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Entrevistas: Cascadura
Domingo, 8 de Novembro de 2009 (0:08:36)



Cascadura é atualmente o nome baiano com maior expressão no cenário rock independente nacional. Quase duas décadas de existência, quatro discos lançados e inúmeros shows espalhados pelo país. No começo chamava-se Dr Cascadura, simplificando o nome, uma espécie de alter-ego de Fábio Silva Magalhães; criador e líder incontestável dessa máxima manifestação.









O CASCADURA FÁBIO     
 
Por Jesuino Oliveira  


Cascadura é atualmente o nome baiano com maior expressão no cenário rock independente nacional. Quase duas décadas de existência, quatro discos lançados e inúmeros shows espalhados pelo país. No começo chamava-se Dr Cascadura, depois com as mudanças na sua formação, na sua sonoridade e simplificando o nome, uma espécie de alter-ego de Fábio Silva Magalhães; criador e líder incontestável dessa máxima manifestação.

Se antes tinha uma musicalidade “retrô”, rock´n´roll 70 e forte influência do southern-rock americano, hoje Fábio Cascadura, - único original remanescente -, assentou perfeitamente no "som alternativo" com “riffs” definidos de guitarras em sonoridade encorpada, refrões melodiosos e letras inteligentes, por vezes românticas.


A aparência não engana, meio escondido entre os óculos de grau e ar professoral, Fábio dita reflexões em relatos inteligentes e com bastante objetividade. Ele aqui nos declara sobre o que é o Cascadura:



Conte-nos como o foi o seu começo na música...

Nasci em Salvador (BA) em 1970. Comecei a ouvir rock aos doze anos, por meio de uma fita cassete Basf que achei perdida no apartamento em que morava com minha numerosa família. Nela, tinha músicas dos Beatles e aquilo me pegou em cheio... Até hoje não sei a procedência daquela fitinha, só sei que ela mudou minha vida. Formei minha primeira banda ainda na 6ª série com amigos da classe escolar. Não fizemos mais que dois ensaios, mas já era alguma coisa para mim. A partir dali segui sonhando em ter uma banda de rock. Cresci ouvindo basicamente The Beatles, mas por conta da paixão por eles, passei a pesquisar tudo que dizia respeito à sua música. Assim, tomei contato com as suas influências (Elvis, Buddy Holly, Little Richard, Chuck Berry...) e seus contemporâneos (Rolling Stones, The Who, Beach Boys…). Foi uma fonte importante e moldou meu gosto durante toda a adolescência. Quando estudava na Escola Técnica Federal da Bahia e depois de ter formado alguns grupos, conheci dois caras: Rex e Silvano (hoje, o Joe da banda da Pitty). Com eles, formei a lendária Os Feios, uma banda de rockabilly. A partir dessa banda, surgiriam The Dead Billies, Retrofoguetes e, em 1992, o CASCADURA.
 


São mais de quinze anos de trajetória artística. Qual o balanço que você faz da carreira?

Positivo. O Cascadura foi formado em 1992, eu não imaginava durar 17 anos! Hoje somos uma referência para o rock em nosso estado, a Bahia, e sempre somos apontados como uma das bandas mais queridas do Brasil. Isso é uma honra que não consigo nem mensurar... Ter o público que temos, contar com a admiração de tanta gente, Brasil afora, receber o carinho de artistas que curtimos... Tudo isso nos faz feliz demais. Mas o melhor de tudo é saber que estamos construindo uma obra que serve ao rock brasileiro. Sabemos que o som que fazemos hoje ecoará ainda por bastante tempo, mesmo que tenhamos parado de tocar juntos. Sou um cara realizado no rock.

 

Sendo um dos poucos compositores e letristas da sua geração que tem uma pessoal característica, poderia dizer o que lhe inspira a fazer música? Quais as referências e influências que podemos encontrar no seu trabalho?

Sou beatlemaníaco! Em minha música, antes de tudo, vem a música dos Beatles. Mas também gosto de outras fontes como Stevie Wonder, Glenn Hugges, Brian Wilson & Beach Boys, Rolling Stones, toda a galera da Stax e da Motown... Sou leitor de Gabriel Garcia Márquez, Saramago e Vargas Llosa. Esses caras me inspiram muito. Ler um livro com uma narração apaixonada e apaixonante, como eles conseguem fazer, me inspira. Em geral, os temas das canções surgem a partir de experiências da minha vida cotidiana ou da de amigos próximos. Mas nada está muito definido. Tudo pode mudar... No “Bogary”, que foi quase todo composto quando morávamos em São Paulo, a saudade de Salvador foi a grande inspiração. Agora que estamos aqui novamente, a própria cidade me dá muito o que falar.

 
Houve mudanças na banda ao longo do tempo: formações diferentes, alteração no nome e até direcionamento sonoro. Como você avalia essas mudanças? Há algum detalhe interessante nesse tempo?

Muitos detalhes... Formei a banda quando tinha 22 anos, hoje estou com 39! Não poderia ficar na mesma sonoridade esse período todo. Quando chegamos à mídia, usávamos calças bocas-de-sino, tocávamos emulando a sonoridade dos Stones nos anos 70... Isso foi maravilhoso! Deu-nos uma base incrível... Brincamos com isso e nos divertimos muito fazendo esse papel da banda setentista do Brasil. Mas isso passou... Valeu! É engraçado perceber que com o tempo os nossos dois primeiros discos, “Dr. Cascadura #1” e “Entre!”, que expunham essa estética dos 70, acabaram assumindo uma força muito maior do que a de quando foram lançados. Sei que algumas pessoas gostariam que tivéssemos permanecido dentro daquele universo. Mas somos artistas e acompanhamos os ditames dos nossos desejos. Ficam os discos para registrar do que fomos capazes. Isso basta... O tempo mudou, o mundo mudou, nós mudamos! Mudamos porque se fez necessário para nossa saúde musical. Odeio pensar que posso me repetir por comodidade...
 

São quatro discos lançados, shows por todo país, destaque de público e da crítica. Você acha que atingiu o momento musical ideal com a atual sonoridade e formação da banda?

Chegamos a um ponto de conforto diante da nossa história. Mas não estamos satisfeitos. Pretendemos sempre propor coisas diferentes dentro do que fazemos. Acho que por isso estamos aí há 17 anos... Lembra que falei dos Beatles? Essa foi a lição mais preciosa que aprendi com eles: nunca se repetir... Algumas pessoas nos cobram que sejamos um “estouro” nacional, nos moldes das grandes gravadoras de outrora. Ora, eu realmente não sei se isso é possível, para o Cascadura ou qualquer outro artista... O mercado mudou, está mudando... Estamos mais focados nas nossas ações do que com o nível de mídia que elas podem nos dar. Não sou romântico, não! Somente fizemos uma opção clara por privilegiar o conteúdo, antes da forma... Acredito que se fazemos algo com franqueza, cuidado e referência, isso pode durar mais. O Bogary atingiu as pessoas num nível sensacional! Mas nem por isso vamos gravar um novo Bogary. Ele é página virada... Por isso mesmo, preparamos um documentário contando a história dele: para que possamos encerrar essa etapa celebrando tudo que ele nos trouxe de bom e tudo que ele representa para o Cascadura e para o rock de hoje. O rock de amanhã, “God only knows”...


O contexto atual do mercado fonográfico é outro. Algumas pessoas apregoam o fim do CD e anunciam uma nova era com a Internet. Como você vê isso?

Quando o CD surgiu, em fins dos 80, falaram que era o fim do vinil... A Deck acaba de comprar a única fabrica de vinil da América Latina, para investir nesse formato. Não há como prever com exatidão o que vai acontecer. O que sei é que há um canal muito poderoso chamado internet para ser utilizado (espero que com responsabilidade) pelas pessoas. Acredito no download free como uma forma que o artista tem de expandir suas possibilidades. Na internet não existe fronteiras físicas! Você pode levar a sua música a qualquer canto do planeta em minutos. Mas existem outras ferramentas importantes que complementam isso. Acho que a democratização da tecnologia acabou fazendo com que valorizássemos mais o veículo mais importante de um artista: o show! Na verdade, a internet é um membro de apoio importante. O que vale mesmo é o show, onde o artista se mostra cara a cara com a platéia e é mais difícil disfarçar as aparências.


O que você tem escutado de interessante no cenário nacional?

Vivendo do Ócio! Eles estão com um disco massa, um show massa e são caras sensacionais, de verdade. Eles serão a revelação do rock brasileiro nesse ano de 2009. Sem dúvida! O segundo disco dos Retrofoguetes é incrível! Eles se consagram com esse “Cha  Cha Cha”! O Retrofoguetes é a melhor banda de rock instrumental do mundo! Digo isso sem medo (e faz tempo que digo isso). Eles estão pra muito além dos clichês da coisa. Definitivamente eles são revolucionários. O que eles fazem em Salvador em suas festas é inacreditável. Pense que uma banda de rock instrumental consegue lotar seus shows sempre! E com esse novo álbum eles extrapolam os limites que muitos haviam imaginado para o som deles. Recomendo ouvir “Maldito Mambo”. Mas gosto bastante do Relespública (um dos melhores shows de rock que existem), Cachorro Grande (sem comentários), Pitty, Pata de Elefante, Tomada, ouvi umas músicas novas do Fr!la e gostei, Rejects de Natal é bom... Tem muita coisa boa rolando por aí...


Quando sai disco novo do Cascadura? Quais são as novidades?

Pois é! Estamos na fase de preparação para o lançamento do nosso 1° DVD. Ele vai se chamar “Efeito Bogary”, e vem com um documentário sobre o disco e tudo que diz respeito a ele. Lá, as pessoas vão poder ouvir as histórias sobre a obra contada por quem a viveu ao nosso lado. Assim, tem depoimentos de Lobão (que lançou o disco pela Outracoisa, a revista dele), Pitty, Martin, Duda, Joe e Rodrigo, do Deadfish (que acompanharam toda a construção das músicas), Nando Reis (que escreveu o release e foi um dos primeiros entusiastas do disco) e muitos outros amigos que estão ligados ao “Bogary”. Além disso, terá extras com clipes, demos das músicas do “Bogary”, a banda tocando as músicas ao vivo em estúdio, um documento completo. Queremos lançar esse trabalho com DVD e CD! Quem pagar, leva tudo junto! Depois de lançarmos o DVD, vamos começar uma nova fase, começar um novo disco... Mas não temos a mínima idéia do que vem por aí.

 
www.bandacascadura.com
myspace.com/cascadurarock






 
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