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Entrevistas: O Garfo
Domingo, 22 de Novembro de 2009 (22:48:05)



O atual momento da moderna música instrumental nacional é composto na sua essência por duas características: jovialidade e inteligência. Com os dois pontos o trio cearense O Garfo se escora com precisão, diversidade e constância artística. Sua sonoridade é um retalho, precioso e variado, reunindo elementos avant-garde de música eletrônica, industrial, krautrock e post-rock.









+ entrevista

O GARFO



Por Jesuino Oliveira  
Fotos Natalia Kataoka e Renato Reis


Um mosaico saboroso distante de uma salada insípida. Recentemente, O Garfo lançou seu segundo EP, chamado "Epizod", com cinco faixas pelo conceituado selo carioca Midsummer Madness. Talento reconhecido que já proporcionou shows e presença em alguns festivais por outras cidades do país.


O grupo é formado pelo baterista João Victor, o baixista Felipe Gurgel e o guitarrista Vitor Colares, que são músicos escolados, vindos de outras bandas em Fortaleza.


Numa breve folga batemos um papo exclusivo via internet com o Felipe e o Vitor, que você pode conferir agora!



Quando surgiu a idéia de fazer uma banda de rock instrumental?

Vitor - Foi quase sem querer... Quase.
 
Felipe - É, foi no começo de 2007. A idéia era com o tempo chamar alguém pra cantar. Mas não aconteceu. O João Victor (baterista) é vocalista, mas a voz dele era conhecida por aqui pelo que ele fez com o 2Fuzz. E chamar alguém "por chamar" ninguém queria.



Explica o sentido do nome da banda.

Vitor – Bom, é muito mais pela sonoridade do que por algo realmente a ver com o significado (literal) da palavra, sabe? É sonoro, é forte, achamos que realmente tem a ver... Eu acho inusitado pelo menos, na pior das hipóteses (risos).
 


O disco é bem produzido e agradável, causando boa repercussão. O que influencia no som da banda? Quais as referências da banda?
 
Vitor - Nós escutamos muitas coisas variadas... Posso citar certos pontos em comum, que passam por Radiohead, NIN, Queens of the Stone Age, Tool, Nação Zumbi... Tem coisas mais novas como Hot Chip, Goose... O Talking Heads influenciou completamente a gente, mesmo que não saibamos ainda o tanto (risos), Joy Division, Led Zeppelin, Kraftwerk e por ai vai...
 
Felipe - Percebe que no release d`O Garfo a gente brinca com alguns rótulos, mas não cita banda nenhuma como referência. Eu gosto de não pensar em nada quando estou criando algo. Não que eu acredite no mito da originalidade, mas sou a favor da gente ouvir música pensando menos na forma e com os braços descruzados. Além disso, é interessante não entregar de bandeja quais são as referências do Garfo logo no release - a peça promocional que mais circula se tratando de uma banda como nós.
 


Há mais bandas instrumentais na mesma linha que vocês no Ceará?

Vitor - Bom, que eu tenha conhecimento não (risos). Mas Fortaleza tem um bom número e está num bom momento de bandas instrumentais, só eu ainda toco mais em duas: o Fóssil e o Meu Amigo Imaginarium, onde sou convidado... Mas na linha do Garfo nenhuma das duas é, na verdade. Elas não se parecem muito. Não existe uma "cena", ainda bem!
 
Felipe - É uma situação normal para quem não é da banda, mas até hoje eu acho estranho O Garfo numa programação dedicada ao instrumental. A gente não necessariamente fica bandeirando isso, até porque temos uma referência maior de música vocal mesmo.  Olha as bandas que o Vitor lembrou na outra pergunta. E tira a voz (risos).
 


O que vocês acham desse atual mercado independente onde baixar musica gratuitamente pela Internet virou dilema?
 
Vitor - Você já disse tudo, é um dilema... Porque existe este mercado, de baixar músicas, é legal e funciona bem mesmo, tem todas aquelas vantagens... Mas tenho que dizer que acho utopia também citar o Radiohead como exemplo sempre. É outro mundo. Este mercado funciona legal, mas funcionará bem melhor quando a relação fã-artista tiver menos intermediários e mais respeito de um para com o outro. As bandas precisam enxergar melhor o fã. Ele num pode ser mais visto como uma carteira com vinte reais dentro, porque mesmo um grande fã de música só deixa de baixar um disco de graça e vai comprar na loja quando o material for interessante. E o interesse dele vem pelo respeito que ele sente que o artista teve com ele, quando foi fazer aquele material... Se for meia boca, ele baixa e pronto, sem arrependimentos... Mas um material bem feito pede respeito, e este respeito gera interesse, que gera respeito recíproco e melhora a sintonia. A lição que o Radiohead está dando num foi uma idéia magnífica que eles tiveram dois anos atrás. Não, de forma alguma. Desde o Ok Computer eles nos pedem respeito, não? Depois de respeito e algum lugar ao sol conquistados, aí sim você pode pedir pra pagarem o quanto quiser pelo seu trabalho.
 
Felipe - Tudo isso que o Vitor falou sobre o mercado de download cabe, em outra perspectiva, para aquela famosa discussão da prosperidade (ou não) das "cenas". Ninguém pode analisar sem um choque de realidade e sem mensurar o tamanho da diferença que é trabalhar promoção musical aqui, no nosso quintal, e lá, no quintal deles.



Por que fazer música? O que isso significa para cada um de vocês?
 
Felipe - Eu já li o Alex Antunes dizendo que música é uma lembrança de outras dimensões. Não é que toda a banda acredite nisso, mas particularmente acho que faz sentido. No mais, eles (Vitor e João Victor) teriam que responder por eles o que isso significa. Levando para a prática, creio que fazer música - o ato em si - é pensar a favor dela. Você só põe um solo elaborado numa canção se ela pedir, se for para atender o seu ego - melhor não pôr. É por aí.
 


Qual a ambição de O Garfo?
 
Felipe - Trabalhar com música. Independente de ser banda ou "projeto", fazer as coisas direito. A gente lança alguns choques de realidade entre nós, nas nossas conversas, e isso é sempre interessante pra manter esse norte.
 


É difícil ser uma banda instrumental num país que pouco valoriza esse tipo de música. Como vocês analisam isso?
 

Felipe - Cara, se você pensar só a relação direta artista-público vai ser difícil por muito tempo ainda. Uma banda instrumental tem algumas possibilidades que normalmente um grupo vocal não tem. Você pode inserir uma música sua em trilhas de projetos audiovisuais - inclusive de publicidade e propaganda, na perspectiva de ganhar dinheiro. Não que seja um mercado que "esteja aí para todo mundo", mas é só um exemplo. Tem coisa que o campo é mais simpático para o instrumental. Particularmente, eu não espero que as pessoas tenham uma relação básica com a banda e pronto. Formar um fã clube e ficar por isso não é o foco principal, por mais que público seja sempre bem vindo - viabilize a banda em termos de mercado, etc. É interessante você perceber que a banda seja "pertinente" além dos palcos. Se não, cai nesse lamento e nessa peleja comum da "dificuldade de ser instrumental".
 


Vocês já tocaram em várias cidades pelo país. Como é enfrentar essa estrada tocando para públicos de diferentes regiões, costumes, cultura etc?

Felipe - É uma experiência boa, generalizando. Prazeroso, porém cansativo, a depender do pique da turnê. A última que fizemos teve 6 shows em 8 dias - foi muito puxada. Viajamos com a Nuda (PE) e com o pessoal do Pegada, um coletivo de BH (MG). Eu vinha falando disso em outra entrevista... Quando você não é uma referência consolidada no mercado, paga algum preço para entrar nessa vida. Topando/articulando uma tour, alguém está sempre perdendo algum compromisso de trabalho na cidade de origem e outros compromissos afins. Por outro lado, é uma prova dos nove para o músico entender se pretende tornar aquele grupo profissional, ou trabalhar com música no estúdio ou em outras áreas. Para O Garfo é pesado no sentido de que normalmente temos vários trabalhos em Fortaleza. É flexível porque somos free lancer, se não nem dava pra estender tour alguma. Tenho lembranças ótimas de bons shows que fizemos, de retorno intenso, sobretudo Goiânia (Grito Rock) e Belém (Se Rasgum). Não curto muito contar vantagem em números, acho que nosso "trunfo" não é por aí, mas já estivemos em 9 cidades tocando (Natal, João Pessoa, Brasília, Goiânia, Cuiabá, Belém, Uberlândia, Belo Horizonte e Montes Claros). Recife é a décima agora, além de Fortaleza.
 


Muito se comenta e se discute sobre a existência de um mercado musical independente nacional. O que pensam a respeito?

Felipe - Cara, a gente tem um momento político muito forte nesse circuito. Recentemente, podemos até sintetizar isso nas movimentações em torno da Rede Música Brasil. Mas queria responder essa pergunta por outro viés. Algo que tem definido essa relação não é tão perceptível: o público mudou bastante a forma de consumir música, e não só a maneira de ouvir em casa ou no carro, mas o modo como se encara um show. As pessoas estão trocando a "experiência" de assistir a performance pela necessidade de registrar, participar daquele momento filmando de um celular, tirando foto, etc. O show perde um pouco - eu disse que perde, não que "perdeu" totalmente - o sentido de ser uma troca de experiência entre o artista e o público. Eu sou jornalista, já trabalhei em jornal fazendo cobertura de show, e sei bem que não é a mesma coisa você estar ali anotando/registrando o que acontece na hora ao invés de estar desarmado disso, "permitindo" se envolver na apresentação. Hoje é como se tivéssemos uma ampla cobertura informal. Aquilo vai para o You Tube e as bandas são reveladas de todo jeito, não se "guarda segredo" algum sobre o que é aquilo ao vivo. Então acho bom os músicos ficarem com as anteninhas em pé em relação a isso, porque senão daqui a pouco teremos várias "viúvas" dos palcos lamentando a decadência das apresentações tradicionais sem entender exatamente porque o público se desinteressou. E é bom frisar que não estou demonizando a tecnologia por isso, sou muito nerd até. Nem dizendo que o modelo anterior da indústria - sem as mídias digitais tão fortalecidas - era melhor. É muito mais legal ter uma banda hoje em dia do que há 10 anos. Só é bom discutir que uso estamos fazendo de tudo isso que é novo. E perceber que, diante dessa nova perspectiva de se expor, o nosso desafio artístico é bem mais complicado.    



ogarfotrio@gmail.com

myspace.com/ogarfo

twitter.com/ogarfo


Link para baixar o EP: http://mmrecords.com.br/200909/o-garfo/






 
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