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Entrevistas: 15 Anos de Mechanics
Quinta-feira, 24 de Setembro de 2009 (0:37:42)



Uma das bandas mais conhecidas de Goiânia completa 15 anos no mundo do rock e prepara um disco novo para comemorar. O Mechanics sempre fugiu do convencional, tanto no som, quanto no visual: aliaram histórias em quadrinhos com suas canções. Seu maior desafio é ser relevantes para si mesmos.









+ entrevista

MECHANICS


Por Márcio Sno


Ser relevantes para si mesmos. Esse é o grande desafio de uma das bandas mais conhecidas de Goiânia, que completa 15 anos no mundo do rock e prepara um disco novo para comemorar. O Mechanics sempre fugiu do convencional, tanto no seu som, quanto no visual: aliaram histórias em quadrinhos com suas canções. Nesse tempo todo, nadaram contra a corrente e, por isso, não conquistaram o privilégio dos grandes artistas do mainstream, não quebraram quartos de hotéis nem casaram com divas pop. Porém, sempre fizeram o som de forma honesta, criativa e cheia de energia. Tanto que estão novamente em estúdio com o desafio de lançar um disco todo em português e que, para variar, promete continuar abalando as estruturas.


Idealizador dos festivais mais importantes do país, um dos sócios da gravadora Monstro Discos, e um dos maiores agitadores culturais de sua cidade, o vocalista do Mechanics, Márcio Jr., explica como se chega aos 105 anos com um corpinho de 15.
 
 

Todo adolescente chega aos 15 anos cheio de problemas, dúvidas, indecisões e tudo mais. Como o Mechanics está nesse momento?

Veja bem, o Mechanics é um bando de cachorros velhos, vira-latas pulguentos. Idade de cachorro a gente calcula multiplicando por 7. Então, na real, o Mechanics tem 105 anos. Estamos longe de ser adolescentes. Agora mesmo estamos no meio da gravação do nosso novo álbum, o primeiro inteiramente em português. Temos dois integrantes novos na banda, o Pedro, bateria, e o Ricardo Darin na guitarra. O Lauro Roberto, ilustrador e artista gráfico das antigas está conosco no projeto. Ou seja, continuamos tentando explorar novos caminhos e nos surpreender mesmo depois de 105 anos.
 

O que fez um estudante de Engenharia Civil a montar uma banda? Seguiu a profissão?

Cara, vou te contar... Eu me formei em 95, mesmo ano em que surgiu o Goiânia Noise e alguns meses depois do Mechanics aparecer (final de 94). Comecei a dar aulas de Matemática e Física em Supletivos de Goiânia, porque isso me dava a maleabilidade que eu precisava pra ter uma banda e uma produtora (no caso, a Monstro Discos). Depois de alguns anos dando aula pra segundo grau – eu mesmo fui sócio de um Supletivo –, enchi o saco dessas disciplinas de exatas e fui fazer um Mestrado em Comunicação na UnB. A idéia era adquirir conhecimento científico numa área em que eu efetivamente já trabalhava, a Produção Cultural. Minha dissertação foi sobre a relação entre Quadrinhos e Música Pop (que deve ser publicada como livro assim que eu descolar algum temo pra uma revisão final) e a experiência empírica foi o “Música Para Antropomorfos” [disco/livro do Mechanics de 2006]. 

Na sequência do Mestrado, comecei a dar aula para cursos de Publicidade e Jornalismo, inclusive uma cadeira sobre HQs. Sno, fui até candidato a vereador ano passado! Tive 1004 votos, o que representa uma excelente votação pra uma campanha sem grana. E sigo levando uma infinidade de projetos... Agora mesmo, ao lado de Márcia Deretti, minha mulher, tenho a Escola Goiana de Desenho Animado. Fazemos a TRASH - Mostra Goiana de Filmes Independentes. Vamos lançar um gibi da Monstro. Enfim, apesar de formado, não me considero um Engenheiro Civil. A Engenharia, na verdade, me ofereceu o modo como tento objetivar as coisas pra que elas se transformem em realidade. Em última instância, me vejo como um Produtor Cultural.
 

No release de 15 anos, no primeiro parágrafo aparecem várias referências negativas para classificar a banda. O Mechanics é isso tudo de ruim mesmo?  E para realçar, a Veja (janeiro/07) disse que vocês, junto com o MQN, fazem parte de um grupo de “roqueiros goianos que em geral tem cara de mau e fazem som pesado”. Por que essa anti-propaganda?

Porque a anti-propaganda é a alma do anti-negócio! Na verdade, não vejo referências negativas neste release – escrito por um amigo que acompanha a banda desde seu surgimento, o Denis Romão. Vejo apenas referências. Acredito que o Mechanics é uma banda que se filia a uma tradição de malditos do rock, assim como Stooges, Butthole Surfers, Jesus Lizard e Melvins. Nunca fomos badalados, nunca ficamos morrendo na internet divulgando a banda, nunca fomos capciosos com o fato de eu ser um dos sócios de uma produtora independente que é referência no Brasil, nunca facilitamos as coisas pra nós mesmos... O que pode ser um baita sinal de estupidez crônica! O fato é que a banda existe pra fazer a música que faz, os shows que faz, os projetos aos quais está vinculada. Não estamos nessa por causa do glamour – uma idiotice que só existe pra quem acredita – e da grana – que não existe de jeito nenhum. Não temos cara de mau. Nossa cara é como é. O Mechanics é uma banda que nasceu nas ruas do centro de Goiânia, formada por caras classe média baixa. Todos estes problemas que aparecem nas fábulas do rock, nós já atravessamos. E apesar disso ter um certo charme, não é nada bonito, eu garanto. Infelizmente, não somos os caras que sobem no palco, dão chilique, chegam em casa e ganham um carro dos pais. No máximo, ganhamos uma bronca das nossas esposas...
 

Os discos do Mechanics sempre vêm com alguma ilustração ou desenhos. Além de músico, você também desenha. De que forma uma arte influencia a outra? Quais os artistas que influenciam no trabalho de vocês?

Tudo que o Mechanics fez até hoje se deu na busca pelo diálogo com outras formas de expressão, outras linguagens artísticas. Nunca gostei de reduzir a banda ao estereótipo roqueiro. Somos uma banda de rock, claro, mas isso não é suficiente pra exprimir o que acredito que fazemos. Por isso o constante diálogo com quadrinhos, artes plásticas, cinema marginal, literatura, artistas transgressores e por aí vai. Nossa música não é escapista. Pelo contrário, existe ali uma série de questões estéticas levantadas. Esse é o tipo de pretensão que me move, o tipo de desafio que me instiga. O Mechanics é feito disso. Fabio Zimbres, Jack Kirby, Jodorowsky, Mojica, Kubrick, Bukowski, Philip K. Dick, Lovecraft, Francis Bacon, Warhol, William Blake, Niemeyer, Teatro Pânico,... A lista é infinita. Dá pra encher um livro com ela. 
 

O disco Neither Acoustic Nor Electric foi lançado de maneira especial: cem cópias, ilustrações em serigrafia e lançado por um selo que não é a Monstro. Por que tudo isso? E já venderam todas as cópias?

O Neither... tem uma história interessante. Fomos convidados pra um show acústico e, (i)logicamente, topamos a parada. O show foi legal a ponto do João Novaes querer que aquela música fosse a trilha do filme que ele estava fazendo na época, o “Graffiti em ruínas e outros muros”. Gravamos a trilha do filme e achamos que aquele registro deveria chegar ao nosso público também, não apenas ficar restrito aos expectadores do filme. Apesar de acharmos genial poder disponibilizar a nossa produção via web, queríamos que aquilo se tornasse um produto especial também (afinal, somos um bando de velhos anacrônicos). Imediatamente pensamos num vinil, mas a fábrica com a qual a Monstro sempre trabalhou havia encerrado suas atividades. Daí a opção por uma edição absolutamente artesanal, uma espécie de gravura musical. Quem tiver interesse no “Neither...”, basta entrar em contato comigo: marciomechanics@hotmail.com Restam cerca de 20 exemplares (ainda que cada peça seja única).
 

E como foi participar da trilha sonora do filme Graffiti Em Ruínas E Outros Muros? Já haviam pensando em fazer trilhas antes?

Foi ótimo, pois o projeto trazia a carga de desafio necessária para fazer o Mechanics se mover. Isso, em definitivo, é o que nos interessa. No começo, sempre estávamos nas trilhas do demente Petter Baiestorf [que lança filmes trash pela Canibal Produções]. No momento, estou dando uma consultoria na trilha sonora de um longa daqui, o “Cartas do Kuluene”. Certa vez, fizemos um show num cinema, criando uma trilha contínua para o filme “Bikini Bandits”. O cinema sempre foi uma peça fundamental no quebra-cabeças que é o Mechanics.
 

Para qual filme já  lançado caberia uma trilha sonora do Mechanics?

“A encarnação do Demônio”, do Mojica, “Rollerbal, os gladiadores do futuro” (o original, lógico), “Suspiria”, do Dario Argento, “Black Sabbath”, do Mario Bava, qualquer filme do David Cronenberg, “A estrada perdida” e “Eraserhead”, do David Lynch, “Laranja mecânica”, do Kubrick, “Alien, o 8º passageiro”, do Ridley Scott, “Akira”, do Katsuhiro Otomo. Haja pretensão!
 




Os shows do Mechanics são marcados pela grande energia que apresentam no palco. Como ainda têm fôlego para tudo isso depois de 15 anos? Qual é o combustível que usam?

Não podemos revelar o combustível sem termos problemas com a lei. Mas o fato de fazer cada show como se fosse o último ajuda a explicar as coisas. Há também, para mim, a busca pela submersão total na experiência sônica e performática que é um show. A dissolução do eu na matéria em movimento. Enfim, tento fazer o show que eu gostaria de assistir. E isso é a coisa mais difícil do mundo para mim.
 

Vocês foram o primeiro lançamento da Monstro com o EP “Sex, Rockets and Filthy Songs”, na época em que ela produzia “os compactos mais chiques do Brasil”. Hoje ela é responsável por um cast poderoso além de organizar dois dos festivais mais importantes do país (Bananada e Goiânia Noise). Como é observar de perto esse crescimento e como é fazer parte dessa história?


Obviamente, eu não sou o único protagonista dessa história. A transformação da cena musical de Goiânia de algo embrionário em referência nacional envolveu o trabalho de muita gente. E acho que o Mechanics foi um dos principais catalisadores deste processo, uma vez que tanto eu quanto o Leo Bigode criamos o Goiânia Noise meio que pras nossas bandas tocarem. Mechanics é a única banda que tocou em todas as edições do festival. O mesmo vale pra Monstro: queríamos o melhor selo possível pra nossas bandas. As coisas cresceram e se profissionalizaram muito por aqui, mas o impulso inicial tinha a ver com o desejo juvenil de colocar o Mechanics dentro do circuito independente brasileiro.
 

Já li em alguns veículos que você é favorável a MP3. Como é manter esse posicionamento sendo sócio de uma gravadora? Em que ponto o MP3 pode ser parceiro de vocês (gravadora e banda)?

Ao contrário da mentalidade da indústria fonográfica major, o negócio da Monstro não é vender discos. O negócio da Monstro é música! Claro que estamos sentindo o baque na queda de venda dos discos. Por outro lado, há todo um novo horizonte de atuação que estamos tentando descobrir como funciona. O compartilhamento de arquivos pela web nos coloca num ponto de inflexão do mercado musical no qual o modelo das grandes gravadoras está, inexoravelmente, indo pro ralo. Este é um grande motivo pra gente comemorar, pois pode reposicionar o compromisso da música com a criatividade, ao invés das velhas cartilhas das majors. O futuro está prenhe de possibilidades. Nosso desafio é construir um mercado alternativo no qual a música esteja em primeiro plano. Temos muito trabalho pela frente.
 

Vocês estão lançando um disco novo. O que ele tem que os outros não têm?

Como cada novo trabalho do Mechanics, este disco é totalmente distinto dos anteriores, ainda que a essência da banda esteja ali, intacta. Pela primeira vez, decidimos compor um álbum inteiramente em português. E fazer isso de forma decente é um desafio hercúleo pra nós. O disco será uma espécie de tarô musical. Estamos lidando com temas arquetípicos dentro do universo do Mechanics, tais como sangue, ódio, paixão, tecnologia e drogas. É um álbum conceitual, cuja tradução imagética é de autoria do nosso velho chapa, o genial Lauro Roberto. Temos novos membros na banda e estrategicamente nos retiramos de cena este ano para voltarmos aos palcos apenas quando este material puder ser apresentado. Estamos ansiosos por isso e trabalhando feito loucos pra que o disco seja lançado no 15º Goiânia Noise Festival.

 
Numa entrevista de 2003, para o site Planeta Stoner, você disse que “não tinha mais a ideia de compor em português”. No entanto, vocês estão preparando um disco inteiro em nossa língua. Por que essa mudança de discurso?

Não há mudança de discurso no Mechanics. Há, sim, uma mudança de desafio. O discurso do Mechanics sempre foi o mesmo: não nos deixar apreender pelas fórmulas (mesmo aquelas que nós mesmos criamos ou estabelecemos), buscar o novo, aquilo que nos surpreenda. Na época desta entrevista estávamos começando a trabalhar no “Música para Antropomorfos”, um projeto que, modéstia às favas, acho dos mais complexos e desafiadores do novo rock brasileiro. E do velho também. O “Música” implicava uma série de posicionamentos estéticos que nos afastava da composição em português, principalmente num momento em que várias bandas estavam migrando pra língua pátria como estratégia de mercado. Sempre fomos cobrados para compormos em português por causa de “Formigas comem porra” [música lançada na demo-tape de 1996 e no EP de 2002]. Você, que é tão velho quanto a gente, sabe que essa música teve uma repercussão considerável no underground nacional. Logo, não havia interesse de nossa parte em fazer mais do mesmo. O momento agora é completamente distinto. Não se trata de facilitar as coisas, estratégia de mercado ou repetir algo que já fizemos e bem. A opção pelo português se dá pelo desafio estético de compor algo sério e de qualidade neste idioma. O que não é nada simples. Na minha opinião, pouquíssimas bandas conseguem compor decentemente em português. Espero que o Mechanics seja uma delas. E tampouco estamos dizendo que o português será a “língua oficial” do Mechanics daqui por diante. Cada trabalho é único e todas as possibilidades estão sempre colocadas. Conosco sempre foi assim.
 

Nessa mesma entrevista, você disse que o público no Brasil é bem semelhante, independente do local e o que diferencia são os shows bem e mal produzidos. Quais os requisitos básicos para o Mechanics fazer um bom set?

Um som minimamente decente e um monte de combustível proibido.
 

Qual é a estratégia para manter a banda “relevante para vocês mesmos”?

A estratégia é mantermo-nos em condições desconfortáveis. Quando começarmos a sentir tudo muito cômodo e fácil, já era. Quando nos tornarmos repetitivos e previsíveis, terá chegado a hora do Mechanics pendurar as chuteiras. 

 
http://www.myspace.com/mechanicsrock
 





 
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