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matérias: 1. show de punk rock, Dudu Munhoz / Pinheads
Terça-feira, 5 de Maio de 2009 (4:55:19)



O primeiro show da minha vida foi no dia 12 de agosto de 1988. Tinha 14 anos e juntamente com o Rodrigo Minduim (o insano guitarrista do No Milk Today, que na época era uma criança que em duas semanas "viraria" adolescente e completaria 13 anos!!) fui assistir a banda paulistana - o Cólera, no Teatro Paiol em Curitiba.
Por Dudu Munhoz/ Pinheads







Meu primeiro show de punk rock... há exatamente 20 anos!!!
 
DUDU MUNHOZ / PINHEADS



Por Dudu Munhoz



E a história começa mais ou menos assim: quando eu era criança meus avós moravam na região do Largo da Ordem, no centro de Curitiba. Os pais do meu pai, ali na Rua Duque de Caxias e os pais da minha mãe, na Trajano Reis. O final de semana na casa dos avós paternos era sinônimo de bagunça, barulho, sinuca e uns 15 primos em volta da mesa farta. Cansado e de barriga cheia era hora de percorrer duas quadras e visitar os avós maternos.


Lá, minhas companhias eram o sofá acolhedor e a televisão. Dedicava atenção especial à série sobre índios Xingu (na Rede Manchete), ao Chaves e aos Gigantes do Ringue (telecatch com Michel Serdan, Diabo Loiro, Fantomas e Belo, "o carrasco português"). Quando a última de várias partidas de tranca entre a Vó Nelly e meu pai terminava, era hora de voltar para casa estatelado, dormindo babando no banco de trás do carro.

  
Certa vez num sábado qualquer do ano de 1986, não dormi no retorno para casa e assim, quando meu pai cruzou a Rua Augusto Stelfeld com a Alameda Cabral pude ver bem de pertinho um bando de punks na esquina de um bar chamado Lino's. Desde então me posicionava ao lado direito do carro e pedia para o meu pai passar por ali nas noites de sábado. Coincidentemente ou não, meu pai sempre ia numa velocidade que nos fazia parar no sinal recém-amarelado daquela esquina intrigante.


No minuto que tinha, observava com atenção e medo o visual e postura daqueles punks. O meu interesse devia ser visível pois certa vez um punk de moicano colorido e coturno nos pés me encarou e me mostrou seu dedo médio. Meus pais e minha irmã não viram o sinal agressivo de "fuck off" que fez meu coração bater e minha curiosidade aumentar. Só viram tempos depois que eu com 13 anos comecei a me interessar por skate e música.


Os interesses televisivos de sábado à noite agora eram outros. Me deliciava com os programas Perdidos na Noite e Comando da Madrugada. O primeiro apresentado por Fausto Silva trazia o humor anárquico de Nélson Alexandre, o Tatá e Carlos Roberto, o Escova. Mas o ponto forte eram as apresentações musicais. E foi assim que tive o prazer de conhecer o visual marcante da Plebe Rude, a agressividade inofensiva do Detrito Federal e o enorme cofrinho de um gordo que cantava na banda Ratos de Porão. O segundo programa, comandado por Goulart de Andrade, me apresentou à noite trash paulistana e o skate através dos dreadlocks do skatista Thronn.
 
  
Skate foi amor à primeira vista. Um menino do bairro, colega do colégio Medianeira, tinha um skate gringo com o shape de fibra de vidro amarelo transparente. Semanas depois eu assinava as revistas Trip e Overall e já tinha adquirido um skate na loja Tom Brasil. A Estação Primeira FM veiculava uma propaganda que trazia o endereço: "Rua Nilo Cairo 300!".


A música (e o punk rock) também virou paixão imediata. Comecei garimpando em casa um LP azul da Celly Campelo (o qual me fez querer começar a tocar bateria) e surrupiei "de leve" dois discos da minha irmã: Inocentes - Pânico em SP e a coletânea Rock Grande do Sul (destaque para os Replicantes). Procurava informação em revistas como Animal ou a Bizz e nos fanzines da cidade, como o Ordem & Protesto!. Pelos correios adquiria fitas cassete, camisetas e LPs nas distribuidoras New Face Records, Ataque Frontal ou na Vortex (de Porto Alegre).


Na adolescência tudo acontece meio rápido e em poucos meses minha pequena discoteca já era composta de coisas boas e ruins.  Ramones "Rocket to Russia", Dead Kennedys "Plastic Surgery Disaster" e Garotos Podres "Mais podres do que nunca" foram os meus primeiros discos. Na sequência vieram álbuns do Cólera, Olho Seco, Mercenárias, Ira, Coletâneas Grito Suburbano, Ataque Sonoro e SUB, Ratos de Porão, Plebe Rude, Replicantes, Vibrators, The Clash, Sex Pistols, P.I.L., Toy Dolls e outros.


Analisando agora dá pra ver que foi um bom começo e perceber que os discos deviam ser mais baratos naquela época. Fora isso sempre corria atrás de alguém que gravava alguma fita cassete. As mais marcantes foram gravadas pelo primo Renato e assim a gente ia conhecendo Buzzcocks, Sham 69, Agent Orange e Suicidal Tendencies. Um garoto que fazia natação comigo também se interessava por skate e punk rock. Assim logo tratei de jogar duas fitas na mão do Rodrigo Meister de Almeida (o supracitado Minduim, do No Milk Today) para que gravasse escondido dois discos raros do irmão dele: "Phantasmagoria", do The Damned e "Subterranean Jungle", dos Ramones.
 
  
Já corria o ano de 1988. Toy Dolls, Iggy Pop e P.I.L. tinham tocado em São Paulo naquele ano ou no ano anterior e eu ficava apenas na vontade. O primo Renato tinha ido no show do P.I.L. e em outro, do Toy Dolls (com abertura do Cólera). Ele disse que os shows foram fantásticos. Disse também que no show do Toy Dolls estava cheio de skatista (parece que o Mureta apanhou feio nessa noite) e disse também que um careca do subúrbio subiu no palco e deu um soco no vocalista/guitarrista Olga. E eu ficava apenas imaginando como seria um show de punk rock.


Até que, não sei como, eu e o Rodrigo soubemos que teria um show do Cólera no Teatro Paiol, aqui em Curitiba. Não poderíamos perder esse show por nada! Cólera era "a maior banda punk brasileira" na época. O Teatro do Paiol foi construído em 1906 para ser depósito de pólvora do exército e foi adaptado em 1971 - mantendo sua característica romana - para se transformar em um teatro de arena.
 
  



Na hora do almoço do grande dia 12/8/1988 o trio paulistano deu entrevista ao vivo para um programa de tv. Falaram da tour européia e mostraram o clipe da música “Pela Paz”. Era uma sexta-feira e o show estava marcado para as 21 horas. O pai do Rodrigo ficou de nos levar. Saímos da natação perto das 18 horas, com medo de que a fila dos ingressos estivesse muito grande.


Precavidos, ou melhor, inexperientes, fomos os primeiros a chegar. O sol ainda se pondo e o Paiol estava fechado. Um certo temor tomou conta de nós: será que o show foi cancelado? A chegada de um terceiro elemento logo nos tranquilizou e começamos a entrar no clima. Rodrigo lembra bem porque: "Me marcou muito nossa chegada pois havia um punk que utilizava a jaqueta escrito 'Ovelhas Negras do Brasil'.  E após algumas horas de espera e ansiedade: "Entramos em fila e o pessoal se distribuia pelas escadas em caracol, lembro dos detalhes claramente, ficamos na diagonal direita superior do vocalista".


Rodrigo também lembra do show da banda curitibana de abertura, os Missionários: "lembro que o vocalista se cortou inteiro com gilete durante a apresentação". O "agitador cultural" Edson de Vulcanis também relembra: "O show do Cólera foi inesquecível. Quem os trouxe foi a Moema Zuccherelli. Lembro que saí de lá com a gola da camiseta que foi estraçalhada no pogo. A performance dos Missionários (com Eduardo, ex-Indigentes, no vocal e Reinaldo na guitarra) que entraram sem camisa e com o peito cortado com lâminas de barbear foi chocante".
 

Ronaldo Gnypek, na época com 18 anos, editava o zine Ordem & Protesto! e comenta o show do Cólera: "Era muito estranha a idéia de assistir um show de punk rock, sentado (!?) em um teatro. O Paiol estava lotado, afinal era o Cólera, e shows assim na época não eram freqüentes. No início o público conseguiu se conter, mas não por muito tempo, e aí sim o pogo rolou solto em um espaço minúsculo em frente aos músicos.




Rodrigo Meister (citado no texto, tocou no Pinheads e atualmente No Milk Today), Paulo Kotze (Pinheads), Laércio Rocha (Beach Lizards), Dudu Munhoz (Pinheads).



Dentre alguns fatos, lembro que um amigo (Luis) sentado ao meu lado, entre uma música e outra começou a gritar 1.9.9.2!, 1.9.9.2!. Primeiro sozinho e depois o coro foi aumentando até que a banda tocou esta música. Um responsável pelo teatro tentava conter o público que pogava em cima das cadeiras, mas sem obter nenhum sucesso, afinal, como já foi dito antes, a vida é cheia de som e fúria!".
 
  
Eu me lembro disso tudo e também recordo que no final da apresentação o Cólera tocava a música "É Natal" e atrás da bateria avistei meu pai!!! Bizarro! O combinado era que no final do show eu telefonaria e ele viria nos pegar.  Mas lá estava a cabecinha do seu Zeca rindo atrás do baterista Pierre. Eu estava com medo de me aproximar do pogo e meu pai estava quase "dentro" dele.
 
   
Algumas semanas passaram e eu ouvia Cólera cheio de imagens na cabeça. O álbum "Pela Paz em Todo Mundo" e as coletâneas Sub e Grito Suburbano frequentaram meu toca discos absurdamente. Eu tinha uma camiseta do Cólera, discos do Cólera, eu já tinha ido num show do Cólera. Aquele show no Paiol foi meu "baile de debutantes". Passar com o carro do meu pai na frente do bar do Lino no sábado a noite além de "informação" também começou a ficar divertido. Eu não enxergava os punks como ameaçadores ou repugnantes. Não queria usar aquele visual, mas queria e gostava muito da música suja e agressiva daquelas bandas punks.
 
  
Nos meses seguintes grupos como Kães Vadius, Maria Angélica Não Mora Mais Aqui (tocaram umas 5 dos Buzzcocks) e Vzyadoq Moe também tocaram no Paiol, mas o meu segundo show foi no Círculo Militar num sábado dia 26 de novembro de 1988. Era um evento produzido pela rádio Estação Primeira com Replicantes, Defalla, Mulheres Negras, Blindagem e Ira (a banda chegou atrasada e Edgard Scandurra "descansava" um baseado em sua orelha). Também foi legal, mas incomparável ao primeiro, aquele, sim, um show inesquecível.
 

"João", música do Cólera presente na coletânea Grito Suburbano, é a minha música desta semana."





 
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