens. Após a banda ter rompido com Bernie Rhodes, que insistia que o “filão do punk rock” ainda merecia ser explorado a despeito do que o Clash queria pra sua carreira, eles mesmos escolheram o porralouca Stevens pra ser produtor do disco. E essa opção se mostrou a mais acertada de todas.

Sem trocadilhos – Guy era O cara mesmo. Poucos o viam ingerir algo muito mais saudável do que bebidas e drogas enquanto trabalhava, sem falar que ele tinha um método bem próprio, inusitado e eficiente pra “extrair dos artistas aquilo que eles tinham de melhor”, por assim dizer. Ele acreditava que o trabalho de um produtor era “maximizar a emoção e o sentimento que um artista precisava exteriorizar”, e não impunha limites pra alcançar os seus objetivos. Pra chacoalhar as estruturas, ele não media esforços e levava o seu método de “injeção direta” às últimas consequências, principalmente as de intervenções físicas: dava empurrões e jogava os artistas ao chão, batia neles à base de cadeiradas e socos, discutia asperamente sempre que tinha chance... Sabe-se lá como, funcionou que foi uma maravilha com Strummer e Jones – afinal, o álbum levou menos de seis semanas pra ficar pronto!

A CBS teve de engolir o produtor com muito desgosto, naquilo que foi apenas mais um round no sempre tumultuado relacionamento da banda com o selo.  E o desgosto tomou ares de ojeriza quando o chefão da gravadora no Reino Unido, Maurice Oberstein, teve a ‘brilhante” idéia de ir até o estúdio pra “dar um confere” nas gravações. O caldo começou a entornar quando o executivo soube pela banda em primeira mão da intenção de vender um álbum duplo pelo preço de um simples – mas não ficou só nisso. Pra convencer de vez o chefão de que cortar qualquer música no álbum seria um crime de lesa-pátria, Guy deitou-se no asfalto entre os eixos do carro de Oberstein; pra qualquer lado que ele tentasse ir, esmagaria o crânio do tresloucado produtor. A equipe do estúdio teve de bater (e apanhar) um bocado até conseguir tirar o cara debaixo do carrão do magnata, que algum tempo depois admitiu que aquela atitude de Stephens foi decisiva pra que ele comprasse o barulho da banda junto aos executivos da gravadora. Afinal, se alguém estaria disposto a se matar pelo disco, é sinal de que o trabalho seria mais do que especial mesmo.
 


DEATH OR GLORY

London Calling é tão espetacular que acumulou inúmeras honrarias ao longo dos anos:

 - a revista Rolling Stone elegeu em 1989 o álbum como o primeiro na lista de “100 melhores álbuns dos anos 80”, a despeito de ter sido lançado em 1979;

- já a NME colocou o disco como o sexto melhor da década de 70, em 1993;

- a Melody Maker o colocou no topo da lista dos “álbuns que não se pode deixar de ter”, em 1980, no mesmo ano em que a Stereo Review o declarou “álbum do ano”;

- 1999 foi um ano generoso em honrarias pro LP: topo da lista de “100 álbuns essenciais do século 20” pela revista Vibe; quarto lugar na lista de “melhores álbuns britânicos” da revista Q;

- em 2001, a capa foi eleita a nona melhor de todos os tempos pela Q, e no mesmo ano, a Alternative Press o incluiu no topo da lista dos “Álbuns essenciais dos anos 80”;

- a Q também elegeu a foto da capa como “a melhor foto de rock de todos os tempos” no ano seguinte, incluindo o trabalho na lista de “100 melhores álbuns de punk rock”;

- a revista Spin elegeu como um dos “10 álbuns essenciais para se entender o rock do século 20”- e, malandros, listaram os trabalhos por ordem alfabética e não por ordem de preferência;

- até a Playboy (!) rendeu-se à obra-prima do Clash, fez uma enquete com 10 críticos consagrados mundialmente e elegeu-o como “o melhor álbum de rock do século 20”;

- nem mesmo o ultra-indie e respeitadíssimo zine Maximum Rock’n’Roll ficou indiferente ao play, colocando-o na lista de “álbuns essenciais do indie rock”, sendo o único trabalho lançado por uma major a fazer parte do rol.

Nenhuma das honrarias, porém, consegue ser maior do que um fato consumado à época: o álbum conseguiu a unanimidade em resenhas positivas das críticas feitas por veículos europeus e norte-americanos, algo que nem os Beatles haviam conseguido nos seus melhores dias. Se há os que dizem que “toda unanimidade é burra”, é porque desconhecem o quão raramente isso pode ocorrer no meio jornalístico musical. Nem as diferenças culturais entre os povos dos dois lados do Atlântico, e nem o próprio oceano que os separa, conseguiram esconder a genialidade do trabalho.
 

FOUR HORSEMEN

Se alguém ainda questionava a capacidade lírica de Strummer, mordeu a língua depois desse álbum. O cara estava impossível, achando inspiração em tudo ao seu redor pra transformar em algumas das letras mais inspiradas da história do grupo. Do acidente nuclear em Three Mile Island, naquele mesmo ano, à guerra civil espanhola (“London Calling” e “Spanish Bombs”); de imaginárias reminiscências infantis à revisão da própria existência até então (“Lost in the supermarket” e “Death or glory”); da conclamação da juventude pra lutar contra o sistema à saga de um homem que jamais amadurecia (“Clampdown” e “Rudie can’t fail”) – tudo servia de um tema pro desenvolvimento de rimas tão politizadas e energéticas.

Toda a diversidade de temas nas letras de Strummer encontrou seus pares perfeitos nos arranjos de Mick Jones. Ele sempre havia sido o melhor músico entre os quatro membros da banda, e o único que havia saído de uma escola de música durante a fase de efervescência punk do grupo. Os arranjos feitos por ele vieram recheados de pressão por todos os lados; eles eram “traidores do punk”, não se esqueça, e havia ainda a mítica “dúvida do 3º disco” pairando no ar. O álbum de estreia havia sido a pura explosão juvenil punk, e o segundo havia pego algumas sobras e incluído composições novas. Mas em London Calling, Jones havia saído do zero mesmo e o álbum formou o auge da parceria entre ambos. Ele se sentiu tão à vontade como arranjador que foi o escolhido pra fazer a voz em “Train In Vain”, a música que elevou o Clash ao estrelato nos EUA. Curiosamente, essa música não constava nem da listagem e nem do rótulo da edição inglesa do disco, sendo a “faixa secreta” do disco.

A sonoridade do Clash jamais teria sido a mesma sem o baixão “preguiçoso” de Paul Simonon. O bonitão da banda havia tocado de maneira bem econômica em “The Clash”, pelo simples fato de não ser capaz de tocar o seu baixo na mesma velocidade das guitarras... Já no álbum seguinte, Simonon havia mostrado franca evolução, e neste daqui chegou até a incluir uma composição própria que também teve o seu registro de voz, “The Guns of Brixton”. Não se sabe se a o ritmo desacelerado do cara em relação aos demais era devido à quantidade “industrial” de maconha que ele fumava,

Por último, Nick “Topper” Headon finalmente parece que havia aprendido a “soltar a munheca”, no jargão dos bateristas. Das duas ou três levadas do álbum de estreia, o carinha havia conseguido progredir um bocado e, nas gravações do terceiro álbum, mostrou competência e versatilidade que não haviam sido vistas nele anteriormente. Talvez pelo fato de Headon ter-se mantido sóbrio, sendo ele um contumaz e ávido consumidor de heroína, talvez por medo dos esporros e surras do tresloucado produtor Guy Stevens – London Calling é o auge do baterista durante seu período no Clash.
 

THE GUNS OF BRIXTON

Como já observado acima, Paul Simonon compôs e fez a voz da faixa no disco, um reggae pulsante e que convidava a chacoalhar o esqueleto. Também não é novidade da paixão do cara pela “brenfa”, fumada em doses cavalares. Ele sempre foi a “voz negra” da banda, o cara que sugeriu que gravassem a versão da banda pra “Police and Thieves” logo no álbum de estreia.

O que não se sabia na época, e que foi revelado apenas recentemente, é que a música foi composta num período de “fissura” do cara, em que a cannabis havia ficado muito difícil de se conseguir. As constantes idas a Amsterdam não estavam dando o efeito desejado, e Simonon resolveu botar pra fora os seus sentimentos numa noite chuvosa e fria na escuridão londrina – trancado no seu ap em Brixton. O único fato atenuante foi o de que o cara havia aprendido a tocar guitarra, e inclusive incluiu na mixagem um riff em eco que explode ao fundo do solo de seu baixo.

Isso explica a paranoia explícita nas letras, a linha de baixo potente e hipnótica ao mesmo tempo, a voz rascante e grave no cantarolar. Talvez explique também o fato de, entre todas as músicas do Clash, essa tenha sido a mais homenageada em versões, gravadas por gente como Arcade Fire, Dropkick Murphys, Rancid, Nouvelle Vague, Die Toten Hosen, The Libertines, Santogold e inúmeros outros. Da mesma forma, foi também a música da banda mais chupada em samples em todos os tempos, sendo a versão mais célebre feita pelo Cypress Hill em “What’s your number?”.

O próprio Clash fez duas versões da música: uma delas foi um trecho cantado por uma menina no final de “Broadway”, no álbum seguinte “Sandinista!”; outra, um EP intitulado “Return to Brixton” com três versões mixadas da canção e mais a original; e mais uma no álbum ao vivo “From Here to Eternity Live” – essa última, um pouco mais acelerada.


 


LOST IN THE SUPERMARKET


Era óbvio que o 30º aniversário de um álbum seminal como esse não iria passar batido nos tempos atuais de marketing exacerbado. Sai hoje uma edição especial chamada “30th Anniversary Legacy Edition”, contendo todas as faixas originais remasterizadas digitalmente, e mais alguns bônus imperdíveis: os clipes de “London Calling”, “Train In Vain” e “Clampdown”; o dvd “The Last Testament: The Making of London Calling”, dirigido pelo legendário DJ e documentarista Don Letts; e por último, “filmagens caseiras da gravação do disco nos Wessex Studios”.

 

Disc: 1
1. London Calling - Album Version
2. Brand New Cadillac - Album Version
3. Jimmy Jazz - Album Version
4. Hateful
5. Rudie Can't Fail - Album Version
6. Spanish Bombs - Album Version
7. The Right Profile - Album Version
8. Lost In The Supermarket - Album Version
9. Clampdown - Album Version
10. The Guns Of Brixton - Album Version
11. Wrong 'Em Boyo - Album Version
12. Death Or Glory - Album Version
13. Koka Kola - Album Version
14. The Card Cheat - Album Version
15. Lover's Rock - Album Version
16. Four Horsemen - Album Version
17. I'm Not Down - Album Version
18. Revolution Rock - Album Version
19. Train In Vain - Album Version

Disc: 2
1. The Last Testament - The Making Of London Calling - Part 1
2. The Last Testament - The Making Of London Calling - Part 2
3. Home Video Footage Of The Clash Recording London Calling In Wessex Studios
4. Clampdown - Video (Live)
5. Train In Vain - Video (Live)
6. London Calling – Video
 

 



 


 
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