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Entrevistas: Ação Direta
Quinta-feira, 1 de Outubro de 2009 (17:06:14)




Viver intensamente tocando. Essa é uma das razões da existência de uma das bandas mais respeitadas e influentes da cena punk/hardcore do Brasil. Vinda de um dos berços do movimento punk, o ABC paulista, a Ação Direta completa 22 anos na estrada e prepara para os fãs dois grandes lançamentos: uma caixa com um resumo da história da banda e um disco de inéditas.





+ entrevista

AÇÃO DIRETA


Por Márcio Sno

 
Viver intensamente tocando. Essa é uma das razões da existência de uma das bandas mais respeitadas e influentes da cena punk/hardcore do Brasil. Vinda de um dos berços do movimento punk, o ABC paulista, a Ação Direta completa 22 anos na estrada e prepara para os fãs dois grandes lançamentos: uma caixa com um resumo da história da banda e um disco de inéditas.


Nesses anos todos, já desbravaram todo o Brasil e também se aventuraram diversas vezes na Europa, onde também cultivam um público fiel.  Na entrevista abaixo, o vocalista Gepeto contou um pouco dessa história, como foi o início, as brigas no movimento punk, a mistura com o metal, as tours pelo mundo e até o momento em que foram proibidos de entrar na Inglaterra. Tudo pela música e por levarem o nome da banda ao pé da letra.
 
 

O que se passava em sua mente em 1987, quando decidiu formar a Ação Direta?

Era uma época complicada, cheia de gangues, de radicalismos, de guerras entre a região do ABC e a capital paulista.  Eu estava olhando ao meu redor e vendo toda aquela movimentação punk acontecendo e eu criando uma identificação muito forte com aquilo tudo, mas ao mesmo tempo a violência entre as gangues era algo com que não concordávamos e de que não queríamos fazer parte. Desde o início, nossa visão e nossas expectativas eram de coletividade, de se fazer parcerias, ampliar contatos etc. Montar a banda foi a forma que encontramos de criar o nosso próprio canal de expressar idéias, absorver o lance do punk que nos interessava e não essa parte das brigas e da violência e guerras tribais. Mal sabíamos que estávamos começando a escrever uma história muito louca e que daríamos a nossa contribuição pela construção de um cenário mais sólido, mais forte, mais coletivo e mais DIY!
 

Depois de mais de 22 anos de banda, você continuam fazendo letras de protesto. E nesse tempo todo, pouca coisa mudou. Isso dá desânimo ou vontade de gritar mais?

Bom, muitas coisas mudaram desde então. Umas para pior, outras para melhor, mas com certeza tudo muda o tempo todo não é mesmo? Nos também mudamos como pessoas, como adultos e mudamos algumas visões, alguns pontos de vista e tal.  Mas com certeza uma coisa não mudou: a necessidade de se expressar e dizer algo, se posicionar diante das coisas que julgamos erradas e que fodem nossas vidas no dia a dia, e sobre temas cotidianos, além do nosso amor e comprometimento com a música pesada. Temos muito gás para gritar o mais alto que possível em prol da liberdade, igualdade, justiça e do respeito e para difundir nossa contra cultura a todas as galeras desse nosso país!
 

Com duas décadas de existência, além de terem conquistado um grande público, vocês também são muito respeitados por outras bandas (mesmo fora do estilo que tocam). O que você acha que ajudou a terem essa credibilidade toda?

Sempre fomos pessoas humildes e aproveitamos as oportunidades e as portas que nos foram abertas. Sempre trabalhamos com esse espírito de união  e troca, parcerias e tal e sempre curtimos outros estilos como o metal. Desde o início tivemos essa preocupação de fazer um som próprio, sem copiar o estilo de nenhuma banda, mas de ser original e acreditar na nossa música.  No início da banda, já dividíamos ensaio com uma banda de metal Hammerhead e sempre curtimos tocar para platéias mistas, festivais etc. As amizades foram conquistadas nesse convívio na estrada, nos shows, pois sempre freqüentamos os shows das bandas que curtimos e tal.  E já dividimos palco com muitas bandas que sempre foram nossas referências e hoje são nossos amigos, independente do estilo que tocam e temos muito orgulho de ter o respeito de grandes figuras e bandas da cena pesada!
 

Compare seu público de quando começaram dos que conheceram a Ação Direta agora? Aliás, qual é o público de vocês?

Bom, desde o início, como havia dito, sempre fomos uma banda que tramitou em várias cenas ao mesmo tempo, nunca se fechando em radicalismos e absorvendo diferentes culturas e incorporando no trabalho.  É claro que temos uma participação mais forte no circuito hardcore/punk  e no circuito metal! O público é misto, mas gira sempre em torno da galera que curte hardcore, punk, skate  e metal. Temos freqüentado grandes festivais aqui pelo Brasil também e tocando com bandas de estilos diferentes, como a Nação Zumbi, por exemplo, e  isso tem sido fantástico.
 

Vocês utilizam como slogan no Myspace “o hardcore e o metal ao extremo”. Por conta disso, tiveram algum problema em misturar os estilos, pelo fato de terem surgido do movimento punk? Já entraram na lista dos “traidores”?

Acho que a Ação Direta nasceu crossover desde 1987, mesmo ninguém sabendo tocar absolutamente nada chegamos ao Resistirei [primeiro disco da banda].  O público sempre espera algo novo dos nossos trabalhos e isso é meio natural. Todos os nossos álbuns são bem diferentes uns dos outros, não repetimos fórmulas. Então, vejo que tem uma galera que curte em todo lugar que vamos, mesmo sendo o acesso da galera a banda ainda underground, temos boas relações com os punks, hardcores, headbangers, skate rockers etc. Porra, 22 anos de estrada, não tem essa de traidores! Temos nossa integridade e estilo próprio! E... Praticamos nossa ação diretaaaa!
 

Apesar de longo tempo de estrada, vocês possuem uma discografia não muito grande. Por que lançaram poucos discos?

Acho que temos mantido uma boa freqüência. Nossos intervalos entre um disco e outro são sempre marcados por muito trabalho na estrada, fazendo shows sempre que possível. Nossa primeira demo-tape, “Temos Que Agir” foi lançada em 1988. Resistirei, o primeiro LP saiu em 1991, pela Hellion Records, em 1996 foi relançado pelo então estreante selo Pecúlio Discos do nosso brother Boka [baterista do Ratos de Porão] e recentemente ganhou edição nova lançada no Japão pela Karasu Killer [do correspondente do Portal Rock Press no Japão, Rafael Yaekashi] e aqui pelo meu selo Bombardeio Distro.
O “Baseado em fatos reais” foi lançado em 1994 somente na versão LP pela Devil Discos. O “Entre a benção e o caos” foi lançado em 1997 pela Pecúlio e saiu também em versão LP na Inglaterra e Alemanha. “Intervenção” veio em 1999. Também lançado pela Pecúlio, saiu em versão LP na Espanha e Alemanha.
O “Risotto Bombso - Live In Slovenia”, gravado ao vivo durante a tour européia de 1999 na cidade de Koper, Slovenia e lançado pela Rasura Records em 2000.
“Revolta/Repúdio/Confronto/Resitência” foi lançado em 2003 pelo meu selo. Lançado em CD na Inglaterra, e em LP na Alemanha.
“Massacre humano”, nosso último CD até o momento, saiu em 2006 pelos selos Red Star e Voice Music. 
Temos programado para final deste ano o lançamento de um CD “Best Off (1987/2009)” que será editado pela Barricada Records do Peru e, paralelo a isso, estamos compondo músicas novas para o próximo álbum.
 

Como você citou no início da entrevista, o ABC foi um dos focos do surgimento do movimento punk no Brasil, inclusive rolava até uma rivalidade com SP. Você viveu o movimento nessa época? O que mudou de lá pra cá?


Muitas coisas mudaram daquela época para os dias de hoje e isso se deu à permanência apenas de pessoas ligadas ao punk, hardcore e metal de uma forma positiva e construtiva. Vivi, sim, essa época bem estranha e, apesar de estarmos de certa forma ligados na cena de SP e toda sua diversidade, tínhamos dificuldades de ter acesso por conta dessas rivalidades e rixas que estávamos herdando de uma maneira forçada e negativa. Creio que essa evolução que os meios independentes aqui do país sofreram, muito se devem a realização de tours das nossas bandas em todo o território europeu que, ao retornarem pós-choque cultural, ajudaram  a implantar essa postura de cenário coletivo e ativo, de gente que arregaça as mangas e parte para a ação, seja realizando festivais, rádios, literatura, festivais, fanzines e toda essa produção independente maravilhosa e rica que temos. Posso afirmar que muitas coisas mudaram desde os anos 80, e neste caso para melhor!
 

Vocês lançaram o primeiro disco, Resistirei, pela Hellion, especializada em metal e death. Como foi estar no meio desse cast tão diferente de vocês na época?


Naquela época, não tínhamos sequer noção dos caminhos para se chegar a um LP, pois as dificuldades e falta de informação eram grandes. Aliado à nossa total falta de experiência. Como tínhamos contatos no meio metal, acabamos chegando à Hellion que nos fez uma proposta de prensar o LP e fechamos com eles. Foi um lançamento suado, batalhado, mas que nos rendeu muitas coisas positivas para a época e chegou longe. Até hoje a galera pede as músicas desta época nos shows e foi legal ter trabalhado com eles. Na época, inclusive, várias cópias do LP foram parar na Europa, pois eles tinham uma parceria lá de distribuição na Alemanha e no restante da Europa.
 

Vocês já tocaram por todo o Brasil, Europa e América Latina. Onde é que se sentem mais à vontade para tocar, tendo em mente o retorno do público?

Gostamos de estar no palco, de fazer um show dando o máximo de nós, seja na Croácia, em SP, em Varginha ou Sorocaba. Sabe, levamos a sério o lance e somos profissionais. Temos conseguido um bom retorno do público nos shows e isso é o mais louco! Gostamos muito de tocar em diferentes estados brasileiros, pois existe uma cena muito forte em todo o Brasil. Tivemos experiências fantásticas em Minas Gerais, Goiânia, Santa Catarina e também nos shows pelo estado de SP. Não há um lugar preferido, mas sim o prazer de levar o nosso trabalho ao maior número de lugares e pessoas possíveis.
 

Em 2004, durante a tour européia, vocês foram barrados na Inglaterra. Como foi isso?

Foi uma experiência muito ruim que tivemos de engolir a seco! Foi até meio traumática eu digo, pois sofremos na pele o preconceito e a indiferença daquelas pessoas que fizeram parte daquelas vinte horas que passamos no aeroporto de Londres. Hoje temos consciência de que fomos mal assessorados e informados sobre os procedimentos e sobre as dificuldades de se cruzar aquela fronteira, mas nada justifica as merdas que rolaram lá naquele dia maluco! Não tínhamos visto de trabalho, e passamos informações confusas, não tinha ninguém para nos ajudar, embaixada, nada, eles estavam no “direito” deles de acharem que nós não poderíamos entrar no país e ponto final. Fomos deportados para a Holanda, que foi o país de onde partiu o voo para Londres. Mas tudo foi superado e finalizamos a tour sem maiores problemas!
 

O batera Marcão se dividiu com a Ação Direta com sua entrada no Dead Fish, e pra “piorar” a situação, agora ele também toca no Musica Diablo, que vai para uma tour na Europa logo mais.  Não dá vontade de esganar um cara desses? (risos) Como estão fazendo para conciliar as agendas?

Não é tarefa fácil, mas temos conseguido fazer funcionar. Até o momento pelo menos!  O Musica Diablo ainda está em fase inicial de trabalho, o Dead Fish e o Ação Direta com agenda ativa e aí a gente vai se comunicando, passando as datas e tentando conciliar. Mas desde o início apoiamos nosso brother Marcão a encarar esses desafios, e a Ação Direta continua trabalhando forte e se superando a cada momento.
 

O Kiko D’ Castro está como stand up. Como foi chegar nesse nome e como estão as trocas?

Bom, o Kiko é um velho amigo nosso e esteve presente em todas as fases da banda. Trata-se de um baterista fantástico e um grande amigo. Então facilitou as coisas. Até o momento fizemos vários ensaios e um show em Cambuí/MG  e a parceria está ótima. Para nós também foi um desafio adaptar as músicas para a pegada do Kiko. E aí, a gente vai trabalhando dividindo  a agenda dele com o Necromancia, que está gravando CD novo e com atividade forte com os lances da Ação Direta. Tudo correndo tranquilo!
 

Vocês estão para lançar um Best Of pela Barricada Recs, do Peru, que prevê um livreto, com imagens raras da banda e tudo mais sendo, talvez, o material mais completo do AD. Fale mais sobre esse trabalho. Quando sai?

Acabamos de selecionar as 25 músicas que farão parte deste CD e todo o material gráfico que será feito em cima de posters de shows da banda. Regravamos as músicas “Ação Direta” e “Pior que um Animal”, da nossa primeira demo-tape, “Temos que Agir”, de 1988, para incluir neste trabalho. O CD será lançado pelo selo  peruano Barricada em parceria com outros selos da América do Sul  que estão sendo selecionados por eles.  A previsão é para o final deste ano. Em breve divulgaremos as novidades e o andamento do projeto!
 

Há a intenção de lançá-lo por algum selo brasileiro?

Estamos vendo como será distribuído por aqui, mas ainda nada de concreto. Até o momento o lançamento é exclusivo deles para a América do Sul  e o mundo!
 

Vocês estão trabalhando num disco que deve sair no ano que vem. O que podemos esperar em termo de som e mensagem?

Bom, tivemos em 2007 a volta do nosso guitarrista Marcus “Pancho” que ficou cinco anos fora da banda. Com a volta dele, a Ação Direta cresceu muito em termos musicais, pois o Pancho é um excelente guitarrista, com estilo muito pessoal e cria muito para a banda. Passamos 2007, 2008 e 2009 fazendo muitos shows, então surgiu a ideia de gravarmos um novo álbum para 2010 e começamos a juntar as idéias. No momento só da para adiantar que todos estão inspirados, muito inspirados, pois as ideias estão vindo naturalmente e muito loucas.  Vamos ver o que esse material vai pedir em termos de arranjos e letras, temática e tal. Tô em fase de pesquisas, de buscar a linguagem  e tal.
 

Nessa altura do campeonato, já conseguem viver só de música?


Não, apesar da longevidade, somos uma banda underground e no underground as coisas são bem complicadas. Hoje conseguimos transformar a Ação Direta num trabalho paralelo. Temos agenda ativa, e merchandising e tocamos em várias cidades e estados do Brasil, mas todos na banda têm um trabalho paralelo.  Isso nos limita muito nas possibilidades de tours e viagens, mas temos administrado isso ao máximo e conseguido atuar.
 

Como resumir 22 anos de Ação Direta?

Maravilhosos! Faria tudo novamente! Pela amizade! Pelas experiências vividas, pessoas conhecidas e lugares visitados! Pela energia e intensidade dos shows! Pela importância de se propagar essa manifestação cultural para as novas e antigas gerações!


www.acaodiretabrasil.com.br
www.myspace.com/acaodiretaoficial
 





 
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