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Shows: Indie Rock Festival, Rio
Segunda-feira, 16 de Novembro de 2009 (2:05:31)



Era uma sexta-feira 13 mas o bom público que compareceu à Fundição Progresso não teve motivos para se queixar de azar. Holger, El Mato A Un Polizia Motorizado, Super Furry Animals e Gogol Bordello proporcionaram energia, carisma e diversão – sorte de quem foi.












INDIE ROCK FESTIVAL
Fundição Progresso, Rio de Janeiro
13/11/2009

 


Texto Marco Homobono
Fotos Michael Meneses




A noite quente na Lapa do dia 13 de novembro (sexta-feira, é melhor que se diga) teve uma belíssima e empolgante trilha sonora, executada na arena da Fundição Progresso. O Indie Festival acabou trazendo quatro bandas para o Rio de Janeiro, Holger de São Paulo, El Mato a un Policia Motorizado, de Buenos Aires, Super Furry Animals, do País de Gales, e Gogol Bordello (de que país - ou países - veio essa banda?).

   
Tocando para uma arena que ia se enchendo aos poucos, os paulistas do HOLGER deram o start da noite.  Os cinco rapazes seguem uma linha estética muito parecida com o Ecos Falsos, também de São Paulo, ou seja, são quase uma boy band indie. A banda é queridinha do blogueiro e hypeiro Lúcio Ribeiro, o que pode tanto sobressaltar quanto atrair a audiência. Minihypes à parte, o que se vê no palco é um som vigoroso, entusiasmado e para cima. Eles encontraram uma fórmula interessante de cantarem suas músicas quase que em uníssono, e o resultado disso é uma espécie de catarse que, crê-se, dificilmente não transborda para o público atento. O Holger pula no palco, troca de instrumentos entre si (o baterista chega a tocar guitarra e bumbo ao mesmo tempo), banham-se de cerveja, fogem para a platéia e enchem a bola da cidade anfitriã com um "temos inveja de vocês, cariocas!". Você pode captar ecos do novo rock que The Rapture, Franz Ferdinand e Friendly Fires perpetram hoje, ainda mais nos timbres secos das guitarras bem anos 80.
   

O EL MATO A UN POLICIA MOTORIZADO veio em seguida trazendo um lado mais canção para a noite. Com duas guitarras, baixo, bateria e teclado (novamente um quinteto) os portenhos tem um lado grunge, shoegaze e ao mesmo tempo combativo, visto que seu vocalista, uma espécie de filho bastardo de Diego Maradona (na sua fase como técnico da seleção argentina), tem uma voz soul potente e comovente e comete uma espécie de "vingança dos feios" no palco. Em seu perfil no MySpace, eles elencam influências tão diversas como Ramones e AC-DC, Guided by Voices e Metallica, mas o que se vê na maior parte do tempo, são canções eletrificadas. Eram desconhecidos do público carioca, mas passaram batidos por isso, visto que uma caravana de hermanos argentinos fizeram uma claque muito digna, cantando junto com a banda, pedindo músicas e gritando frases desconexas para ostentarem suas nacionalidades.
   

Sem muitas demoras – aliás, todas as trocas de palco ocorreram com relativa rapidez, dando tempo suficiente para tomar aquele fôlego, descansar um pouco e beber doses de energético ou álcool - o SUPER FURRY ANIMALS entrou em cena com seu vocalista, Gruff Rhys, portando placas no melhor estilo Bob Dylan pedindo aplausos (como se precisasse), agradecendo e incitando a turba a gritar "uau!!!". Ao vivo, o som dos galeses soa muito mais orgânico e gordo do que nas gravações. "Crazy Naked Girls", que abre o seu último disco, por exemplo, fica mais furiosa e rockeira. Na maior parte do tempo, a banda lança mão de faixas pré-gravadas, blips e blops e um arsenal de vocoders e sintetizadores. Isso os aproxima um pouco da psicodelia dos Flaming Lips, ainda mais quando o orgânico e o sintético se encontram nas baladas pulsantes que fizeram os casais dançarem suavemente em sincronia com o bumbo.


Em alguns momentos, os bichinhos peludos tem canções com melodias sinuosas que desafiam um pouco a métrica quadrada do rock, como é o caso da animada "The Very Best Of Neil Diamond". Houve ainda a participação especial pré-gravada de Nick McCarthy, do Franz Ferdinand (quase um sósia de Ian Curtis, do Joy Division), cuja estampa apareceu num outro cartaz enorme usado por Gruff, em "Inaugural Trams". A melhor música os caras deixaram para o final. "The Man Don't Give a Fuck", o controverso single do século passado. Ultradançante e devastadora com sua frase "You know they don't give a fuck about anybody else" repetida hipnoticamente, colocou todo mundo para dançar e foi o ensejo para Gruff mostrar o cartaz com "whoa" para todos gritarem a plenos pulmões. Nem precisava.
   

Quase duas da manhã, o transnacional e multicultural GOGOL BORDELLO, o mais esperado da noite, chega fazendo tudo explodir. Respaldado pela sua apresentação no Tim Festival do ano passado, e pela intimidade de seu vocalista Eugene Hutz com o Brasil, onde morou por mais de um ano, mais especificamente no bairro de Santa Teresa, no Rio, a banda entrou já consagrada. O que viria dali em seguida seria uma grande festa.


A influência no Gogol de Manu Chao, e consequentemente sua banda no passado, o Mano Negra (de quem o Gogol tocou o hit "Malavida"), está lá bem nítida para quem quiser ver. Ao vivo, Eugene e seus asseclas vindos de todos os continentes do planeta, mostram ter aprendido muito bem a lição que a banda francesa dava nos palcos. É bom deixar claro que não se trata de uma imitação, até porque o Gogol abre mais para a música vinda dos balcãs e traz um acordeão e violino no line-up, dando uma cara cigana à sonoridade punk, que serve de base para seu estilo.


A voz de Eugene é rascante e nada suave, não dá muito espaço para sutilezas. O negócio aqui é atividade aeróbica e não se sabe quem segue quem, se a banda segue o público ou o público segue a banda. Tudo vira um emaranhado de pulos, gritos e pogo, costurado freneticamente pela cozinha hardcore. Duas dançarinas entram em cena e servem mais como um recurso visual, com coreografias, gestos, caras e bocas, do que propriamente musical.


Se tudo já estava pegando fogo, falta pouco para uma combustão espontânea. A proximidade com o povo tupiniquim fez com que no primeiro bis, Eugene voltasse acompanhado por uma família cigana brasileira, com quem iria cantar "Frevo Mulher", sucesso na voz de Amelinha e hit das festas juninas, com seu riff clássico de acordeão e o saltitante "Pagode Russo", de Luiz Gonzaga, com muita intimidade da parte do líder do Gogol. Nada muito estranho nem ao Gogol nem ao público saia balinesa e chinelo de dedo que frequenta a Lapa. No último número da noite, os demais integrantes da banda voltaram para a explosão final. Cinco da manhã. Que diferença isso faz?




Texto Luciano Cirne
Fotos Michael Meneses


Quatro bandas se apresentaram e quem iniciou os trabalhos foram os paulistas do HOLGER. Eu confesso que conhecia somente “The Auction”, cujo clipe passa às vezes na MTV, e tive uma bela surpresa. Misturando elementos de grupos como Flaming Lips, New Order e Pavement, fazem um som bastante alto astral, que se reflete no andamento da apresentação. Muito simpáticos, os rapazes do quinteto tem uma presença de palco impressionante e fazem de tudo para chamar a atenção: jogam cerveja uns nos outros, se ajoelham e fingem estar idolatrando o baterista, vão para o meio da galera para que todos pulem e cantem juntos etc., o que por um breve instante fez o ranzinza que vos escreve até pensar que eles pareciam mais interessados em fazer macaquice do que em tocar, mas essa impressão logo se desfez. É nítido que todos ali são sinceros em sua alegria e que o objetivo maior deles é fazer todo mundo se divertir - e conseguem isso com louvor. O segundo melhor show da noite.


Após um breve intervalo, entraram em cena os argentinos do EL MATO A UN POLIZIA MOTORIZADO. Para meu espanto, um grupinho até razoável (considerando que a casa ainda estava enchendo quando eles começaram a tocar) sabia cantar todas as músicas e as gritava a plenos pulmões. Muito se disse em jornais e revistas que eles faziam um som rotulado como ”kraut rock campestre” e até acho que isso tem lá sua razão de ser, mas para facilitar a vida de todos, eu descreveria a banda como um mix entre Sonic Youth e Les Thugs, com uma pitadinha de Swervedriver bem de leve para dar o toque final.
O capricho de suas músicas é uma coisa impressionante, passa a impressão de que cada segundo foi milimetricamente estudado, porém se por um lado eles compõem como poucos, o mesmo não se pode dizer de sua apresentação: todos ali são meio duros, em especial um dos guitarristas, que mais parecia um robô.


Toda a energia e descontração que sobrou no show do Holger faltou no deles, tanto que o momento em que o público mais pulou foi quando, perto do final da apresentação, chamaram o quinteto paulista ao palco. Os rapazes agiram durante toda a música meio que como animadores, convocando todos a pularem e conseguiram uma boa receptividade, mas o saldo final foi apenas razoável. Se por um lado a galera indie mais xiita curtiu bastante, especialmente quando eles mandavam sessões de free noise recheadas de microfonias à la Thurston Moore, por outro o resto do público pareceu meio desinteressado, limitando-se a aplaudir educadamente ao final das canções.


 



























Um cidadão de cabelo desgrenhado, barba e carregando um monte de pedaços de papelão adentrou o palco. Não, não era um mendigo, mas sim Gruff Rhys, o simpático vocalista do SUPER FURRY ANIMALS. Os caras bem que tentaram, procuraram de todas as formas criar um canal de comunicação para interagir mais facilmente com a galera (os tais papelões nada mais eram que placas que, quando Rhys levantava, dizia a todos o que queria, tipo “Aplausos”, “Gritos”, ou que ele usava para agradecer), sinceramente achei que a coisa não rolou.


Além de terem tido o pior som da noite disparado (vocal abafado; instrumentos um pouco embolados e guitarra estridente demais, principalmente no início), ainda fizeram um set curto que pegou desprevenida boa parte dos presentes: quando a coisa parecia que ia engrenar, o vocalista colocou uma placa na frente da bateria escrito FIM e deixou muita gente na saudade. As pessoas que viram também o show de 2005 se decepcionaram bastante com esta apresentação, mas os fãs mais radicais não deram a mínima, cantaram junto “The Very Best of Neil Diamond”, “Hello Sunshine” e outras, ainda que tenham sentido falta de sons de discos mais antigos.


SET LIST

Slow Life
(Drawing) Rings Around The World
Golden Retriever
Inaugural Trams
Zoom!
Mt.
The Very Best Of Neil Diamond
White Socks/Flip Flops
Juxtapozed With U
Hello Sunshine
Crazy Naked Girls
The Man Don't Give A Fuck


 




 



Algum tempo depois, o GOGOL BORDELLO finalmente adentra o palco e o que rolou nas quase duas horas foi algo indescritível.  Eugene Hutz e seus asseclas, além de donos de um carisma incomum, também têm um vigor absurdo, não param quietos um segundo e se divertem horrores, o que reflete no público: eu não me lembro de ter visto outro show em que TODOS pularam e dançaram sem parar daquela forma.


Começaram os trabalhos com “Ultimate”, do álbum mais recente, Super Taranta e, daí em diante, foram emendando “Not A Crime”, “Wonderlust King”, “Tribal Connection”, uma atrás da outra, sem dar tempo de ninguém respirar. Show encerrado, a galera não arredou pé e, aos gritos em uníssono de “Olê, olê, olê, Gogol, Gogol” (tudo bem, não rima, mas que ficou simpático, ficou), Eugene voltou e aí ficou nítida mais outra grande virtude da banda: a capacidade de quebrar barreiras. Eles não têm o menor temor em ousar, cabe tudo em seu imenso caldeirão sonoro.


Quem mais seria capaz de fazer o povo indie pular e cantar tão animadamente “Frevo Mulher”, do Zé Ramalho, ou “Pagode Russo”, do Luiz Gonzaga? Só mesmo o Gogol Bordello, contando com o auxílio de um conjunto de ciganos do Rio de Janeiro, tornando a Fundição Progresso um imenso baile que parecia não ter hora para acabar - mas infelizmente teve, lá pelas quatro e meia da manhã, apesar dos insistentes pedidos para mais um bis (se dependesse do público, acho que eles estariam tocando até agora).


Missão cumprida, todos saíram satisfeitos e a síntese perfeita do que aconteceu ali foi proporcionada por um rapaz que passou próximo a mim, comentando com um amigo: “Todos seriam mais felizes se vissem pelo menos um show deles na vida”. Assino embaixo.


SET LIST

Intro
Ultimate
Sally
Not A Crime
Wonderlust King
Tribal Connection
Immigraniada
60 Revolutions
Through The Roof
Mishto
Uma Menina
Lela Palatute
Start Wearing Purple
Think Localy
-----------------------
Alcohol
Frevo Mulher
Pagode Russo
Mala Vida
Baro Foro






 
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