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Shows: Skatalites, Rio de Janeiro
Quinta-feira, 11 de Junho de 2009 (19:13:06)



Esperar que os Skatalites se apresentassem com o vigor de álbuns como Stretching Out seria covardia. Afinal, metade da banda já ultrapassou a casa dos 60 anos de idade. Por outro lado, a falta de fôlego foi compensada com doses generosas de classe, muita classe, no histórico show que passou pelo Rio de Janeiro. Por Zé McGill







SKATALITES
Circo Voador, Rio de Janeiro
5/6/2009



Zé McGill, texto
Tiago Chediak, fotos



Nesta resenha, vou usar a palavra CLASSE repetidamente. Porque um show dos Skatalites é isso: classe. E não há sinônimo que substitua à altura.


Esperar que os Skatalites – banda fundada em 1962 – se apresentassem com o vigor que se percebe em álbuns como Stretching Out (um clássico do ska, de 1986) seria covardia. Afinal, metade da banda já ultrapassou a casa dos 60 anos de idade. Por outro lado, a falta de fôlego (flagrante em alguns momentos) foi compensada com doses generosas de classe, muita classe, no histórico show que passou pelo Rio de Janeiro, na última sexta-feira, no Circo Voador.


Mas não confunda falta de fôlego com falta de energia. Até porque os coroas do grupo (Lloyd Knibbs – bateria, Lester Sterling – sax alto, Cedric Brooks – sax tenor, e a cantora Doreen Schaffer) andam muito bem acompanhados por uma moçada que esbanja jovialidade no palco. E por falar em boa companhia, os jamaicanos acertaram também na escolha do Canastra, banda carioca que fez mais do que um simples show de abertura.


O bailão caribenho dos Skatalites foi inaugurado com “Freedom Sounds” e “Occupation”, dois clássicos do repertório deles, que serviram como aviso de que o negócio seria sério. Logo de cara, percebe-se que o coração da banda é mesmo o paredão indigesto de metais (dois saxofones + trompete + trombone). Sterling e Brooks, sempre no centro do palco, entram juntos num estado de torpor que dá gosto de ver. Os velhinhos ficam imóveis, tocando de olhos fechados, enquanto o resto da banda e o público ululam radiantes ao redor. Coisa fina. Classe.


E se os metais são o coração dos Skatalites, bateria e guitarra são o pulmão. Knibbs (o Charlie Watts do ska!) não ataca mais com a vitalidade do passado, as viradas de bateria são mesmo raras, mas é ele quem dá as cartas do ritmo. Ele e o guitarrista Devon James, que tem um ar quase blasé, quase preguiçoso, mas uma mão direita nervosinha que só ela. Mão direita que ficou em evidência em “Simmer Down”, por exemplo.


Outros clássicos skatalaitianos como “Guns of Navarrone” e “Eastern Standard Time” não poderiam faltar. E não faltaram, mas foi em “Latin Goes Ska” que o Circo Voador quase levantou voo de verdade. Uma galera que dançava em frente ao palco na maior animação não se conteve: começaram a subir no palco, um de cada vez, em total harmonia, pra dançar com a banda. E Lester Sterling, um dos membros originais do grupo (ao lado de Knibbs e Schaffer), aprovou a bagunça, com muita classe.


Agora, classe mesmo é com a tal da Doreen Schaffer. Ela participou de menos da metade do show, mas quando cantou, foi com elegância extraordinária. O que mais rola pelo mundo é banda de reggae fazendo aquele sonzinho palha (tomemos “palha” por antônimo de classe, ok?), sem vergonha mesmo. E quando a gente testemunha uma cantora como Doreen e uma banda como os Skatalites tocando reggae como fizeram no meio do show, soa um alarme lá na parte de trás da cabeça.


Enquanto assistia ao show, fiquei tentando achar defeitos ou imperfeições para que esta resenha não soasse como rasgação de seda de fã. Mas não achei nada. O único senão ficou por conta das falhas no P.A., que tentaram mas não conseguiram tirar o brilho dos solos de trombone de Vin Gordon, que por vezes remetiam ao canto de uma baleia assassina no fundo do oceano.


E também tem o seguinte: esse papo de imparcialidade jornalística vira conversa pra boi dormir quando se escreve sobre o show de uma banda como os Skatalites, criadores de um ritmo que deu origem ao reggae de Bob Marley, e que nunca haviam se apresentado no Rio de Janeiro. Às vezes, é preciso repetir para que as pessoas entendam: FOI HISTÓRICO!




 
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